Mulheres de Atenas: a autoficção na literatura sul-rio-grandense

Luana Isoppo da Silva

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 31, 2019. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Luana Isoppo da Silva
luana.isoppo43@gmail.com
lattes.cnpq.br/7947996497940671
Universidade Federal do Rio Grande
Instituto de Letras e Artes
Rio Grande - Rio Grande do Sul, Brasil

RESUMO: Esse trabalho visa discutir a presença da autoficção na obra Mulheres de Atenas, do gaúcho Jorge Fischer Nunes (1936-1987). Na novela, o autor aborda o período ditatorial brasileiro (1964-1985), combinando elementos ficcionais a fatos autobiográficos. Para entender o texto como autoficcional e, portanto, relacionado à biografia do autor – uma vez que fez parte da militância contra a ditadura militar –, estabeleço comparações entre a história do romance e acontecimentos narrados pelo autor em seu O riso dos torturados, também publicado no começo na década de 1980, e considerado como um livro de memórias. A partir da leitura das duas obras, é possível perceber semelhanças e aproximações entre as memórias do autor e a ficção que o mesmo criou, e, assim, analisar a última como autoficcional.

Palavras-chave: autoficção; memórias; literatura sul-rio-grandense

ABSTRACT: This work aims to discuss the presence of autofiction in the book Mulheres de Atenas, by the Brazilian author Jorge Fischer Nunes (1936-1987). In this work, the author approaches the Brazilian dictatorial period (1964-1985), combining fictional elements with autobiographical facts since he was part of the militancy against the military dictatorship. To understand the text as autofictional and therefore related to the author’s biography, I make comparisons between the story of the novel Mulheres de Atenas and events narrated by the author in his O riso dos torturados, also published in the 1980s as memoirs. Through the reading of the two works, it is possible to perceive similarities between the author’s memories and the fiction he created, and thus to analyze the latter as autofictional.

Keywords: autofiction; memoirs; southern Brazilian literature

 

Conceitos de autoficção e autobiografia

Como nesse trabalho, classifica-se as obras O riso dos torturados e Mulheres de Atenas, respectivamente, como autobiografia e autoficção é importante, primeiramente, discutir a respeito desses conceitos, e sobre como são caracterizados e se diferenciam.

O gênero autobiografia é visto por Lejeune (1975 apud DUARTE, 2010) como regido por um pacto autobiográfico, que determina que a identidade entre autor, narrador e personagem seja a mesma, e que haja um princípio de veracidade, ou seja, um compromisso com o relato verídico. Dessa forma, autobiografia trata-se de um texto que preza pela fidelidade e exatidão em relação aos acontecimentos biográficos. Nesse caso, de acordo com Faedrich (2015) o leitor pode interpretar o texto como verdade, pois o autor o autoriza a isso, diferente do romance, em que o leitor toma o texto como fictício.

Lejeune (1973 apud SILVA, 2012) não reconhecia a existência de pacto romanesco com coincidência de nomes de autor e narrador-personagem, bem como a de pacto autobiográfico em que divergem nomes do autor e do narrador-personagem. Partindo dessa lacuna na classificação de Lejeune, o escritor e crítico francês Serge Doubrovsky cria em 1977 o termo Autoficção, como forma de classificar seu romance Fils, em que há coincidência entre os nomes do autor e do narrador-personagem, embora seja construído em tom romanesco. Pode-se ler na contracapa da publicação de Fils a explicação do próprio autor para sua criação:

Autobiografia? Não, isto é um privilégio reservado aos importantes deste mundo, no crepúsculo de suas vidas e em belo estilo. Ficção de eventos e fatos estritamente reais; se se quiser, autofictions (…) (DOUBROVSKY, 1977 apud DUARTE, 2010, p. 64-65, tradução nossa)

Dessa forma, como aponta Pires (2015), na autoficcção existe a possibilidade da reconstituição do eu, já que o autor pode ficcionalizar eventos reais.

