O preconceito racial na obra de Gregório de Matos

Gregório Henrique May

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 0, 2003. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

O assunto que motiva a realização deste ensaio é um muito interessante na área dos estudos sobre a arte: o reflexo da configuração social e histórica de uma época ou de um lugar na produção literária. Tratarei de um aspecto na obra do poeta barroco Gregório de Matos que gera dúvidas em alguns leitores, que é a postura do artista em relação aos negros e principalmente às mulatas, em oposição ao modo como ele trata outras personagens de sua obra, neste caso, a mulher branca, de origem ou traços europeus.

A partir da leitura de alguns poemas e de discussões em sala de aula, pareceu-me que Gregório tinha uma visão extremamente racista dos negros, insultando-os e colocando-os em uma posição inferior à dele em vários de seus textos, que foram construídos com um tom de desprezo e repúdio. Apesar desse racismo declarado, há vários poemas em sua obra que têm por tema a mulata, nos quais esta é descrita como alguém que tenta o poeta. Nesses poemas percebe-se uma tensão sexual constante, um erotismo exacerbado e a colocação da figura feminina como objeto de desejo.

Porém, em outros textos de Gregório, que têm desta vez a mulher branca como tema, nota-se uma diferença brusca dos poemas sobre mulatas em diversos aspectos, desde o tom do texto até a escolha do vocabulário. O poeta descreve esse segundo tipo de musa utilizando imagens religiosas, linguagem mais erudita, entre outros recursos, que acabam por criar uma impressão diferente da donzela, uma impressão de beleza superior e intangível.

Tomando as afirmações acima como fatos, interessou-me pesquisar os motivos para esta complexa situação. Gregório valoriza e enaltece os dotes naturais da mulata, que faz parte de uma classe detestada por ele, enquanto a mulher branca ocupa outra posição, menos carnal. O que pretendo então com este ensaio é verificar como a sociedade da época de Gregório de Matos se colocava a respeito disso, ou seja, como eram as relações sociais entre a classe dominante, branca, e a dominada, composta por escravos e índios, e se havia essa dualidade entre o racismo e o interesse físico, para então analisar este comportamento de Gregório como algo natural dentro da sua sociedade ou não.

Para que conclusões não sejam feitas a partir somente de divagações, que podem ser interessantes mas nem sempre confiáveis, alguns conceitos de preconceito e racismo serão expostos, já que falamos aqui sobre o racismo na obra do poeta barroco. Em seguida, discutirei o contexto histórico e a situação social da época em que viveu Gregório, principalmente a relação existente entre as classes sociais no Brasil. A etapa final será localizar o artista dentro dessa sociedade e demonstrar em alguns de seus poemas as características apontadas aqui e durante o resto do texto, chegando a uma conclusão que, espero eu, confirme o que imaginei a princípio: que Gregório de Matos reflete em sua obra uma tradição racista do meio em que vive, e que este racismo não deixa de se manifestar nas relações carnais, pois toma-se o negro apenas como objeto. Mãos à obra!

A parte das definições (racismo)

Racismo é a teoria que, pressupondo a existência de diferentes raças entre as pessoas, defende a superioridade de uma em relação às outras. Por raça entende-se um grupo de indivíduos que é definido como diferente dos outros grupos por características físicas inatas e imutáveis. Estas são relacionadas a habilidades ou atributos morais, intelectuais, entre outros (VAN DEN BERGHE, 1978, p. 9), e portanto definiriam qual raça é “melhor” ou “superior”. Este conceito de diferentes raças humanas, baseado em diferenças biológicas reais ou não, é insustentável e já foi derrubado pela ciência atual. Há sim diferenças entre os diferentes grupos humanos, mas estas são causadas por diversidades culturais e/ou geográficas, e não biológicas (BERND, 1994, p. 11).

A idéia de que há raças superiores e inferiores serve, além de outros objetivos, para justificar atitudes cruéis de um grupo sobre outro. Um exemplo são as atrocidades dos espanhóis e portugueses contra os povos “descobertos”, pois justificavam suas atitudes no fato de os índios fazerem parte de uma raça inferior. A partir disso percebe-se como é estruturado o racismo: estigmatiza-se o grupo que se quer discriminar e depois tira-se proveito dessa estigmatização. A escravidão dos negros é outro caso de uso da ideologia racista, pois ela se utiliza da suposta inferioridade natural deste grupo em relação ao branco(BERND, 1994, p. 16-17). Logo, a dominação e escravização tornam-se aceitáveis, pois o branco, fazendo parte de uma raça melhor, se vê no direito de praticar crueldades contra os membros da raça inferior. “A origem do racismo não é científica, […]. è política, social ou econômica, sendo usada pelos indivíduos para justificar seus interesses, exploração econômica, ou como pretexto para a dominação política” (CARNEIRO, 1983, p. 17).

