Literatura contemporânea: uma faceta cínico-performática

Tiago Henrique Cardoso

RESUMO: Este ensaio investe em práticas investigativo-analíticas com o objetivo de analisar ao menos uma vertente da literatura produzida a partir dos anos 90. Nossa hipótese é de que os escritores deste período investem no cinismo e na performance para construírem suas narrativas. Para isso, nos baseamos teoricamente nos estudos de Peter Sloterdijk (1987), buscando analisar os romances Mastigando Humanos (2006) de Santiago Nazarian e O Paraíso é bem Bacana (2006) de André Sant’Anna.

PALAVRAS-CHAVES: literatura contemporânea, cinismo, performance.

ABSTRACT: In this essay, investigate and analytical practices are used in order to analyze at least one aspect of the literature produced from the 90’s to the present day in Brazil. Our belief is that the writers of such period deal with cynicism and performance in their narratives construction. Therefore, our theoretical basis is Peter Sloterdijk’s studies (1987), whose ideas conduct our analysis of the novels Mastigando Humanos (2006) by Santiago Nazarian and O Paraíso é bem bacana (2006) by André Sant’Anna.

KEY-WORDScontemporary literature, cynicism and performance.

Acreditando na possibilidade de pensar o presente, este ensaio se propõe analisar ao menos uma faceta, denominada por nossa argumentação como cínico-performática, na literatura contemporânea. Nesse sentido, este ensaio se configura como uma espécie de primeiro passo de uma longa e ambiciosa prática investigativa cuja finalidade é analisar uma estratégia ficcional, possível de ser identificada na atual literatura brasileira.

A ousadia da prática investigativa reside na própria possibilidade de se estudar o presente literário. Tendo em vista o grande número de publicações produzidas atualmente, e consciente da falta de um cânone, estudar a atual literatura implica libertar-se de valores pré-estabelecidos: enfrentando num duelo corpo-a-corpo o desafio de pensar novas perspectivas teóricas para se ler o grande número de publicações que vêem surgindo a cada ano. Isso significa forjar novas ferramentas, assumir novas posições e encarar com olhos de madeira a literatura contemporânea, acreditando, muitas vezes, em repostas tão incertas e efêmeras quanto o próprio objeto de estudo.

Portanto, arriscar pensar o presente, significa, num primeiro momento, não encontrar chaves, mas enigmas. A primeira tarefa é encontrar as fechaduras: as hipóteses mais adequadas para pensar este labirinto de textos literários que se coloca diante de nós. Talvez seja uma tarefa ingrata, mas necessária, pois contribuir com informações concretas e hipóteses satisfatórias é um passo fundamental da crítica teórica, constituindo-se num elemento significativo para a reflexão sobre o presente.

Pretendemos, portanto, tangenciar, durante este ensaio, algumas problemáticas que permeiam a atual literatura, apontando pelo menos uma estratégia ficcional, uma face desta literatura de muitas faces.

Em um dos ensaios do livro A literatura latino-americana do século XXI, a pesquisadora Paloma Vidal (2005) sugere que a questão principal das novas narrativas diz respeito ao modo de como contar e abordar uma realidade homogeneizada pela conformidade mercadológica e complexificada pelo excesso de informações. Dialogando com Sloterdijk (1987), Vidal acredita numa postura cínica diante da realidade: “(…) o cinismo, uma espécie de zeitgeist[i] contemporâneo, é uma resposta às falsas promessas da modernidade” (VIDAL, 2005, p. 172).

O cinismo se constitui, portanto, como um comportamento discursivo próprio da civilização que nos ‘toca viver’. Devemos entendê-lo não como uma postura individual, mas sim como um dos modos de estar (ser?) da atual civilização, conforme afirma o psicanalista Ricardo Goldenberg (2002). “Possibilidade que reflete menos uma mudança na superestrutura da sociedade que uma mutação do discurso dominante responsável pela sua infra-estrutura” (GOLDENBERG, 2002, p.14).

