A Família Agulha: romance alinhavado por um narrador afiado

Anna Viana Salviato

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 21, 2014. ISSNe: 1806-2555.

Sobre os autor(es):

Anna Viana Salviato
Universidade Federal de Santa Catarina
Centro de Comunicação e Expressão
Departamento de Língua e Literatura Vernáculas
annavianasalviato@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/0195376944289441

RESUMO: Considerando a extensão do público leitor de romances-folhetins no século XIX, este ensaio busca destacar a exclusividade da criação narrativa de Luís Guimarães Júnior em A Família Agulha, romance folhetinesco publicado em 1870. O enfoque do trabalho se dá principalmente na identificação de um narrador excêntrico, que descreve comicamente as instituições sociais e os padrões literários. O ensaio propõe uma percepção metafórica do autor, do narrador e do próprio texto em A Família Agulha, como um pano a ser confeccionado por Guimarães Júnior, tendo como ferramenta um narrador que rejeita a linearidade e constrói um romance descontínuo, protagonizado por personagens grotescos e carregado de situações incomuns.

PALAVRAS-CHAVE: romance-folhetim; narrador; A Família Agulha; Guimarães Júnior.

ABSTRACT: Considering the extension of the readership of feuilleton-novel in the nineteenth century, this essay aims to highlight the exclusivity of the narrative creation of Luís Guimarães Júnior in A Família Agulha, feuilleton-novel published in 1870. This work is focused especially in the identification of an eccentric narrator, who comically describes social institutions and literary patterns. The essay proposes a metaphorical perception of the author, of the narrator and of the text itself in A Família Agulha, seen as a web to be sewn by Guimarães Junior, having as a tool a narrator who rejects the linearity and constructs a discontinuous novel, full of unusual situations and starring slapstick characters.

KEYWORDS: feuilleton-novel; narrator; A Família Agulha; Guimarães Júnior.

 

Introdução

Um novo costume no Brasil é introduzido no início do século XIX: a leitura de romances-folhetins. O desenvolvimento do Rio de Janeiro nesse mesmo século, proporcionado pela presença da Corte no estado, potencializou o reconhecimento da mídia impressa local e, consequentemente, dos romances de folhetim, dado o caráter literário dos jornais de então. Foi o Diário do Rio de Janeiro, famigerado jornal da época, o veículo de publicação da narrativa humorística A Família Agulha, obra escrita pelo carioca Luís Guimarães Júnior (1845-1898) e tema do presente ensaio.

Os tópicos aqui abordados circundam o rompimento da tradição romanesca em A Família Agulha, ora em relação à sociedade, ora em relação ao próprio processo de escrita. As sátiras constantemente presentes revelam o olhar subjetivo do narrador a criticar os indivíduos envolvidos com o texto: as duras opiniões ultrapassam a atmosfera diegética e adentram no universo extradiegético quando, além dos personagens, os próprios leitores do romance são submetidos à avaliação do narrador.

A estrutura romanesca se consolidou e ganhou ampla adesão ainda na primeira década oitocentista. Machado de Assis, em uma crítica publicada no periódico O Novo Mundo[1], em 1873, afirma que o romance, além de uma das formas mais cultivadas no Brasil, era, na época, a mais apreciada delas. No início do século XIX, o país incorporou um costume jornalístico europeu (anglo-francês, especificamente): os romances de folhetim, que passaram a ser traduzidos para o português e publicados em periódicos locais. A preferência pública pelo romance pode ser constatada na própria divulgação das vendas de livrarias da época, pesquisa feita por Germana Sales (s.d., p. 2), cujo resultado aponta o folhetim português O Piolho Viajante (1802) como um dos livros mais lidos pelos brasileiros. Enquanto composição literária voltada à massa popular – caráter observado pelo próprio preço das obras e dos jornais em que inicialmente os textos eram publicados –, os romances-folhetins fazem uso da linguagem simples e, em geral, sem grandes elaborações filosóficas, o que constituiu, no romance tratado neste ensaio, um modus operandi peculiar, que acarreta na estereotipação do próprio leitor levada a cabo pelo narrador. Essa característica será aprofundada adiante, com a discussão acerca das manifestações críticas de Guimarães Júnior em A Família Agulha, relacionando essas ocorrências ao rompimento com o padrão da narrativa ficcional. Heineberg (2008) sugere até mesmo a presença do escritor enquanto cronista na autoria do romance, já que, em seu folhetim, Guimarães Júnior continua a esmiuçar a sociedade carioca, propriedade fundamental de seus textos jornalísticos.

