Padre Vieira e a Retórica Aristotélica

Helena Pereira Ruzzi

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 31, 2019. ISSNe: 1806-2555.

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Sobre os autor(es):

Helena Pereira Ruzzi
helena.ruzzi@gmail.com
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Universidade Federal de Santa Catarina
Centro de Comunicação e Expressão
Florianópolis - Santa Catarina, Brasil

RESUMO: Este artigo tem como objetivo analisar a construção retórica que Padre Vieira usa no Sermão Maria Rosa Mística, comentando sua argumentação, tendo como base a arte retórica aristotélica. O texto apresenta a Retórica de Aristóteles e, posteriormente, discute como o Padre Vieira utiliza seus mecanismos no Sermão Maria Rosa Mística, bem como os efeitos desses mecanismos no texto.

PALAVRAS-CHAVE: retórica; sermão; Padre Vieira; Aristóteles.

ABSTRACT: This article has as an objective to analyze the rhetorical construction that Priest Vieira uses in his Sermon Maria Rosa Mística as a case study of his argumentation, based on Aristotelian rhetorical art. The text introduces Aristotle’s Rhetoric and posteriorly discusses how Priest Vieira uses it’s mechanisms in the Maria Rosa Mística Sermon as well as the effects of those mechanisms in the text.

KEYWORDS: rhetoric; sermon; Priest Vieira; Aristotle.

 

1. Retórica e Padre Vieira

Padre Antonio Vieira, jesuíta português, foi  estudioso e proficiente na retórica — seu tomo de sermões da Rosa Mística, que por assunto tem a Virgem Maria, ilustra apenas uma parte de sua obra vasta de pregações e outros discursos. Em Maria, Rosa Mística: sermão XXVII (1686), ele se dedica à questão da alforria e escravidão dos negros e discorre sobre sua condição de cativos, tanto de corpo quanto de alma, defendendo que os negros devem aceitar sua condição e não lutar para mudá-la.

Durante o sermão, ele utiliza técnicas retóricas para defender sua tese e argumentar em favor de sua visão. Essa argumentação e construção do discurso, à luz da retórica aristotélica, será assunto do presente trabalho, cujo objetivo é dissecar os argumentos do Padre no sermão XXVII do tomo “Maria, Rosa Mística”. Optou-se observar com mais clareza essas técnicas e como Padre Vieira as utilizava, usando esse sermão como exemplo.

Como quem disseca um corpo para uma autópsia ou desmonta um relógio para entender o funcionamento das suas engrenagens, a análise do sermão precisa de ferramentas que facilitarão o diagnóstico, um bisturi ou uma chave-de-fenda argumentativa: a retórica aristotélica, como é descrita no livro de Aristóteles e no trabalho do filólogo Almeida Junior (2009).

Ao entender os recursos argumentativos do Padre Vieira não só compreendermos com mais clareza os próprios sermões e os discursos construídos por ele, mas também a maneira com a qual ele procura atingir seus objetivos de convencimento, além de compreendermos mais sobre a construção argumentativa em si, sobre as ferramentas disponíveis para a construção de um texto, de que maneira defendemos uma tese de modo a convencer ouvintes (ou leitores), e como antecipar argumentações contrárias, além de diversas outras ferramentas retóricas, argumentativas e dialéticas.

Os sermões de Vieira tinham como objetivo convencer os ouvintes, muitas vezes convertê-los ou fortalecê-los em sua fé. Para além da construção textual, os sermões tinham como dispositivos de convencimento a autoridade de serem “declamados” em um púlpito, dando um ar de sacralidade e, portanto, de autoridade para o discurso. Os sermões apelavam tanto para a razão quanto para a emoção, o que a retórica de Aristóteles denomina etos, patos (dizendo respeito à emoção) e logos (dizendo respeito à razão).

A unidade textual era imprescindível para a criação de Vieira: ele se atém a uma prerrogativa e estuda ela em todos os aspectos. As questões abordadas por Vieira sempre convergem em um único tema, e não por acaso: ele não perde o foco da sua argumentação. Ao longo do texto, ele faz perguntas às quais ele mesmo responde: uma estratégia para antecipar contra-argumentos e refutações.