O conformismo, a apatia e a acomodação seriam os pares constante de um comportamento cínico que se reflete em todas as esferas da sociedade. Na era atual, em meio a paradoxos e contradições, uma coisa é certa: vivemos sob o império do cinismo, e a literatura, nosso objeto de estudo, talvez não seja uma exceção.

Em um ensaio publicado em 1987, Antonio Candido identificava as produções ficcionais da década de 80 a uma literatura do contra. O autor sugeria que a literatura começava a tomar posições contrárias ao que era comum, ou seja, ao que era valorizado pelo cânone literário: como a escrita elegante, a convenção realista e verossímil e a lógica narrativa. Além disso, num âmbito mais do contexto social do que propriamente do literário, a literatura das décadas de 70 e 80 tomava posições político-sociais contrárias as já estabelecidas – uma literatura que ia contra uma ordem social, mas que não se deixava enredar pelo caminho do panfletarismo, ou por posições políticas demasiadamente engajadas.  Um comportamento, por sinal, sintomático, dado o próprio momento histórico pós-ditatorial, que “aguçou por contragolpe, nos intelectuais e artistas, o sentimento de oposição, sem com isto permitir a sua manifestação clara” (CANDIDO, 1987, p.212).

A década de 90 sugere outro pano de fundo histórico, não há mais o inimigo concreto contra o qual lutar, no entanto, será possível conservar a denominação ‘literatura do contra’ para as produções do período?

Acreditamos que a presença de um cinismo ‘escancarado’, não corroborador da apatia, mas funcionando como mote para desvelar justamente a apatia e a acomodação esteja presente em uma vertente da literatura contemporânea, ou seja, o próprio cinismo, numa reversão de sua acepção comum, serviria como atuação capaz de suscitar reflexões e problematizar questões importantes que cercam nossa sociedade.

Essa postura cínica sugere um novo tipo de comportamento: do tipo agressivo e não apático, conforme já aludimos. Sloterdijk (1987) caracteriza esse outro lado da moeda e se vale de uma das figuras mais conhecidas da antiga Grécia: Diógenes, o perfeito cínico. O filósofo grego, conhecido como o Cão, era a favor dos ideais de Sócrates; revoltava-se, entretanto, contra a teoria das idéias e o legado do mestre de Aristóteles: Platão. O cão se convencia de que as normas sociais eram um veneno contra a naturalidade e a liberdade do homem. Diógenes, no entanto, nunca escreveu nada a respeito de sua postura, suas palavras eram seu corpo, coladas à ação. Diógenes encarnava em si os preconceitos da sociedade, e expunha o seu dito segundo seus fazeres, de acordo com um plano de ação agressivo, que atacava com as armas do riso e do escárnio diretamente as convenções sociais. Por isso, o perfeito cínico não se importava em jogar os valores cultivados pela sociedade na lata do lixo: andava como um mendigo – descalço e com roupas maltrapilhas – e, onde quer que estivesse, de preferência num local público, fazia suas necessidades fisiológicas.

A faceta cínica ilustrada pelos procedimentos de Diógenes é nomeada por Sloterdijk (1987) kúnica, vocábulo que se liga à palavra cão. Isso nos leva a entender que esse outro indivíduo, consciente de sua postura, assume um comportamento similar ao que verdadeiramente foi um cínico. Logo, esse comportamento não reforça a idéia de uma postura que alude ao conformismo, à apatia e à acomodação, como sugere o tão badalado cinismo, ou ao menos sua faceta mais vulgarmente conhecida.

Afirmar a reatualização de um comportamento nascido na Grécia não é ser ingênuo a ponto de acreditar que haja uma linha de continuidade ininterrupta entre a contemporaneidade e a antigüidade. Sabemos que as transformações ocorridas, ao longo da história, nos distanciam muito da antigüidade. Mas, acreditamos que é possível reatualizar o cinismo, interpretando-o como um modo de operação próprio ao contemporâneo, conforme aponta a argumentação do filósofo alemão Peter Sloterdijk. Nesse sentido, a figura de Diógenes pode concretizar um procedimento próprio ao que identificamos no cinismo das narrativas contemporâneas: a performance.

