Quem é Ana C e quem é Ana Cristina César?

Filipe Hahn Barbosa de Souza

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 20, 2013. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Filipe Hahn Barbosa de Souza
Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC
Centro de Comunicação e Expressão
Departamento de Língua e Literatura Vernáculas
Florianópolis, Santa Catarina
Fhbs01@msn.com
http://lattes.cnpq.br/3183615970459579

RESUMO: O ensaio relaciona o livro Teatro, de Bernardo Carvalho, com o perfil biográfico de Ana Cristina Cesar em Sangue de uma poeta, de Ítalo Moriconi, partindo da ideia de que a personagem Ana C. do livro Teatro é uma referência a Ana Cristina Cesar.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura Brasileira; Ana Cristina Cesar; Bernardo Carvalho.

ABSTRACT: The essay relates the book Teatro, by Bernardo Carvalho, with biographical profile of Ana Cristina Cesar in O sangue de uma poeta, by Italo Moriconi, starting from the idea that the character Ana C. the book Teatro is a reference to Ana Cristina Cesar.

KEYWORDS: Brazilian Literature; Ana Cristina Cesar; Bernardo Carvalho.

 

Buscar entender o sentido de um texto ficcional e quem são os personagens desse texto, fazer o exercício de buscar o sentido da existência de uma vida biografada e de uma criação ficcional: esse é o movimento de interpretação e tentativa de entendimento, originando-se de relações feitas sobre personagens diferentes, uma de ficção e uma persona descrita a partir de um estudo biográfico. Quem é Ana C e quem é Ana Cristina Cesar?

O objetivo do presente trabalho é por em contato o livro Teatro (1998), do autor Bernardo Carvalho, e o livro O sangue de uma poeta (1996), de Ítalo Moriconi. A proximidade dos dois livros se dá sobre um nome. O nome de Ana C, que tanto é um personagem do livro de Bernardo Carvalho como uma alcunha para se referir à poeta carioca Ana Cristina Cesar, pode ser verificado no artigo de Cardoso (2011, p. 79): “A poesia de Ana C., no entanto, diferencia-se da poesia da maioria dos poetas de sua geração”. Aqui, a grafia de Ana C, refere-se a Ana Cristina Cesar, ao contrário do que ocorre no livro Teatro, onde a grafia do termo Ana C se refere à personagem de ficção Ana C.

Essa associação proposta por Luciana de Leone (2008) ocorre devido ao aparecimento do nome Ana C. A aparição desse nome é o indício de uma aproximação entre os dois textos. Deve-se ponderar que não é possível postular uma confirmação concreta e absoluta dessa relação. Pode-se, somente, verificar uma série de prováveis relações entre os dois livros fundados sobre essas imagens e, por conseguinte, inferir que se trata do mesmo sujeito.

A personagem Ana C, no livro Teatro, de Bernardo Carvalho, faz uma referência à poeta[i] Ana Cristina Cesar, de acordo com uma concepção de literatura própria do autor do Teatro.

Tal concepção rompe com a dicotomia real x ficção, em que o real faz parte de uma construção ficcional, e ao mesmo tempo essa ficção depende de elementos do real para se constituir. Há desconstrução das identidades, desfazendo sua suposta unidade. E com a reconstrução dessas identidades a partir de fragmentos exteriores aos sujeitos donos dessas identidades, o autor pode se utilizar de elementos não reais para reconstruir essas identidades.

Por seu turno, o texto do crítico carioca Ítalo Moriconi é o que nos faz remeter à ideia de que Ana C pode ser Ana Cristina. Sendo assim, ele descreve uma posição da poeta frente à criação literária e à situação de autora, mulher, em um determinado cenário histórico cultural.

Moriconi trata a questão da definição do sujeito pela opção sexual e da transmutação da poeta para romper com essa lógica de determinados comportamentos, de acordo com definições de gênero masculino e feminino, por exemplo. Revela-se, aqui, a questão do machismo colocado no espaço acadêmico e literário em que a poeta circulava e suas formas de subversão diante deste quadro.

Ana Cristina Cesar opõe-se em sua criação poética a questão da definição do sujeito pela opção sexual, como se isso fosse determinante para caracterizar o comportamento e a criação literária.

