A Consciência e a imaginação de Bento Casmurro

Jocilei dos Santos Cabral

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 15, 2011. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Universidade Federal de Santa Catarina
Florianópolis, Santa Catarina
jocilei.cabral@gmail.com

RESUMO: O ensaio a seguir tem o objetivo de discutir a obra Dom Casmurro a partir de um olhar crítico sobre a narrativa do protagonista. Ascender a discussão sobre os aspectos que transitam numa região limítrofe entre a consciência e a imaginação do narrador/protagonista.

PALAVRAS-CHAVE: Conflitos, Conscientização, Imaginário, Ciúme.

ABSTRACT: The assay to follow has the objective to argue the workmanship Dom Casmurro from a critical look on the narrative of the protagonist. To promote the quarrel on the aspects that transit in a bordering region between the conscience and the imagination of the narrator/protagonist.

KEYWORDS: Conflicts, Awareness, Imaginary, Jealousy.

 

A obra Dom Casmurro trata de uma narrativa que considera a passagem do tempo como parte construtora do enredo, com isso o narrador utiliza elementos de memória para elucidar ‘sua versão’ da história.

Importante salientar que a memória do protagonista é construída a partir de sua infância, considerando que a obra fora escrita em sua fase adulta, é possível pensar que alguns detalhes ou até mesmo passagens inteiras, tenham ficadas incompletas, apagadas na memória. Portanto, é natural que o preenchimento de tais lembranças possam ter sido efetivadas por lembranças emocionais, pois como se trata de ‘memórias românticas’, o sentimento marcado encontra linhas de traduções infinitas ao longo do tempo e da experiência.

Bento Casmurro é a junção do nome de batismo com alcunha dada por um poeta. Um desabafo ao menosprezo do protagonista, que orienta o leitor de que se trata de um homem amargurado, sem motivos para deleites artísticos. A união aqui é proposital, consciência e imaginação se realizam na mesma pessoa. Elas se complementam? Ou cada qual seria capaz de direcionar percepções diferenciadas a ponto de influenciar na construção de um personagem oposto ao outro?

Possivelmente sim, para as duas questões. Identificar ocorrências desta influência e como consciência e imaginação se entrelaçam na voz narrativa de Dom Casmurro é um desafio para tentar entender as lembranças admitidas como conturbadas, como conflitos mal resolvidos.

Uma primeira função do sistema da consciência concerne às indicações de realidade, ou indicações de qualidade sensorial, que permitem distinguir entre uma percepção e uma representação derivada da memória. Estas indicações de realidade, que inibe o investimento alucinatório ou a defesa primária excessiva, servirão para orientar os processos do pensamento e a eventual descarga por ocasião da ação específica que produz a satisfação. (FREUD, 1895)

O narrador tem a intenção de escrevê-las para que talvez encontre ‘assento’ em sua razão. Uma possível necessidade de encontrar alguma justificativa para os ocorridos no passado. Uma tentativa de conciliar as suspeitas fundamentadas em seu ciúme com o sentimento arrebatador do primeiro amor.

O ambiente e as pessoas que conviviam com Bento desde sua infância talvez tenham participação na construção de um personagem conflituoso. O fato de desenvolver parte da infância e adolescência sem a presença do pai, perceber o luto contínuo da mãe e entender que o amor que existiu entre eles era caso de sorte, de portadores do mesmo bilhete de loteria, é possível que tenha limitado o entendimento sobre o sentimento amoroso.

Além disso, os agregados da família têm papel importantíssimo na construção do intelecto do protagonista. O diálogo entre Bento adolescente e os agregados José Dias e Prima Justina era repleto de interesses de ambas as partes. Bento sabia da capacidade de influência que eles tinham sobre sua mãe. Por menor que fosse, eram as vozes que sua mãe ouviria, substituindo talvez a falta da voz do esposo que possivelmente lhe trazia maior conforto em momentos de decisão.

Do outro lado, o comportamento dos agregados era de ocasião, a franqueza era definida sabendo a quem se dirigia. Um ambiente permeado por cálculos onde palavras e frases são construídas com direcionamento proposital. O estudo no alcance dos interesses já é exercitado por Bento em plena fase de desenvolvimento, fase esta repleta de descobertas, entre elas, emocionais.