Entre as estruturas utilizadas por Vieira temos recursos retóricos como exemplificação, comparação, indagação e dedução, a divisão do sermão em prólogo, desenvolvimento (argumentação) e prorrogação (ou conclusão), estruturas utilizadas por Vieira com o intuito de corroborar com a construção de argumentos na microestrutura do texto que visa convencer o ouvinte de sua prerrogativa. Tanto a macro como a microestrutura seguem o padrão de tese seguida de argumentação.

Ao invés de apresentar uma argumentação seguida de uma conclusão ele escolhe trazer primeiro a tese, fazendo-a soar como uma verdade incontestável. A argumentação que se segue figura apenas como uma explicação e elaboração dela e não como um argumento. O contrário (argumentação + tese) pode deixar muito evidente para quem escuta que se trata de uma tentativa de convencimento, e essa denúncia de intenção pode acabar por desengajar os ouvintes no discurso. Nessa estrutura usada por Vieira a tentativa de convencer é “mascarada”, pois é posta apenas como uma demonstração dos fatos.

2. Sobre a Retórica Aristotélica

A retórica e a dialética funcionam, de acordo com Aristóteles na Retórica, para questionar e sustentar um argumento. A retórica precisa ser usada para atingir a verdade, mesmo que a amizade, hostilidade e interesse pessoal (e outras questões de paixão) interfiram com a decisão do ouvinte.

Segundo Aristóteles, é dever do argumentador encontrar a maneira adequada de persuadir em cada caso, utilizando a dedução lógica a fim de encontrar a verdade. A estrutura lógica, descrita nos livros I, II e III da Retórica, demonstra como pode ser estruturado o discurso independente do gênero em que ele se enquadra, tendo, portanto, uma construção comum a todos os gêneros.

O discurso deve funcionar para construir uma opinião utilizando argumentos, elocução e uma composição (ou estilo) adequados. Aristóteles deixa claro que cada público tem uma maneira diferente de utilizar cada um desses aspectos: é preciso se ajustar de acordo com o gênero e público. A emoção do público interfere no discurso e nos argumentos, como eles são concebidos e certamente como são recebidos.

Almeida Junior (2005, p. 71) chama a estrutura lógica descrita por Aristóteles de “fases do discurso”. Entender essas “fases” é essencial para compreender a construção de um discurso coerente e eficaz em suas propostas. Para melhor ilustrar essas ideias, abaixo foi incluso um desenho esquemático dessas estruturas, retirada da tese de Almeida Junior.

ALMEIDA JUNIOR, Licinio Nascimento de. Conjecturas para uma Retórica do Design [Gráfico]. 2009. 25 f. Tese (Doutorado), p. 71

Elaborando essas ideias, a partir dos trabalhos de Aristóteles e de Almeida Junior, podemos compartimentalizar a criação do discurso e destacar as partes mais essenciais e universais, que são estratégias de argumentação compatíveis a todos os gêneros.

A invenção caracteriza-se por encontrar os argumentos, provas e justificativas disponíveis para sustentar uma tese, além de apenas escolher o assunto do qual falar. “Inventar” seria encontrar argumentos e meios de persuadir os ouvintes, enquanto a disposição do discurso diz respeito ao plano do texto e como serão organizados os argumentos. A disposição remete à ordem, a como se expressar e organizar as ideias dentro da macroestrutura textual.

A elocução dedica-se a como o texto é redigido. Seria a parte linguística da construção do discurso dentro do estilo, como elaborar os argumentos frase a frase, palavra por palavra. Dentro da elocução o orador deve se preocupar com a clareza do discurso e os “efeitos” de cada tipo de linguagem, o que a estrutura formal escolhida remete aos ouvintes. A ação se aplica a proferir o discurso, a dicção, os gestos e a postura do orador.