Moriconi utiliza a palavra travestismo para demonstrar como Ana Cristina faz para romper com a questão da autoria, no sentido de ente criador. Assim, a poeta consegue relacionar sua posição junto com a discussão feita por Barthes (2004) sobre a questão da autoria.

O livro Teatro é dividido em duas partes, a primeira parte, Os sãos, é um relato de um ex-policial sobre sua atividade em forjar cartas sobre um suposto terrorista. Posteriormente, essa criação ficcional – que são essas cartas – torna-se real, quando um terrorista reivindica uma série de atentados e a autoria das cartas. E há, ainda, a fuga do policial de um país central, não identificado, para um país periférico envolto num caos social e o encontro com a sua namorada de infância, que é Ana C.

Quem é Ana C nessa primeira parte de TeatroAna C é uma mulher, dado muito importante, pois é a partir das indefinições sexuais que Ana C transita pelo romance.

Ana C da primeira parte de Teatro, mulher, que foi namorada do ex-policial, protagonista dessa parte do livro. Eles se reencontram na véspera da fuga do policial. Ana C tem papel preponderante na formação pessoal do policial, sentimental e intelectual, isso se deve ao relacionamento vivido na juventude. Um fato interessante é que os dois ex-amantes não se veem há anos e no reencontro dos dois, Ana C conta que teve um marido, que acabou deixando-o por outro homem. Mas Ana C, ao saber que esse marido morreu, volta a amá-lo e fica sem saber por que o abandonou.

Por sua vez, o ex-policial sabe que toda essa história de Ana C é falsa e sabe que Ana C era uma atriz pornô, pois ele mesmo tinha visto os vídeos dela. Nessa primeira parte do romance é interessante ressaltar que Ana C, quando adolescente, desperta no policial o desejo de ser escritor. Nesse momento da narrativa, entra em cena uma fábula que desfaz a dicotomiarealidade x ficção. Essa fábula trata de uma mulher que bate na porta de um escritor e diz que conheceu o homem de quem o escritor fala em seu último romance.

real e o ficcional se fundem num jogo de fábula e prefiguração. No caso da fábula que Ana C conta ao policial sobre o escritor, há uma ligação do real com o ficcional, ou seja, o personagem do livro feito pelo escritor é uma representação de alguma coisa do real.

Já as cartas que o ex-policial produz é uma prefiguração. A ficção acaba se tornando realidade. Nesse caso, há outro comércio entre o real e o ficcional, não é mais a ficção dependente do real. A ficção cria um real, o que implica num descompromisso de Bernardo Carvalho com o real.

É a partir desse ponto que Bernardo Carvalho pode fazer uma referência a Ana Cristina Cesar, utilizando o personagemAna C, sem usar elementos biográficos.

Essa referência se dá a partir da personagem Ana C, que se transforma, ou se traveste de várias formas para se ocultar ou para romper com a definição unitária de uma personalidade. Sendo assim, obriga o leitor a tentar descobrir quem é essapersona que é Ana C, que aparece na primeira parte do livro como mulher e atriz de filme pornô, mas que também recria sua biografia a partir das mentiras sobre o marido e o amante, mentiras essas contadas ao policial.

Na segunda parte do livro, Nome próprio, tudo se inverte. Ana C é um ator que faz filmes pornôs gays, que só é conhecido pelos seus filmes, por suas imagens, não se conhece a sua vida. Sua biografia é contada e recontada pelos seus fãs. Existem várias narrativas criadas pelos fãs de Ana C para explicar sua vida.

Esses fãs têm uma obsessão tão grande por Ana C, que são levados à loucura. Essas narrativas criadas por seus fãs embaralham-se, remetem-se umas às outras, mas nunca se desfazem ou explicam quem é esse ator pornô. Assim como na primeira parte do livro a questão do que é real e ficcional é questionado, não se distingue quando começa o real e onde entra a ficção, no sentido de que não é possível saber o que é de fato a vida de Ana C e o que é criação de seus fãs.

Ana C é apenas imagem, e toda tentativa de explicar quem é essa persona é feita por fãs que estão em estado de delírio, ou seja, desacreditados, por isso fica difícil determinar quem é esse ator pornô, que durante as cenas de sexo recita as poesias de São João da Cruz. Nesse momento, pode-se supor que Bernardo Carvalho faz uma referência, via literatura, por meio da personagem Ana C, ou seja, de certa forma, e devido à poesia de São João da Cruz, ele se remete à Ana Cristina Cesar.

