“Na junção dos caminhos”: poética e engajamento na escrita de Conceição Lima

Marlene Arminda Quaresma José

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 31, 2019. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Marlene Arminda Quaresma José
marleneaqjose@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/6396002252048829
Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira

RESUMO: O presente trabalho propõe contribuir com o campo de estudos sobre as representações das mulheres africanas como intelectuais na contemporaneidade. A pesquisa destaca aspectos do percurso biográfico de Conceição Lima e traços que compõe a elaboração de sua poética sobre as ilhas de São Tomé e Príncipe, buscando evidenciar a enunciação de vozes discursivas presentes na obra “A dolorosa raiz do micondó” (2012). Também buscamos identificar como se constrói um discurso de crítica social nessa obra poética, enfatizando o papel da literatura no despertar do sentimento de pertença do eu poético à nação santomense. Por fim, para a elaboração dessa pesquisa, nos apoiamos nas propostas teórico-críticas de Edward Said (2003), bell hooks (1995), Stuart Hall (2003), entre outros.

PALAVRAS-CHAVE: Conceição Lima; Intelectuais africanas; A dolorosa raiz do micondó; Literaturas africanas de Língua portuguesa; Literatura santomense.

ABSTRACT: The present paper proposes to contribute with the field of studies on the representations of African women as intellectuals in the contemporaneity. The research highlights aspects of the biographical journey of Conceição Lima and traits that compose the elaboration of his poetics on the islands of São Tomé and Príncipe, seeking to evidence the enunciation of discursive voices present in the work “The painful root of the micondó” (2012). We also sought to identify how a discourse of social criticism is constructed in this poetic work, emphasizing the role of literature in awakening the sense of belonging of the poetic self to the nation of St. Francis. Finally, for the elaboration of this research, we rely on the theoretical-critical proposals of Edward Said (2003), bell hooks (1995), Stuart Hall (2003), among others.

KEY-WORDS: Conceição Lima; African intellectuals; The painful root of the micondó; African Literatures of Portuguese Language; São Tomé Literature.

Considerações iniciais

O enigma é outro. Aqui não moram deuses
Homens apenas e o mar, inamovível
herança.
(LIMA, 2012, p.23)

Quando referimos à poética em Conceição Lima, não pensamos apenas na sua escrita poética, mas também ao estilo e as performances dessa mulher negra e intelectual santomense. Haja vista que, a mulher negra historicamente é alvo do racismo, do sexismo e sua intelectualidade é motivo de preocupação pelo patriarcado capitalista com supremacia branca (HOOKS[1], 1995, p.468). A mulher produz ideias que a induz a um pensamento crítico da sua própria condição e ao rompimento de paradigmas pré-estabelecidos. Neste sentido, questionamos se a intelectual negra africana seria livre para dizer o que pensa[2], pois a relação entre a mulher negra, escritora-intelectual e o poder parece ser sempre pautada por divergências.

Em busca da problematização sobre essa questão, o presente trabalho propõe contribuir com o campo de estudos sobre as representações das mulheres africanas como intelectuais na contemporaneidade. Buscaremos nesse estudo, refletir sobre a poética e o engajamento político que se apresentam na escrita literária de Conceição Lima, com destaque para alguns poemas da obra “A dolorosa raiz do micondó” (2012). Esta, segundo nossa leitura, se constitui como uma espécie de canção de berço da sociedade santomense, pois marca o imaginário ficcional das ilhas de São Tomé e Príncipe[3], a partir do seu caráter indagador e empenhado com as questões histórico-sociais.

 “Na junção dos caminhos”

Edward Said se tornou um dos intelectuais mais polêmicos do cenário internacional por apresentar seu ponto de vista, desmascarando o que havia por detrás de discursos bem intencionados, como aqueles criados pelo imperialismo norte-americano (SAID, 2003 apud MAQUÊA, 2005, p. 282). O crítico faz um forte apelo aos intelectuais às reflexões sobre a função social desse grupo, pois tal função não está imune a críticas. As ideias e teorias passam constantemente pela avaliação de outros intelectuais, assim, pela proposta de Said, o fundamental é o não-deslocamento dessa função com o social.

Na sociedade norte-americana pouco era abordado nas pesquisas acadêmicas, sobre a relação de mulheres negras com a função social de intelectual (HOOKS, 1995). De maneira similar, nas sociedades africanas acontece o mesmo fenômeno, pois os posicionamentos das mulheres com relação ao poder parece que só recentemente têm sido alvo de pesquisas e reflexões. Neste sentido, existe um interesse em investigar o percurso e o contributo das mulheres nas sociedades africanas, muitas vezes anônimo e silenciado. Já se observa mobilizações no mercado editorial e um grande fomento na academia; mulheres demonstrando seu engajamento e comprometimento com as questões do cotidiano. Conforme o escritor queniano Ngugi Wa Thiong’o (1997), parafraseado por Inês do Nascimento Rodrigues,

O trabalho intelectual tem de demonstrar comprometimento, não com noções abstratas de justiça e paz, mas com a verdadeira luta dos povos africanos para tomar o poder e assim estar em produção e estender a única base correta para uma paz real e justiça real (RODRIGUES, 2012, p.373).

Embora sejam visíveis tais comprometimentos nas sociedades africanas, existem ainda dificuldades no reconhecimento da mulher, cujo engajamento se estende para além do contexto social, alcançando o campo político, o econômico e cultural dos povos africanos. Como exemplo, lembramos o caso de mulheres moçambicanas, consideradas “perigosas” por romperem convenções morais e restrições à liberdade sexual e ao controle socioeconômico, ainda nas décadas de 1920 a 1950[4].

Nesta perspectiva, qualquer produção de saber realizada pela mulher exige habilidade para indagar o poder, por dentro do continente africano ou na diáspora. Entendemos diáspora na contemporaneidade como o deslocamento dos povos por diferentes territórios, por razões econômicas e/ou políticas, com o fim de alcançar melhores condições de vida, ou mesmo, a sobrevivência.