Os gêneros do discurso para Aristóteles, como são apresentados no trabalho de Almeida Junior (2005, p. 75), são divididos em Judiciário, Deliberativo e Epidítico. O gênero Judiciário tem como audiência os juízes, com o intuito de julgar alguém inocente ou culpado diante da justiça. O gênero Deliberativo é político, tem o intuito de elaborar normas e leis mediante a uma assembleia. O gênero Epidítico é, ainda segundo o trabalho de Almeida Junior, para “louvar e censurar”, se trata do belo e do feio, de um julgamento de valor ao qual tentamos convencer um espectador a concordar.

No que tange persuasão e como apelar ao público há provas técnicas e não técnicas. As provas não técnicas seriam os fatos disponíveis, incontestáveis ou muito plausíveis, que se sustentam por si mesmo; testemunhos, estatísticas, fatos históricos, etc. As provas técnicas vêm do orador e são criadas por ele a fim de convencer. Elas são divididas em etos, patos e logos. Etos e patos dizem respeito à emoção, etos sendo provas derivadas do caráter do orador e patos, da emoção que ela desperta no(s) ouvinte(s). Logos são argumentos reais que apelam à razão e à racionalidade, fazem parte da dialética dentro do discurso. Etos remete ao orador, patos ao público e logos ao próprio discurso.

Logos Aristóteles “desmembra” em dois, os exemplos e os entimemas. Entimema é um tópico importante na Retórica. Segundo o próprio Aristóteles, é uma questão que retóricas anteriores não abordam. O entimema é um silogismo, portanto, uma forma de raciocínio dedutiva na qual duas premissas geram uma conclusão. Entimema é quando há uma premissa provável e implícita, ou não formulada, como um silogismo com uma só premissa. O entimema é composto de tópicos, que podem ser relacionados a um gênero do discurso ou podem ser mais gerais. Cada gênero propõe “tópicos” próprios a partir de sua concepção. O gênero Judiciário trabalharia com tópicos que remetem à justiça, como os conceitos de justo e injusto. O gênero Deliberativo remete a conceitos políticos como útil e inútil. O Epidítico trabalha com conceitos de belo e feio, enquanto há conceitos gerais como real e irreal, possível e impossível, factível ou impraticável, moral e imoral, ético e antiético.

O exemplo, também como uma prova tipo logos, não é dedutivo e sim indutivo; podem ser fictícios ou reais – as provas reais partem do princípio de que a partir do passado podemos induzir o futuro. Os “casos inventados” podem ser parábolas ou fábulas que ilustram o ponto de vista argumentado. São ambas provas de persuasão.

A estrutura retórica de um argumento começa com o exórdio, no qual é apresentada a intenção do discurso, seguida da narração, na qual é apresentada a tese, que é acompanhada de uma prova. As provas, que tem o papel de sustentar o argumento, precisam ser verdadeiras ou ao menos muito prováveis, segundo Aristóteles. Por fim, no discurso, há o epílogo ou peroração, nas quais é apresentada um diagnóstico ou prognóstico de todo o discurso. Cada gênero do discurso se adéqua a esse molde, o utilizando da maneira mais apropriada.

3. Como Padre Vieira utiliza os mecanismos da retórica no sermão Maria Rosa Mística.

Agora que já conhecemos os meios retóricos aristotélicos, podemos partir para a análise de Maria, Rosa Mística e como Padre Vieira utiliza essas ferramentas para construir seu discurso. Sabemos que o Padre Vieira conhecia a arte da retórica pois foi designado professor do assunto no Colégio de Olinda, em Pernambuco.

Os argumentos construídos pelo Padre que remetem à religiosidade estão nos planos do tópico e no plano das provas. Estão no plano das provas, pois ele utiliza as escrituras da Igreja Católica dentro de logos, como exemplos e entimemas, e também nas provas não técnicas – tomando como fatos históricos o que conta a religião cristã. Estão no plano do tópico, pois a visão de Antonio Vieira do que é moral e imoral, certo e errado, etc., é derivada da sua profunda relação com a religião católica.