O narrador dessa segunda parte do livro tenta se comunicar e descobrir quem é Ana C, mas acaba entrando nesse jogo dereal e criação ficcional, igual aos fãs de Ana C. Assim, o narrador passa a ser um desacreditado, cabendo novamente ao leitor descobrir, interpretar, quem é a personagem Ana C.

Nesse jogo de desvendar outra pessoa – em que entra tanto o narrador quanto o leitor –, há um processo de descobrir O outro e descobrir a si próprio. Assim como em Teatro há a tentativa de desvendar uma verdade, quem é Ana C, em O sangue de uma poeta, Ítalo Moriconi se exercita em desvendar quem é Ana Cristina Cesar. Isso se dá por meio de um jogo de memórias e lembranças da vida do autor, uma interpretação do momento histórico em que viveu a poeta e dos fatos da vida de Ana Cristina Cesar.

Partindo desse ponto, Moriconi tenta descortinar essa escritora de várias facetas que é Ana Cristina Cesar. Poetamarginal, poeta suicida e a mais bonita escritora de sua geração, fato ressaltado nos comentários acerca de sua pessoa. Nesse sentido, Moriconi visa mostrar as várias facetas dessa persona e as diferentes identidades dentro de uma persona.

Assim como em Teatro, em que cabe ao leitor interpretar quem é Ana C, Ítalo Moriconi propõe esse mesmo exercício no seu estudo: cabe ao leitor interpretar e descobrir quem é Ana Cristina Cesar, permitindo a criação de outra Ana Cristina Cesar.

Nesse sentido, o crítico carioca mostra como a poeta vai se travestindo de várias formas e ao mesmo tempo se camuflando entre outras posições. Por exemplo, quando ela abandona a postura de poeta e passa para posição de crítica literária.

[…] Ana se declarava em dúvida quanto assumir ou não o papel de poeta. Cultivando uma pose antiliterária, em consonância neste ponto com o espírito de seus coetâneos, dizia conferir tanta importância a seu trabalho como colaboradora de jornais quanto ao trabalho de poeta. […]. (MORICONI, 1996, p. 28).

Esse travestir é colocar uma roupa, vestir um personagem, usá-lo por um tempo e depois se despir para colocar outra roupa, uma fantasia. Talvez isso seja a identidade, esse não ser um e ser vários ao mesmo tempo, que nunca pode ser definido de uma forma total.

Por outro lado, essa posição de se travestir, de se camuflar, seria uma rejeição à posição consolidada sobre a questão da autoria expressa na crítica francesa da década de 1970, mais especificamente Rolland Barthes, no texto A morte do autor, do ano de 1968.

Ana Cristina Cesar teve contato com esse pensamento via seus professores na PUC – Rio, entre eles Silviano Santiago e Afonso Romano de Sant’Anna, pesquisadores ligados à linha francesa da crítica literária.

Rejeitava a aura enobrecedora e o discurso sublime que emolduram os universos da literatura e da poesia, mesmo em suas versões pretensamente malditas. Tal rebeldia tinha o sabor adolescente de uma rebeldia contra a persona que construíra desde muito pequena com o apoio da família. Pois ela fora poeta precoce, desde criança tivera poemas edificantes publicados nos jornaizinhos de igreja e de colégio.(…) Você fala: poeta Ana Cristina, eu acho ridículo(…). (MORICONI, 1996, p. 28).

Rejeitar essa aura de poeta é abandonar o estigma de gênio implícito nesse conceito. Um ser distante do cotidiano, da rotina e da existência das pessoas comuns. Ou que o poeta é portador de um dom dado a poucos. Optar por escrever em jornais é se aproximar da existência cotidiana e abandonar a alcunha de poeta e tudo que é ligado a esse signo.

Nesse movimento de optar por uma coisa ou outra, poeta, crítica e ensaísta é uma forma de se travestir. Colocar uma veste, uma fantasia, em detrimento de outra com um intuito político. Se desfazer de uma personalidade que lhe atribuiria certos adjetivos.   Assim é Ana C, que ora é mulher, ora homem, ora ator pornô. Ana Cristina se transmuta nas mais variadas fantasias.