O que intenciono com essa discussão é construir bases para afirmar que já havia no Brasil um comportamento racista desde o início de sua colonização. As barbáries cometidas contra os índios, a escravidão de negros e a marginalização destes na sociedade têm todo um discurso de racismo e preconceito como desculpa para se realizar. Essa visão perdurou durante os séculos seguintes ao descobrimento até a atualidade. Parece válido neste ponto acrescentar também que “a discriminação racial é apenas uma das facetas de um problema mais amplo – a discriminação social” (COMAS, 1970, p. 18). Logo, toda a explanação sobre racismo torna-se pertinente, pois o problema mesmo da discriminação social e suas conseqüências na produção artística de uma época é o que motiva a realização deste texto.

Com esse tema discutido e, espero, esclarecido, passo agora à situação histórica e social em que se encontrava o Brasil na colonização, mais especificamente, no século XVII.

A parte do contexto histórico

O século XVII no Brasil tem como característica principal a ocupação e colonização, iniciadas no século anterior. O país havia se tornado um empreendimento comercial importante para Portugal, já que estava produzindo mais riquezas e gerando mais lucros que a Índia. Com isso, aumentou-se o interesse da metrópole pelo Brasil, e a vida na colônia começou a organizar-se em torno dos engenhos de açúcar concentrados na Zona da Mata nordestina. Salvador transformou-se no centro econômico, político e cultural do Brasil (NETO, p. 16).

A escravidão no Brasil já era bastante forte no século XVII. Isso foi um fator muito significativo para a formação da sociedade e da cultura brasileira. Segundo FREYRE (2002, p.364), “os escravos vindos das áreas de cultura negra mais adiantada foram um elemento ativo, criador, e quase que se pode acrescentar nobre na colonização do Brasil; degradados apenas pela sua condição de escravos”. Importante é comentar também que negros e colonizadores não eram grupos isolados. Havia, claro, a diferença social esperada entre escravos e portugueses, dominado e dominante, se é que se pode afirmar que os negros formavam uma classe, visto que eram tratados como mercadoria. No entanto, apesar da relação de controle e autoritarismo entre escravos e senhores, estes grupos mantinham estreitas ligações. Uma delas era o ato sexual. Muitos meninos filhos de senhores de engenho, por exemplo, iniciavam sua vida sexual e tinham grande parte dela com escravas de seu pai. Esse tipo de relação e a ideologia de dominação em vários sentidos era algo corrente no Brasil colonial.

A parte da biografia

Não é minha intenção fazer desta parte uma biografia completa de Gregório de Matos. Além de haver poucos dados seguros a respeito de sua vida, detalhes sobre o que aconteceu nesta são de pouca relevância para o presente estudo. É conveniente comentar que ele nasceu no ano de 1623 ou 1633, em Salvador, e morreu em Recife, no ano de 1695 ou 1696. O que julgo mais importante porém são as origens dele. Gregório vem de uma família abastada, ou seja, ele pertencia à classe mais alta de sua sociedade. Considero somente este ponto pertinente não por confiar totalmente que a biografia de um artista possa explicar sua obra, mas porque creio que neste caso, o lugar que ocupava Gregório na sociedade é relevante. Para comprovar isso basta imaginar qual seria a postura de um mulato escrevendo poemas, ou de um índio, e se essa postura seria diferente da que Gregório tem.

A parte cheia de poemas

Vamos agora à análise de alguns poemas de Gregório de Matos que demonstram os comportamentos que tento analisar neste trabalho.

TORNA A DEFINIR O POETA OS MAOS MODOS DE OBRAR NA GOVERNANÇA DA BAHIA, PRINCIPALMENTE NAQUELA UNIVERSAL FOME, QUE PADECIA A CIDADE.

Que falta nesta cidade?…………………Verdade
Que mais por sua desonra……………..Honra
Falta mais que se lhe ponha…………..Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade, onde falta
Verdade, Honra, Vergonha.
[…]
Quais são os seus doces objetos?…………..Pretos
Tem outros bens mais maciços?…………….Mestiços
Quais destes lhe são mais gratos?…………..Mulatos.

Dou ao demo os insensatos,
Dou ao demo a gente asnal,
Que estima por cabedal
Pretos, Mestiços, Mulatos.
[…]

O trecho acima faz parte de um poema em que Gregório ataca vários segmentos da sociedade baiana, e evidencia a postura de repúdio do artista quando o assunto é a classe dos negros e mulatos. Gregório usa um tipo de construção na primeira estrofe e outro tipo na segunda estrofe, recuperando no final da segunda estrofe as palavras finais de cada verso da primeira. Nota-se também na última parte do trecho que ele dirige sua crítica não apenas aos negros, mas aos que os estimam também. Um outro exemplo:

A AMAZIA DÊSTE SUJEITO QUE FIADA NO SEU RESPEITO SE FAZIA SOBERBA, E DESAVERGONHADA
[…]
Entram na tua casa a seus contratos
Frades, Sargentos, Pajens, e Mulatos
Porque é tua vileza tão notória
Que entre os homens não achas mais que escória:
[…]

Espero que, com isso, tenha ficado claro que Gregório de Matos era racista e que isso está explícito em seus trabalhos.