Padre Vieira começa seu sermão ao comparar duas “diásporas”: a fuga dos Israelitas e o comércio dos negros escravizados. Essa comparação é uma prova de persuasão indutiva. Ela é um exemplo de algo que aconteceu no passado e pode ser usado para interpretar o presente e antecipar o futuro. O Padre explicita o paralelo desafortunado das duas debandadas: o primeiro fugia do cativeiro e o segundo ia de encontro a ele. O próprio Vieira condena a prática da venda de escravos e, ao longo do sermão, procura argumentar que seus corpos podem ser vendidos, mas suas almas não pertencem a ninguém. Essa assertiva – de que as almas dos negros escravizados merecem salvação e conseguir atingir ela graças à escravidão – é o que Padre Vieira defende no sermão.

O autor destaca, em especial na primeira parte, a incoerência da situação que se encontram os negros. A macroestrutura e a microestrutura do sermão são sempre marcadas com a estrutura da argumentação retórica aristotélica.

Uma das grandes coisas que se vêm hoje no mundo, e nós pelo costume de cada dia não admiramos, é a transmigração imensa de gentes e nações etíopes, que da África continuamente estão passando a esta América. […] entra uma nau de Angola, e desova no mesmo dia quinhentos, seiscentos e talvez, mil escravos. Os israelitas atravessaram o Mar Vermelho, e passaram da África à Ásia, fugindo do cativeiro: estes atravessam o mar oceano na sua maior largura, e passam da mesma África à América, para viver e morrer cativos. […] Os outros nascem para viver, estes para servir. Nas outras terras, do que aram os homens, e do que fiam e tecem as mulheres se fazem os comércios: naquela o que geram os pais e o que criam a seus peitos as mães, é o que se vende e se compra. Oh! trato desumano, em que a mercancia são homens! Oh! mercancia diabólica, em que os interesses se tiram das almas alheias, e os riscos são das próprias! (VIEIRA, 1686, n.p.)

No exemplo da construção argumentativa de Vieira, acima, ele parte de um preâmbulo, no qual ele introduz a ideia para o ouvinte: há a transmigração dos negros e ela é vivenciada todos os dias. Ele elabora essa asserção com uma narração: muitos escravos “desovam” na América. Ele segue com uma prova real para persuadir o ouvinte: compara com a transmigração israelita que atravessou o Mar Vermelho. Ele conclui, então, com um apelo utilizando patos, apelando para a emoção da plateia: “Oh! Trato desumano, onde a mercancia são homens”.

Já se, depois de chegados, olharmos para estes miseráveis, e para os que se chamam seus senhores, o que se viu nos dois estados de Jó é o que aqui representa a fortuna, pondo juntas a felicidade e a miséria no mesmo teatro. Os senhores poucos, os escravos muitos; os senhores rompendo galas, os escravos despidos e nus; os senhores banqueteando, os escravos perecendo à fome; os senhores nadando em ouro e prata, os escravos carregados de ferros; os senhores tratando-os como brutos, os escravos adorando-os e temendo-os, como deuses; os senhores em pé, apontando para o açoite, como estátuas da soberba e da tirania, os escravos prostrados com as mãos atadas atrás, como imagens vilíssimas da servidão e espetáculos da extrema miséria. Oh! Deus! quantas graças devemos à fé que nos destes, porque ela só nos cativa o entendimento, para que à vista destas desigualdades, reconheçamos, contudo, vossa justiça e providência. Estes homens não são filhos do mesmo Adão e da mesma Eva? Estas almas não foram resgatadas com o sangue do mesmo Cristo? Estes corpos não nascem e morrem, como os nossos? Não respiram com o mesmo ar? Não os cobre o mesmo céu? Não os aquenta o mesmo sol? Que estrela é logo aquela que os domina, tão triste, tão inimiga, tão cruel? (VIEIRA, 1686, n.p.)

Continuamos com a análise do parágrafo seguinte. A justaposição de elementos contrários, como a alegria e a tristeza, destacada no grifo da passagem, caracteriza o mundo em que viviam os negros escravizados (ou melhor, que foram forçados a viver). São a fonte da riqueza dos seus senhores e vivem muito perto dela, o que acaba sendo um dos mais cruéis aspectos de sua condição, explicitada por Vieira.