Assim, acreditando no caráter simulado e momentâneo da performance, não seria demasiado dizer que esta constitui-se como a principal estratégia deste cínico agressivo, pois, assim como os próprios dizeres de Diógenes eram performáticos, os dos escritores da era atual que investem na literatura cínica também o são. Goldenberg (1987) afirma que a retórica cínica “(…) inclui uma dimensão performativa e deve responder aos seguintes critérios: pragmatismo, improviso e humor” (GOLDENBERG, 2002, p. 61). É devido a isso que os textos literários de hoje se apresentam tão escorregadios frente a qualquer postura de leitura, dado seu caráter performativo, fugaz.

Podemos notar essa postura dúbia e fingida (cínico-performática) nas construções narrativas, como no trecho abaixo transcrito do conto “Darluz” do escritor Marcelino Freire[ii] (2003):

Dei José, dei Antônio, Maria, dei. Daria. Dou. Quantos vierem. É só abrir o olho. Nem bem chorou, xÔ. Não posso criar. É feito gato, não tem mistério. É feito cachorro de rua, rato no esgoto. Moço, quem cria? Não é fácil pimenta no cu dos outros. Aí vem a madame, aí vem gente dizer: arranje um trabalho. Arranje você. Me dê o trabalho, agora. Não sei ler, não sei escrever, não sei fazer conta: José, Antônio, Maria, Isabel, Antônio. Dou nome assim só pra não perder. Quem mais? Evoé, Evandro. Agora chamem como quiser. O filho depois ganha vida importante. Sei de um que até é doutor sei-Iá-de-quê, eu estou pouco me lixando.

O conto acima é narrado por Darluz, uma prostituta. A narrativa constitui-se como um desabafo da prostituta contra as reações adversas dos outros diante da sua atitude de entregar ou vender seus filhos a estranhos. Note que Darluz bestializa os estereótipos que ‘naturalizam’ sua presença no nosso ‘mundo cão’ (“Aí vem a madame, aí vem gente dizer: arranje um trabalho.”) Agressivamente, a prostituta retruca à sua maneira a extrema brutalidade do papel social que lhe coube nesse latifúndio.

Cinicamente, o conto investe numa imagem estereotipada da figura da prostituta e investe num discurso quase-denúncia, porém banalizado, quase naturalizado pelo senso comum. É como se Marcelino aproveitando-se da própria lama em que pisa jogasse-a na cara dos que ao seu redor estão. Ele se vale dos próprios paradoxos da sociedade para criticá-los, escancarando-os, performatizando-os. O autor abre mão do improviso, trabalhando na sua descaracterização, mimetizando o lugar-comum, apossando-se do discurso ideológico, criticando-o ao mesmo tempo. Uma artimanha que Azevedo (2004, p. 42) denomina “operação de travestismo”, que “(…) efetiva-se pela simulação das imposturas, pela encarnação dos preconceitos e lugares comuns assumidos como atitudes próprias da persona narrativa, fazendo, assim, o jogo do inimigo”. Metaforicamente, entendemos, a atitude cínico-performática como o ato de ‘cutucar feridas’. É o cinismo de Diógenes na era contemporânea. Uma literatura do contra.

Voltando ao cínico kúnico, é preciso considerar, agora, seu modo de atuação. Ao objetivar, de um lado, a desestabilização de valores culturais e políticos legitimados, e ao desconfiar, do outro lado, da própria crítica ideológica, a performance cínica é difícil de classificar, sua posição é sempre instável.  É o que tenho notado nas atuais narrativas, e é o que pretendo demonstrar numa breve comparação entre dois romances, ambos publicados após a virada do milênio, em 2006: Mastigando Humanos[iii] de Santiago Nazarian (2006) e O paraíso é bem Bacana[iv] de André Sant’Anna (2006).