José Dias, embora sem muitas ideias, dito por Bento no capítulo IV é quem primeiro fala dos olhos oblíquos e dissimulados de Capitu. Percebe-se aqui que estas palavras foram postas na voz do agregado pelo narrador, pois o poder conferido aos olhos de Capitu, pela memória perturbada pelo ciúme de Bento, pode também ser compreendido sob outro aspecto, o da sedução, ou seja, a “arte fina” que movia as ações de Capitu. Desta forma, até que ponto é possível confiar no narrador? Teria colocado tais palavras propositalmente para direcionar o leitor?

Talvez sim, mas é impossível ter certeza, porém existem pontos que deixam pistas para discernir, ou ao menos iluminar essa linha obscura e muito tênue que separa a imaginação e consciência de Bento. A exemplo, um momento de desabafo de Capitu quando esta pensa em fugir com Bento para que ele não vá para o seminário, o narrador/protagonista analisa arbitrariamente as intenções de Capitu. O que poderia ser um impulso adolescente de querer fugir de tudo para viver um grande amor é interpretado por Bento assim: ”Vejam vocês que Capitu aos quatorze anos já tinha idéias atrevidas”.

É bom lembrar que se trata de lembranças do protagonista, assim esta análise teria sido percebida com idade mental de quinze anos? Ou seria a percepção imaginativa de alguém que já tivesse vivido suficiente para saber o que eram idéias atrevidas?

Embora seja essa a situação de escritos memorialistas, é provável que o sentimento vivido por Bento no momento em que ouvira tal declaração tenha sido maior ou único em sua consciência. Contudo em muitos momentos, a narrativa faz com que o leitor mergulhe nas suposições do narrador, o que direciona o foco para o significado dos momentos vividos pelo protagonista. Parece existir uma introspecção psicológica exposta ao leitor, mas para percebê-la de forma isenta, é necessário que este mesmo leitor atente para possíveis disfarces de Bento.

A consciência, no entanto, não é só percepção consciente, ela compreende também as lembranças conscientes, as fantasias conscientes, os desejos conscientes, o pensamento consciente, etc. (Pribram, K & Gill, M. 1976)

O menino Bento cresceu em uma família sem voz paternal limitadora, o que possivelmente tenha permitido desenvolver características arrogantes das quais utilizava com seus agregados, como forma de exercício. Na iminência de se tornar religioso, Bento se mantém no propósito de negar o seminário e utiliza todo seu poder de cálculo e persuasão para realizá-lo, contando principalmente com auxílio de José Dias.

O desenvolvimento de um perfil controlador, mesmo que visto como desejo infanto-juvenil de manipular tudo e todos e aliado a um status social elevado, poderia ter influenciado formação de um caráter inseguro, instável? Possivelmente sim, mas poderia também ser a descrição de um adolescente com QI admirável, que precocemente compreendia e se comportava conforme a necessidade de seu círculo social. Mas o que importa é que o narrador se utiliza desse perfil para transmitir ao leitor a mensagem de quem está no comando, dito até de forma nada sutil: “O leitor deve ler o que está escrito, (…) conceitos que se devem incutir na alma do leitor à força de repetição.”

Sobre Capitu, é mulher que nunca se manifesta em voz própria. Seu perfil e até suas poucas falas são descritas e definidas pela voz do narrador/protagonista, que fala de uma linda menina, esperta e atrevida, como já dito antes.

Esta mesma voz fala de sábios jogos, de questionamentos sobre a reciprocidade do sentimento de Bento por ela. Jogo misterioso, provocativo, típico da fase juvenil, que mantém Bento sob tensão com pensamentos e delírios de traição. Se Capitu fosse insegura sobre os sentimentos de Bento, ela teria algum motivo para isso? Queria ela talvez ter garantias de um relacionamento futuro com Bento?

Um fato curioso e que leva a reflexão é a surpresa causada por Bento quando este surpreende Capitu esburacando o muro. Cena de beleza infantil que pretende ser mais do que é. Aparentemente uma brincadeira inocente que revelaria fisicamente, ou melhor, espacialmente o que era de conhecimento de ambos: o primeiro amor entre dois amigos.

Porém, o esburacar, mesmo na voz da mãe de Capitu, é mais do que um simples arranhar ou desenhar no muro. Este muro era responsável pela separação das casas de Capitu e Bento, era o limite social entre a família principal e a família subalterna. Um acesso exclusivo entre os donos e empregados, que tinham passagem livre aos cômodos da casa. Capitu, como filha ‘subalterna’, convivia com ambos os ‘lados’ e provavelmente percebia a diferença entre as famílias. E se Capitu não concordasse com tal divisão? Se ela não gostasse desta diferenciação social, seria capaz de sentir ódio disso?