A peculiaridade de A Família Agulha enquanto romance-folhetim

Guimarães Júnior foi colocado em segundo plano pela crítica posterior não apenas por ser contemporâneo a dois dos mais aclamados escritores brasileiros (José de Alencar e Machado de Assis). As razões do esquecimento do autor de A Família Agulha por alguns estudiosos são também discutidas dentro da perspectiva de transição romântico-parnasiana e até de elementos biográficos de Luís Guimarães. Enquanto poeta, sua migração do movimento literário romântico para o subsequente Parnasianismo acarretou à sua obra uma impressão de instabilidade. Guimarães Júnior é inclusive criticado por Sílvio Romero, que o classifica como “escritor de segunda ordem”, principalmente porque enquanto “ausente da pátria, durante metade da existência, nunca foi um combatente ativo em nossas lutas pela verdade e pelo progresso.” (ROMERO apud SÜSSEKIND, 2002, p. 167). Inserido em um contexto literário nacionalista, Guimarães Júnior é apontado por Romero como um “estrangeiro” por, além de ter emigrado do Brasil, não abordar em sua obra temas autenticamente brasileiros. A opinião do crítico a respeito de Luís Guimarães é a de que

em sua fase brasileira, entre 1862 e 1872, o poeta foi mais espontâneo, mais sincero, sua arte mais sentida, mais humana; então o contista e folhetinista era mais despreocupado, mais vivaz, mais lúcido do que depois pareceu ser. (Ibidem, p. 168).

É justamente nessa fase em que o escritor publica o folhetim A Família Agulha, de 1870, trazendo, de fato, críticas políticas em seu texto, além da caracterização da sociedade burguesa da época, aproximando-se das comédias de costumes então em voga.

Estudar a prosa cômica do século XIX implica em fazer referência ao romance de Luís Guimarães. Wilson Martins (2004) compara o romance a Memórias de um sargento de milícias[2], “do qual A família Agulha repete, com evidente superioridade na arte narrativa, a estrutura, a concepção dos caracteres e muitas cenas específicas”. O caráter das “observações judicativas do narrador”, observado por Antonio Candido (1970) em Memórias de um sargento de milícias, é mantido por Guimarães Júnior em A Família Agulha. Todavia, Candido afirma que o narrador assume o papel de expor “poucas reflexões morais” no romance de Manuel Antônio de Almeida, o que já eleva A Família Agulha à primazia narrativa a que Martins (2004) se refere no âmbito das abordagens filosóficas. O romance-folhetim de Guimarães Júnior é ainda apontado por Martins como “um dos nossos livros mais injustamente esquecidos” (MARTINS apud HEINEBERG, 2008, p. 41).

Em A Família Agulha, a representação social está fundamentada na potencialização de práticas cotidianas “condenáveis”, método típico da literatura cômica produzida na época. Em outras palavras, a tentativa de reprodução da realidade se atém a situações e costumes satirizáveis, permitindo, dessa forma, a ironia do romance. As personagens, por sua vez, têm seus anseios psicológicos reduzidos, sendo tratadas de forma burlesca e até alegórica. A justificativa para o uso de personagens tão icônicos é dada já no prefácio de A Família Agulha: segundo o autor, os tipos “são grotescos e ridículos; meio único de divertir o leitor que não gosta de obituários eprefere o riso franco” (GUIMARÃES JR., 2003), características do romance que contribuem para justificar o perfil do narrador.

Luís Guimarães Júnior, proveniente do Rio de Janeiro, opta justamente pelo ambiente carioca para situar a história de Eufrásia, Anastácio e Bernardino Agulha, concentrando nesse espaço suas descrições acerca do lazer burguês dos frequentadores do Alcazar (café-concerto que abrigava a elite intelectual) ou da organização eleitoral, corrupta e fraudulenta. Mesmo sendo um escritor de linhagem abastada, tendo frequentado cafés e salões elegantes, enquanto autor, Guimarães Júnior constrói em A Família Agulha um narrador voltado a leitoras e a leitores de classe média – o que não poderia ser diferente, dada a acessibilidade de cidadãos de diferentes estratos sociais aos jornais locais, inclusive ao Diário do Rio de Janeiro.