Contudo, é preciso destacar que na perspectiva da História e de outras áreas do conhecimento, diáspora surgiu como termo que expressa a saída forçada de pessoas de um território para outro, como aconteceu na escravidão atlântica, ao longo de mais de 300 anos. Importa salientar também, que nosso entendimento sobre a noção de diáspora se dá em diálogo com os postulados de Stuart Hall, ao analisar a experiência da diáspora caribenha:

Lá encontramos o análogo, crucial para a nossa história, do “povo escolhido”, violentamente levado a escravidão no “Egito”; de seu “sofrimento” nas mãos da “Babilônia”; da liderança de Moisés, seguida pelo Grande Êxodo — “o movimento do Povo de Jah” que os livrou do cativeiro, e do retorno a Terra Prometida. Esta é a ur[5]-origem daquela grande narrativa de libertação, esperança e redenção do Novo Mundo, repetida continuamente ao longo da escravidão — o Êxodo e o Freedom Ride[6]. Ela tem fornecido sua metáfora dominante a todos os discursos libertadores negros do Novo. (HALL,2003, pp.28-29)

Assim, podemos afirmar que Lima pertence ao movimento diaspórico contemporâneo, ou melhor, a sua escrita literária está relacionada à identidade cultural dos sujeitos diaspóricos, herdeiros dos antigos discursos sobre a diáspora e que embora aponte diferenças próprias, tal movimento ainda ecoa uma consciência histórica e geopolítica das gerações implicadas nesse processo de deslocamento.

Ao analisar a produção poética de Conceição Lima, em “A dolorosa raiz do micondó” (2012), edição especial, concordamos com a leitura crítica da estudiosa Naduska Mário Palmeira, quando afirma que a poesia da autora “busca uma fronteira entre o discurso da alteridade e o olhar para si mesmo, entre a (re)união da tradição, como meio de lidar com o tempo, e o espaço em que vive” (PALMEIRAS, 2011). Podemos afirmar que tal poética possui um grau maior de envolvimento no que concerne ao rompimento da alienação do cotidiano.

Na obra, tanto os griots[7] como o micondó[8] são transmissores e símbolos de memória, logo, responsáveis por transmitir fatos históricos e acontecimentos de um povo. A poética nessa obra de Conceição Lima ainda,

Tem essa dupla função de passagem. Articula, num plano, o local são-tomense com o continental africano. Em outro plano, concorrem os opostos do ficar e do ir-se. Em outro ainda, consorciam-se o pensamento africano, na convocação das mitologias insulares, e a racionalidade europeia, no rigor da crítica sociopolítica. E ainda misturam-se sensibilidade e fereza, nas evocações dos avós e dos heróis nacionais (BORDINI, 2012, p. 1).

Neste sentido, além dos inúmeros planos citados, a obra de Lima nos proporciona uma discussão sobre a problemática do silenciamento involuntário, assim, com a sua visão crítica e inquieta, o eu poético fala pelos outros. Tal engajamento político e profissional de Lima nos induz a reflexão sobre o lócus da mulher como sujeito intelectual na África, particularmente, em São Tomé e Príncipe.

Como exemplo, lembramos o protagonismo da autora e Jornalista, Conceição de Deus Lima, na concessão e realização do documentário intitulado “Direitos das Mulheres”, cujo objetivo é trazer à tona as ações das mulheres santomenses em diferentes áreas: política, defesa e segurança, saúde, comunicação social, agricultura e empreendedorismo[9].

A autora com a sua visão crítica, problematiza eventos históricos e sociais.  Mas não se deve correr o risco, como afirma Rodrigues lendo Spivak(1998), de que, “[…]na tentativa de falar por aqueles que não são ouvidos, muitas vezes, este acaba por, involuntariamente, se apropriar da voz desses indivíduos, contribuindo, mais uma vez para os remeter ao silêncio”. (RODRIGUES, 2012, p.372) Contudo, a escritora-intelectual, em um movimento contrário ao poder opressor, atua por sua escrita literária e por seu trabalho como jornalista, de maneira engajada e resistente.

Sabemos que, o conceito de intelectual, que permeia muitas das pesquisas atuais, advém de teorias eurocêntricas, todavia, não se deve esquecer que o conceito varia de acordo com o contexto e a época em que se vive (OLIVEIRA, 2014, p.75). Enfim, o sujeito intelectual, marcado por sua posição feminina, masculina ou outra, é atravessado pela sociedade e pelo poder político, ou seja, é um sujeito multifacetado.

Ademais com o advento de trabalhos acadêmicos, ensaísticos, artísticos, teóricos produzidos por mulheres oriundas de espaços marginalizados, como é o caso de bell hooks (Estados Unidos), Conceição Evaristo (Brasil), Paulina Chiziane (Moçambique) e a própria Conceição Lima (São Tomé e Príncipe) há uma mudança epistêmica sobre o sentido da palavra e do conceito de intelectual, a partir da experiência e das produções dessas mulheres.

Ao referirmos ao intelectual na perspectiva santomense, não nos referimos apenas àqueles que possuem um diploma universitário, o caso de dirigentes, professores, jornalistas, e escritores, mas também tem lugar em nossa reflexão o contributo dos sábios/as tradicionais, na figura do idoso/a, ou todo o tipo de saber e engajamento que emerge da experiência e que, direta ou indiretamente, fazem a história da nação santomense.

“Sobre os lugares por onde andei”

Conceição Lima(1961), poetisa e cidadã do mundo, transita por diferentes geografias em seu processo de educação formal, como São Tomé e Príncipe, Portugal e Inglaterra e atuou como jornalista nos serviços de Língua Portuguesa na BBC em Londres. Como escritora, possui diversas obras publicadas, das quais destacamos: pela editora Caminho, de Lisboa, “O útero da casa” (2004), “A dolorosa raiz do micondó” (2006), “O país de Akendenguê” (2011), “Quando florirem salambás no têto do pico” (2015), além de crônicas e textos publicados em diversos periódicos.

Desta forma, Lima é a autora santomense mais traduzida na literatura contemporânea, perfazendo a rota de outras intelectuais e, se tornando parte do cânone literário africano de língua portuguesa. Reiteramos, assim, a importância das obras da autora africana no processo de construção e preservação da memória coletiva.

É importante ressaltar, que uma vez tendo concluído parte de seus estudos em Portugal e Inglaterra e transitado amplamente pelo ocidente, a escritora-intelectual é vista como uma mulher africana e negra nesses outros territórios, o que reforça o pensamento defendido por Stuart Hall.