Havendo esta possibilidade, o amor que sentia por Bento talvez fosse uma forma de escape para essa rebeldia, tornando-o um sentimento com bases revolucionárias, porque não até violentas, a ponto de extravasar essa energia no muro. Se sim, queria o autor que pensássemos que ela quisesse se vingar em Bento? Acredito que não, vingança seria exagero e muita crueldade.

Porém, entender que Capitu contribuíra para perturbar a já instável personalidade de Bento e deixá-lo ainda mais criativo? Não é exagero.

Bento possui capacidade imaginativa detalhista, a ponto de criar, de materializar em realidade a possibilidade, de construir uma visão dos acontecimentos conforme sua vontade e desejo. O pavor que sente sobre a possibilidade de ser traído o leva a manter uma posição defensiva. O medo passa ser seu conselheiro mais íntimo e acompanhado da eterna dúvida ele tenta se manter no controle de qualquer suspeita, mesmo esta sendo uma possibilidade inexistente.

“A imaginação não é mais fértil que a das crianças e dos namorados, nem a visão do impossível precisa mais que um recanto de ônibus.” – Dom Casmurro – Machado de Assis.

Na distância do seminário, Bento se percebe tendo surtos imaginativos, um tanto quanto cruéis quando se deparava com figuras femininas. Há aqui a racionalização, a conscientização dos efeitos perturbadores a respeito do descontrole emocional, exemplificado no capítulo ‘O Tratado’ onde Bento afirma que considera “as visões femininas como simples encarnações dos vícios”. Resolve fazer um pacto entre a consciência e sua imaginação, aceitando e cultivando tais visões para se manter forte em possíveis “combates ásperos da vida”.

Para um homem que sofre de surtos, logo, algo que lhe foge do controle, propor um tratado com sua consciência onde o que o perturba pudesse se tornar garantia de resistência para futuros combates é no mínimo estranho. O reconhecimento do surto estaria sendo disfarçado dentro de si mesmo? A ponto desse disfarce servir em causa própria, aos seus interesses e justificativas?

Talvez sim, pois o narrador/protagonista provoca o leitor a participar de seu imaginário, daquilo que não é dito: “É que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as lacunas alheias, assim podes também preencher as minhas.”

Parece um convite ao desafio imaginário, que para Bento é um terreno fértil irrigado pela insegurança. É neste imaginário que o ciúme floresce e se multiplica e para ele parece possuir força inesgotável de possibilidades.

A imaginação está situada no princípio da associação de idéias. Este princípio da associação de idéias está por sua vez vinculado a uma ligação por meio de qualidades de impressões e sensações que acontecem. Nesta direção, poderíamos então afirmar, que a imaginação não é tão sem rédeas como pensávamos, mas sua órbita gira em torno das sensações e impressões fornecidas pela experiência. Impressões e sensações que provocam o surgimento das idéias, e nestas, a imaginação. (David Hume. 1748)

Ao ficar sabendo que Capitu vivia alegre, enquanto ele “chorava todas as noites” no seminário, ele mais uma vez reconhece o ciúme como “um sentimento cruel e desconhecido, o puro ciúme leitor de minhas entranhas”. O estopim foi a possibilidade, a imaginação de que algum peralta das vizinhanças de Capitu pudesse ser o motivo dessa alegria. Mesmo sabendo de que se trata de uma possibilidade, em seguida ele afirma para sua consciência a suspeita criada no imaginário: “(…) não só é possível, mas certo.”

A conscientização proposta no ‘tratado’, de certa forma uma racionalização emocional, se contrapõe ao reconhecimento do ciúme que sente por Capitu. A emoção do ciúme parece não ser controlada, se sobrepõe a razão, se sobrepõe a análise de probabilidade e se transforma em possibilidade. O ambiente até então calculista, frio e em busca dos interesses, no qual o racional controlava as atitudes parece ser conturbado por um sentimento que não se tem controle e não é questionado.

Bento enfim sai do seminário, mas não volta para a mulher que ama e tanto o perturba, segue para mais cinco anos de estudos em Direito. Assim, permanece distante de Capitu mais este período, o qual não faz diminuir o ciúme na mente do agora Doutor Bento. Casa com Capitu assim que retorna da formatura.

O ciúme alimentado por anos de imaginação se consolida e ‘esburaca’ a personalidade de Bento adulto, que agora tem ciúmes por motivos banais, como a falta de atenção em uma simples conversa. A desconfiança o acompanha e o incomoda, ele parece sempre buscar explicações para seu pré-julgamento, ao mesmo tempo se expõe ao leitor como quem quer ser julgado, mas ele mesmo não consegue isenção de si.