A autoficção pode ser percebida ainda como “um subgênero das escritas de si, da autobiografia” (DUARTE, 2010, p. 21), sendo que o que diferencia uma autobiografia de uma obra de caráter autoficcional é a presença de ficção na última. Isso porque, na escrita autoficcional, ao contrário da autobiografia, não há comprometimento com o real, sendo que, o autor pode tomar para si liberdade de criação poética para utilizar fatos de sua biografia e modificá-los, sem preocupar-se com veracidade dos fatos (PIRES, 2015). Essa questão será analisada no decorrer do artigo, e pode ser observada na obra Mulheres de Atenas, em que o autor ficcionaliza certos elementos de sua biografia, pois possui liberdade criativa própria da autoficção para assim fazê-lo.

Dessa maneira, enquanto a autobiografia estabelece um pacto autobiográfico, “a autoficção estabelece com o leitor um pacto oximórico, que se caracteriza por ser contraditório, por romper com o princípio de veracidade (pacto autobiográfico), e por não se adequar completamente ao princípio de invenção” (FAEDRICH, 2015, p.46). Dessa maneira, os dois gêneros, romance e autobiografia, mesclam-se na autoficção, o que resulta em um texto marcado pela contradição e ambiguidade.

Faedrich (2015, p. 49) aponta que “a ambiguidade criada textualmente na cabeça do leitor é característica fundamental de uma autoficção”.  Isso porque, na autoficção, não fica claro ao leitor se os fatos pertencem ou não a biografia do autor, e nem mesmo se os fatos narrados são verídicos. Essa relação ambígua é estabelecida de forma proposital pelo autor, que em muitos casos lança elementos no texto que indicam a referência biográfica da obra. No caso de Mulheres de Atenas o fato do autor ambientar a narrativa em país fictício, mas com características geográficas, políticas e históricas muito semelhantes ao Brasil aponta para o leitor a possibilidade dos eventos narrados serem reais. Além disso, se o leitor conhece alguns elementos da biografia do autor, através de seu livro autobiográfico, a ambiguidade da autoficção fica mais evidente, já que é possível identificar fatos que apontam para a biografia do autor. No entanto, não é possível distinguir com clareza elementos fictícios e verídicos, o que confunde o leitor e torna a narrativa ambígua.

Outra questão apontada por Faedrich (2015) como um dos aspectos característicos da autoficção é a preocupação estética, ou seja, o rebuscamento no trato com o texto e com a linguagem. Como se trata de um gênero que mescla elementos autobiográficos e romanescos, a autoficção incorpora a estética própria do romance, por isso, os textos possuem uma linguagem mais elaborada, em relação ao gênero autobiográfico.  Também é possível observar esse critério a partir da comparação das obras analisadas: na autoficção de Fischer percebe-se uma maior preocupação com a estética do texto e a elaboração da linguagem em relação à autobiografia do autor.

Mulheres de Atenas e O riso dos torturados

Na novela Mulheres de Atenas, Jorge Fischer elabora uma narrativa em que os limites entre ficção e realidade são pouco definidos, já que fatos autobiográficos e ficcionais são mesclados. A história do livro desenvolve-se em um país fictício chamado Antares, onde, após um golpe militar, uma ditadura repressiva e opressora se instaura. Nesse contexto, acompanhamos a trajetória de um grupo de guerrilheiros que tenta derrubar esse governo ditatorial. O livro é narrado em terceira pessoa por um narrador onisciente, a partir do ponto de vista dos diversos personagens da narrativa.

As semelhanças entre o enredo do livro e fatos da história do Brasil não são coincidência. Apesar de Fischer utilizar nomes fictícios para os lugares e personagens da história, é clara a referência que faz ao período ditatorial brasileiro e à guerrilha da qual fez parte na época. Na novela, é possível relacionar praticamente todos os personagens e lugares citados a elementos da realidade do autor. Brasília torna-se Antárida, capital de Antares; Rio Grande do Sul transforma-se em San Pedro e sua capital, Porto Alegre, é Valerosa na ficção.