A identidade negra é atravessada por outras identidades, inclusive de gênero e orientação sexual. A política identitária essencialista aponta para algo pelo qual vale lutar, mas não resulta simplesmente em libertação da dominação. Nesse contexto complexo, as políticas culturais e a luta que incorporam se trava em muitas frentes e em todos os níveis da cultura, inclusive a vida cotidiana, a cultura popular e a cultura de massa. (HALL, 2003, p.12)

Neste sentido, entendemos que negra/o, como categoria política de “identidade étnico-racial” (MUNANGA, 2013) não se aplica ao contexto santomense da mesma forma que é tratada no Brasil, por exemplo. Visto que o conceito se funda a partir de uma determinada realidade social e histórica que se alastra até aos dias atuais nesse país.

Embora existam classificações quanto aos grupos étnicos presentes em São Tomé e Príncipe, consequência do projeto de dominação colonial, não podemos abordar tal “identidade étnico-racial” como categoria política dos santomenses. Nesta perspectiva, o deslocamento da autora por essas geografias referidas, implicou mudanças e adaptações que repercutiu na sua carreira profissional e que reverberou e impactou a sua escrita literária.  Assim, as ilhas de São Tomé e Príncipe constituem para a autora um “apelo ao mundo”. (LIMA, 2010).

Não obstante a isso, o olhar da autora para o seu berço natal, como um dos seus movimentos de escrita, constitui uma poética de liberdade, do (re)encontro consigo e com a ancestralidade. Assumindo uma postura engajada, a escritora-intelectual ao mostrar ao mundo a pluralidade existente nas ilhas de São Tomé e Príncipe – como a língua, os costumes, os mitos e rituais –, se apoia no jogo artístico-ficcional e reconstrói o imaginário artístico-social.

Pela escrita literária, Conceição Lima recupera a fala coloquial como forma de expressão e de valorização da identidade santomense, como passamos a ler na “Carta Pá Apolinária”:

[…] Si ôcê kansô di frio, kansôdi limpa chão, di limpa escada, kansô di pensá família, vem pá tua tera. Kuesa non tá bem, kuesa tá wixi-waxa, mas nossa tera é nossa tera. Ninguém podi corê com ôcê daqui, ninguém, nem êssis qui tomô tera fez roça di pai dêlis, nem êlis non podi mêtê ôcê n’avião. […] Tera, minh’amiga, tá aqui. Sentada n cima du mar, com bôka dela fêchada, com olho dela aberto, com mão dela n quêxada, a vê genti, a vê genti só, a purguntá genti com olho dela di mãe tristi o que é qui genti quer fazê com ela”[10]. (LIMA, 2010)

A crônica, acima, é escrita em português santomense, assinada por “São de Deus Lima”, figura autoral, e destinada à amiga Apolinária na Europa. Metaforicamente, Apolinária vive a realidade dos emigrantes na diáspora, sobretudo, os santomenses. Com isso, a autora cria um jogo entre a realidade e a ficção, aumentando a verossimilhança da carta, e dos sujeitos ficcionais nela envolvidos.

A escritora-intelectual, ao conferir destaque à variação santomense da língua portuguesa, fixa-lhe uma entonação que lhe é característica, com o intuito de se fazer compreender e transmitir uma mensagem de solidariedade e ao mesmo tempo de tristeza pelas constantes mudanças observadas em seu país. Como nos alude Jessica do Rosário Bandeira sobre esse texto:

Tendo em vista os aspectos observados, sendo eles linguísticos, políticos e social, é se levado a acreditar que a sociedade são tomense passou e passa por mudanças que muitas vezes são despercebidas por ela mesma. Mudanças essas que a “Carta pá Apolinária” mostra de forma clara, e que a literatura com o seu jeito único ilustra os acontecimentos, bem como a linguagem que intensificou a descrição dos fatos acontecidos na sociedade (BANDEIRA, 2015, p.3-4)

Aliás, é com o sentimento de pertença à terra natal, embora as condições em seu país não sejam as melhores, que a voz enunciadora da crônica aconselha à outra ao regresso: “Si ôcê kansô di frio, kansô di limpa chão, di limpa escada, kansô di pensá família, vem pá tua tera. Kuesa non tá bem, kuesa tá wixi-waxa, mas nossa tera é nossa terá” (LIMA, 2010). Assim, a escrita nos apresenta, de forma clara, uma voz que denuncia a degradação e apela às ações construtoras para o futuro desse país.

Nesta ótica, Conceição Lima relata, em uma carta aberta, publicada no jornal santomense “Telanon”, a sua indignação com relação ao boicote da liberdade de expressão pelo poder estatal em seu país. Atentemos ao trecho da carta abaixo:

Os cidadãos com opiniões independentes ou contrárias, ficaram sem espaço. Os cidadãos que não se predispõem a embarcar na infantilizadora glorificação […], estão, pura e simplesmente, silenciados. Excetuando os debates parlamentares, já tradicionalmente transmitidos em direto, a oposição deixa de ter espaço para esgrimir argumentos e sustentar os seus pontos de vista (LIMA, 2017).

Segundo a Declaração Universal dos Direitos do Homem, a liberdade de opinião e expressão é o direito de todo o indivíduo, e isso implica não ser punido pelas suas opiniões e difundi-la, sem considerar as fronteiras (DUDH, 1948, art.19º, p.10). Assim, a carta, acima, compõe um lamento à situação de violação de direitos de expressão vivenciada pela cidadã Conceição Lima nas ilhas de São Tomé e Príncipe em 2017[11].Tendo em conta que, a democracia preza pela soberania do povo, ao impedir que cidadãos contribuam para exercício da cidadania, afirmando-se como sujeitos com opiniões próprias, nos remete à memória da dominação colonial.

Neste sentido, assim como os ditos “forros” que deram origem a população santomense no princípio da colonização de portuguesa, em São Tomé e Príncipe rejeitaram serem serviçais e exigiram a posse da terra, desvendando a natureza perversa do colonialismo (Cf. MARQUES, 1974; SANTO, 1979), o argumento na carta reivindica por mudanças e clama por uma consciência libertadora.  Tal consciência é o epicentro do engajamento da artista-intelectual. Daí ser imprescindível, nas sociedades africanas, a participação das mulheres no processo de construção cívica e no exercício de cargos públicos.

Tal ação empenhada da autora, lembra-nos da afirmação de Edward Said sobre o papel do sujeito intelectual no século XX (e para nós também no século XXI):

O intelectual atua assim com base em princípios universais: todos os seres humanos têm direitos a contar com padrões de comportamentos decentes em matéria de liberdade e justiça da parte dos poderes ou das nações do mundo e as violações deliberadas ou inadvertidas e combatidas corajosamente. (SAID, 2003, p.28)

Desse modo, a escrita de Lima coloca-se na posição de porta voz do povo das suas ilhas, deixa explícito o seu questionamento as formas “hegemônicas de circulação de ideologias”[12] e o seu pertencimento a um grupo excluído. Assim, ser mulher intelectual e africana parece significar não se deixar cooptar por ideias e ações que não beneficiam a coletividade.