A justificativa do corpus é simples: são autores contemporâneos, cujas produções podem tornar rentável a investigação sobre o que denominamos a estratégia cínico-performática, uma vez que a persona narrativa construída em suas produções encarna a instabilidade do que chamamos de performance cínica: de um lado, um jacaré existencialista, irônico e desdenhoso, que a partir do esgoto, sem defender o underground, acusa as mazelas do mundo pop pós-moderno, do outro, um narrador que se nega a todo o momento (o mote recorrente da narrativa é a expressão ‘Mas não’), e cede espaço a uma gama de personagens peculiares que encarnam uma verve preconceituosa.

O jacaré, de Mastigando Humanos, é Victorio. Personagem e narrador, Victorio resolve narrar suas memórias, acreditando ter uma história singular, digna de ser transmitida: “Mas antes de tudo, deixe-me particularizar. Sim, esta é uma história particular. Não conheço outros jacarés como eu.” (NAZARIAN, 2006, p. 14). As memórias de Victorio são o próprio romance.

Victorio sai da sua pacata vidinha de réptil para se aventurar nos esgotos de uma grande metrópole, provando o gosto dos subterrâneos. A mudança de ares, bem como o contato com os dejetos humanos transformam Victorio num ser capaz de escrever, refletir e criticar. “Era uma vida nova e eu me adaptaria a ela, mesmo em novas escamas, novas lágrimas, níveis tróficos alterados.” (NAZARIAN, 2006, p.15).

Existencialista ao extremo, Victorio relata suas memórias, dividindo-as em três partes, apresentadas linearmente, segundo a ordem de acontecimento dos fatos. O romance é entremeado de idéias e reflexões (pseudo?) filosóficas, bem como literárias, pois não se trata unicamente de um livro de memórias, mas de uma tese sobre racionalidade com a qual Victorio almeja conquistar uma posição de destaque dentro do âmbito acadêmico.

O jacaré não é o único personagem peculiar em Mastigando Humanos, uma gama variada de estranhos personagens partilham o palco com Victorio: um sapo boêmio, um simpático tonel de óleo, ratos burocratas, um malandro aracnídeo, uma serpente mal-encarada, entre outros. Todos partilhando características humanas, praticando ações humanas, alimentando-se de vícios humanos.

Victorio é um cínico esclarecido, do tipo inconformado, zombeteiro, irônico e desdenhoso. Sua única preocupação é a busca pela liberdade, pela vida sem restrições. Daí a aporia em que se instala durante três momentos da narrativa: a primeira quando, nos esgotos undergrounds, Patriarca, um esperto esquilo, resolve implantar uma política de troca nas galerias subterrâneas, construindo uma gigantesca rede comercial, onde tudo é selecionado e inspecionado. O jacaré não aceita a nova organização, mas, sua recusa à nova ordem implica em não colocar sua boca em exercício. Instala-se a aporia em Victorio. Nem mesmo o apelo ao seu melhor amigo (Vergueiro) o auxilia: “Ora, meu amigo, você e suas teorias conspiratórias. Deixe disso. Eles estão botando ordem na casa. (…) Além do mais, agora posso comprar cigarros novinhos, inteiros, sem ter de sair à rua” (NAZARIAN, 2006, p. 57).

Não tendo escolhas, o protagonista deixa se levar quase cinicamente (ou seria kunicamente?) pelas profundezas da solidão: “Se nem todas as profundezas podem ser solitárias, nenhuma solidão chega a ser rasa, não é mesmo?” (NAZARIAN, 2006, p. 59).

A segunda situação coloca o jacaré diante da burocracia acadêmica. Ao apresentar seu livro de memórias como tese, Victorio não encontra aprovação total:

A tese que eu escrevia, na verdade, era este livro. Eu aproveitava o tempo que deveria dedicar à pesquisa para revirar meus neurônios e escrever minhas memórias. Tinha pretensões, grandes pretensões. (…). Eu queria era ser escritor. Contar ao mundo todas as minhas idéias e minha história. Dra. Blanche, que acompanhava de perto minha produção, continuava me criticando, dizendo que eu não me decidia entre literatura e filosofia. Que como tese filosófica era muito senso comum, e como literatura era muito dogmática. (NAZARIAN, 2006, p. 181).