Ana Cristina Cesar quer romper com a fantasia que lhe impuseram, ou que certas posturas trazem consigo, mulher, autora. Ser mulher, assumir uma posição de mulher na sociedade, a implicação da posição de poeta. De acordo com Moriconi, Ana Cristina Cesar tenta escamotear ou desfazer a unidade que implica uma identidade que é significada diante do nome próprio, assim como discute Bourdieu:

O nome próprio é o atestado visível da identidade do seu portador através dos tempos e dos espaços sociais, o fundamento da unidade de suas sucessivas manifestações em registros oficiais, curriculum vitae, cursushonorum, ficha judicial, necrologia ou biografia, que constituem a vida na totalidade finita, pelo veredicto dado sobre um balanço provisório ou definitivo. (BOURDIEU, 1996, p. 186).

Esse nome Ana Cristina Cesar – que a partir do texto O sangue de uma poeta já não carrega uma unidade, mas vários matizes, uma série de elementos que podem construir uma persona – não perfaz uma identidade unificada.

Uma persona, pois só se consegue apreender Ana Cristina Cesar através de certos atributos, de alguns adjetivos: mulher, poeta, suicida. Mas nunca é possível chegar a uma totalidade do significante Ana Cristina Cesar, pela questão do travestismo que a poeta faz, para escamotear, desfazer esses adjetivos que impregnam o indivíduo e acabam por tentar defini-lo. Ou seja, não há uma identidade Ana Cristina Cesar, mas várias.

Pode-se arriscar a dizer que existe uma Ana Cristina Cesar para cada leitor e, de acordo com o que cada leitor teve acesso nesta obra, uma Ana Cristina Cesar é esboçada a cada leitura.

A partir desse travestismo de Ana Cristina Cesar, ocorre a desconstrução de uma identidade unificada. O leitor da escritora carioca só pode ter acesso à determinada faceta dessa personalidade, dependendo de determinados acessos à sua obra. Assim, é que se pode afirmar que Ana C de Teatro é uma referência a Ana Cristina Cesar, a poeta. Como discutido acima, é apenas um nome Ana Cristina Cesar ou Ana C que, preenchidos por alguns atributos, definem essas identidades. Mas essas identidades acabam não identificando nenhuma das duas personas, pois essas identidades, em vez de serem uma unidade, são constituídas de fragmentos acessados por seus leitores, no caso de Ana Cristina Cesar e espectadores de Ana C.

Assim, tanto em Ana C e Ana Cristina Cesar, nunca se sabe o que foram essas personas. Nem a razão de suas ações, por exemplo, o desaparecimento de Ana C e o suicídio de Ana Cristina Cesar. Dois atos que entre si, há uma relação, pois nos dois atos é necessário interpretar para tentar entender. Mas nunca se chegará à verdadeira motivação desses atos.

Apenas o que temos de Ana C e de Ana Cristina Cesar é a interpretação de seus atos a partir dos fãs de Ana C e dos leitores de Ana Cristina Cesar. Porque, o que é Ítalo Moriconi senão um fã de Ana Cristina Cesar, que cria uma narrativa biográfica da escritora, semelhante ao que fazem os fãs da Ana C de Teatro, em que criam narrativas sobre esse ator pornô? Ou seja, são construções narrativas sobre essas personas. Sempre um jogo de interpretação e construções de novas narrativas.

Referências

BARTHES, Roland. O rumor da língua. 2 ed. São Paulo (SP): M. Martins, 2004.

BOURDIEU, Pierre. A ilusão Biográfica. In: Usos e abusos da história oral. Org. Marieta de Morais Ferreira e Janaina Amado. 2 ed. São Paulo (SP): FGV Editora, 1998. p. 183-191.

CARDOSO, Tânia. O sujeito poético em Ana Cristina Cesar. v. 46. n. 02. Porto Alegre (RS): Letras Hoje, 2011. p. 78-86.

CARVALHO, Bernardo. Teatro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

LEONI, Luciana. Ana C.: Tramas de uma consagração. Rio de Janeiro (RJ): 7 Letras, 2008.

MORICONI, Ítalo. Sangue de uma poeta. 1 ed. Rio de Janeiro (RJ): Relume-Dumará, 1996.

 

[i] O autor prefere utilizar o temo poeta, ao invés de poetisa, respeitando o posicionamento da autora Ana Cristina Cesar em sua defesa de posição de ausência de gêneros, corroborando com a forma de que Ítalo Moricone se refere à escritora.