 “Há-de nascer de novo o micondó”

A epígrafe do trabalho traz à cena as ilhas, o mar e os homens, tornando-os miméticos à vida. Neste sentido, o micondó simboliza, a sabedoria, a ancestralidade: “A dolorosa raiz do micondó” – nos alude ao doloroso livro de resistência, concentrando-se no micondó, árvore mítica em São Tomé e Príncipe, conhecido em outras paragens como imbondeiro, baobá, etc., metaforicamente, representa a resistência africana (MATA, 2006). Assim, o eu poético parte do geral-África-, referenciando o poeta Shona zimbabweano Chiricuri Chiricuri[13], para o particular – São Tomé e Príncipe – em um movimento de prazer e de dor como ilustraremos nas análises seguintes:

Com caras sonolentas de incredulidade
Formulam mais perguntas assombrosas
Sobre os lugares por onde viajei…
Respondo prontamente:
Estive na terra dos ecos silenciosos
Nas areias da antiga Tombuctu (CHIRICURI, s/d apud LIMA, 2012)

A chave de leitura do poema acima citado, se explica pela vivificação da memória, resultado da busca por informações do eu poético – “Nas areias da antiga Tombuctu[14]” – lugar no qual os conceitos antagônicos (realidade e ficção) se entrelaçam em uma rotação contínua, conforme quem o observe. Assim, o eu poético como nos fará saber o primeiro poema do livro, “canto obscuro às raízes”, inicia um movimento de investigação à sua origem histórica.

Em Libreville
não descobri a aldeia do meu primeiro avô.
Não que me tenha faltado, de Alex,
a visceral decisão.
Alex obstinado primo
Alex, cidadão da Virgínia
que ao olvido dos arquivos
e à memória dos griots Mandinga
resgatou o caminho para Juffure
a aldeia de Kunta Kinte –
seu último avô africano
primeiro na América. (LIMA, 2006, p.11)

O eu poético revisita a história da colonização e os movimentos da diáspora negro-africana, em diálogo com o romance The roots: The saga of an American family[15] do autor afro-norte-americano Alex Haley, a fim de se dedicar ao projeto de busca pela ancestralidade. Tal busca, como lemos, é possível para o “primo obstinado”, devido ao resgate de arquivos e à memória dos griots. Porém, a busca do eu poético pelas raízes encontra obstáculos, em relação às possibilidades de identificação dos seus antepassados:

O meu concreto avô
que não se chamava Kunta Kinte
mas talvez Abessole
O meu oral avô
não legou aos filhos
dos filhos dos seus filhos
o nativo nome do seu grande rio perdido.
[…]
São assim os rios das minhas ilhas
e por isso sou eu a que agora fala.
Brotam como atalhos os rios
da minha fala
e meu trazido primeiro avô
(decerto não foi KuntaKinte,
porventura seria Abessole)
não pode ter inventado no Água Grande
o largo leito do seu Ogoué[…]. (LIMA, 2012, p.12-13)

A impossibilidade de nomeação e mesmo identificação precisa do ancestral advém do fato, de supostamente, não existirem vestígios sobre a sua origem. Essa dificuldade de nomeação/identificação se dá pelo fato de os colonizadores/agentes no processo de escravização, por vezes, não registrarem detalhes da origem do sujeito traficado, como parte da coisificação desses sujeitos, transformando-os em objetos, sem-nomes e sem-almas. Assim, o eu poético se volta para as ilhas de São Tomé e Príncipe na tentativa de consolidar a busca:

Por isso percorri os becos
As artérias do teu corpo
Onde não fenecem arquivos
Sim palpita um rijo coração, o rosto vivo
Uma penosa oração, a insana gesta
Que refunda a mão do meu pai
Transgride a lição de minha mãe
e narra as cheias e gravanas, os olhos e os medos
as chagas e desterros, a vez e a demora
o riso e os dedos de todos os meus irmãos e irmãs (LIMA, 2012, p.15).

Observamos, portanto, a não concretude do projeto de busca identitária, pois o eu poético em Conceição Lima, “se localiza despoticamente negociando sentidos e reunindo pluralidades, nem todas plenas e logicamente inteligíveis, de imediato, à consciência” (PALMEIRAS, 2011, s/p). Desse modo, a lírica é revestida de sutilidades que nos remetem à identidade heterogênea santomense, em que na ausência de arquivos, a identificação se dá a partir do olhar ao semblante do outro, buscando caraterísticas que se aproximam dos povos outrora trazidos para as ilhas. E o eu poético evoca essa diáspora deambulante no poema Zálima Gabon:

Falo destes mortos como da casa, pôr do sol, o curso d’água.
São tangíveis com suas pupilas de cadáveres sem cova
a patética sombra, seus ossos sem rumo e sem abrigo
e uma longa, centenária, resignada fúria.
Por isso não os confundo com outros mortos.
Porque eles vêm e vão mas não partem
Eles vêm e vão mas não morrem.
Permanecem e passeiam com passos tristes que assombram o barro dos quintais
e arrastam a indignidade de sua vida e sua morte pelo ermo dos caminhos com um peso de grilhões.
[…]
Urgente é o apelo que arde por onde passam
Seus corações deambulam à sombra nas plantações.
Por isso não os confundo com outros mortos
Apaparicados com missas, nozados, padres-nossos.
Por remorso, temor, agreste memória
Por ambígua caridade, expiação de culpa
aos mortos-vivos ofertados a mesa do candjumbi
feijão-preto, mussambê, puíta, ndjambi.
Para aplacar sua sede de terra e de morada
Para acalmar a revolta, a espera demorada.
Eles porém marcharão sempre, não dormirão
recusarão a tardia paz da sepultura, o olvido
acesa sua cólera antiga, seu grito fundo
ardente a aflição do silêncio, a infâmia crua.
Eis por que vigiam estes mortos a nossa praça
seu é o aviso que ressoa no umbral da porta
na folhagem percutem audíveis clamores
a atormentada ternura do sangue insepulto. (LIMA, 2012, p.22)

Atentemos ao título do poema Zálima Gabon. Em forro (língua de São Tomé), a expressão em um sentido literal significa a “alma do serviçal”. No entanto, ela nos remete também a expressão “Zálima gabon ku bô”, cuja intenção é amaldiçoar a pessoa a quem fora dita, ou seja, “que a alma dos serviçais te persiga, te atormente”.

