A visão do Padre Antônio Vieira sobre a escravidão

Celso da Silva

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 16, 2011. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Celso da Silva
Universidade Federal de Santa Catarina
Florianópolis, Santa Catarina
celsosilva21@hotmail.com

RESUMO: Este trabalho estende um olhar minucioso sobre as obras “XIV Sermão da Nossa Senhora do Rosário”, e “XXVII sermão da Nossa senhora do Rosário”. Sendo eles, o primeiro e o último sermão pregado aos escravos pelo padre Antônio Vieira, na igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Igreja essa, que teve sua construção iniciada em 1704, como uma obra da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Pelourinho, na cidade de Salvador – Bahia. O ensaio não pretende conceituar o missionário quanto à escravatura no Brasil, todavia, propõe denotar a engenhosidade do missionário Jesuíta no sentido de encouraçar a alma dos desditosos negros, já que nada podia fazer para amenizar-lhes o sofrimento corpóreo a que estavam sujeitos pela condição de escravos.

PALAVRAS-CHAVE: Sermão; Antônio Vieira; escravatura; Igreja do Rosário; pretos.

ABSTRACT: The present essay intends to extend a particular glance to the pieces “XIV Sermão de Nossa Senhora do Rosário” and “XXVII Sermão de Nossa senhora do Rosário”. Those are respectively the first and the last sermon to the african slaves by the Priest Antonio Vieira, at the Nossa Senhora do Rosário dos Pretos church, started to be built in 1704, as an act of the Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos do Pelourinho, from Salvador city, Bahia, Brazil. The essay do not intends to situate the missionare in reference to his position about the slavary in Brazil, however, proposes to enhance his ingenious to enforce the soul of the african slaves, though nothing else could be done to temper the physcal grief they were suffering in that condition.

KEYWORDS: Sermon; Antônio Vieira; slavery; Rosario Church.

 

A ordem Jesuítica “companhia de Jesus” concebida por Inácio de Loyola, teve sua constituição aprovada no ano de 1540 e tinha por objetivo disseminar a fé cristã convertendo a população adulta. A primeira iniciativa dos acadêmicos e membros fundadores da ordem foi à construção de espaços físicos “residências” junto às universidades para facilitar a formação de novos membros. Idealização que se consolidou, perpassou o tempo e persiste nos dias atuais, com a residência de acadêmicos nos campus universitários. No entanto, houve esmorecimento no ideal de converter a população adulta, e não restou, senão, transformar as casas construídas nas universidades de Paris, Lisboa, Lovaina e Pádua, em colégios, e renovar a fé no mundo educando crianças.

A política expansionista de Espanha e Portugal criava novas colônias e, desde o início das colonizações mundo afora, a ordem se engajou na formação dos filhos das novas terras, reafirmando sua vocação docente. No Brasil, os padres José de Anchieta e Manoel da Nóbrega empenharam-se na fundação das cidades de São Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. A princípio, nessas cidades, como em todas as outras fundadas nos países em que Jesuítas atuaram, priorizavam-se candidatos pretendentes a vida religiosa, até porque, este pensamento ia de encontro à proposta original da ordem que se atinha a conversão de fieis e, o melhor caminho para a concretização do objetivo inicial, não seria outro, senão: formar semeadores do evangelho.

A decisão da companhia de o corpo discente ser formado tão somente por candidatos ao clero foi alterada, logo os colégios passaram a admitir candidatos de origem humilde, assim como filhos de ricos e de nobres, desde que se sujeitassem as mesmas regras estabelecidas aos candidatos da formação jesuítica.

A flexibilização ao ingresso nas escolas e a visão humanística da Companhia de Jesus permitiu eclodir o gérmen vocacional de Vieira, o grande cultivador das sementeiras da fé católica, que pela vontade dos pais teria seguido caminho diverso do eclesiástico.

O padre Antônio Vieira nasceu em Lisboa no ano de 1608, na chamada União Ibérica, quando as duas nações – Espanha e Portugal -, se fundiram ao comando do monarca espanhol Felipe II. O destino contribuiu para que a voz de Vieira fosse ouvida no velho e novo mundo, sendo que, em 1614, no porto da Bahia, o menino com seis anos de idade desembarcou acompanhado dos pais, e aos quinze, contrariando determinação da ordem em não admitir menoridade sem autorização expressa de seus tutores, Antônio Vieira teve a solicitação de ingresso atendida pelos padres Jesuítas.