Ao escrever sobre si mesmo, Fischer também inclui outros personagens que fizeram parte de sua vida e compartilharam momentos com o autor. Ao inserir a vida do outro na relação com a sua história, o autor de autoficção reconhece, em nível textual, a contribuição dessas histórias na formação do seu “eu”. Assim, são citados muitos personagens que estiveram em contato com Fischer e que também fizeram parte da história do país, como o político e guerrilheiro Carlos Marighella, presente na novela como Don Mano Gueller. Além disso, nomes de companheiros de guerrilha e amigos de Fischer também aparecem na autoficção. É o caso de Djalma que participou de assalto a bancos com Fischer, e que foi citado na obra como Oliveros; Edmur, conhecido como “Gauchão”, que trabalhou no jornal Tribuna Gaúcha, assim como Fischer, e que também participou de guerrilhas contra a ditadura, é mencionado na trama como Edmond.

No prefácio do livro, já é dito que seria impossível separar ficção da realidade na história e que, apesar de Antares não estar presente em nenhum mapa, o país existiu. Esse prefácio contribui para a construção do pacto ambíguo da narrativa, estabelecido de forma proposital, já que, o discurso do autor indica que se trata de uma narrativa com elementos biográficos, porém, o leitor não é capaz de definir quais acontecimentos narrados são de fato verídicos, o que gera ambiguidade. Dessa forma, o prefácio de Fischer indica a natureza autoficcional da história, além de sugerir o objetivo de denúncia da obra, ao expor o que ele e outros sofreram durante a ditadura, já que, apesar de tratar-se, à primeira vista, de uma história ficcional, qualquer brasileiro familiarizado com a história política recente do país reconhece a referência que a novela faz a fatos verídicos e entende a crítica feita pelo livro.

O autor constrói os personagens e acontecimentos da novela a partir de elementos de sua própria biografia, de modo que ficção e realidade se (con)fundem. A identidade da voz autoral torna-se ambígua, visto que o leitor não consegue – e nem deseja – separar os fatos históricos ou que pertencem à biografia do autor dos fatos que são fabulados. Dessa forma, consideramos pertinente a análise da novela de Fischer como uma autoficção.

As semelhanças entre a ficção criada por Fischer em Mulheres de Atenas e sua autobiografia tornam-se mais claras a partir da leitura do livro de memórias do autor, O riso dos torturados, escrito entre 20 de julho e 10 de agosto de 1982, em Porto Alegre, segundo o próprio autor relata na apresentação. É importante apontar que, apesar de não se saber exatamente a data de publicação de Mulheres de Atenas, sabe-se que sua publicação foi feita ainda durante a Ditatura Militar, antes da liberdade de imprensa e da possibilidade de se publicar como um relato autobiográfico. Publicado com o subtítulo de “anedotário da guerrilha urbana”, o livro tem como propósito apresentar uma visão mais crítica em relação à luta armada, em oposição à maioria dos livros memorialísticos desse assunto publicados até então, que apresentavam uma visão unilateral da luta, segundo o autor.

Na apresentação do livro, Fischer comenta sua intenção de escrever dois livros de memórias sobre o assunto, sendo que escreveria primeiro os fatos do ponto de vista cômico e, em seguida, do ponto de vista analítico. No entanto, o último livro não chegou a ser publicado pelo autor. Fischer relata ainda que, “rir foi, também, um modo heroico que os companheiros encontraram de responder à brutalidade da repressão” (FISCHER, 1982, p. 10- 11), e que por esse motivo escreveu O riso dos torturados.

Como o próprio título indica, o livro é escrito de forma leve e descontraída, apresentando muitos capítulos dedicados a episódios anedóticos vividos por Fischer no período ditatorial brasileiro. Dessa forma, o autor destaca principalmente os fatos considerados engraçados que ocorreram com ele e com seus companheiros de guerrilha. Porém, o livro também transmite a dor e o desespero enfrentados pelos torturados, fazendo constantes críticas ao governo e denunciando as injustiças do sistema ditatorial.

No decorrer do livro, o autor cita diversos fatos e muitos personagens que foram companheiros de movimentos contra a ditadura. Muitos desses personagens e episódios narrados em O riso dos torturados podem ser lidos também em Mulheres de Atenas, o que colabora para a sua classificação como autoficção. Para tornar clara a mescla entre ficção e realidade criada em Mulheres de Atenas, apresentaremos os episódios descritos na novela que correspondem aos descritos no livro de memórias do autor e as características do gênero autoficcional presentes na obra.