O narrador do romance aqui discutido é considerado por Heineberg (2008) como sendo outra versão do próprio Luís Guimarães; segundo a autora, o lado cronista de Guimarães Júnior emerge no próprio romance. Em algumas das interrupções feitas pelo narrador, seus comentários constituem observações cuja temática corresponde à da narrativa, porém as abordagens funcionam menos como complementos do que como desvios à progressão da história. De modo cômico, o narrador expõe opiniões desnecessárias ao romance em si, mas que auxiliam o leitor na compreensão do contexto sócio-histórico da obra, o que se relaciona, portanto, ao objetivo das crônicas de Guimarães.

A contaminação do romance por características da crônica é também observada no deboche com que o narrador trata os agentes jurídicos. O romance tem como procurador Felisberto Canudo de Oliveira Conceição Albuquerque e Melo, cuja má ortografia pode ser entendida como inaptidão ao cargo, que no século XIX era ocupado muitas vezes por recomendações e favoritismos. O autor cita as frases de Felisberto de forma a manter os erros ortográficos propositalmente, como em “ARTIGU PREMERO: – A parte contratanti denomi Felisberto Canudo de Oliveira Conceiçam Albuquerq e Mello, prokurador de Cauzas, crimes, civeis, comerciaes, eclesiasticas, etc.,etc., etc., nu fóro judissiario da côurte” (GUIMARÃES JR., 2003). Ao narrador cabem, então, correções do tipo “com – c – e não com k,oh Felisberto Canudo!” (idem). Sua intrusão no romance assinala uma espécie de diálogo com o personagem, a fim de denunciar as trapaças deste, mantendo uma subjetividade própria da crônica, conforme notamos em

Tu roubavas é certo, procurador, roubavas, mas roubavas com sinceridade, roubavas com uma nobre segurança de espírito, que era ocondão das passadas eras! Os teus gloriosos descen­dentes diferem em tudo do tronco primitivo. O único ponto de semelhança que há entrevós, Felisberto Canudo de Oliveira Conceição Albuquerque e Melo, é que os de hoje estragam a ortografia da mesma maneira! (Idem).

Além dos julgamentos, há outra postura adotada pelo narrador que evidencia a hibridização do jornalismo com a literatura – ou, no caso, a tentativa de tornar o romance híbrido –, que é a importância dada à veracidade da obra, havendo a necessidade constante de ratificá-la. Ironicamente, “devido ao tom humorístico de A Família Agulha, a garantia de autenticidade do narrador […] serve apenas para sublinhar o seu registro ficcional.” (HEINEBERG, 2008, p. 43). Um texto jornalístico não requer sua legitimação pelo autor, uma vez que tal característica já é pressuposta pelos leitores.  Trata-se, portanto, de uma relação paradoxal ao confirmar a autenticidade da narrativa e, dessa forma, inseri-la ainda mais no nível ficcional.

A contaminação da crônica no romance é ainda foco de análise de Flora Süssekind ao definir A Família Agulha como obra possuidora de uma “prosa em ziguezague”.  Os volteios do narrador entre o texto literário e o jornalístico são vistos por ela como “associações [que] se sucedem e se mesclam, ao mesmo tempo definindo e deixando em esboço uma forma de escrita já tão marcada pelas misturas” (SÜSSEKIND, 2002, p. 171). A noção do ziguezague como estilo de escrita é defendida pelo próprio autor de A Família Agulha em outro texto[3], no qual alega que seu livro é “para quem vai pela vida em curvas e zig-zags” (GUIMARÃES JR. apud SÜSSEKIND, 2002). Ainda que Luís Guimarães não tenha feito referência especificamente à obra aqui discutida, a concepção acerca de sua escrita permanece cabível.