No inicio do noviciado, o aspirante ao clero conviveu com os padres jesuítas numa aldeia indígena e, impressionado pelo trabalho evangelizador da ordem, propôs-se dedicar a conversão dos gentios, mas seu caráter dinâmico e empreendedor não lhe permitiram dedicar o tempo em um único pólo, ou seja, convertendo índios. Ele então retornou a capital baiana para receber a formação espiritual e intelectual que faltavam para alicerçar o grande retórico da escola Barroca, que deixaria um legado literário com aproximadamente duas centenas de sermões, um número considerável de cartas, e importantes documentos históricos de abordagem situacional da colônia e entre esses testemunhos, encontram-se os sermões dirigidos aos escravos negros “os pretos”, como eram denominados na época.

No ano de 1633, aos dezenove anos de idade, Antonio Vieira pregou seu primeiro sermão, o XIV da série Maria Rosa Mística, na igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, cidade de Salvador; Bahia; Brasil. O sermão dirigido aos escravos foi proferido ainda na condição de noviço, ou seja, dois anos antes de o religioso ser ordenado sacerdote.

Vieira não tinha sido ordenado padre e, tampouco, aquele momento era destinado a um sermão. Nesse dia comemorava-se a festa de São João e o noviço faria tão somente um discurso laudatório (panegírico). Conforme enunciado no texto. “Nem é coisa nova, finalmente, que o que havia de ser panegírico do evangelista seja sermão do rosário”. (VIEIRA, Sermão XIV, c. 1). No texto seguinte, Vieira reforça a condição de noviço e demonstra humildade diante da inexperiência.

Mas que fará cercado das mesmas obrigações, tantas e tão grandes, quem não só falto de semelhante espírito, mas novo ou noviço no exercício e na arte, é esta a primeira vez que, subido indignamente a tão sagrado lugar, há de falar dele em público. (VIEIRA, Sermão XIV, c. 1).

No terceiro parágrafo do primeiro capítulo do sermão XIV do Rosário, conforme transcrito acima, diante da mudança no rumo da pauta, o noviço expõe um possível despreparo espiritual para tão vultoso compromisso, no entanto, o que poderia ser percalço, materializa-se na bandeira humanista despertada no início do noviciado, ao conviver com os padres Jesuítas em meio aos gentios numa aldeia indígena, e que manterá desfraldada ao longo da vida.

Engenhosamente o noviço pautou-se nos três eventos do dia, que eram: a festa de São João, o dia e festa da Senhora do Rosário, e o dia e festa dos pretos, devotos da santa, para desempenhar seu primeiro sermão, que não poderia falar de outra coisa, senão da desdita do homem africano transportado em porões imundos para servir ao branco e morrer nos troncos do contraditório paraíso terreal de além-mar.

As três festas do dia serviram de âncora ao XIV sermão do Rosário, durante todo o percurso do mesmo, no sentido de motivar os escravos a aceitar a desdita como um prêmio, e não como um castigo. Parece perverso fazer entender o castigo a que eram submetidos os negros, como uma dádiva divina, todavia, a estratégia do noviço não estava equivocada, uma vez que, reagir ao sistema ditatorial dos senhores de escravos poderia significar, além do martírio da chibata e da salmoura, outros ainda piores, ou até mesmo a morte.

Neste sermão, o pregador articula o discurso multiplicando o nascimento de Cristo em três nascimentos, todos nascidos da Maria Santíssima, sendo o primeiro, o nascimento de Jesus, o segundo, o renascimento na cruz através da afetividade com São João, e por terceiro, o nascimento dos negros (filhos da paixão, do calvário, da cruz de Cristo), denominado por novo nascimento. Conforme citação a seguir. […] “- Segundo a propriedade da história, já dissemos que os filhos de Coré[1] são os pretos, filhos da Virgem Santíssima, e devotos do seu Rosário” […](VIEIRA, Sermão XIV, c. 7).

Cotejando as três festas aos três nascimentos, Antônio Vieira condensa o discurso e solicita a atenção dos negros no sentido de compreenderem a importância da fé, colocada por ele como uma obrigação para que se mantenha pulsante o desejo de amar, tanto ao outro, quanto a si próprio, e não, pura e simplesmente a Nossa Senhora do Rosário, do qual eram devotos os negros.

Os três partos de Maria Santíssima: este é o grande argumento utilizado para eliminar a distinção étnica e sustentar a afirmação que, brancos e negros, indiferentes da cor que os distingue, são filhos da mesma mãe e, consequentemente, irmãos legítimos de Cristo. O orador enfatiza que o primeiro parto gerou Jesus no presépio, sem dor e entre júbilos e o segundo, foi aos pés da cruz, quando, trespassada da espada de Simeão, com dores, a Santíssima o tornou a parir. Percebe-se que a metáfora do nascimento com dores não procura apenas nivelar as cores, mas também, mostrar que a dor, tanto quanto sacrifica o corpo enleva alma e a ilumina de tal forma, que a mesa dos nascidos da dor será servida pelo próprio Deus[2].