As descrições dos personagens e seus comportamentos, na voz do narrador/protagonista, parecem criar uma relatividade entre a verdade social exibida e a oculta, com isso tenta mostrar uma posição que o que é oculto é o que vale como verdade e o que aparece como exibição social é aparência, é falso. Porém, a própria narrativa cria um cenário esquizofrênico e, dentre os personagens, quem pudesse avaliar tanto o exibido quanto o oculto é que conseguiria extrair melhores argumentos para controlar os interesses.

Talvez a tendência seja avaliar a imagem, a aparência como elemento falso e o oculto, a essência como verdadeira, mas as duas características complementam os personagens. Onde estaria a verdade? No externo, na aparência da imagem social? Ou na essência?

Difícil identificar o limite de uma para inicio de outra característica, pois as mesmas convivem em um círculo social que depende do comportamento estético para se manter e se auto valorizar. As verdades internas e externas não conseguem se sobrepor uma à outra.

As máscaras são um instrumento na voz do narrador, que tenta utilizar uma fenda para demonstrar verossimilhança, mas não consegue se desvencilhar do disfarce. A exteriorização dos personagens é apresentada ao leitor como máscara propriamente dita, porém há inquietude em querer organizar os sentimentos, assim não consegue se realizar, não consegue se compreender. O emocional parece uma incógnita, mal resolvida que contribui, e muito, para o discernimento racional.

No primeiro capítulo é possível observar esse conflito interno de não conseguir se multiplicar:

“Entrei correndo no quarto, e eu atrás junto.”

“(…) as pernas também são pessoas, apenas inferiores ao braço e valem de si mesmas, quando a cabeça não rege.”

Nota-se na primeira passagem que conscientemente Bento se vê correndo e entrando no quarto, seus movimentos parecem automatizados, são movimentos que se justificam por si próprios. Por quê? A emoção faz dele um mero participante de seus atos?

Parece que sim, na segunda passagem ele tenta justificar a reação de seus membros, ou seja, tenta racionalizar e se conscientizar de sua possível limitação de controle emocional.

Embora aparentemente o narrador transcorra os acontecimentos de forma natural até a chegada do filho Ezequiel, ele detalha algumas evidências que mesmo não as afirmando como provas, deixando isso a cargo do leitor, sugere toda uma atmosfera favorável à suposta traição de Capitu, são eles os três pilares:

– Dez libras esterlinas, que supostamente foi o valor que Capitu havia economizado do dinheiro que Bento lhe mandava.

– Escobar, seu melhor amigo do seminário, um habilidoso homem de negócios e se torna quase da família quando se casa com Sancha, amiga de Capitu, uma irmã.

– Gravidez de Capitu, que de princípio apresentava dificuldade em se realizar, mas curiosamente próximo ao período da ocorrência das dez libras veio se consolidar.

Após o nascimento de Ezequiel, parece não haver mais surtos ciumentos de Bento. Por quê? Considerando que a felicidade de ter um filho, e ainda varão, tenha suavizado tal característica. Contudo, é pouco provável que ele tenha ficado relapso para as evidências acima destacadas.

O dia-a-dia da família é tido com normalidade, até as brincadeiras de imitação de Ezequiel, que não eram toleradas por Capitu, são vistas com alegria por Bento. É necessário se trazer à tona o nome Ezequiel, que fora dado ao menino em homenagem ao seu melhor amigo de seminário, com a ressalva explicativa de se tratar de uma substituição na falta do amigo, quando este estivesse em viagem. Por quê? Um homem adulto necessitaria de tamanho capricho para simplesmente sentir-se acompanhado do amigo no imaginário?

Talvez sim, porém é tendencioso o pensamento de que tal atitude faça parte de características patológicas, de um possível desvio. Mas também é permitida a observação sobre um olhar irônico do protagonista, admitindo ocorrências futuras de percepção às semelhanças entre o primogênito e o amigo.

