Presença puxa presença: análise da rememoração e da produção poética no poema “Memória” de Ferreira Gullar

Letícia Campos de Resende

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 23, 2015. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Letícia Campos de Resende
Universidade Federal de Juiz de Fora
Faculdade de Letras
Departamento de Letras
Juiz de Fora, Minas Gerais, Brasil
let-resende@hotmail.com
http://lattes.cnpq.br/8209085532254850

Resumo: O presente artigo propõe-se a analisar o poema “Memória”, de Ferreira Gullar, como um movimento duplo de presença (GUMBRECHT, 2010), marcado tanto pela forma da obra quanto pela experiência (a rememoração de um acontecimento passado) que desencadeia no poeta a produção artística. Para isso, partiremos do conceito de “memória involuntária”, desenvolvido por Proust, e, em seguida, servindo-nos do livro Produção de presença, de Gumbrecht, associaremos o conceito de momento de intensidade, proposto pelo autor, à produção e aos efeitos da memória involuntária no poema de Gullar.  

Palavras-chave: presença; memória; momento de intensidade.

Resumo: The present study tries to analyze the poem “Memória” – written by Ferreira Gullar –, as far as its double movement of presence goes (GUMBRECHT, 2010): in this case, not only would the concept of presence apply to the poem’s structure, but also to the experience (remembering an event that happened in the past) which leads the poet to write the text. In order to do that, we must, first, expose the notion of “involuntary memory”, as described by Proust, in In Search of Lost Time. In addition to that, through the book Production of presence, written by Gumbrecht, we will associate the concept of moment of intensity (GUMBRECHT, 2010) to the production and effects of involuntary memory in Gullar’s poem.

Keywords: presence; memory; moment of intensity.

 

Introdução

O livro Dentro da noite veloz (1962-1975), de Ferreira Gullar, caracteriza-se, em parte, pela tensão entre o caráter engajado dos textos iniciais e o tom melancólico dos demais poemas. Com vistas a explicitar melhor essa tensão, digamos que os textos reunidos na antologia podem se dividir em dois grupos: o primeiro inicia-se em “Meu povo, meu poema” (GULLAR, 1981, p. 217) e estende-se até “Poema brasileiro” (ibid., p. 221). Elementos comuns aos poemas do primeiro grupo resumem-se a dois pontos: (i) a concepção da revolução como um processo natural a que está destinada a sociedade; (ii) o uso de estruturas mais simples, que em certa medida remetem aos poemas de cordel anteriormente produzidos por Gullar[i], de modo a garantir ao leitor fácil compreensão do sentido.

O segundo grupo, por sua vez, abarcando o intervalo entre o texto “Voltas para casa” (ibid., p. 222) até o final do livro, marca outro movimento na poética de Gullar: aqui, a obra assume aspecto mais reflexivo e melancólico. Por meio da constante reiteração da palavra “vida”, o poeta debruça-se sobre e dirige-se ao indivíduo (não à sociedade como um todo), reiterando, ainda, em diferentes ocasiões, sua presença individual ou pessoal no mundo – o espaço e o tempo em que situa a sua existência: “O branco açúcar que adoçará meu café / nesta manhã de Ipanema” – versos retirados de “O açúcar” (ibid., p. 227, grifos nossos).

À presente análise interessa o segundo grupo reunido em Dentro da noite veloz, do qual faz parte igualmente o poema “Memória” (ibid., p. 252), objeto de nosso estudo:

Memória
menino no capinzal
caminha
nesta tarde e em outra
havida

Entre capins e mata-pastos
vai, pisa
nas ervas mortas ontem
e vivas hoje
e revividas no clarão da lembrança

E há qualquer coisa azul que o ilumina
e que não vem do céu, e se não vem
do chão, vem
decerto do mar batendo noutra tarde
e no meu corpo agora
– um mar defunto que se acende na carne
como noutras vezes se acende o sabor
de uma fruta
ou a suja luz dos perfumes da vida
ah vida! (GULLAR, 1981, p. 252)