Os usos dos sintagmas nominais casa, o pôr do sol, o curso d’água, como metáforas de sustentação, comoção e tempo, nos levam a observar o quanto o corpo negro tem mérito na história. O eu poético alimenta uma memória individual e coletiva: “Falo destes mortos como da casa, o pôr do sol, o curso d’água”, argumentando que esses mortos não são iguais a outros mortos, são “mortos-vivos”[16], isto é, continuam deambulando pelas matas onde foram serviçais.

Tais mortos, vítima do processo da diáspora forçada continuam longe do seu lugar de origem e rejeitam “missas”, “nozados”, “padres-nossos”, práticas religiosas dos senhores de escravizados, preferindo, assim, elementos da sua religiosidade: “aos mortos-vivos ofertados a mesa do candjumbi, feijão-preto, mussambê, puíta, ndjambi”[17]. O poema rememora o exílio dos africanos continentais – Katona, Aiúpa Grande, Aiúpa Pequeno, Makolé e tantos outros – trazidos para as ilhas de São Tomé e Príncipe, como escravizados para o trabalho nas plantações de cacau e de café.

Adensando o seu compromisso em dizer sobre o passado, o eu poético retoma um diálogo com a história de Gana, a primeira nação africana a se tornar livre da ingerência política colonial, em 1957, por meio de seu líder Kwame Nkrumah – que foi solidário ao dizer que “não se considerava independente enquanto os outros países africanos não fossem independentes” (NKRUMAH, 1957). A sua visão política e perseverança resultaram na conquista da Independência de Gana.

Contudo, o processo de independência das colônias portuguesas na África foi árduo e tardio. Tal processo não foi diferente em São Tomé e Príncipe, isto é, para a almejada independência, muitas lutas foram engendradas resultando no terrível massacre ocorrido em 3 de Fevereiro de 1953[18], em que corpos foram enterrados na praia de Fernão Dias – “a praia ultrajada”. Conceição Lima o retrata no poema intitulado “1975”, observemos:

Um vento desgrenha
de lés a lés as marés do Sara
Em Kano a insurreição está nas ruas
Centuriões gauleses esvaziam o trono de Marrocos
Kyhuyuland vinga o opróbrio numa orgia de sangue
E na primeira das nações, Kwame, o Africano
projeta a visão de um destino sem fronteiras.[…]
Que dirias tu, kwame, aos forros massacrados
Que lhes dirias se do crime novas te chegassem? […]
Á sombra do micondó talvez meditasses
na sua inocência, sua culpa, seu tardio pranto
Talvez enxugasses com a fímbria do teu manto
a assustada baba de um pequeno órfão.[…]
Ou lentamente percorresses com Cravid e Salustino
os ecos da dor na orla da praia ultrajada (LIMA, 2012, p.26-27)

Os versos citados, nos remetem ao processo de lutas pela independência, marcados por “insurreições”, “vingança” e “orgias de sangue”, conduzindo o político Kwame Nkrumah à Gana. Gana conquistou a sua independência com o lema: “é melhor ser independente para governar sozinho, bem ou mal, do que ser governado pelos outros” (NKRUMAH,1957).

No poema em análise predominam vozes de personalidades históricas que permitem um diálogo entre a poesia e a história – Kwame, Cravid[19] e Salustino Graça[20]. Assim, o discurso literário em Lima se reveste de sutilezas no poema e instauram as vozes dos outros. Estas advêm não apenas da esfera política, mas também são vítimas da história, carregam em si a memória da ideologia que animou o período de independência na África e em São Tomé e Príncipe, quanto ao processo de luta pela liberdade e (re)construção de um pensamento nacionalista.

A ideia de nação, ou melhor, uma “comunidade política imaginada – e imaginada como sendo intrinsicamente limitada e, ao mesmo tempo, soberana” (ANDERSON, 2005, p.32) constitui na poética de Lima a heterogeneidade santomense, gerada pela fusão de diferentes origens étnicas como observaremos ainda nos versos do poema “1975”:

e com os forros e os filhos dos forros
com os minuiê e os filhos dos minuiê
com os angolares e os filhos dos angolares
com os kavêdê e os filhos dos kavêdê
com os gabões desprezados e os desprezados filhos
dos gabões desprezados
contasses de uma redonda e plana tribo
sem degraus sem portões e sem fronteiras.(…)
Então, forros, todos livres, todos tongas
Contigo aconchegados à volta da fogueira
Partilhassem da crioula catchupa os graus de milho
E juntos bebessem da cabaça o fresco vinho. (LIMA, 2012, p.27-28)

A questão de multiplicidade étnica é uma marca da sociedade santomense, melhor dizendo, o Forro, os chamados “filhos da terra”, o genuíno, aquele que se libertou da condição de escravizado mediante a carta de alforria são considerados os primeiros santomenses. Em vista disso,

O Ângular são descendentes dos que sobreviveram no naufrágio de um navio negreiro, que teria ocorrido no sul da ilha e se instalaram na zona Ribeirinha, tornando-se pescadores. O Tonga significa miscigenação de raças, daí o filho de um originário de Angola com o forro chamar-se Tonga de Angola, ou o filho de um originário de Moçambique com o forro, chamar-se Tonga de Moçambique, assim por diante. O Cabo-verdiano/Cavêdé são descendentes de Cabo Verde, pessoas que se voluntariavam a fim de trabalharem nas colônias, e o Gabão/Gabon é dirigido aos indivíduos vindos no período de contratação de Angola e Moçambique[21]

Estas categorias étnicas são qualificadas pela marca de superioridade e de inferioridade, aliás, os forros e os cabo-verdianos eram considerados diferentes dos demais, os primeiros a terem um status diferenciado na ilha. Dito de outra forma, “o discurso do colonialismo também é um discurso que os santomenses e os cabo-verdianos por serem sociedades de origem colonial eram considerados os africanos diferentes”[22]. Daí, o preconceito nas ilhas de São Tomé e Príncipe estar relacionado à origem étnica, a partir do qual se constrói um pensamento de fronteira.