As paixões se originam das necessidades naturais ou das idéias que os homens possam conceber a respeito da coisa. Se derivassem somente das necessidades, as paixões seriam sempre as mesmas, porém como nascem também das idéias, e estas progridem, as paixões podem multiplicar-se e alcançar objetos cada vez mais distantes dos estímulos naturais. É pela atividade das paixões que nossa razão se aperfeiçoa. (Jean-Jacques Rousseau. 1754)

Bento parece não se incomodar com as brincadeiras de imitações do filho, se diverte e comenta com Capitu sobre a habilidade que o menino tem de observar detalhes dos comportamentos e saber imitá-los com clareza. Há uma cena em que Bento comenta com Capitu: “(…) achei um jeito dos pés e dos olhos de Escobar (…)”

Comentário sutil, assim como a sentença construída pelo narrador: “Capitu deixou-se estar pensando e olhando para mim, e disse afinal que era preciso emendá-lo.”

É possível perceber que mesmo o protagonista forçosamente não reagindo com desconfiança, o narrador constrói uma sentença que diz nada mais do que está escrito, porém gramaticalmente a soma do infinitivo do verbo ‘estar’ com o gerúndio de ‘pensando’ produz um efeito de deslocamento, que reflete um deslocamento temporal e coloca em oposição a troca de olhar entre Capitu e Bento.

Parece-me um claro convite ao leitor a participar da cena como observador crítico, imaginando o que significa. Embora esta cena seja tendenciosa às suas justificativas futuras, por outro lado nota-se a habilidade do narrador/protagonista em tentar se passar despercebido da própria intenção.

Após a morte de Escobar, afogado em mar revolto, pois confiava demais em sua disposição de atleta, faz a tristeza ter posição definida na vida de todos, menos em Ezequiel que cresce e esquece das imitações que fazia. As semelhanças agora se configuram fisicamente no menino, além dos olhos,”as feições, a cara, o corpo a pessoa inteira.”

Não ter mais o amigo próximo de si talvez não tivesse sido premeditado pelo narrador/protagonista, levando-o a um estado melancólico, de questionamento dos motivos de continuar vivendo: “Quando senti-me com a morte no bolso, senti tamanha alegria como se acabasse de tirar a sorte grande.” A possibilidade da morte, sugerida pela substância que adquirira, poderia ser uma recompensa, uma libertação de todos os momentos vividos por ele?

Talvez, como breve reflexo da melancolia, mas a alma de Bento, agora Casmurro, parece ser composta também por vaidade e ódio, que se revelam com explosão emocional e não com coragem racional.

A partir da derradeira discussão com Capitu a respeito de sua desconfiança da paternidade de Ezequiel e de quase matá-lo, Bento não tem mais dúvidas. A solidão passa ser sua fiel companheira, que era amenizada com a visita de algumas amigas que consolavam a falta feminina, mas não lhe preenchiam mais o espaço.

Mesmo recebendo e tratando as amigas da melhor forma possível elas não voltavam, o amor só fazia sentido em relação à Capitu. Bento por algum motivo não consegue identificar outras características românticas que lhe trouxessem a completude ou se equiparasse com o amor sentido por Capitu. Estaria Bento amando o amor que Capitu sentia por ele? Pois o amor fora despertado em Bento por ela, “esburacado” no muro por ela.

Capitu é responsável pela elevação amorosa de um sentimento que até infância era amigável e talvez a forma de manter-se interessante para seu amado tenha sido permanecer no jogo juvenil de incertezas. Característica bem presente e, porque não, formadora do amor entre eles. Se considerado a hipótese, o personagem coadjuvante não se trata de um ser e sim do sentimento. O amor que Bento sentia por Capitu adquire presença e satisfação ou ausência e insatisfação. Amar alguém passa ser entendido por apenas amar. Seria Capitu o espelho deste sentimento, a fonte de onde Bento nutria o amor que lhe satisfazia todo o arrebatamento, toda a intensidade de um primeiro amor? Considerando que a narrativa da obra é focada em Bento Casmurro, é possível pensar que esse amor à Capitu fosse co-dependente ao ciúme, co-dependente às malícias que esta lhe percutia em mente? É possível.

Referências

ASSIS, Machado de. (1899). Dom Casmurro. Edição de Referência: http://www.machadodeassis.org.br/

FREUD, S. (1895 [1950]). Projeto para uma Psicologia Científica. Tradução Jayme Salomão, Rio de Janeiro, Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. 1.

PRIBRAM, K. & Gill, M. (1976). O Projeto de Freud: um exame crítico. São Paulo, Cultrix.

HUME, David. (1748). Investigação Acerca do Entendimento Humano. Tradução: Anoar Aiex, Edição: ACRÓPOLIS.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. (1754). Discurso sobre A Origem da desigualdade, Tradução: Maria Lacerda de Moura, Edição: Ridendo Castigat Mores.