Dra. Blanche, embora não soubesse, acusa diretamente o comportamento cínico de Victorio ao afirmar sua posição intermediária entre o senso comum e o dogmatismo (este último resultado da crítica ideológica).

O último momento ocorre quando Victorio se dedica à finalização de suas memórias, vivendo os impasses de um escritor, momento no qual o narrador-personagem se encontra em xeque: escrever um livro para “boiar no mar da arte” ou escrever um livro para ser “resgatado pelo transatlântico da indústria cultural”?

O cínico inconformado, kúnico nas palavras de Sloterdijk (1987), revela, conforme os impasses de Victorio, sua resistência diante da apatia e da estagnação, vivendo uma constante aporia, preso em suas próprias crenças inconsistentes:

Amizade é a forma do hambúrguer para se distanciar da vaca morta. E não venham dizer que isso é pensamento de réptil! Os cínicos que me acusam de sangue-frio já pensaram nisso milhares de vezes. Os que concordam comigo, mas acham tudo isso banal, não percebem que isso só pode ser visto banal do ponto de vista deles, homens frios e racionais. (NAZARIAN, 2006, p. 30- itálica minha).

O trecho acima expõe a postura do cínico inconformado que delata o cínico conformista. O narrador lança mão de uma postura kúnica, investe num jogo duplo de significado: afirmando, negando. Afirmando uma proximidade com os cínicos, a face kúnica escava as incoerências da ideologia legitimada (“os que concordam comigo”) para, entretanto, negar sua atitude conformada, que torna corriqueiros os disparates sociais (“mas acham tudo isso banal”). É uma postura de mão dupla, indecisa entre a identificação e o distanciamento.

Do outro lado, temos Mané, protagonista de O Paraíso é bem Bacana, que, construído textualmente a partir do discurso de várias vozes narrativas, torna-se o prometido Pelé dos tempos de hoje. Dono de um grande talento futebolístico, o protagonista é escalado para ser jogador do time alemão Hertha Berlin, porém, apesar da habilidade com os pés, Mané é detentor de um conhecimento apriorístico, desprovido de qualquer senso crítico, apresentando baixa competência cognitiva e lingüística: “O Mané era negro, brasileiro, ubatubano, ignorante, semi-analfabeto, tímido e incapaz de conversar em outra língua a não ser naquele péssimo português dele, do Mané” (SANT’ANNA, 2006, p. 350).

A história é simples: começa pela infância de Mané até sua viagem para a Alemanha, onde triunfaria como jogador de futebol, entrementes, o contato com a religião islâmica o faz se converter; torna-se um mártir e auto-detona uma bomba, implantada em seu corpo, em pleno campeonato de futebol. Mané não morre, entretanto. Entra em coma, e tem a perda irrecuperável de alguns membros de seu corpo. No seu coma profundo e delirante, Mané acha que morreu e que foi presenteado por Alá: as lindas e maravilhosas virgens do paraíso: “É setenta e duas. E elas vêm vindo, tudo limpinhas, muito bonitas, e elas têm tanto amor ni mim e gosta tanto de mim e me ama tanto (…)” (SANT’ANNA, 2006,  p. 09).

O enredo do livro é construído por uma variedade de diálogos e depoimentos acerca do personagem principal. Isso nos leva a perceber que O Paraíso é bem bacana não possui um único narrador, mas sim vários, cujos enunciados se apresentam embaralhados ao longo do romance, formando uma gigantesca teia pluridiscursiva, polifônica e tensa, dada as divergências das figuras narrativas a respeito do personagem Mané.