Na perspectiva dos estudos decoloniais, o pensamento de fronteira são espaços no qual as diferenças são inventadas e são também o loci enunciativos de onde são (re)formulados os conhecimentos ou experiências dos sujeitos subalternos, ou seja, a conexão entre o espaço, o ser, o pensamento, a partilha e o sentimento de pertencimento. (COSTA & GROSFOGUEL, 2016). Partindo dessas conexões culturais tão encrustada na pele, na alma e no coração, nos gestos maternos e no corpo da linguagem, o eu poético relata o encantamento ao reconhecer-se parte da Terra no seu poema intitulado “Inegável”:

Por dote recebi-te à nascença
E conheço em minha voz a tua fala.
No teu âmago, como a semente na fruta
O verso no poema, existo.
Casa marinha, fonte não eleita!
A ti pertenço e chamo-te minha
Como à mãe que não escolhi
E contudo amo. (LIMA, 2012, p.54)

A poética em Lima, relê a casa física (São Tomé e Príncipe) e fixa-lhe um posicionamento ótico. O eu poético ao reconhecer-se parte da casa, abriga os sonhos imitando os movimentos da vida. Portanto, o jogo de ser e pertencer encenado pela linguagem textual firma um pacto individual com a casa, assim, observamos não o eu poético, mas a própria autora nas entranhas dos seus versos.

O (re)ajustamento que se repercute na sua obra poética, cuja face é diversificada e interceptada por outros mundos, traz à memória, martires, anciãos, líderes, poetas e poetisas. Entretanto, a inquietação em (des)construir a visão hegemônica, atribui a poética um tom político e embaraçoso, ao aludir-nos ao poema intitulado “A mão do poeta”:

O poeta, é sabido, conhece
o sentido da sua mão
e perdoa-lhe a bizarria
de crescer sozinha
com o impulso da ave
ou o fermento do pão
Porque ele sabe que a mão
o prende à raiz do chão
onde o rigor do seu “não”
varre da casa a podridão
Por isso, se o poeta à praça traz
seus dentes caídos, a face desfeita/
é para perscrutar no mastro
o pano que drapeja
e corrigir com a mão
a direcção do vento.(LIMA, 2012, p.55)

O eu poético reitera, no poema acima, o papel do intelectual outsider[23], o poeta na modernidade e sua “vocação” para encenar e articular um ponto de vista e/ou uma atitude, enfrentando os poderes presentes em diferentes sociedades por onde transita. Assim, a composição em Lima considera também o político como atividade poética, ou melhor “incita-nos à construção de um olhar crítico que considera o político como elemento de uma atitude poética, e em ricochete, a €poética como elemento de uma atitude política”. (COSTA, 2014, p.97)

No sentido de, pela linguagem problematizar o poder vigente e reivindicar a dignidade humana.  Nesta perspectiva, a poética e a política em gesto solidário se confluem em forma de grito no poema intitulado “A lenda da Bruxa”, citemos:

San Malanzo era velha, muito velha
San Malanzo era pobre muito pobre.
Não tinha filhos , não tinha netos
Não tinha sobrinhos, não tinha enteados
Ela era muito velha e muito pobre
Muito pobre e muito velha
Velha e muito pobre
Velha pobre
Pobre velha
Velha
Pobre
Feiticeira. (LIMA, 2012, p.44)

O eu poético do poema, leva-nos a pensar no padrão social estabelecido por uma maioria detentora do poder hegemônico, parece haver um discurso comum em São Tomé e Príncipe (e em algumas partes da África) que marginalizam a mulher idosa e pobre, rotulam-na como feiticeira, colocando-a sob suspeita, – todas as velhas pobres são feiticeiras. O fato ocorre tanto para as mulheres como para homens, porém, no poema o eu poético enfatiza a discriminação contra a mulher.

Em muitas sociedades a feitiçaria é temida por conter poderes desconhecidos. No entanto, adivinhos, feiticeiros e algumas outras “profissões” que lidam com técnicas desconhecidas da ampla população, em algumas sociedades, são considerados fundamentais para a ordem estabelecida. Porém, nas sociedades africanas, particularmente São Tomé e Príncipe, o estigma de feiticeiro/a permanece, dada a necessidade de categorizar o que foge do padrão estabelecido pela sociedade. Feiticeiro/a, na sociedade santomense, seriam pessoas que usam de forças sobrenaturais para praticar injustiças(mal), é o sinônimo de bruxo/a. Fato decorrente entre as populações mais pobres, consequentemente, menos escolarizadas.

Assim, aqueles que têm uma condição mais abastada discriminariam os mais pobres. Entretanto, acreditamos que o eu poético, metaforicamente, vai além de uma simples crítica ao tratamento da mulher idosa em São Tomé e Príncipe. Pois observa-se, a semelhança do nome San Malanzo com o rio Malanza.

O rio Malanza localiza-se no distríto de Caué, na região Nordeste da ilha de São Tomé, e se encontra com o mar no distrito de Cantagalo, zona sul da ilha, concretamente na praia de Micondó. A razão do nome é por possuir na época[24] muitos Micondós na região, entretanto, a dita praia é por sinal muito frequentada pela população e também pelos turistas devido ao seu verde vibrante, águas claras e uma temperatura agradável.

O poema em análise, no que diz respeito a sua forma e disposição gráfica, nos aponta um outro caminho de interpretação. Podemos interpretá-lo como o desenho da trajetória do “rio Malanza”. Em seu percurso, algumas memórias foram se perdendo até o ponto do rio, caudaloso pelas águas do mar, ser reduzido ao tamanho de uma nascente.

A crítica existente, ao nosso ver, por um lado, está relacionada com a forma como são tratados os velhos e ao reconhecimento desses sujeitos como intelectuais tradicionais, reiterando, assim, o ditado santomense – ngê vê sá deçu mundu. E por outro lado, nos faz pensar na África, o continente velho, mágico e empobrecido, cujo reino foi exaurido por ganância e opróbrio.

Tal leitura ainda, leva-nos a traçar um diálogo, com a representação da figura dos griots do poema que abre o livro, “Canto obscuro às raízes”Citemos os versos:

E os velhos griots
os velhos griots que detinham os segredos
de ontem e de antes de ontem
Os velhos griots que pelas chuvas contavam
a marcha do tempo e os feitos da tribo
Os velhos griots que dos acertos e erros
forjavam o ténue balanço
Os velhos griots que da ignóbil saga
guardavam um reto registro
Os velhos griots que na íris da dor
plantaram a raiz do micondó
partiram
levando nos olhos o horror
e a luz da sua verdade e das suas palavras (LIMA, 2012, p.14).