Semelhanças entre Mulheres de Atenas e O riso dos torturados

A ambiguidade textualmente criada é umas das características da autoficção presente em Mulheres de Atenas. O autor cria um texto que gera ambiguidade, na medida que faz com que o leitor se pergunte se os fatos narrados são ou não reais, ou se fazem parte ou não da biografia do autor. O leitor de Mulheres de Atenas consegue perceber as referências feitas ao contexto histórico brasileiro, a lugares e a indivíduos, mas não consegue definir ao certo que eventos são mais próximos da realidade e quais são criados de forma ficcional.

Outra característica marcante da autoficção que está presente na novela de Fischer é a preocupação estética com o texto e com a linguagem. Apesar de a história se firmar em elementos biográficos, a forma como os fatos são apresentados ao leitor é literariamente elaborada. Os recursos de linguagem, a descrição detalhada dos personagens e lugares, bem como a narrativa em terceira pessoa indicam o projeto literário de ficcionalizar sua biografia. Através da leitura de O riso dos torturados, classificado como memórias pelo autor, podemos perceber esse tratamento com a linguagem de forma mais clara, já que, por vezes, o mesmo episódio é narrado de forma distinta do outro texto, visto que, nas memórias, não há preocupação maior com a linguagem e estética do texto.

Semelhanças biográficas aparecem já nas primeiras páginas de Mulheres de Atenas, quando os personagens Giorno e Oliveros visitam o Hotel dos Aliados a fim de encontrarem-se com Edmond, um dos braços direitos de Mano Gueller, o “chefe” da guerrilha contra ditadura em Antares:

Os dois viram-se diante de Edmond. O temido braço-direito de don Mano Gheller era um negro de traços finos, cujos olhos rasgados, alta estatura e porte desempenado […]. Os modos requintados e a inabalável fleugma daquele gigante de ébano faziam com que, muitas vezes, Giorno se referisse a Edmond irreverentemente: ‘É um súdito de Sua Majestade Britânica. Mas súdito de algum protetorado africano (FISCHER, 198?, p. 10, grifos nossos)

Apesar dos nomes dos personagens terem sido alterados, é clara a alusão feita a personagens históricos, pois esse encontro também é descrito em O riso dos torturados, no capítulo “A admirável loucura”, em que Fischer e Djalma encontram-se, no Hotel Aliado, em Porto Alegre, com Edmur Péricles Camargo, braço direito de Carlos Marighella. Assim, o trecho indica o caráter autoficcional da novela, visto que o autor descreve fatos biográficos utilizando elementos narrativos, típicos da linguagem de romances, como o uso do tempo presente, que faz o leitor acompanhar a história como se ela estivesse ocorrendo no momento em que se lê, e o uso de narrador onisciente em terceira pessoa.

Edmur Péricles Camargo. Negro, alto, forte, porte majestático, imperturbável e bem-educado. Apesar de todo respeito que inspirava, eu costumava dizer, em tom caçoísta, que Edmur era em tudo semelhante a um súdito de sua majestade Britânica– súdito de algum protetorado africano, naturalmente. Conheci-o por volta de 1953 na redação do jornal “A Tribuna Gaúcha”, órgão ligado às lutas da classe operária (FISCHER, 1982, p. 14, grifos nossos)

Dessa forma, encontramos clara correspondência entre Edmond e Edmur, jornalista e ativista político que Fischer conheceu no jornal Tribuna Gaúcha, e com quem participou de movimentos guerrilheiros durante a ditadura militar. Também de acordo com as citações, podemos inferir que o personagem Giorno trata-se da representação do próprio autor, já que possuem falas semelhantes descritas em ambos os livros apresentados. O personagem Mano Gheller, por sua vez, refere-se ao político e guerrilheiro Carlos Marighella. No trecho da autobiografia também podemos perceber que o narrador explicita onde conheceu Edmur, o que confere ao texto um traço de veracidade próprio do gênero, enquanto na autoficção esse detalhe não é exposto, já que o gênero não demanda o pacto de veracidade.

