O dia em que a lua foi de encontro ao rio

Isabel Aparecida Mafessolli, Jordana Machado da Rosa

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 30, 2018. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Universidade Federal de Santa Catarina

Releitura de O DIA QUE JÚPITER ENCONTROU SATURNO (Nova história colorida), conto da obra Morangos Mofados, de Caio Fernando de Abreu. Releitura produzida para a disciplina de Literatura Brasileira III, ministrada pelo professor doutor Cláudio Celso Alano da Cruz.

 


 

O DIA EM QUE A LUA FOI DE ENCONTRO AO RIO (Uma história da colonização)

Para meus ancestrais, em homenagem a sua linda história.

“Num profundo e instantâneo entendimento entre desconhecidos”.
Heloísa Buarque de Holanda

A história que aqui será contada se passou há muito tempo. Lembro, como se fosse hoje, de quando eu e minha família nos reuníamos em volta da lareira e meu pai contava essa história, nos dias mais frios da serra catarinense. Meu pai dizia que precisávamos preservar a história da nossa família e valorizar nossa herança cultural, por isso a contava sempre. Precisávamos manter viva a história dos patriarcas da nossa família… Então, narro aqui, da mesma forma que meu pai sempre nos contou, pelos olhos de duas pessoas que viveram a história de um grande amor e deram origem a essa família no Brasil com muito esplendor.

Era a última noite dele em Lisboa. As pessoas responsáveis pela ida dos colonizadores ao Brasil resolveram que seria de suma importância realizar um grande baile. Um baile de despedida. Foi então que ele a viu. No que seria seu último baile real, surge ela em seu primeiro. Enquanto os vestidos rodavam, serviu-se de uma taça de champanhe e começou a observar tudo ao seu redor, desejando guardar na memória cada momento dessa noite que seria a sua última em Portugal. Era certo: acontecia no palácio uma grande festa, o que ninguém imaginava era que a vida dos dois mudaria a partir daquele dia. As roupas dos rapazes à moda inglesa chamava atenção, a das moças não era diferente. Saias que rodavam por todos os cantos, enquanto elas embalavam-se ao som de clássicos e bailavam suas valsas favoritas.

A noite no Palácio da Videira era de tirar o fôlego. Ás margens do Rio Tejo, a lua brilhava como nunca visto antes. Refletia imagens que só quem presenciava todo aquele brilho conseguia entender. A noite estava lindíssima e ele só pensava que dali a poucos dias teria outros rios pra olhar, mudanças pra acontecer, vidas pra mudar. Observou-a enquanto levemente tocava seus lábios na taça, seu olhar intenso trazia algo até então nunca visto. Sentiu um olhar sobre si e resolveu olhar também, o que a esperava foi lhe tomado de súbito. Usava uma bela vestimenta de cortes retos e bem alinhados, que combinavam com seu vestido azul turquesa costurado pela mãe para seu primeiro baile. O olhar foi energético, arrebatador, conquistador.

Era sábado. E dessa vez ela não ficou em casa sonhando com o dia que iria ao baile. Não ficou olhando as irmãs se arrumando e pensando “Quando chegará minha vez”?”. Sorriu olhando em volta, mas algo estava estranho. Ela estava ali, e não era que estivesse triste, só não sentia nada.

Levemente, então, resolveu girar o busto para observá-lo melhor. Esperava que notasse sua intenção. Lançou-lhe um olhar intenso, para que percebesse mais sua presença, esperava que percebesse. Perto das longas janelas que davam de vista ao rio, debruçou-se e começou a observar a lua que parecia tocar o rio, tão próximos que ela imaginou se sentiria o mesmo um dia. O cavalheiro foi se aproximando e debruçou-se ao lado dela. Quem os observava de longe via apenas dois jovens trocando algumas palavras, possivelmente decidindo se dançariam ou não juntos. Mas eles sabiam que não era só isso. A vida deles estava para mudar e eles podiam sentir isso. A lua refletindo suas silhuetas era a companhia perfeita naquele momento. Dois encontros. Duas versões de amor.

– Então você gosta de olhar o rio?
– Sim, esse Palácio só me trás boas lembranças. Você também gosta.
– E quem não gosta? O que trouxe você aqui?
– Meu primeiro baile. E você?
– Um baile.
– Engraçado como os dois se encontram, né?
– É de embargar os olhos.
– Eles se encontram como nos encontramos.
– Também acho.