A problemática suscitada por tal poema, norteadora da análise aqui proposta, parece-nos residir nos dois movimentos de presença operados pela obra: a presença do estar-no-mundo do poeta, manifestada, por sua vez, pela própria presença do poema. Esse encadeamento de presenças, contudo, oscila e se tenciona com efeitos de sentido da linguagem e da lembrança ativada pelo poeta. Assim, o eixo central de nosso estudo consistirá na aplicação de certos conceitos expostos por Hans Ulrich Gumbrecht em seu livro Produção de presença: o que o sentido não consegue transmitir (2010), partindo, igualmente, de pontos de vista já trabalhados acerca da memória.

Algumas considerações sobre a memória

Em um dos trechos mais famosos de Em busca do tempo perdido – quem sabe até o trecho mais conhecido e citado pelo senso comum –, o narrador prova um pedaço de madeleine embebido em uma infusão de chá e, imediatamente, é transportado a um espaço, até então, ausente e completamente esquecido: as férias passadas em Combray. Antes desse episódio, contudo, o pouco guardado pela memória do narrador – as visitas de M. Swann e o ritual que antecedia sua ida à cama – resumia-se a um tempo passado, do qual restavam poucas lembranças.

As teorias envolvendo o funcionamento da memória humana são numerosas e, frequentemente, divergentes. Esse tema, inclusive, não se limita a uma única área de conhecimento: estudos filosóficos, literários e médicos já tentaram definir, cada um a seu modo, os diversos tipos de memória, como o faz Proust no texto abaixo:

C’est ainsi que, pendant longtemps, quand, réveillé la nuit, je me ressouvenais de Combray, je n’en revis jamais que cette sorte de pan lumineux […] À vrai dire, j’aurais pu répondre à qui m’eût interrogé que Combray comprenait encore autre chose et existait à d’autres heures. Mais comme ce que je m’en serais rappelé m’eût été fourni seulement par la mémoire volontaire, la mémoire de l’intelligence, et comme les renseignements qu’elle donne sur le passé ne conservent rien de lui, je n’aurais jamais eu envie de songer à ce reste de Combray. Tout cela était en réalité mort pour moi (PROUST, 2010, p. 43)[ii].

Segundo o escritor francês, portanto, podemos identificar dois tipos de memória: a primeira de ordem inteligível e a segunda de ordem involuntária. Deixando de lado princípios questionadores do pretendido caráter “voluntário” da memória da inteligência, consideremos que esse primeiro tipo de memória: (i) esteja claramente encerrado em um tempo anterior; (ii) corresponda, em certa medida, a uma produção do próprio sujeito “detentor” da memória; (iii) seja acessado mais pela linguagem do que por elementos externos. Feitas as três considerações anteriores, talvez possamos concluir que a memória voluntária se constitui basicamente por efeitos de sentido – o que significa que não apenas atribuímos a ela determinado sentido, mas ativamos seu conteúdo por processos diretamente ligados a nossa faculdade intelectual.

Segundo Marilena Chauí, em seu livro Convite à filosofia, a memória, sem qualquer distinção, poderia conferir “sentido ao passado como diferente do presente (mas fazendo ou podendo fazer parte dele) e do futuro (mas podendo permitir esperá-lo e compreendê-lo)” (2000, p. 164). Assim, a autora identifica a relação entre os tempos estabelecida pela memória como um fenômeno de produção de sentido. No que concerne à memória involuntária, contudo, em um primeiro momento, gostaríamos de pensar a associação de tempos – passado e presente, nomeadamente – como uma fusão, uma materialização do que antes parecia ausente. A essa presentificação da lembrança, posteriormente, poderemos atribuir certo sentido – como o faz Proust ao refletir sobre casos de rememoração involuntária.