O segundo parto faz ainda, alusão à cruz, o símbolo da dor. Conforme podemos observar no sermão XIV, transcrito a seguir, onde a mesma cruz carregada pelos pretos nos engenhos é descrita por Vieira metaforizando a imagem do inferno.

Por isso foi tão bem recebida aquela breve e discreta definição de quem chamou a um engenho de açúcar doce inferno. E, verdadeiramente, quem vir na escuridade da noite aquelas fornalhas tremendas perpetuamente ardentes; as labaredas que estão saindo a borbotões de cada uma, pelas duas bocas ou ventas por onde respiram o incêndio; os etíopes ou ciclopes banhados em suor, tão negros como robustos, que soministram a grossa e dura matéria ao fogo, e os forcados com que o revolvem e atiçam; as caldeiras, ou lagos ferventes, com os tachões sempre batidos e rebatidos, já vomitando escumas, já exalando nuvens de vapores mais de calor que de fumo, e tornando-os a chover para outra vez os exalar; o ruído das rodas, das cadeias da gente toda da cor da mesma noite, trabalhando vivamente, e gemendo tudo ao mesmo tempo, sem momento de tréguas nem de descanso; quem vir, enfim, toda a máquina e aparato confuso e estrondoso daquela Babilônia, não poderá duvidar, ainda que tenha visto Etnas e Vesúvios, que é uma semelhança do inferno. (VIEIRA, Sermão XIV, c. 7).

Da mesma forma que um esmerado mestre de obras, depois de consolidar a base edifica as colunas, o noviço Vieira mantém o Sermão sustentado nos três eventos que originaram o discurso e estão representando as três pessoas do Divino Espírito Santo. Em momento algum do discurso são citadas as três pessoas da santíssima trindade (pai filho e espírito santo), mesmo assim, ao ancorar o discurso nos três eventos do dia e prosseguir pautado em três acontecimentos, a subjetividade indica tratar-se da tríade que sustenta sua fé.

Pontuando o discurso no trio que sustenta a fé cristã e, por conseguinte, a sua, o jovem noviço, no sermão XIV do Rosário, pregado aos escravos, busca promover um triângulo de resistência a escravidão, que se baseia na fé, na passividade e na aceitação, tanto é, que Vieira monta a pregação de forma a sustentar que a escravidão foi à maneira encontrada por Deus para salvar a alma do povo etíope, tirá-lo da gentilidade e trazê-lo ao batismo para a redenção de suas almas.

O negro escravo tornou-se mercadoria de alto valor agregado, e pensar sua alforria era o mesmo que planejar contra a moeda representativa da mercancia angolana, que sustentava a base senhorial dos engenhos, visto que, o fato de Antônio Vieira antipatizar com a escravidão, transformava-o num inimigo dos senhores de engenho e dos mercadores, e esta possivelmente tenha sido à base conspiratória que o colocou nas garras da inquisição que, por pouco não o condena a morte por heresia.

O sermão XIV do Rosário incentivou os pretos a entender a escravidão não como um castigo, e sim como um prêmio para a remissão do pecado original a que estavam vinculados devido à gentilidade de suas tribos originais, mas isso não bastava para suavizar o suplício dos troncos e humanizar as senzalas. Motivo, pela qual, tornava-se necessário incentivar os pretos a uma aceitação passiva desta passagem terrena desventurada a que estavam expostos, e ninguém melhor para fazê-lo, que um representante de Deus.

O religioso, todavia, gera ambiguidade ao colocar a escravidão como prêmio aos negros e comparar os engenhos ao inferno, no entanto, no sermão XXVII pregado aos escravos na mesma igreja, anos depois, eloquentemente ele desfaz a contradição afirmando que, somente o corpo é a desventurada mercadoria de propriedade dos senhores dos engenhos, e não a alma, pois esta, consolidada pelo batismo irá compartilhar da mesa no céu que será servida pelo próprio Deus, o mesmo Deus que os tirou do paganismo para permitir-lhes a imortalidade da alma na segunda transmigração. A primeira viagem, conforme o sermão é a transmigração da África para a América, e a segunda, em sendo aceito o batismo pelos escravos, da América para o céu. As palavras de Vieira fomentando expectativa aos negros, quanto à transmigração da América para o céu, é sustentada na citação de (Bosi), 2009 — p. 265.