Além disso, Fischer descreve as ações do grupo guerrilheiro do qual fazia parte de forma semelhante em ambos os livros. Conforme relatado nas memórias do autor, inicialmente, esse grupo guerrilheiro realizava assaltos a bancos do Rio Grande do Sul, com o objetivo de levantar fundos para a luta armada no sul do país. No livro, o primeiro assalto descrito é realizado em um banco de Valerosa pelos personagens Edmond e Giorno, o que correspondente ao assalto executado, em Porto Alegre, por Edmur Camargo e Jorge Fischer.

Os trechos seguintes demonstram que o autor utilizou suas memórias e fatos de sua biografia para compor esse trecho do livro. Na descrição do assalto feita na novela, percebe-se uma maior preocupação com a estética e a linguagem, quando o narrador incorpora os pensamentos do personagem Giorno na narrativa, através do discurso indireto livre:

Merda! Isto não é ação de profissional, é arroubo amadorista. Que merda, a falta de uma viatura. Ter de tomar um táxi- que princípio inglório para a resistência sulina!’, Giorno sacudiu a cabeça enquanto pensava. Uma fina garoa caia sobre Valerosa. Ao seu lado , o gigante de ébano continuava impassível. […] Com as suíças oxigenadas e um boné na cabeça, Giorno assemelhava-se a um imigrante italiano. (FISCHER, 198?, p. 30)

Nesse trecho, assim como no anterior, podemos também observar a presentificação do passado, que é uma das características da autoficção, segundo Serge Doubrovsky. O autor aponta que a autoficção é a escrita do tempo presente, ao contrário da autobiografia, que pretende ser um relato retrospectivo (DOUBROVSKY apud FAEDRICH, 2014). Dessa forma, os fatos biográficos são narrados como se estivessem ocorrendo no tempo presente, o que engaja diretamente o leitor, e assemelha-se à linguagem romanesca. No trecho do livro de memórias do autor, podemos observar que ele utiliza o tempo passado, para relatar o mesmo assalto narrado na novela, uma vez que se refere a um fato que já ocorreu em sua vida.

Tudo foi, realmente simples e primário como roubar o doce de um cego. Cortei o bigode, oxigenei as têmporas, coloquei um boné. Era tarde e chovia. Peguei um táxi e mandei que o motorista seguisse por um roteiro pré-determinado. Durante o trajeto conversei amenidades, deixando-o perfeitamente à vontade. No ponto combinado estava Edmur. Apanhei-o e começamos a falar sobre a viagem que devíamos fazer. O banco a assaltar era a Caixa Econômica […]. (FISCHER, 1982, p. 46)

Houve ainda outro assalto realizado pela guerrilha, narrado de forma muito semelhante na novela e no livro de memórias do autor. O grupo M-3G, nome em homenagem a Marx, Mao e Guevara, realizou o assalto a um banco de Cachoeirinha, que na novela é chamada de Fuentenueva. Em ambos os relatos, os assaltantes usaram um carro Citroen preto para chegar ao local, o que incomoda tanto ao narrador da novela, como a Fischer, já que o carro seria facilmente identificável em meio a tantos carros da marca Volkswagen.

Entramos em Cachoeirinha em um velho Citroen negro, presente do tenente Dario. Era um carro reconhecível a quilômetros de distância, na multidão de volks. (FISCHER, 1982, p. 49)

Era um Citroen negro de linhas austeras, corpo longilíneo e luzidio.  Na multidão de Volkswagen parecia tão anacrônico quanto um galeão de piratas a tremular sua bandeira negra entre os modernos iates de recreio. (FISCHER, 198?, p. 40, grifos nossos)

Observa-se novamente a diferença entre, respectivamente, o relato autobiográfico e o relato autoficcional no que diz respeito à linguagem. Enquanto no primeiro trecho, extraído das memórias do autor, a linguagem é direta e objetiva, apenas descrevendo as características básicas do carro e da situação, no segundo trecho, que relata o mesmo episódio, a linguagem é mais elaborada, com uso de mais adjetivos que caracterizam o carro, além de comparações a um galeão de piratas, que ilustram a estranheza que o veículo causaria do momento. Isso ocorre porque o texto autoficcional, apesar de ter elementos autobiográficos, caracteriza-se por apresentar características do gênero ficcional, como a preocupação com a estética do texto.