À memória involuntária, dessa forma, queremos atribuir outro caráter. Mais uma vez, segundo Proust em No caminho de Swann (1913) – primeiro volume da Busca –, o efeito provocado pela madeleine, assim como o próprio ato de provar o bolinho francês, é assim descrito pelo narrador:

Il y avait bien des années que, de Combray, tout ce qui n’était pas le théâtre et le drame de mon coucher, n’existait plus pour moi, quand un jour d’hiver, […] ma mère, […], me proposa de me faire prendre, contre mon habitude, un peu de thé. Je refusai d’abord et, je ne sais pourquoi, me ravisai. Elle envoya chercher un de ces gâteaux courts et dodus appelés Petites Madeleines […]. Et bientôt, machinalement, […] je portai à mes lèvres une cuillère du thé où j’avais laissé s’amollir un morceau de madeleine. […] [À] l’instant même où la gorgée mêlée des miettes du gâteau toucha mon palais, je tressaillis, attentif à ce qui se passait d’extraordinaire en moi […].

[…] tout d’un coup le souvenir m’est apparu. Ce goût c’était celui du petit morceau de madeleine que le dimanche matin à Combray […], ma tante Léonie m’offrait après l’avoir trempé dans son infusion de thé ou de tilleul. La vue de la petite madeleine ne m’avait rien rappelé avant que je n’y eusse goûté […]. Mais, quand d’un passé ancien rien ne subsiste, après la mort des êtres, après la destruction des choses, […], l’odeur et la saveur restent encore longtemps, comme des âmes […], sur la ruine de tout le reste, à porter sans fléchir […], l’édifice immense du souvenir.

Et dès que j’eus reconnu le goût du morceau de madeleine trempé dans le tilleul que me donnait ma tante […], aussitôt la vieille maison grise sur la rue, […], vint comme un décor de théâtre s’appliquer au petit pavillon […] ; et avec la maison, la ville, […], la Place où on m’envoyait avant déjeuner, les rues […], les chemins […]. Et comme dans ce jeu où les Japonais s’amusent à tremper dans un bol de porcelaine rempli d’eau, de petits morceaux de papier jusque-là indistincts qui, à peine y sont-ils plongés s’étirent, […], de même maintenant toutes les fleurs de notre jardin et celles du parc de M. Swann, […], tout Combray et ses enviorons, tout cela qui prend forme et solidité, est sorti, ville et jardins, de ma tasse de thé (PROUST, 2010, pp. 44, 46, 47)[iii].

O que concluímos a partir do trecho acima é, em princípio, a ocorrência inteiramente casual da lembrança ativada pela memória involuntária. Não é possível prever quando, nem se, vivenciaremos em nossas vidas alguma experiência que nos permita evocar uma lembrança há muito “perdida”:

[…] Il en est ainsi de notre passé. C’est peine perdue que nous cherchions à l’évoquer, tous les efforts de notre intelligence sont inutiles. Il est caché hors de son domaine et de sa portée, en quelque objeto matériel (en la sensation que nous donnerait cet objet matériel), que nous ne soupçonnons pas. Cet objet, il dépend du hasard que nous le rencontrions avant de mourir, ou que nous ne le rencontrions pas (PROUST, 2010, p. 44)[iv].

Em seguida, podemos inferir a origem material e, mais ainda, sensacionista necessária à memória involuntária. Sem determinado objeto e proximidade – contato físico – de um sujeito com esse mesmo objeto, não é possível resgatar, involuntariamente, do olvido o fato vivido.

Finalmente, destacamos a presentificação da lembrança esquecida promovida pela memória involuntária. Quando o narrador se recorda dos outros elementos que compõem Combray, a cidade materializa-se, ergue-se, à maneira de um edifício, no tempo presente – ainda que se trate de um acontecimento passado. Há, pois, uma mistura de dois tempos e, acima de tudo, uma espacialização da memória. Em vista desses principais aspectos, poderíamos conferir à descrição de memória involuntária, tal qual a elabora Proust, a propriedade de presença, conceito desenvolvido e investigado por certos escritos filosóficos, dentre os quais destacamos a obra Produção de presença, de Gumbrecht.