Vieira usa comparações: tanto das situações dos escravos em relação aos senhores como a comparação da situação dos escravos com a passagem bíblica de Jó.  Padre Vieira comenta que a servidão que lhes é imposta é o meio de Deus para levá-los à salvação. Se ficassem na África não teriam acesso à palavra de Deus e nunca seriam salvos. Por meio da escravidão eles encontram Deus, portanto há felicidade nessa amargura.

Em diversas passagens do sermão o Padre “ameniza” a escravidão, como quem tenta confortar seus ouvintes, que eram negros – segundo Celso da Silva em seu artigo A visão do Padre Antonio Vieira sobre a escravidão (2011) o sermão foi pregado “na igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos em Salvador. O sermão [foi] dirigido aos escravos […]” (n.p., grifo meu). Ele tenta fazer o melhor da situação para sua audiência, predominantemente escrava, explicando a escravidão como pretexto para salvação deles. Assim, ele justifica a “transmigração” como também uma graça e bênção, afinal foi graças a ela que ouviram a “palavra de Deus”.

Ao longo do texto, vemos o extenso conhecimento de Vieira das escrituras, que ele usa amplamente como provas. Lembramos que para se tornar Padre era preciso ter uma profunda formação teológica, portanto não é incomum esse conhecimento, porém é importante ressaltar sua capacidade de associar e interpretar esses escritos para sustentar seus argumentos. Ele não se limita somente a isso; ele relaciona as escrituras com outras provas, técnicas ou não técnicas, com o propósito de persuadir o ouvinte, e também as explica. Estrutura seu discurso a fim de convencer seu interlocutor de seu ponto de vista, como ensina o método retórico.

Ele, novamente usando as escrituras como prova real, menciona Tobit, pai de Tobias, no livro de Tobias, que é uma alusão apropriada à situação dos escravos. Tobit foi feito escravo mas não mudou sua fé, pois foi ensinado quando criança a temer a Deus. Foi sempre muito generoso e ensinou a seu filho seus valores, sendo posteriormente recompensado por isso. Porém, Tobit foi recompensado em vida por sua devoção, já os escravos seriam apenas recompensados na morte.

Esse discurso de Vieira por vezes tem o objetivo retórico de convencer o espectador que há partes proveitosas da escravidão e que ela não é totalmente condenável, especialmente do ponto de vista religioso. Parte dessa ideia pode ser traduzida dentro da abordagem da dicotomia do ser humano. Ele menciona que o homem é constituído de duas metades: o corpo e a alma. A alma não tem posse, ninguém a compra ou vende (apenas podemos vendê-la ao diabo). O corpo, por sua vez, pode ser vendido. Padre Vieira não condena o comércio dos negros, desde que suas almas sejam prometidas a Deus. Ou, pelo menos, é o que parte desse sermão argumenta.

Ele possui alguns argumentos simples que se traduzem em algumas palavras. Por exemplo, ao longo do sermão percebemos que, se pensarmos a partir da linha de raciocínio usada por Vieira, a natureza fez a todos livres, porém nem todos são livres e há escravidão. Portanto, a escravidão não é natural e sim feita pelo homem.

E, a partir de argumentações como essa, que são relativamente simples, dentro do texto elas podem alcançar consequências muito mais complexas e ajudar a sustentar teses muito mais elaboradas. Seguindo a mesma linha de raciocínio do parágrafo anterior, concluímos que Padre Vieira aceitava que homens escravizem (em busca do lucro) os corpos de outros homens que possuem almas dignas do céu através de sua devoção. Além disso, ele defende que isso não era de todo ruim, pois esse trabalho iria por fim levar os escravizados à salvação e, sem ele, eles seriam condenados ao inferno. Padre Vieira defendia a escravidão. Ou, ao menos, ele argumenta seu propósito dentro da sociedade da época ao longo do sermão.

4. Os efeitos da argumentação de Vieira dentro do discurso e como isso se traduz no pensamento da época

Ao ler o sermão é possível interpretar que Padre Vieira justifica a escravidão e abranda seus impactos, convencendo seus ouvintes (os escravos) de que sua situação não é completamente ruim. Ele repete inúmeras vezes a ideia de que a alma não pode ser escravizada e que eles (os escravos) são livres para escolherem a misericórdia de Deus.