Depois de assaltarem o banco, o grupo é barrado pela Polícia Federal na saída da cidade. Como descrito no livro, para a sorte do grupo, um policial que simpatizava com a luta contra a ditadura descreveu o carro propositalmente de forma errada quando emitiu um alerta às demais viaturas da área, impedindo, assim, a prisão de Fischer e de seus companheiros.

A primeira camioneta da polícia dobrou a esquina, uivando como um lobo enlouquecido. Entrincheiramo-nos atrás do carro, prontos para uma resistência desesperada, mas os policiais passaram por nós e continuaram sua desabalada carreira. (FISCHER, 1982, p. 51, grifos nossos)

O trecho acima, referente ao O riso dos torturados, relata o acontecimento do ponto de vista de Fischer, já que se trata do relato de suas experiências com o episódio. Nesse caso, o texto autobiográfico apresenta características próprias da ficção, como uso de comparações e metáforas (em destaque), o que indica que a autobiografia também pode apresentar figuras de linguagem presentes no gênero ficcional. Isso demonstra que a definição e classificação de gêneros literários são complexas e por vezes controversas, já que os textos não seguem sempre um padrão predefinido.

Apesar disso, é possível perceber que o mesmo episódio, narrado na novela Mulheres de Atenas, apresenta maior descrição de detalhes da cena, além do uso de figuras de linguagem (metáforas em destaque) próprias da estrutura de narrativa ficcional:

Assediados pelo grito desvairado das sirenas, redobraram seus esforços. Se fossem cercados teriam de lutar. Nesse caso, as chances de sobrevivência eram diminutas. De repente, uma viatura policial surgiu na esquina e, como num acordo tácito, ambos soergueram-se, prontos a empunhar as pistolas e revidar o cerco a bala. Mas, para espanto dos dois, os policiais passaram por eles sem parar. (FISCHER, 198?, p. 43, grifos nossos)

Outro fato a ser considerado é o ponto de vista do narrador em ambos os livros. Em seu livro autobiográfico, o autor relata os fatos unicamente de seu ponto de vista, sendo a narrativa em primeira pessoa. O livro autoficcional, por outro lado, apesar de conter muitos episódios da vida do autor, é narrado em terceira pessoa, o que indica que Fischer ficcionaliza muitos acontecimentos, envolvendo suas memórias. O autor ficcionaliza situações das quais não participou, mas que envolviam companheiros, ou até mesmo cria novos personagens que se envolvem em episódios de sua história.

É o caso da narração, em Mulheres de Atenas, do policial que ajuda o grupo de guerrilheiros a escapar da polícia na ocasião do assalto, porque seu pai havia sido torturado e morto pela ditadura. Na novela, Fischer inclui uma história em torno desse policial, que não é citado em sua autobiografia, para justificar seu ato naquele momento da história.

Agora, na sala de comunicações de PCC, Erno Kruger, polícia militar de primeira classe, apanhou os fones do gancho, colocou-os sobre os ouvidos e irradiou o aviso: -Atenção todas as viaturas próximas a ponto Fuentenueva- Valerosa, atenção: cacem um Chrysler cor amarela, ano 1964, com três ocupantes, todos os três louros. Cuidado: são assaltantes de banco, fortemente armados. – […] Sentiu que, de algum modo, havia prestado um serviço ao pai. (FISCHER, 198?, p. 44)

Outro fato que Fischer incorpora em sua narrativa autoficcional é a morte do tenente Manoel Raymundo Soares, que teve seu corpo encontrado boiando nas águas do rio Guaíba em 1966.

Figura 1. Artigo de jornal sobre a morte de Manoel Raymundo Soares
Fonte: Correio do Povo, 1º set. 1966

Apesar desse fato não estar relacionado diretamente à biografia do autor, o acontecimento mostra como Fischer foi influenciado pelo momento histórico que viveu, incorporando fatos históricos desse período em Mulheres de Atenas. Na ficção, o tenente Raimundo é referido como Manuelito, que faz alusão a seu primeiro nome, Manuel, como podemos observar no primeiro trecho seguinte:

O tenente Manuelito fora um dos primeiros militares de baixo escalão a rebelarem-se contra o ainda não consolidado poder do general Emílio Echevarria. Desertara de sua unidade em San Sebastián para juntar-se a Mano Gueller. Alguns meses depois, aparecia morto na cidade de Valerosa, capital de San Pedro. Seu corpo, já meio carcomido pelos siris, boiava nas águas do rio Robles. Tinha as mãos algemadas às costas, marcas de sevícias disseminadas pelo corpo e, de acordo com a versão oficial, tratava-se de um evidente caso de suicídio. (FISCHER, 198?, p. 36)

Raimundo viera clandestinamente do Rio de Janeira para integrar-se ao 26 de Julho, no Rio Grande do Sul. Para recebe-lo, o Movimento designou Edu Rodrigues – o delator Faquir Aladim, que o entregou diretamente à polícia. Mais tarde o corpo de Raimundo apareceu boiando nas águas do Guaíba, com as mãos amarradas às costas e evidentes sinais de tortura. […] o crime das mãos amarradas, como ficou conhecido, teve o mesmo destino dos rigorosos inquéritos […], jamais apareceram culpados. (FISCHER, 1982, p. 35)

Outro episódio histórico relatado em Mulheres de Atenas diz respeito à tentativa de sequestro do cônsul americano Curtiss Cutter em 1970 em Porto Alegre. Na novela, o sequestro é planejado e executado por companheiros de uma outra organização militante, que não reportaram o plano a Edmond.

Tudo fora, no entanto, bem planejado. […] No local escolhido, jogaram o Chrysler à frente do carro do cônsul, para intercepta-lo. […] Refeito do susto, o cônsul avaliou a situação e acelerou. Atropelou o homem armado a sua frente, sentindo o impacto das rodas triturando as pernas do homem. […] “Mais um fora de combate”, pensou o cônsul. (FISCHER, 198?, p. 35, grifos nossos)

No trecho pode-se perceber que o fato é narrado do ponto de vista do personagem envolvido na ação e, por isso, o narrador justifica o ato, argumentando que o sequestro fora bem planejado. No entanto, no relato de suas memórias, Fischer comenta que a ação foi mal planejada, já que os companheiros não levaram em conta a experiência do cônsul adquirida na guerra. Dessa forma, pode-se perceber como Fischer ficcionaliza eventos que fizeram parte de sua vida e, também, os que não estiveram envolvidos diretamente.

Pelo pouco que pude saber, creio que os companheiros da VPR, encarregados da operação, subestimaram certos detalhes. O cônsul Curtiss Cutter era um veterano da Guerra do Vietname, e isto devia ter sido levado em consideração. […] Ao ver a frete do seu Tiger cortada, Curtiss acelerou o carro, empurrou o fuca para o lado, atropelou um dos militares, a quem quase arrancou um braço, e fugiu do cerco. (FISCHER, 1982, p. 35)

Além disso, o uso do discurso direto pelo narrador para apresentar os pensamentos do cônsul (“’Mais um fora de combate’, pensou o cônsul”), é mais um recurso literário usado na narrativa autoficcional, que mostra que o autor, mesmo inspirado em fatos autobiográficos, os reconstrói de forma romanceada.

O relato da queda do grupo armado, descrito nas memórias do autor, também é narrado nas últimas páginas de Mulheres de Atenas. O grupo realiza seu último assalto em um Banco do Brasil, na cidade de Viamão, equivalente a Miramanos na ficção. Em O riso dos torturados, o episódio é narrado de forma objetiva, na terceira pessoa.

O M-3G começou a cair após o assalto ao Banco do Brasil, em Viamão. […] O Banco ficava praticamente ao lado do quartel da Brigada. “Bicho” Schiller, fardado de sargento da Brigada, e Martinha entraram no Banco, renderam o pessoal e ultimaram a expropriação. […] Do lado de fora, um caminhão com a carroceria cercada por fardos de alfafa. No centro da carroceria, entre os fardos, uma metralhadora pesada apontava para o quartel. […] A expropriação chegou a bom termo, o automóvel marchou para o seu “aparelho”. O caminhão foi levado para uma chácara, de propriedade de Dario, que ficada a poucos quilometro dali, na própria cidade de Viamão. (FISCHER, 1982, p. 57)

Na novela, por outro lado, percebe-se que, apesar de tratar-se dos mesmos fatos sendo narrados, a estrutura narrativa é diferente. O fato é narrado do ponto de vista do gerente do banco, Alfredo, que estava em um bar na frente do banco no momento do assalto. Nunes cria esse personagem, que não é citado nas memórias, e usa seu ponto de vista para contar o episódio do assalto, o que cria um efeito estético literário à narrativa.