Encadeamento de presença(s)

A longa digressão feita até aqui parece-nos necessária, uma vez que no poema ao qual a presente análise será dedicada, não se trata apenas da memória – como o título obviamente sugere –, mas, especificamente, da memória involuntária definida por Proust na obra supracitada. O poeta de “Memória” resgata uma lembrança da infância a partir das sensações do contato com determinado objeto.

“Memória” poderia ser dividido em dois grandes movimentos: (i) a lembrança, que abarca as duas primeiras estrofes; (ii) a experiência desencadeadora da lembrança, que se resume à terceira estrofe. Entre ambos os movimentos, além da óbvia distinção temática, há diferenças significativas, sobretudo, ao nível da sintaxe, da forma e da sonoridade. Analisemos abaixo cada um dos grupos, de modo a explicitar as tensões estruturais apresentadas pelas duas partes.

Em primeiro lugar, a parte inicial do poema:

menino no capinzal
caminha
nesta tarde e em outra
havida

Entre capins e mata-pastos
vai, pisa
nas ervas mortas ontem
e vivas hoje
e revividas no clarão da lembrança

À primeira vista, a forma e espacialidade dos versos chamam a atenção do leitor tanto pela alternância de versos longos e curtos quanto pelo deslocamento do segundo verso, formado por uma única palavra – “caminha” –, em relação aos demais versos do poema. A “irregularidade” dos versos, a leve estranheza e entrave promovidos pela sintaxe dos períodos contidos nas duas estrofes nos parecem espelhar as falhas e a falta, frequentemente atribuídas às lembranças ou recordações. Quando nossa memória é ativada, a integridade de determinado fato não será necessariamente lembrada por nós; é comum registrarmos – mesmo sem nos darmos conta – um aspecto específico ligado àquele fato, seja por razões afetivas e emocionais, seja por razões práticas (CHAUI, 2000, p. 162).

No caso de Gullar, a falta da lembrança seria dupla: primeiro porque a recordação de um acontecimento anterior não é pura; ao contrário, é cheia de buracos, imprecisões e fabricações. Segundo porque, no caso da memória involuntária, o que a caracteriza é justamente a ausência anterior à sua materialização, isto é, antes de ser recuperada, a lembrança do poeta sequer existia conscientemente.

Assim como mencionamos o posicionamento do verbo “caminha”, poderíamos igualmente atribuir o aspecto de deslocamento aos outros verbos (“vai”, “pisa”) e formas verbais (“havida”, “revividas”) do poema. Embora nestes dois últimos casos não haja recuo das palavras em relação aos demais versos, constatamos que quase todos os verbos ou formas verbais isolam-se de outras palavras, na medida em que constituem, por si só, os versos de que fazem parte: “nesta tarde e em outra / havida / Entre capins e mata-pastos / vai, pisa […]” (versos 3-6, grifos nossos). De certa forma, a lembrança do poeta, indo ao encontro da noção de falha exposta acima, parece produzir-se através de flashes, nos quais a visão mais nítida da lembrança corresponde à ação, à ocupação do espaço por parte do menino.