Por essa perspectiva justifico parte do título deste ensaio: os ziguezagues apontados por Süssekind são como movimentos de costura das mãos de Guimarães Júnior ao produzir o texto. Analisando pelo viés etimológico as palavras “texto” e “tecido”, encontramos no latim a mesma origem: “texere”, no sentido de construir ou de tecer. A comparação lógica entre esses dois termos, então, permite-nos o entendimento de Luís Guimarães como um costureiro, profissão que exige ferramentas específicas, por sua vez bem explícitas, que são os personagens principais, ou seja, a família tratada na obra, uma vez que é por meio desta que o autor consegue construir a narrativa. O sobrenome carregado corrobora com a metáfora aqui proposta – Guimarães Júnior escolhe “Agulha” como nome da família. Há, ainda, outro instrumento utilizado por Guimarães ao tecer a narrativa. O narrador heterodiegético “afiado”, conforme o título do ensaio, é a agulha que, apesar de não pertencer à família que assume papel principal, tanto se intromete em sua intimidade doméstica quanto se permite interromper a exposição dos personagens para dar palpites, sendo, dessa forma, usado por Guimarães Júnior para contar a história e ainda criticá-la. Temos, portanto, um narrador pronto para expor suas concepções não só acerca dos personagens, mas até dos próprios leitores – um narrador presunçoso que alfineta pessoas e instituições mencionadas no romance.

Antes de focar na opinião do narrador acerca de seu narratário, é preciso aprofundar a análise dos personagens que compõem o romance. Na introdução da obra, o próprio Luís Guimarães nos indica a presença de “tipos ridículos”, sendo a característica grotesca percebida em todos os personagens. Cada pessoa retratada tem em si algo de risível, inclusive os coadjuvantes, a quem o autor reserva descrições muito breves – o aparecimento de Leocádio da Boa-Morte no episódio das eleições exemplifica essa afirmação, pois o candidato a deputado é um poltrão, sendo sua covardia percebida até por Anastácio Agulha, cuja opinião é a de que “o Sr. Boa‑Morte émedroso como um piegas” (GUIMARÃES JR., 2003). No mesmo incidente, há o casal Sacramento: O marido é o articulador do partido ao qual estão vinculados Leocádio e Anastácio, mas sua ingenuidade permite, além da apropriação por Agulha da verba destinada às eleições, a ignorância acerca da deslealdade da própria esposa, Joaninha, cujo caráter é mais tarde revelado na obra, quando a mulher passa a ser reconhecida como uma sedutora oportunista.

Além de aspectos temperamentais, Guimarães Júnior explora propriedades físicas para provocar os leitores. Recusando a abordagem feminina tipicamente romântica, o autor se abstém de quaisquer idealizações e escolhe Eufrásia Sistema como protagonista, sendo descrita pelo narrador – sempre opinativo – da seguinte forma:

Eufrásia, filha quase legítima de Lucas Pereira Sistema e de D. Senhorinha Sistema, era uma moça magra, fina, estreita como o esqueleto de um chapéu-de-sol inglês. A natureza não fora pródiga de encantos para a filha única de Lucas Sistema. Dera-lhe uma cabeça insignificante, um pescoço de milha e meia e um par de pés que podiam servir de pedestal a ela, à família toda, e a algumas tribos mais! Que pés! Onde caíssem era achatação certa! (Idem).

São os enormes pés de Eufrásia os responsáveis por despertar o amor de Anastácio Agulha, que profere a memorável frase a respeito da moça: “Ela calça 47, Suzer!”. Posteriormente, tal declaração é gravada no epitáfio da esposa.

Anastácio Temporal Agulha é um protagonista excêntrico que, além das estranhas predileções, tem acessos de loucura retratados de forma cômica na narrativa, seja com frases absurdas, trocando palavras ou agindo com insensatez. Ainda se destaca, na família, Bernardino Sistema Temporal Agulha, filho único do casal. O romance é iniciado com a apresentação de Bernardino pelo narrador, que não deixa de declarar que “aos doze anos Bernardino apresentava a configuração de uma velha” (Idem). O personagem, entretanto, só volta a figurar no romance após sete capítulos, cedendo ao narrador espaço suficiente para discorrer sobre seus pais e para inserir alguns episódios e personagens que justificam partes posteriores da história – e outros que em nada interferem em seu curso –, viabilizando, dessa forma, a narração em ziguezague discutida neste ensaio. Bernardino não está isento dos infortúnios que assolam a família: o destino lhe reserva uma ilusão amorosa e o jovem se mostra tão hábil quanto o pai em conseguir dinheiro de forma desonesta.