(Silêncio)

– Você gosta da lua?
– E quem não gosta? Ela se faz presente iluminando tantas histórias, tantos amores. Você não quer um champanhe?
– Parei de beber. Pelo menos estou tentando.
– Eu também deveria. Fiquei imaginando o quê te trouxe até esse baile.
– Não é o momento pra saber das coisas, mas posso lhe ensinar algo diferente.
– Ensinar? Ótimo, estou em constante mudança.
– Eu não sei o que é mudar, há tempos não sinto mais nada, nada que me faça ser diferente, por isso estou buscando novos ares.
– Me sinto diferente. Sinto que te conheço de outros lugares.
– Outros lugares? Não somente um lugar?
– Outras vidas, talvez?
– Pode ser.
– Você é de Lisboa?
– Sim. Você também?
– Sim. Já temos algo em comum.
– Pode ser que já tenhamos nos encontrado.
– Ainda sinto que é um encontro diferente.
– Vou para o Brasil amanhã.
– Brasil? Na missão de colonização?
– Sim.
– Você é corajoso, não imagino que teria coragem me aventurando assim. Mas pretendo ir à Paris logo.
– Se pudesse lhe mandaria algo de lá.
– Se pudesse lhe mandaria algo de lá.
– Eu mandaria algo colorido, verde, como os que voltaram contam que é no Brasil.
– Eu lhe mandaria um belo punhado de neve.
– Vou imaginar você comigo, conhecendo as praias e ilhas que aquele lugar esconde.
– Vou imaginar você comigo conhecendo cada canto da França, esquentando-me nos dias frios.
– Vamos nos ver?
– No seu momento, no meu momento.
– Quando o calor for de arrebatar, imaginarei você tomando banho de sol.
– Quando a neve cair, imaginarei você no meu aconchego.
– Vou te imaginar aqui, falando comigo.
– Vou desenhar seu rosto pra colar no meu.
– Daqui a vinte anos nos encontraremos.
– O tempo não existe.
– O tempo existe sim, e devora.
– Não te procuraria em outra mulher. Seu cheiro é único, é de enlouquecer.
– Veria outros rostos, mas nenhum seria o seu.
– Quando olhar para o céu, não saberei dizer se foi loucura ou realidade esse encontro.
– E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.

(Silêncio)

– Encontros assim não são normais.
– Normal seria nos encontrarmos e permanecermos juntos.
– Encontros e perdas são fatos da vida.
– Não preciso me deitar com você pra saber que nosso encontro ultrapassa os limites naturais.
– Não preciso.
– Podemos nos beijar?
– Podemos.

Seria a última vez que se veriam. Não houve despedidas e um sentimento estranho a dominou. Não poderia viver sem ele. E ele sabia que não poderia viver sem ela. Era tão bonito. Era tão atraente e sensual. Desceu as escadas do palácio em direção à rua de sua casa. Enquanto ia pra casa, um sentimento súbito a dominou. Uma vontade de ir ao seu encontro, de conhecer lugares que nunca imaginaria vir a conhecer um dia. Mudar de vida, ser diferente. O primeiro baile parecia ser realmente um momento marcado por mudanças.

Como esqueceria aquele rosto? Não sabia. Sabia que ela era diferente das mulheres que conheceu e se envolveu. Sabia que aquele encontro mudaria sua visão dali pra frente. Ela, que nunca teve nenhum homem em sua vida, não imaginava que seu primeiro contato seria desse jeito. Chegando a casa, ela procurou saber pelo irmão quando sairia a navegação, precisava vê-lo, mesmo que de longe uma última vez.  Ele resolveu suas pendências e descansou, sem dormir, já que seus pensamentos turbilhavam. Decidiu que não pensaria mais naquele encontro, o enlouqueceria.

Chegando a hora de partir, deslocou-se ao porto sabendo o que deixaria pra trás. Quando seus olhos encontraram os dela, entrou em êxtase e paralisou. Ela o olhou intensamente, com aqueles mesmos sentimentos que transmitiu no primeiro olhar. Sem precisar falar, demonstrou o que estava fazendo ali. Encontros assim, se não são coisa do destino não saberei dizer o que realmente são. Um olhar e um toque de mãos. Viram-se juntos em uma jornada desconhecida. Ela estava ali por ele. Não seria mais somente um encontro, seria uma história. Não teriam pouco tempo, não teriam só aquela imagem do rio encontrando a lua, teriam muito. É como se a lua tivesse ido de encontro ao rio. Para sempre. Ela olhou no fundo dos olhos dele e resumindo tudo que sentia disse:

– O tempo existe, sim, e devora. Por isso escolhi viver ao teu lado.

E eles viveram juntos. Viveram felizes e desbravaram novas terras. Formaram sua família no sul do Brasil. A minha família. Hoje, eles são exemplos para nós de que o verdadeiro amor existe. Mostraram que uma escolha pode mudar para sempre a vida de alguém e que é preciso ter coragem para ir atrás do que se deseja.