A própria sonoridade das duas primeiras estrofes evoca o entrave e as falhas da memória. Observamos a predominância de consoantes plosivas, palatais, nasais bilabiais ou alveolares na maioria dos versos: “menino no capinzal / caminha / nesta tarde e em outra / havida”, “Entre capins e mata-pastos / […] / e revividas no clarão da lembrança”. Produz-se, pois, um obstáculo à própria leitura – obstáculo esse que se complementa pela sintaxe. É comum na obra, por exemplo, o deslocamento ou a disposição pouco familiar, contrária à ordem canônica, de certas palavras: o caso de adjuntos adverbiais que se impõem entre sujeito e verbo: “Menino no capinzal / caminha” (versos 1 e 2, grifos nossos); a quebra de um verso apesar do enjambement: “vai, pisa / nas ervas mortas ontem” (versos 6 e 7, grifos nossos). No verso 6, pela posposição do verbo “ir” em relação ao complemento –  “Entre capins e mata-pastos” – e pela pontuação que o separa do verbo “pisar”, é esperada certa dificuldade na leitura. O leitor pode ser levado a imaginar, durante uma primeira leitura em voz alta, que “pisa” assimila o complemento de “vai” ou que, simplesmente, torna-se intransitivo. Ora, o ritmo assumido pela leitura, neste caso, não apenas compromete o próprio sentido do verso, mas quebra igualmente seu ritmo.

Constatamos, por exemplo, que o ataque do primeiro verso consiste em um substantivo desprovido de qualquer tipo de determinante: não se trata de “o menino”, tampouco de “um menino” ou de “aquele menino”, por exemplo. Seria o menino mais que indeterminado? Talvez a ausência de artigo ou pronome deva-se precisamente à impossibilidade de situar o menino na realidade. Ele faz parte da memória, que, não obstante a efemeridade e a capacidade de se confundir com o espaço e tempo presentes – como sugerido pelos versos “caminha / nesta tarde e em outra / havida” (versos 2-4, grifos nossos), “[…] pisa / nas ervas mortas ontem / e vivas hoje / e revividas no clarão da lembrança” (versos 6-9, grifos nossos) –, não é tão real quanto o contato físico que permite a produção da recordação, como veremos na terceira estrofe. Poderíamos supor, talvez, uma diferença entre a memória involuntária que se produz em Gullar e aquela colocada em questão na obra de Proust: a primeira não se ergue tão fortemente como um edifício. Embora se produza no presente, as circunstâncias ligadas a seu aparecimento, isto é, a experiência desencadeadora da memória, pode ser mais significativa que a recordação em si.

No que concerne à terceira estrofe, abaixo transcrita –

E há qualquer coisa azul que o ilumina
e que não vem do céu, e se não vem
do chão, vem
decerto do mar batendo noutra tarde
e no meu corpo agora
– um mar defunto que se acende o sabor
de uma fruta
ou a suja luz dos perfumes da vida
ah vida!

– a ocupação do espaço, embora se assemelhe às estrofes anteriores por três versos mais curtos – versos 12, 17, 19 –, caracteriza-se pela formação de um bloco, mais ou menos homogêneo, em oposição ao “zigue-zague” da primeira parte. Aqui, com efeito, a questão espacial, que já fora de outra forma explorada nas estrofes anteriores pelo deslocamento do verso e pelas escolhas lexicais, será ainda mais fundamental.

A origem da lembrança, como explicada na terceira estrofe, é o contato do poeta com o mar:

E há qualquer coisa que o ilumina
e que não vem do céu, e se não vem
do chão, vem
decerto do mar batendo noutra tarde
e no meu corpo agora (grifos nossos)

Podemos constatar que apenas nessa estrofe, no verso 14, o eu lírico marca textualmente sua presença: “meu corpo”. Ele escolhe afirmar-se e revelar-se ao leitor, portanto, não na recordação, mas na produção da memória. Em outras palavras, no seu contato com o mundo, o que explicaria o fato de o pronome “meu” adjetivar precisamente o substantivo “corpo”.

O aspecto gráfico-visual da terceira estrofe por sua extensão e fluidez evoca, quem sabe, a própria imagem do mar – a origem da lembrança. Em termos textuais, a estrutura sintática dessa estrofe adquire caráter muito mais prosaico, como se isso se refletisse no curso das águas, e incorpora uma quantidade significativa de consoantes fricativas: “[…] coisa azul que o ilumina”, “[…] não vem do céu, e se não vem / do chão, vem / decerto do mar […]”, “– um mar defunto que se acende na carne / como noutras vezes se acende o sabor / de uma fruta / ou a suja luz dos perfumes da vida”.