Informamos de imediato que esse investimento numa gama de personagens-narradores demonstra uma postura performática, que se assume em inúmeras vozes. Cada narrador corresponde a aquilo que o senso comum veicula. São personagens-tipo, cujos discursos trazem clichês e preconceitos. Exemplos – temos muitos – como a fala de Uéverson, amigo de Mané:

Não faz nem um ano, caralho. Eu também tava meio cabreiro lá no aeroporto. Mas, porra, o que era aquilo?!? O Mané tava mais perdido do que paraíba em Tóquio. (…). O moleque parecia que não era gente. Parecia um robô, um boneco, essa porra, zumbi. (…) Mas, aí, na hora que a gente tava sentando, cara, tu não acredita, pintou a maior gata, caralho, maior gata, dessas fina mermo, tipo mulher de negócio, sabe tipo a Sharon Stone fazendo papel de mulher fina? (…) o Mané olhou pra coxa da mulher e começou a suar, a passar mal, (…). (SANT’ANNA, 2006, p. 258 – 259).

Ou a de Fräulein, uma enfermeira alemã, responsável por cuidar de Mané depois do acidente:

Eu não suporto essas meninas. Essa aí, então!!! Ela acha que é dona da sabedoria multicultural. Olha para mim como se eu fosse uma skinhead, mas quem tem que limpar a merda do namorado dela sou eu. Se ela é namorada do Muhamad[v], tem intimidade com ele, ela podia limpar o sujeito de vez em quando, trocar esses curativos dele. Fedelha. Putinha. (SANT’ANNA, 2006, p. 290).

Sant’Anna mimetiza o cotidiano e as peculiaridades lingüísticas estereotipadas encontradas no senso-comum, imbecializando-as. A estratégia utilizada é a performance, e a garantia de estabilidade é precária. Mas, a postura é pertinente, pois, como Freire e Nazarian, a banalidade da situação é questionada, ‘cutucada’. Se a meta é chocar e/ou irritar, o objetivo é alcançado.

O narrador principal entrega seu lado kúnico ao investir numa fórmula de entrave e autonegação: o uso da expressão “Mas não”, que demonstra, assim como em Mastigando Humanos, a total aporia do narrador, cinicamente esclarecido.

O Mané bem que podia ir com sede ao pote. Quer dizer, ao prato. Mas não. O primeiro jantar do Mané, em Santos, era composto de bife, arroz, batata frita, ovo com gema mole, salada e mais um pão. Ou seja, era o americano no prato do império, com arroz. Mas não. Faltava a maionese. (SANT’ANNA, 2006, p. 129).

No trecho, o narrador atua mostrando-se impossibilitado de tomar uma posição, ficando entre a acomodação que confirma os preconceitos das outras vozes na narrativa sobre o personagem Mané e expõe a crítica à estereotipia.

O breve passeio pelas duas narrativas tentou mostrar como a performance cínica dos narradores pode ser revelar uma estratégia ficcional viável em tempos  contemporâneos. Assim, o presente ensaio é apenas a primeira investida sobre a pergunta como o cinismo pode estar presente nas narrativas atuais. No entanto, apostamos que ao invés da apatia e da acomodação o panorama literário brasileiro contemporâneo permanece sob a égide de uma ‘literatura do contra’, conforme afirmou Antonio Candido, e como esperamos ter demonstrado através do que chamamos aqui de perfomance-kúnico-cínica dos narradores das obras analisadas.

REFERÊNCIAS

AZEVEDO, Luciene. Estratégias para enfrentar o presente: a performance, o segredo e a memória (Literatura contemporânea no Brasil e na Argentina – dos anos 90 aos dias de hoje). Tese de Doutorado em Letras. Literatura Comparada. Rio de Janeiro: UERJ, 2004.

________. O paraíso é bem bacana (resenha). In: Literatura e testemunho. Estudos de literatura Brasileira Contemporânea. Brasília: UNB, 2006. p. 171 – 175.

BAKHTIN, M. Questões de literatura e de estética (a teoria do romance)São Paulo: UNESP, Editora Hucitec, 1988.