Veio rodando de mansinho, a carroceria carregada de alfafa. Encostou defronte ao banco. Na cabina havia apenas o motorista, que permaneceu sentado. Logo em seguida mais dois caminhões pararam defronte ao destacamento militar, quase ao lado do banco. Depois o Chrysler azul encostou, também diante do banco, e Alfredo viu os dois passageiros. (FISCHER, 198?, p. 74)

Fischer também narra, em ambos os seus livros, a tentativa do ex-tenente Dario Viana dos Reis, também participante do movimento guerrilheiro, de livrar-se das armas usadas no assalto ao Banco do Brasil em Viamão. O episódio, que encerra Mulheres de Atenas, é referente à ideia de Dario de utilizar um ônibus como transporte para as armas, que acaba gerando a prisão de muitos participantes do movimento, incluindo a de Fischer.

Estava decidido. Havia barreiras em todas as estradas que levavam a Valerosa. Os automóveis estavam sendo revistados – mas os ônibus não. Por outro lado, era arriscado deixar a metralhadora na granja de Reyes. Alguém poderia lembrar-se que aquele afável tenente havia sido reformado exatamente por não ter apoiado o golpe do generalíssimo Emilio Echevarria e sugerir uma revista a sua propriedade rural. (FISCHER, 198?, p. 80)

As estradas de Viamão estavam bloqueadas, todos os automóveis particulares eram revistados. Mas o mesmo não acontecia com os ônibus. Que melhor meio de retirar as armas dali do que utilizar um transporte coletivo? Chamou seu chacareiro, colocou as armas em um saco e mandou que o homem as levasse para um esconderijo mais seguro. (FISCHER, 1982, p. 58)

Dario decide seguir o ônibus em que as armas estavam sendo transportadas, o que levanta suspeitas do cobrador e motorista do ônibus, que comunicam a polícia a respeito. Ao ver a polícia interceptar Dario, o chacareiro que portava as armas, abandona a metralhadora no ônibus e foge, com medo de ser preso. Assim, depois de encontradas as armas, a polícia liga Dario ao assalto e consegue prender outros participantes do movimento que estavam escondidos em sua chácara. A narrativa da novela é finalizada com o relato do delegado responsável pelo caso descobrindo os responsáveis pelos assaltos, sugerindo a prisão dos personagens envolvidos nas ações. Dessa forma, a partir desse episódio de sua biografia, Fischer cria uma situação envolvendo o delegado que descobriu a organização, ou seja, ele elabora mais elementos e situações ficcionais com base naquilo que teve como experiência.

Conclusão

Dessa forma, através da exposição da análise das obras de Jorge Fischer, conclui-se que a Mulheres de Atenas tem caráter autoficional, uma vez que é possível relacioná-la com relatos feitos pelo autor em seu livro autobiográfico e ainda com fatos e personagens históricos. Podemos perceber elementos característicos da autoficção na obra do autor, como a presença da ambiguidade na narrativa, que oscila entre elementos autobiográficos e fictícios, e a linguagem literário que é utilizada para narrar os eventos.

Assim, apesar do conceito de autoficção ser relativamente recente nos estudos literários sobretudo no Brasil, podemos constatar que se trata de um tema relevante para pesquisa e análise nessa área, já que está presente em diversas obras, como a analisada, e possibilita novas reflexões acerca de questões como o limite entre verdade e ficção, e o próprio conceito de literatura.

Referências

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FAEDRICH, Anna. O conceito de autoficção: Demarcações a partir da literatura Brasileira contemporânea. Itinerários, Araraquara, p. 45-60, 2015. Disponível em: <https://periodicos.fclar.unesp.br/itinerarios/article/viewFile/8165/5547>. Acesso em: 11 ago. 2018.

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