A carne sofrida é mortal. A alma crente, ao contrário, é imortal; e é a sobrevivência à morte temporal que vai abrir a porta da esperança aos escravos. Os negros, desterrados filhos de Eva, esperam a transmigração final, não da África para a América, mas da América para o céu.

Já no sermão XXVII do Rosário, pregado aos escravos na igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, Antonio Vieira coloca a proposição de alforria da alma, como o assunto que irá nortear o discurso, conforme explicitado na narração de Vieira, extraída do sermão.

Assunto do presente sermão: a irmandade da Senhora do Rosário promete a todos os escravos uma carta de alforria, com que gozarão a liberdade eterna na segunda transmigração da outra vida, e com que se livrarão nesta do maior cativeiro da primeira. (VIEIRA, Sermão XXVII, c. 1).

Vieira afirma ainda que o domínio de um homem sobre outro homem, sendo este feito de duas metades, corpo e alma, se fará tão somente sobre o corpo, e de forma alguma sobre a alma, ela é a melhor parte do homem e, portanto, livre para exercer o arbítrio; o padre sustenta ainda que: ao senhor do engenho pertence o corpo do negro escravo, e somente este ele pode vender.

Em, segundo Vieira, não tendo os escravocratas direito sobre a alma, não poderiam impedir que os negros a entregassem ao supremo senhor do mundo, para na segunda transmigração desfrutar da comida servida por Deus. Esta consideração feita por Vieira se deu pelo fato de os senhores dos escravos não permitir que os mesmos frequentassem a igreja, e tampouco se unissem pelos laços matrimoniais, sob a alegação de que casados não serviriam tão bem e, para barrar o acesso a igreja, mais e mais serviço os senhores impunham aos negros, como demonstra o excerto do sermão XXVII, c.03:

[…] É possível que por acrescentar mais uma braça de terra ao canavial, e meia tarefa a mais ao engenho em cada semana haveis de vender a vossa alma ao diabo? Mas a vossa, já que o é, vendei-lha embora. Porém, as dos vossos escravos, por que lhas haveis de vender também, anteposto a sua salvação aos ídolos de ouro, que são os vossos malditos e sempre malogrados interesses?[…]

Ao desenvolver o raciocínio de que o negro trazido ao Brasil na condição de escravo era um escolhido de Deus para a salvação, o noviço Antônio Vieira, na pregação do primeiro sermão “XIV do Rosário”, coloca-se como um conciliador que busca amenizar o suplício dos negros. O viés do discurso eximiu-se de fomentar revolta, ou qualquer espécie de reação que pudesse infligir penas ainda mais duras aos negros, do que aquelas que já sofriam e, como já citado, pautou-se na aceitação.

Todavia, o caráter profundamente humanístico do missionário não permitiria que sua voz se mantivesse calada para sempre diante da grande barbárie provocada por ganância e soberba, entretanto, a complexidade do tema sugeria cautela, principalmente porque sua voz recém começava a ser ouvida e de pouco adiantaria gritar. O mesmo não ocorre no sermão XXVII do Rosário, pois Vieira eleva o tom do discurso e escancara a revolta contra os maus tratos impostos ao corpo do negro, ao qual o escravagista se apropriou e transformou em mercancia de valor, tão somente monetário, relegando aos mesmos, a pura e simples condição de objeto sem alma e, por conseguinte, sem direito a crença ou religião que lhes pudesse permitir a transmigração pregada por Vieira, neste mesmo sermão.

Neste último sermão, Vieira demonstra clara indignação diante da supressão do direito a fé dos negros imposta por seus senhores, supressão esta que ele chama de abstinência imposta pela excessiva carga de serviços, sugerindo, desta feita, a não aceitação ao domínio sobre a outra metade, a alma, já que a mesma é o equilibrio e a compensação do martírio corporal.

As vossas abstinências mais merecem o nome de fome, que de jejum, e as ossas vigílias não são de uma hora à meia noite, mas de toda a noite sem meio. A vossa regra é uma, ou muitas, porque é a vontade e vontades de vossos senhores. Vós estais obrigados a ele, e eles não estão pobrigados a vós, porque vos podem vender a outro quando quiserem. (VIEIRA, Sermão XXVII)

Não somente os excessos cometidos contra a alma, mas até mesmo aqueles cometidos contra a parte que cabia aos senhores, o corpo, não poderiam ser deixados de lado pelo coração humanista do Jesuíta Vieira que, carcomido pela vileza praticada contra os pretos de além mar, exige consideração pelos elencadores das fortunas senhoriais, de maneria que, aos seus olhos, os mesmos são merecedores de igualdade humanitária, que incluia, até mesmo, cear na mesa em meio a seus donos, sem ter que susterem-se de migalhas e se alimentarem dos maus tratos recebidos, e este sentimento, Vieira expõe com dramacidade intrínseca na leitura do sermão.