Observamos nesses versos, uma forte relação entre o homem, a natureza, a memória, a verdade e as palavras. O velho conhecedor dos aspetos da astronomia, domina a ciência da terra, e é guardião da memória coletiva de um momento histórico (sistema colonial). Aliás, o momento no qual se deu a tentativa do rompimento do poder dos griots e o apagamento da identidade do povo. Neste poema, em particular, onde a busca pela identidade é algo incerta, a figura dos griots surge como o único revelador do mistério (as raízes), porém, o sistema vigente foi brutal em tentar destituir-lhes a função.

A ideia do velho como sujeito detentor da palavra, de uma sabedoria que perpassa gerações fora desvalorizada, restando-lhes assim, o estigma feiticeiro/a. Entretanto, é uma discussão presente no documentário de autoria da jornalista Conceição Lima e Gerson Soares, “Fitxicêlu: Crenças, estigma e ostracismo”[26]. No qual são ouvidas vozes que por muito tempo foram reduzidas à solidão e/ou silêncio, entendidos como a “negação de solidariedade”.

Em São Tomé e Príncipe, quase de um modo geral em África, há uma mudança de mentalidade com relação ao papel dos griots na sociedade.  O saber que é tradicional deixa de lado o que lhe é peculiar, uma vivacidade que se torna mais viva pela experiência dos intelectuais tradicionais inseridos na tradição oral. Assim, constatamos que:

não apenas a função da memória é mais desenvolvida, mas também a ligação entre o homem e a Palavra é mais forte. Lá onde não existe a escrita, o homem está ligado à palavra que profere. Está comprometido por ela. Ele é a palavra, e a palavra encerra um testemunho daquilo que ele é. A própria coesão da sociedade repousa no valor e no respeito pela palavra. (BÂ, 2010, p.168)

Neste sentido, as sociedades orais perpetuavam os saberes de forma fidedigna, transmitindo-o pelo método de ensino falar e fazer. A figura dos griots aparece unindo a sabedoria e a experiência, um conhecedor da tradição, os ditos mestres da palavra. Mas, infelizmente, existem fortes resquícios da desvalorização da função social desses sujeitos. Assim, consideramos essencial a recuperação da figura do intelectual tradicional na sociedade.

Não se pode negar, que a poética de Lima problematiza e convida-nos a reflexão, conectando o imaginário simbólico e o reconhecimento da santomensidade[27]. Assim, negociando o porvir, o eu poético se coloca na posição de um intérprete no poema “Sóya”[28]:

Há-de nascer de novo o micondó
Belo, imperfeito, no centro do quintal.
Á meia-noite, quando as bruxas povoarem okás milenários
E o Kukuku piar pela última vez
Na junção dos caminhos.
Sobre as cinzas, contra o vento
Bailarão ao amanhecer
Ervas e fetos e uma flor de sangue.
Rebentos de milho hão de nutrir
As gengivas dos velhos
E não mais sonharão as crianças
Com gatos pretos e águas turvas
Porque a força do marapião
Terá voltado para confrontar o mal.
Lianas abraçarão na curva do rio
A insónia dos mortos
Quando a primeira mulher
Lavar as tranças no leito ressuscitado.
Reabitaremos a casa, nossa intacta morada. (LIMA, 2012, p.67-68)

Neste poema ritualístico, o micondó emerge como a metáfora de esperança ao resistir contra todos os medos e receios, em um pacto do bem contra o mal nas encruzilhadas dos caminhos. Assim, as bruxas, os okás e o kukuku, elementos do imaginário sobrenatural dão lugar aos sintagmas marapião e lianas que surgem como o provedor e o articulador dessa esperança um dia perdida[29].

No entanto, a casa, é sonhada e reabitada – “Quando a primeira mulher / Lavar as tranças no leito ressuscitado”. Assim, o lavar das tranças simboliza o renascer para a vida, punida pela memória histórica. A relação interessante que a autora faz entre a mulher, a trança e o leito reitera a matriarca santomense. A mulher é a rede de proteção, a guardiã e fonte de amor, dela emerge a vida.

Considerações finais

Destacamos, ao longo do trabalho, o engajamento e a poética da artista-intelectual sobre as ilhas de São Tomé e Príncipe. Assim, percebemos que, o discurso em Lima ao despertar o sentimento de pertencimento e comprometimento com a nação santomense, reafirma a identidade híbrida dos são-tomenses, e constitui uma reelaboração do passado, um presente repleto de críticas sociais e uma projeção do futuro, a partir da simbologia do micondó. Ademais, constatamos, ainda, que a escrita da autora é um tributo no despertar das consciências para a valorização da mulher negra, africana, e intelectual na contemporaneidade. É nesse sentido que, ao destacarmos a voz feminina da poetisa e jornalista Conceição Lima, voz que relê o solo de São Tomé e Príncipe, contrária ao poder hegemônico e a favor da liberdade de expressão, reiteramos, assim, sua atuação como intelectual engajada com questões políticas e sociais do seu país.

Desse modo, Conceição Lima, como sujeito intelectual, articula os seus pontos de vista se valendo de formas de expressões distintas para abordar a realidade que observa e vivencia. Logo, retomando a questão inicial que nos movimentou a essa pesquisa, afirmamos que a intelectual africana na contemporaneidade fala ao poder e muitas vezes o seu discurso causa embaraços. Ao final desse trabalho, esperamos que nossas reflexões possam contribuir para o desenvolvimento de pesquisas futuras sobre o engajamento político das escritoras nas literaturas africanas de Língua portuguesa.

 

Glossário

Candjumbi(cazumbi): palavra originária do Kimbundo que significa Espírito. Em São Tomé, chama-se “mesa de candjumbi” o ritual de oferta de alimentos aos serviçais mortos. (LIMA, 2012, p.74)

Kukuku: ave cujo nome é coruja. (LIMA, 2012, p.74)

Lianas: plantas trepadeiras; para se manterem eretas e crescerem em direção à luz se apoiam em outras árvores (ENGEL, FONSECA et al, 1998, p.44).

Marapião: árvore de grande porte, cuja madeira são atribuídas propriedades exorcizantes (LIMA, 2012, p.74); conhecida no Brasil como Maminha de porca (ROSEIRA, 1984, p.28).

Mussambê: peixe seco; provavelmente, o produto era exportado do porto angolano para o arquipélago (LIMA, 2012, p.74).