A crítica à futilidade da sociedade da época fica evidente na descrição das vizinhas da família Agulha: a viúva Lampreia, ao visitar o casal, “falou de tudo quanto havia e por haver, e da vizinhança só poupou a família Sistema Agulha.” (GUIMARÃES JR., 2003); a viúva Arrozal faz incessantes menções ao finado esposo, referindo-se ao homem apenas por “defunto”; Sra. Leonarda diverte-se ao se comunicar por meio de charadas; a devota Sra. D. Cândida insere orações no meio de frases quaisquer; D. Quininha está sempre envolta por fitinhas que precisa ajeitar enquanto conversa; D. Januária não consegue proferir uma sentença sem se recordar de uma receita culinária. Trata-se justamente dos “tipos grotescos e ridículos”, de identificação imediata pelos leitores, e aos quais Guimarães Júnior faz referência na seção introdutória de A Família Agulha.

No romance, todos têm sua idiossincrasia reduzida até uma “vertiginosa deseroificação dos personagens que, submetidos à esperta hiperbolização […], se aproximam da charge.” (SÜSSEKIND, 2002, p. 180). A charge a que Süssekind se refere é percebida, segundo ela, nos vaivéns da criação dos personagens – condizentes, portanto, aos vaivéns da própria narrativa –, que precisam parecer inacabados para que possam mudar de lógica repentinamente ou assumir uma atitude inesperada, como a de Anastácio Agulha em momentos de fúria ou de euforia. São, portanto, caricaturas esboçadas a serem retocadas ao longo do texto.

As críticas feitas pelo narrador não têm destinação privilegiada aos indivíduos fictícios. Há, com o próprio leitor, um intenso diálogo, em que o narrador o convida a visitar diferentes ambientes, responde a supostas perguntas a respeito da história e, principalmente, deixar clara a visão distintiva que tem entre as leitoras e os leitores, marcando as preferências estereotipadas de ambos os gêneros de forma a padronizar mulheres e homens que desfrutam do romance. Lembremos, aqui, que Guimarães Júnior visa justamente criticar os moldes sociais, inclusive os de escritores de folhetim anteriores – por isso, a generalização do público leitor é proposital.

O universo real, quando se torna visível através da interrupção na narração, é considerado por Gérard Genette como a metalepse no campo ficcional, sendo “toda intrusão do narrador ou do narratário extradiegético no universo diegético (ou de personagens diegéticas no plano metadiegético), ou inversamente” (GENETTE apud HEINEBERG, 2008, p. 43).  Não há receios por parte do narrador de A Família Agulha ao caracterizar, por meio da sátira, o que Heineberg (2008) considera o topos da conduta de um leitor do gênero folhetinesco. O narratário é considerado um indivíduo cujo interesse no romance é meramente superficial. O entediado leitor do folhetim – inclusive o do que tem Guimarães Júnior como autor – encontra, em meio ao ócio, uma forma de satisfazer uma curiosidade indiscreta através dos romances. Sob essa perspectiva, há uma aparente similaridade entre narratário e narrador, como se este dirigisse a narração a ouvidos e a vozes afins. Todavia, o leitor não é único, e seu caráter coletivo inviabiliza um aprofundamento específico, sendo os leitores múltiplas vozes, como as percebidas no trecho:

Fiquemos no primeiro andar… Penetremos mansamente como fazem os larápios agora. É aí que eles moram, aí que eles jantam, aí que elesrespiram! / — Eles quem? / — Explique-se! / — Nada de descrições! / — Meta-se no assunto, logo! / — Pelo amor de Deus! um pouco depaciência, minha senho­ra! (GUIMARÃES JR., 2003)

A escrita folhetinesca de Guimarães Júnior – à primeira vista superficial, mas profundamente irônica – está projetada em seu leitor modelo[4]. Identificado por Heineberg (2008), esse leitor não é, como se pode inicialmente esperar, o narratário curioso cuja personalidade se assemelha à do narrador, mas sim o indivíduo cujo senso crítico permite reconhecer a linguagem debochada de Guimarães Júnior e enxergar as interrupções do narrador como uma das figurações da comicidade do romance.

Passemos, agora, à menção satírica aos costumes sociais. O autor de A Família Agulha, consciente da grande massa leitora dos romances-folhetins, constrói um narrador que se utiliza das diferentes situações cotidianas para definir se seu narratário é uma figura masculina ou feminina. Esse processo, alicerçado em generalizações, tem por objetivo denunciar os preconceitos sociais – lembremos, aqui, que se trata de uma obra irônica –, o que atesta a consciência do autor (e sugere a do narrador) do distanciamento entre o leitor empírico de romances folhetinescos e o leitor modelo, artificial, concebido para corroborar com o deboche a forma narrativa em que o próprio texto se insere.

