Apresentação e editorial

Leandro Scarabelot, Thais Piloto

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 34, 2020. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Eis o momento tão esperado: a nova edição da Mafuá. O mundo não mudou muito desde a última que foi lançada. Ele continua cheio de medos e incertezas, mas, se há algo que não precisamos temer é ficar sem o novo número da revista. A presente edição está repleta de coisas boas: seis artigos, três ensaios, uma tradução, uma entrevista, uma obra rara, três criações e, ainda por cima, uma surpresa que deixamos para o final desta apresentação. Sem mais delongas, passemos aos textos:

No artigo Ver com a imaginação: a representação iconográfica de Doré e Dalí em Dom Quixote, de Eduarda Duarte Pena e Joana Gonçalves Coelho Silva, temos um estudo do primeiro livro de Dom Quixote a partir de uma perspectiva intersemiótica. Nele, as autoras analisam de que forma algumas das ilustrações de Gustave Doré e Salvador Dali não só complementam, mas também ressignificam o texto verbal de Cervantes.

Em A inquietação intelectual de Jane Eyre: uma perspectiva histórica, de Filipe Chernicharo Trindade, encontramos uma discussão acerca de alguns dos aspectos sociais da construção da personagem de Jane Eyre, do romance homônimo de Charlotte Brontë. Para tal, além de trazer uma breve contextualização histórica e a análise de excertos do romance, o autor também explora brevemente a figura e a posição da governanta na era vitoriana.

Em O nome vermelho de Yosano Akiko: uma contraleitura da influência ocidental, de Herick Martins Schaiblich, o autor contextualiza as condições sociais, políticas e culturais do Japão a fim de confrontar a ideia de que alguns elementos da obra de Yosano Akiko – como o teor erótico, feminista e transgressivo de seus poemas – não se devem direta e irrevogavelmente à influência modernizadora do ocidente.

Por sua vez, o artigo Contos “Obsessão” e “Pai contra mãe” em correlato aos cadernos negros, de Maklina Dos Santos Almeida, discute tanto o significado da reconstrução da conscientização e preservação identitária coletiva do negro no Brasil, por meio da memória da sua ancestralidade africana e do confronto aos estereótipos criados pelas narrativas da cultura dominante, quanto a violência cultural e a ideologia do branqueamento, que têm raízes na história do Brasil escravocrata e que, ainda hoje, contribuem para a invisibilidade dos negros e negras de nosso país. 

Em seu ensaio A representação do negro no conto machadiano, Samara Lima traz uma nova leitura de Machado de Assis, partindo de uma leitura revisionista que pensa o autor como pertencente à literatura afrodescendente, aplicando-a em alguns de seus contos, como “O caso da Vara” (1899), “Pai contra Mãe” (1906), “O espelho” (1882) e “Mariana” (1871).

Milene Gayer Goulart, no ensaio A construção da identidade em Onde andará Dulce Veiga?, de Caio Fernando Abreu, parte do romance Onde andará Dulce Veiga?, de Caio Fernando Abreu, e das memórias do protagonista para discutir a construção da identidade individual no contexto urbano e pós-moderno de 1980.  

O ensaio “O segredo mortal das velhas”: a velhice em um conto de Clarice Lispector, de Paloma Flávio Betini, trata da fase da velhice retratada por Clarice Lispector em “A Procura de uma Dignidade”, destacando a intimidade e sexualidade das senhoras presentes no conto.

Pedro de Oliveira Rodrigues, em A figura feminina em Gil Vicente: Uma análise da oposição entre a tradição e a modernidade em A Farsa de Inês Pereira, parte de três personagens, Inês Pereira, a Mãe de Inês e Lianor Vaz, presentes em A Farsa de Inês Pereira e do contexto histórico de Gil Vicente para discutir a figura feminina construída pelo autor, pensando na oposição do ideal de mulher conservador e naquele que surgia na época.

Por fim, o artigo Humor sombrio e melancolia em A lua vem da Ásia, de Campos de Carvalho, de Pablo Vinícius Nunes Garcia trata a oposição do humor sombrio e da melancolia que envolve a construção dos personagens presentes no livro A lua vem da Ásia, de Campos de Carvalho, abordando questões voltadas ao material e ao abstrato.

Há também a tradução de um texto dos Essays and Lectures, de Oscar Wilde, por Luis Felipe Dias Ribeiro e Mateus Vitor da Silva Lima, no qual o escritor britânico reflete não apenas sobre o papel do artista e do artesão, mas também sobre o trabalho artístico e o que se deve esperar dele, além de expressar sua admiração pelas escolas de belas-artes norte-americanas e incentivar que elas criem uma arte a partir de elementos locais.

Ainda nesta edição, há uma entrevista com Demétrio Panarotto (músico, compositor, produtor cultural, escritor, pesquisador e professor), que comenta sobre as suas atividades e como elas se relacionam. Além disso, ele também nos apresenta alguns dos trabalhos e projetos que vem desenvolvendo no campo cultural, bem como alguns dos livros e filmes em que está trabalhando no momento. Fala ainda sobre a banda Repolho e o projeto Irmãos Paranotto, e sobre o livro Cerzindo e Cozendo (2020), lançado pela Butecanis Editora Cabocla, além de explicar de forma mais detalhada o que é a Quinta Maldita, um de seus projetos culturais que continua espalhando a literatura mesmo em tempos de pandemia. Numa palavra: imperdível.

Esta edição também traz uma obra rara: Traços e troças, de José Lopes Pereira de Carvalho, com a apresentação da nossa querida Samanta Maia. Trata-se de um pequeno livro de poemas satírico-humorísticos, que originalmente foram publicados na seção homônima da “Revista da Semana” (RJ), em 1913. Como bem pontua nossa apresentadora, embora algumas de suas troças estejam ligadas ao contexto de origem, elas bem que poderiam servir pros dias atuais. Vale a leitura!

Esta edição ainda conta com três criações:

O conto O Que o Mar Leva Consigo, escrito por Thyago Costa, relata o encontro de um pai com seu filho, refletindo sobre os acontecimentos da vida e sobre o envelhecimento. 

No conto Laura, Filipe Chernicharo nos apresenta às indagações e divagações de Laura, personagem principal, por meio de seu fluxo de consciência.

Já em A despeito de um Anjo Torto: notas telegráficas sobre a poesia de Augusto dos Anjos, Rafael Passos traça um breve, porém interessante roteiro cinematográfico entrelaçando imagens do Recife e poemas de Augusto dos Anjos, aliados a músicas e narrações em off.

Ah, sim! Quase nos esquecíamos de falar sobre a surpresa que mencionamos no início. Esta edição da Mafuá conta com uma grande inovação vanguardística: o Mafuácast, o podcast da Mafuá. Nas vozes de Vinícius Rutes, Karem Caroline e Samanta Maia, o primeiríssimo podcast da Mafuá tem como tema a Literatura nas novas mídias, discutindo não apenas o acesso das literaturas nesses espaços digitais, mas também algumas questões que se popularizaram há algum tempo, como os booktubers e sua relação com a publicidade e a crítica literária, além de muitos outros assuntos relacionados ao tema e que foram surgindo durante sua gravação. 

Agora que você já sabe o que vai encontrar nesta edição, puxe uma cadeira confortável, pegue uma bebida de sua preferência e desfrute deste excelente material. Até a próxima!