Ndjambi: ritual de conexão com seres ancestrais que assinala o clímax do puíta (LIMA,2012, p.74).

Nozado:  nojo; velório (LIMA, 2012, p.74).

Oká: árvore associada no imaginário popular a forças maléficas, cuja copa as bruxas desertam à meia-noite, segundo a crença popular (LIMA, 2012, p.74); conhecida cientificamente por ceiba pentandra (ROSEIRA, 1984, p.21).

Puíta: cerimônia investida de funções curativas e exorcizantes, marcada por um vertiginoso compasso musical e de dança. Originária de Angola e preservada por gerações sucessivas de serviçais (LIMA, 2012, p.74).

 

Referências

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HALEY, Alex. Negras raízes: A saga de uma família americana. Trad. A.B. Pinheiro de Lemos. 5ª.ed., Editora: Record, RJ, SP, 2014.

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LIMA, Conceição. Carta pá Apolinária. São Tomé e Príncipe, seção: Análise, 9 de Novembro de 2010.

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VICENTINI, Paulo Fagundes. O livro na rua: Gana. Editora: Thesaurus, 2011.

 

[1]Bell hooks é o pseudônimo de Glória Jean Watkins (1952), escritora e ativista feminista norte-americana.

[2]Retomamos a questão proposta por Gayatri Spivak na obra “Pode o subalterno falar?” (Cf. SPIVAK, 2010).

[3] São Tomé e Príncipe é um arquipélago formado por duas ilhas (ilha de São Tomé e a ilha do Príncipe) localizadas no Golfo da Guiné. As ilhas foram ocupadas em 1470, por intermédio dos navegadores portugueses João de Santarém e Pedro Escobar que as “descobriram”. Foi uma colónia de Portugal desde o século XV até 12 de Julho de 1975, data de sua independência. (Cf. http://www.ine.st)

[4] Informações obtidas no site de notícias da UFJF, publicado no dia 4 de Março de 2016 pelo departamento de História da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

[5] Ur é a cidade onde nasceu Abrão, de acordo com o livro de gêneses.

[6] Freedom Ride foi a denominação dada pelos ativistas negros norte-americanos pelos direitos civis em defesa da população negra, de viajarem nos ônibus interestaduais, nas décadas de 1961 em diante, pela região sul dos Estados Unidos, conhecida pela segregação racial.

[7]Os griots são conhecidos como os sábios em certas regiões na África (Cf. BÂ, 2010).

[8] Micondó é uma arvore de origem africana, conhecida em outros lugares como imbondeiro, baobá.

[9] Esses documentários foram encomendados pela FONG (Federação das ONG’s), concebidos e realizados por Conceição Lima e pelo Kalú Mendes.

[10]  Se te cansaste do frio, de limpar o chão, limpar as escadas, cansaste de pensar a família, venha para a tua terra. As coisas não estão bem, as coisas estão desorganizadas, mas nossa terra é nossa terra. Ninguém pode nos colocar para fora, ninguém, nem mesmo aqueles que tomaram a terra e fizeram da terra propriedade sua, nem mesmo esses podem te colocar num avião. […] Terra, minha amiga, está aqui. Sentada em cima do mar, com a boca fechada, com os olhos abertos, com a mão na queixada, a ver as pessoas, insistentemente, perguntando com os olhos de uma mãe triste o que as pessoas querem fazer dela. (Tradução nossa)

[11]   Extinção do programa radiofônico” Resenha da Semana” da Rádio Jubilar, Emissora Católica de São Tomé e Príncipe, por constituir a oposição diante dos desmandos do Governo em exercício. (Cf. www.telanon.info/sociedade/2017/08/21/25111/carta-aberta-a-patrice-trovoada/)

[12] Cf. SAID, 2003.

[13] Escritor, poeta e compositor. Seus poemas retratam a crise política e social existente em Zimbabwe, país localizado ao Sul de África, entre os rios Zambeze e Lipombo e ao Leste de Moçambique.

[14] Conhecida como a cidade Cosmopolita, capital intelectual e espiritual é localizada no sul do Saara. Possui um grande acervo sobre os manuscritos árabes antigos (Cf. VICENTINI, 2011).

[15] Romance publicado pela primeira vez em 1976, traduzido e publicado no Brasil com o título Negras raízes: A saga de uma família americana em 2014.

[16]Mortos-vivos são personagens míticos, que embora mortos, agem como se estivessem vivos.

[17] Cf. Glossário no final do artigo.

 [18] Conhecida também como a guerra de Batepá, o massacre constitui o marco histórico das ilhas, no qual pessoas foram torturadas e mortas por rejeitarem o trabalho nas plantações de cacau e café (Cf. SANTO, 1979, p.80).

[19]Bartolomeu Cravid (não há registros da data de nascimento e de morte) preso por 45 dias na cadeia, foi um sobrevivente da repressão de 1953, que vitimou centenas de santomenses.

[20]Salustino Graça do Espírito Santo (1892-1965) foi um político e agrônomo santomense, símbolo da luta pela libertação do povo santomense (Cf. SANTO, 2012).

[21] Dados obtidos a partir da conversa com o santomense Alfredo Marçal Lima (militar de profissão) via facebook (2018).

[22] Argumentos da estudiosa Inocência Mata, na reportagem da série “Racismo em Português”, dedicada a São Tomé e Príncipe, sob o tema: O colonialismo não morreu com as roças (2017).

[23] (Cf. SAID, 2003, p.16) Também não podemos nos esquecer que nos finais dos anos 1980 a intelectual negra norte-americana Audre Lorde já estava trabalhando o conceito de Intelectual outsider, e essa intelectual outsider é a mulher negra.(Cf. LORDE, 2013)

[24] Atualmente, não existem muitos Micondós na região, contudo, permaneceu o nome.

[25] Os idosos são deuses do mundo (Tradução e itálicos nossos).

[26] Fitxicêlu (feiticeiro) é o título do documentário que a Jornalista Conceição Lima e o realizador Gerson   Soares, produziram nos finais do ano 2016. (Cf. www.Telanon.info)

[27] Entendemos por Santomensidade a construção de identidade nacional santomense que se funda na maneira de sentir dos santomenses (Cf. ALEGRE, 2005)

[28] Designa-se de contador de sóyas, a pessoa que delicia ao auditório com os seus contos, lendas e fábulas.  Esses contos eram transmitidos, pelas avós aos netos.

[29] Cf. Glossário do final do artigo.