Vejamos agora como Gregório lida com a figura da mulata.

INDO O POETA PASSEAR PELA ILHA DA CAJAIBA, ENCONTROU LAVANDO ROUPA A MULATA ANNICA E LHE FEZ ESTE ROMANCE.

Achei Anica na fonte
lavando sobre uma pedra
mais corrente, que a mesma água,
mais limpa, que a fonte mesma.
[…]
Conchavamos, que eu voltasse
na segunda quarta-feira,
que fosse à costa da Ilha,
e não pusesse o pé em terra,
Que ela viria buscar-me
com segredo, e diligência,
para na primeira noite
lhe dar a sacudidela.
Depois de feito o conchavo
passei o dia com ela,
eu deitado a uma sombra,
ela batendo na pedra.
Tanto deu, tanto bateu
co’a barriga, e co’as cadeiras,
que me deu a anca fendida
mil tentações de fodê-la.
[…]

É muito interessante analisar este poema, pois ele demonstra claramente (pelo menos para mim) o que a mulata representava para o poeta. Esta discussão porém não será feita agora. Parece melhor mostrar antes um outro texto de Gregório, para enfim confrontar os poemas e as diferentes posturas do autor e – torço eu – chegar a uma conclusão adequada.

PONDERA AGORA COM MAIS ATTENÇÃO A FORMOSURA DE D. ÂNGELA.

Não vi em minha vida a formosura,
Ouvia falar nela cada dia,
E ouvida me incitava, e me movia
A querer ver tão bela arquitetura.

Ontem a vi por minha desventura
Na cara, no bom ar, na galhardia
De uma Mulher, que em Anjo se mentia,
De um Sol, que se trajava em criatura.

Me matem (disse então vendo abrasar-me)
Se esta a cousa não é, que encarecer-me.
Sabia o mundo, e tanto exagerar-me.

Olhos meus (disse então por defender-me)
Se a beleza hei de ver para matar-me,
Antes, olhos, ceguei, do que eu perder-me.

São claras as diferenças entre os dois poemas. No que fala de Anica, há diversos sinais que a colocam apenas como objeto sexual do autor, enquanto no texto sobre a formosura de D. Ângela, esta é vista como um ser perfeito, que provoca as reflexões amorosas mais profundas no poeta. Há disparidades também na linguagem utilizada na construção dos poemas. Há uso constante de expressões populares no primeiro, e as imagens criadas servem para enfatizar o interesse carnal pela mulata. Já no segundo, percebe-se um vocabulário mais erudito, e o trabalho com imagens menos carnais e mais líricas ou elevadas, como em ” De uma Mulher, que em Anjo se mentia, / De um Sol, que se trajava em criatura”, que ajudam a dar um tom de distanciamento maior entre o poeta e sua amada.

A partir destas discrepâncias textuais, pode-se passar para uma análise das motivações de tudo isso. Creio que posso concluir que Gregório de Matos e a sociedade brasileira do século XVI, da qual faz parte o poeta, era racista, e tinha o negro, o mulato, como alguém inferior, ou até como algo. Há também esta visão da mulata como simples objeto de desejo carnal, tomando-a apenas uma coisa, porém coisa cobiçada, mesmo que no sentido físico somente, e não com o lirismo com que é tratada a personagem branca. Tal comportamento, visto tanto na obra do poeta barroco quanto nas próprias relações sociais, pode ser encarado como uma reafirmação do discurso racista, e não como uma contradição a ele, pois a coisificação da mulata ou a valorização unicamente de seus atributos físicos não deixa de ser uma atitude racista.

Referências

BERND, Zilá. Racismo e anti-racismo. São Paulo: Moderna, 1994.

CARNEITO, Preconceito racial no Brasil Colônia: os cristãos-novos. São Paulo: Brasiliense, 1983.

COMAS, Juan. “Os Mitos Raciais”, in Raça e Ciência I. São Paulo: Perspectiva, 1970.

FREYRE, Gilberto. Casa-grande e senzala. Rio de Janeiro: Record, 2002.

MATOS, Gregório de. Obra Poética. Rio de Janeiro: Record, 1992.

NETO, Moisés. Literatura Brasileira: do Quinhentismo ao Parnasianismo. www.moisesneto.com.br/quinhentismo.pdf

VAN DEN BERGHE, Pierre L. Race and Racism: A Comparative Perspective. John Wiley and Sons: New York, 1978.