Ao apresentar determinada circunstância na trama, o narrador se atenta minuciosamente ao modo de abordá-la, a fim de fazer a distinção de seu leitor. Ao tratar de intrusões, de descrições ou de qualquer contentamento à curiosidade, o narrador se dirige à leitora, especificamente: “Era pobre? era rico? era casado? era solteiro ou viúvo? Poupe-me a leitora respostas a perguntas que eu teria medode fazer a mim próprio.” (GUIMARÃES JR., 2003). É, porém, o leitor (masculino, portanto) que penetra com o narrador no café-concertofrequentado pela alta burguesia: “Entre o leitor (desta vez dirijo-me só ao leitor!) entre comigo no aluminado e festivo edifício da Ruada Vala, curso da língua francesa dos elegantes da Corte. O Alcazar!” (Idem). Forma-se, assim, o estereótipo de um amplo público que, justamente pela extensão, não pode ser padronizado, revelando a ironia presente nessa tentativa.

Um dos alvos de Guimarães Júnior ao escrever seu folhetim é abstrato: trata-se da sociedade sob o viés institucional, o que se verifica a partir da vontade do narrador de expor os preconceitos que permeiam o mundo real, especificamente o ambiente carioca. O autor vai além. Quebrando o paradigma do folhetim como um romance rápido ou de distração, Luís Guimarães não poupa as instituições políticas e os órgãos públicos de suas agudas críticas.

Nos primeiros capítulos da obra, Anastácio Agulha usurpa a verba do partido ao qual se filia, dando um golpe em seus associados para se reerguer financeiramente. Depois, um dos personagens acaba morto porque “pleiteava a favor do governo e já tinha dado algumas dúzias de cacetadas em vários votantes livres, quando um deles lembrou-se de o matar e o fez com sucesso.” (Idem). O assassinato de Clementino e o estelionato de Anastácio são retratos da velhacaria nas práticas eleitorais.

Concedendo ao narrador um nervosismo que se estende até o narratário, Guimarães Júnior ironiza a escrita em A Família Agulhade modo a frustrar leitores que esperam uma narração pré-configurada e cronologicamente arquitetada. A artificialidade ficcional, acentuada propositalmente pelo autor, é revelada pelo narrador que, visivelmente hesitante, rompe com a elaboração textual:

Bernardo José… dormia. / Uma mulher idosa… (já ia eu entrando em vulgaridades descritivas acerca do homem indescritível!) Não haviamulher idosa nenhuma não! Mentira! Esse extraordinário sujeito vivia só (só com as suas barbas e com a sua loucura!). / Bernardo Josédormia. (Idem).

O que inicialmente se apresenta como uma suposição do narrador, pela presença das reticências, torna-se certeza no final do trecho, quando a dúvida dá lugar à escolha – que pode ser meramente arbitrária, dada a autoridade do narrador para construir ou contestar a narrativa.

Guimarães Júnior enfatiza a desejada simultaneidade entre a leitura do texto e o que Heineberg (2008) define como a “fabricação do romance” – representada, segundo a autora, pela contemporaneidade evidentemente impossível da história e da escrita – ao fazer com que o narrador mude de ideia ao longo da narrativa, confessando uma “mentira” anterior.

Essa incerteza é outro fator apontado por Süssekind (2002) como caracterizador do vaivém de que a prosa de Guimarães Júnior é constituída: “A narrativa vai e volta ao mesmo ponto” (SÜSSEKIND, 2002, p. 179), assim como a progressão é interrompida para ceder lugar a detalhes esquecidos pelo narrador ou para acrescentar situações anteriores que contextualizem o leitor – como capítulos que se iniciam introduzindo certo personagem, mas que acabam por excluí-lo do restante da seção. São esses os movimentos de Guimarães Júnior ao escrever (ou costurar) seu romance, utilizando-se do gênero folhetinesco para satirizá-lo e tratando seus leitores com uma proximidade informal, mas de forma padronizada. Além disso, confere ao texto um arremate reticente – com a eterna corrida do protagonista no fim da narrativa –, indo e vindo com as ideias pontiagudas de seu narrador e esboçando a estampa cômica do romance-folhetim característico do século XIX, época em que a excentricidade do autor de A Família Agulha é impressa em alto-relevo.