Maltratados, disse, mas é muito curta esta palavra para a significação do que encerra ou encobre. Tiranizados, deveria dizer, ou martirizados, porque serem os miseráveis pingados, lacrados, retalhados, salmorados, e os outros excessos maiores, que calo, mais merecem nome de martírios que de castigos. (VIEIRA, Sermão XXVII, c. 07).

Muitas vozes se ergueriam contra essa desumanidade aos escravos e tornava-se necessário calar tantas quantas fosse possível conseguir calar, principalmente a dos padres que provocavam maior eco e, para tanto, nada melhor que a invisibilidade conspiratória para colocá-los nas garras da inquisição, como pode ser constatado em textos do livro de René Füllöp Miller “MACHT UND GEHEIMNIS DER JESUITEN”, editado na Áustria e posteriormente traduzido para o Português, que demonstra claramente a concorrência dos mercadores de escravos para fazer calar a voz dos padres jesuitas no que se refere a escravidão.

Em breve, porém, surgiu a alvorada de uma época melhor para os mercadores de escravos da América do Sul, pois, agora, após as inesperadas dificuldades de retificação de fronteiras, as suas queixas contra os fascinorosos padres, que lhe haviam estragado o negócio durante cento e cinquenta anos, iriam encontrar ouvidos complacentes. Agora, por fim, também os senhores de Madrid e Lisboa deveriam ficar inteirados do perigo que “os direitos humanos dos índios” representavam para toda a política colonial! (FRANCO, Alvaro. Os Jesuítas – Seus Segredos e Seu Poder. ed. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1946, p. 334).

O senso humanístico do padre Antonio Vieira despertado no convívio com os índios e sufocado no sermão XIV do Rosário, vem a tona e transborda no sermão XXVII do Rosário onde o tom do discurso se eleva contra os senhores dos engenhos e a desumanidade praticada aos escravos negros, atingindo diretamente aqueles que, por certo, ergueram vozes, visíveis e invisíveis, tal qual a dos mercadores de escravos “índios” ou “negros” para empurrá-lo no estreito corredor que o conduziu a prisão do santo ofício, onde o dito Livro do Quinto Império, considerado herético, foi a sustentação para o ato condenatório que por pouco não o leva a execução.

Referências

VIEIRA, Padre Antônio. 1633. Sermão XIV. Disponível em: <http://www.cce.ufsc.br/%7Enupill/literatura/BT2803039.html>. Acesso em: 25 de maio de 2011.

VIEIRA, Padre Antônio. 1633. Sermão XIX — Maria Rosa Mística. Disponível em: <http://www.cce.ufsc.br/%7Enupill/literatura/BT2803039.html>. Acesso em: 25 de maio de 2011.

VIEIRA, Padre Antônio. 1633. Sermão XX — Maria Rosa Mística. Disponível em: <http://www.cce.ufsc.br/%7Enupill/literatura/BT2803039.html>. Acesso em: 25 de maio de 2011.

VIEIRA, Padre Antônio. 1633. Sermão Vigésimo Sétimo do Santíssimo Sacramento Exposto. Disponível em: <http://www.cce.ufsc.br/%7Enupill/literatura/BT2803039.html>. Acesso em: 25 de maio de 2011.

BOSI, Alfredo. Antônio Vieira, profeta e missionário: Um Estudo Sobre a Pseudomorfose e a Contradição. Estud. av. [online]. 2008, vol.22, n.64, p. 241-254.

BOSI, Alfredo. História Concisa da literatura brasileira. 32. ed. São Paulo: Cultrix, 1994, p. 48 — 52.

CÂNDIDO, Antônio. Formação da Literatura Brasileira. 4. ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1964, p. 24.

FRANCO, Alvaro. Os Jesuítas – Seus Segredos e Seu Poder. ed. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1946, p. 334.

 

[1] Coré, na língua hebréia, quer dizer Calvário, e os pretos, segundo citação do sermão; os filhos de Coré.

[2] A citação de que o sofredor será servido pelo próprio Deus, encontra-se no primeiro parágrafo do Sermão XXVII do Rosário, prefaciado no segundo capítulo deste mesmo trabalho.