Seria improvável, naquele contexto histórico, a luta contra a escravidão negra. Mesmo se a Igreja, como a poderosa instituição que era, se colocasse contra essa prática, a coroa portuguesa não permitiria seu fim. Muito além das preocupações morais, a escravidão era uma questão econômica. Sem ela o ciclo do açúcar do século XVII (quando viveu Vieira) não teria a mesma estrutura; portanto, era importante que ela perdurasse sem questionamento.

Logo, não é possível pensar em Vieira como apenas um “justificador” que “abranda” a escravidão e seus efeitos. Padre Vieira, aqui, passa a traduzir um pensamento necessário em sua época, e que visava legitimar aquele modelo econômico da metrópole, baseado na escravidão africana.

Padre Vieira se mostra profundamente aflito com a situação dos engenhos. “Se acrescentar mais uma braça de terra ao canavial […] haveis de vender vossa alma ao diabo?” (VIEIRA, 1686, n.p.), fala ao se dirigir aos senhores no sermão, na parte III, e diz que, pois bem, venda a sua alma, afinal é “vossa”; mas não venda junto a alma de seus escravos, proibindo-os de viver fora do pecado. Denuncia os senhores por forçar seus escravos a viver “em serviço do diabo”, visto que assim eles os servem melhor. A incoerência desses “brancos”, a quem ele se dirige em certos momentos, é razão de seu incômodo. Se se dizem cristãos a serviço de Deus e agem condizentemente em suas vidas, por que põem esses filhos de Eva, mesmo que pecadores, a serviço do diabo? A contradição dessa realidade põe Vieira a argumentar a favor dos escravos.

Ele instiga a cooperação dos negros em diversos momentos, quase que suplica sua colaboração. Ele argumenta que não se coloquem contra os trabalhos que precisam fazer, que cooperem e não se rebelem. Ele solicita a tolerância dos negros, porém, apenas até certo ponto, até onde não ferisse sua cristandade. Afinal, se sofrem nesta vida para ter clemência e salvação na próxima, não é certo que por ordem de seus senhores – que já são culpados por infligir essa desgraça a eles – ponham em risco sua salvação. Portanto, ele concorda com a rebeldia dos escravos quando em prol da defesa de sua pureza moral aos olhos de Deus.

Há um momento no sermão no qual ele menciona que não há como comprar o perdão de Deus nem se “todo o mar se convertera em prata, e toda terra em ouro” (VIEIRA, 1686, n.p.). Ele diz que o “resgate da alma” vale mais que qualquer riqueza mundana. A compra “do seu lugar no céu” era prática comum dentro da Igreja. A crítica ao “comércio” do perdão foi uma das principais razões encontradas pelos reformistas, um dos argumentos era a incoerência da Igreja em relação a isso. Padre Vieira não menciona a Reforma, mas podemos inferir que repudiava a corrupção da Igreja ao afirmar que não era possível comprar clemência com nenhuma fortuna, a não ser as fortunas de natureza espiritual de devoção a Deus.

Com relação à “alforria” dos negros mencionada no texto, somos levados a concluir que o Padre se refere à libertação dos costumes pagãos que prendem a alma aos desejos do demônio e mantém longe de Deus, e não necessariamente à alforria no sentido da libertação da escravidão. Ele propõe aos negros uma falsa liberdade, uma quebra com os costumes pagãos “demoníacos” e a “liberdade” de escolher o caminho de Deus. Fugindo de seu cativeiro do demônio e correndo para os braços da Igreja; ou um, ou outro. Os seus senhores os livraram do cativeiro do demônio para serem “livres” para escolher Deus.