Conclusão

Após uma análise da narrativa presente no romance-folhetim A Família Agulha, principalmente sob a perspectiva do papel designado ao narrador pelo autor, é possível entender o texto de Guimarães Júnior como uma violação à noção comum de folhetim como literatura unicamente distrativa. O autor utiliza-se do deboche ao próprio folhetim enquanto forma narrativa através de um narrador que aparentemente menospreza o método ordinário de escrita e adota um modo próprio de contar a história: como se houvesse um despreparo, a narração parece ocorrer no momento em que o leitor se depara com o texto.

A comicidade figura no romance na medida em que Guimarães Júnior escolhe “tipos” como protagonistas, ou seja, personagens icônicos que, de acordo com Süssekind (2002), beiram a charge, como caricaturas deixadas em espera até o final do texto, para que o narrador as aprimore e o leitor as perfaça. São rascunhos geralmente previsíveis, mas que, ainda assim, podem surpreender, justificando a presença de indivíduos em situações absurdas com atitudes incomuns.

Para fazer o leitor compreender melhor o universo ficcional, o narrador de A Família Agulha expõe a intimidade das personagens, consciente de que invade sua privacidade, enquanto o narratário se torna um cúmplice menosprezado. A real compreensão do narrador acerca de seus leitores é limitada: seu público é descrito como composto apenas por mulheres bisbilhoteiras e homens burgueses boêmios, sem especificações.

A escolha do autor ao dar voz a um narrador com essa concepção visa justamente sublinhar os preconceitos sociais. O escritor mescla o romance ficcional à percepção crítica que aborda em suas crônicas, fazendo uso das sátiras grotescas para representar o cotidiano carioca. Em A Família Agulha, o resultado da técnica de Guimarães Júnior é um tecido romanesco produzido pelo vaivém das firmes mãos do autor, por meio de um narrador que se permite bordar cômicas imagens a partir de seu temperamento oscilante e de sua mente aguçada.

Referências

CANDIDO, A. “Dialética da Malandragem (caracterização das Memórias de um sargento de milícias)”. In: Revista do Instituto de estudos brasileiros. São Paulo: USP, nº 8, p. 67-89, 1970.

GUIMARÃES JR., L. C. P. A Família Agulha. Organização, edição e notas de Flora Süssekind. Rio de Janeiro: Vieira Lent; Fundação Casa de Rui Barbosa, 2003.

HEINEBERG, I. “Figurações do autor e narração excêntrica em Nodier e Guimarães Júnior”. In: Navegações: Revista de Cultura e Literaturas de Língua Portuguesa. Rio Grande do Sul: PUCRS, V. 1, n. 1, p. 41 – 49, mar 2008.

MACHADO DE ASSIS, J. M. “Notícia da atual literatura brasileira. Instinto de nacionalidade”. In: Obra Completa de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, V. 3, 1994. Disponível em: <http://www.dlnotes2.ufsc.br/document/read/239>. Acesso em: 02/jul./2013.

MARTINS, W. Clássico do humorismo, 2004. Disponível em: <http://www.jornaldepoesia.jor.br/wilsonmartins126.html>. Acesso em: 30/jun./2013.

SALES, G. M. A. Circulação de romances no século XIX. S. d. p. 1-12. Disponível em:<http://www.alb.com.br/anais17/txtcompletos/sem17/COLE_1360.pdf>. Acesso em: 30/jun./2013.

SÜSSEKIND, F. Papéis colados. Rio de Janeiro, 2ª edição: Ed. UFRJ, 2002.

Data de envio para publicação: 17 set. 2013.

 

[1] Trata-se do texto “Notícia da atual literatura brasileira”, que ficou, entretanto, mais conhecido por seu subtítulo, “Instinto de nacionalidade”. A crítica foi publicada originalmente em março de 1873, mas a edição aqui utilizada, que reúne toda a obra de Machado de Assis, data de 1994.

[2] Publicado incialmente em folhetins entre 1852 e 1853 com autoria anônima, o romance Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, foi compilado e tornou-se um livro em 1854.

[3] Ver introdução da coletânea Curvas e Zig-Zags: Caprichos Humorísticos, de 1872.

[4] O leitor modelo, conceito cunhado por Umberto Eco, pode ser entendido como o indivíduo que interpreta o texto de forma esperada pelo autor, divergindo, assim, do leitor empírico, que tem a compreensão restrita a seu próprio repertório, com um possível entendimento textual distanciado daquele que o autor pressupõe ou deseja.