CANDIDO, Antonio. A nova narrativa: In: A educação para noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1987.

FREIRE, Marcelino. Darluz. In: Baléralé18 Improvisos. Ateliê Editorial, 2003.

GOLDENBERG, Ricardo. No círculo cínico ou Caro Lacan, por que negar a psicanálise aos canalhas? Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002. (conexões; 14).

KLINGER, Diana. Escritas de si e escritas do outro. Auto-ficção e etnografia na literatura latino-americana contemporânea. Tese de Doutorado em Letras. Literatura Comparada. Rio de Janeiro: UERJ, 2006.

LÓIZAGA, Patricio. El imperio del cinismo. Democracia, arte, medios, diseño y crítica cultural frente al nuevo milenio. Buenos Aires: Emecé editores, 2000.

MORA, J. Ferrater. Dicionário de filosofia. Tomo I (A – D). São Paulo: Edições Loyola, 2000. p. 467 – 468, p. 744 – 747.

NAZARIAN, Santiago. Mastigando humanos: um romance psicodélico. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

OLIVEIRA, Nelson de. Inveja. Acesso no www.paralelos.com em 14/ 02/ 2007.

RAVETTI, Graciela. Narrativas performáticas. In: Performance, exílio, fronteiras: errâncias territoriais e textuais. Organizado por Graciela Ravetti e Márcia Arbex. Belo Horizonte: Faculdade de Letras, UFMG: Poslit, 2002.

SANT’ANNA, André. O Paraíso é bem Bacana. São Paulo: Companhia das letras, 2006.

VIDAL, Paloma. Diálogos entre Brasil e Chile – Em torno às novas gerações .In: A literatura latino-americana do século XXI. Organizado por Beatriz Resende. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2005. p. 167 – 179.

NOTAS

[i] Zeitgeist é um termo alemão, que se traduz como espírito do tempo, também podendo se utilizar do termo em português para denominá-lo. O Zeitgeist significa, em suma, o nível de avanço intelectual e cultural do mundo, em uma época. A pronúncia alemã da palavra é tsaItgaIst. Dísponível em: www.wikipedia.org. Acesso em: 09/10/2007.

[ii] Marcelino Freire nasceu em Sertânia, Sertão de Pernambuco. Publicou EraOdito (Aforismos, 2ª edição, 2002), Angu de Sangue (Contos, Ateliê Editorial, 2000) e BaléRalé (Contos, Ateliê Editorial, 2003). Em 2002, Editou a Coleção 5 Minutinhos. É um dos editores da PS:SP, revista de prosa lançada em maio de 2003, e um dos contistas em destaque nas antologias Geração 90: manuscritos de computador (Contos, Boitempo Editorial, 2001) e Geração 90: os Transgressores (Contos, Boitempo Editorial, 2003).

[iii] Santiago é dono de um currículo inusitado: já trabalhou como redator publicitário, barman, professor de línguas, body art, vendedor, artista de rua e, atualmente, subtraindo o tempo dedicado à produção de suas narrativas, faz tradução de livros e, esporadicamente, produz resenhas para várias revistas virtuais. Atualmente, possui quatro livros publicados. São eles: Olívio (Romance, Editora Planeta, 2003), A morte sem Nome (Romance, Editora Planeta, 2004), Feriado de Mim Mesmo (Romance, Editora Planeta, 2005) e Mastigando Humanos (Romance, Nova Fronteira, 2006). Acesse seu blog: www.santiagonazarian.blogspot.com

[iv]  Para quem não sabe, André Sant’Anna é filho do escritor Sérgio Sant’Anna. Publicou Amor (1998), Sexo (1999), Amor e Outras Histórias (2001) e O Paraíso é Bem Bacana (Romance, Cia. das Letras, 2006).

[v] Nome adotado por Mané após se tornar mulçumano. Muitos o chamavam Muhamad-Mané.

Artigo recebido em 02/10/2007 e aprovado em 13/04/2008.