Falando sobre liberdade, ele argumenta sobre as vantagens dos negros serem devotos a Deus e se submeterem à igreja. Ele confirma a “falsa liberdade” e diz que, agora que “salvei suas almas do pecado pagão”, obrigatoriamente são “escravos da minha libertação” e devotos do que eu acredito (VIEIRA, 1636, p. X). Ele caracteriza o cativeiro das almas como “maior e mais pesado” designado como “segundo e menor” o dos corpos. É inimaginável pensar o que um escravo, negro, prestando serviços forçados a alguém que se considera seu “dono”, pensa sobre essa afirmação. O “cativeiro das almas” é, por designação do próprio Padre Vieira, espiritual, intangível e o “dos corpos”, mundano e concreto. A dominação sofrida por eles é sensível e real, muito mais do que qualquer suposta pecaminosidade de seus atos.

Para Vieira, a existência parece sempre uma condição de servidão: sendo escravo serves a seus senhores (que servirão, então, a Deus). Depois de morrer, vai para o céu e serve a Deus, se não és escravo serves a Deus desde o princípio, já em vida, e se não serve a Deus em nenhum momento, serves o Diabo por ser negligente a Deus.

Como quem tenta prever uma contra-argumentação, Padre Vieira chega a falar sobre as consequências daqueles que não seguem o caminho de Deus. Apesar de satisfeitos os seus corpos, as almas dos pecaminosos se encontram “tristes”, perdidas. Porém, ele ilustra possibilidade da salvação como quem diz: sei que são pecadores, mas agora que escutam a palavra de Deus, podem se salvar.

E, agora que sujeitos a essa realidade de servidão sem reclamações das condições e devotos a Deus, os negros precisam (nos olhos de Vieira) entender o porquê de não serem remunerados. “Não cabe a seu senhor te dar retribuição, cabe a Deus” (VIEIRA, 1686, n.p.). Padre Vieira argumenta que devem bastar, para um escravo, as recompensas que Deus dá. Apesar de mostrar certo pesar devido a essa situação (“Triste e miserável estado servir sem esperança de prêmio em toda a vida, e trabalhar sem esperança de descanso, senão na sepultura!”), Vieira acaba passando a mensagem de que os escravos devem se contentar com aquela situação de não-remuneração e condições indignas de trabalho (forçado), e que o contato com Deus é bonificação suficiente.

Apesar de ser fácil interpretar como um absurdo de Vieira em falar que os escravos devem aceitar e corroborar com sua condição, é possível (e preciso) entender o contexto da época em que o texto foi escrito. Ao longo do texto o padre caracteriza como negativo o estado em que se encontram os escravos e simpatiza com sua “causa”. Fala de suas almas como que para confortá-los (na morte suas almas serão salvas por seu sofrimento em vida) e menciona exemplos de outros cativeiros e cativos que aceitaram sua condição e no final foram recompensados, pois o fizeram em nome Deus.

As palavras de Vieira buscam mostrar um lado positivo dentro de um espectro terrível. Ele não podia, em nome da Igreja, desqualificar nem se mostrar contra a escravidão, tampouco encampar sozinho uma luta contra o status quo. Afinal, a escravidão era vista como um imperativo do sucesso econômico da colônia. Logo, parece evidente que Vieira acreditava fazer o que estava ao seu alcance pelos escravos, essa tentativa de “confortá-los” mostra-se nobre dentro do que pode oferecer.

Quanto mais Padre Vieira discorre, mais perceptível fica sua sensibilidade perante os escravos. Ele não só reconhece, por exemplo, que estes são tratados como cães como, também, desqualifica aqueles que os colocam nessa posição. Ele destaca  que o pecado cometido ali não é deles, portanto, devem ficar tranquilos, pois, se servirem bem, serão recompensados.

Podemos entender o sermão como uma mensagem de que, por mais infortúnio que seja, Padre Vieira não concorda com a situação em que se encontram os escravos. Porém, já que aqui os escravos se encontram em tal infortúnio e não há como fugir desta realidade, que ao menos essa experiência os leve à palavra de Deus e, se estão condenados à vida de cativeiro, ao menos na morte serão recompensados por Deus, e esses que os cativam não são melhores (ou mais humanos) do que os próprios escravos, por serem brancos ou seus senhores.

REFERÊNCIAS:

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