Esses elementos básicos ligados ao estudo da estrutura do texto já indicam a preferência do poeta pela exploração do espaço (a despeito do uso de adjuntos adverbiais de tempo: “nesta tarde”, “hoje”, “ontem” etc., que tencionam o passado e o presente, fundindo ambos, constantemente) e, por conseguinte, de elementos mais concretos – o poema é repleto de substantivos: “menino”, “capinzal”, “céu”, “chão”, “mar”, “corpo”, “carne”, “fruta” etc. Por esses motivos, poderíamos concluir que o poeta institui em seu texto um verdadeiro fenômeno de presença, tal qual o caracteriza Gumbrecht em obra citada anteriormente. Segundo o crítico alemão, uma cultura de presença, por exemplo, caracteriza-se, dentre outros, pelos seguintes aspectos:

[…] nas culturas de presença os seres humanos consideram que seus corpos fazem parte de uma cosmologia […]. Nesse caso, não se veem como excêntricos ao mundo, mas como parte do mundo. […] Se o corpo é a autorreferência predominante em uma cultura de presença, então […] o espaço – ou seja, a dimensão que se constitui ao redor dos corpos – deve ser a dimensão primordial em que se negociem a relação entre os diferentes seres humanos e a relação entre os seres humanos e as coisas do mundo (GUMBRECHT, 2010, pp. 106, 110).

Definido, em parte, o conceito de presença, tiramos de Gumbrecht outro conceito que parece se aplicar ao poema de Gullar – momento de intensidade:

[…] gosto de me referir a esses momentos como “momentos de intensidade”. Provavelmente porque o que sentimos não é mais do que um nível particularmente elevado no funcionamento de algumas de nossas faculdades gerais, cognitivas, emocionais e talvez físicas. A diferença que fazem esses momentos parece estar fundada na quantidade. E gosto de combinar o conceito quantitativo de “intensidade” com o sentido de fragmentação temporal da palavra “momentos”, pois sei […] que não existe modo seguro de produzir momentos de intensidade, e é ainda menor a esperança de nos agarrar a eles ou de prolongar a sua duração (ibid., p. 127).

No poema de Gullar, a sensação de proximidade e de contato com o mar produz a memória de um tempo antes ausente. Como no caso de Proust, o acaso atua na promoção do instante de recordação – por extensão, o acaso atua como motivação da própria escrita poética. A memória revela-se ao eu lírico quando menos se espera, a partir de seu estar-no-mundo. Nem sequer a inspiração ou o fazer poético, a luz do céu ou do chão, é responsável pela produção de memória. Sua origem se enraíza completamente no campo da materialidade e da sensação, como bem o prova a terceira estrofe da obra, na qual uma relação sinestésica é estabelecida pelos versos finais:

– um mar defunto que se acende na carne
como noutras vezes se acende o sabor
de uma fruta
ou a suja luz dos perfumes  da vida
ah vida!

O tal momento de intensidade de Gullar é arrebatador e provoca no poeta a fusão e incorporação de presente e passado no mesmo espaço e tempo. Vejamos, por exemplo, como se desenvolve a gradação das palavras/expressão “havida”, “revividas” e “ah vida!” (versos 4, 9 e 19, respectivamente). As três aproximam-se pela sonoridade, embora se refiram, separadamente, a sentidos muito distintos. Parece-nos que, a partir do primeiro caso, no qual o particípio passado indica supostamente o encerramento da vida relembrada, a cena rememorada deixa de estar claramente situada no tempo; é, pois, “revivida” e passa a integrar a própria vida presente: “ah vida!”. Não há mais compartimentos para os diferentes tempos da existência do poeta, já que, como afirma Walter Benjamin no ensaio “A imagem de Proust” (1929): “um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois” (BENJAMIN, 1929, p. 37).

O movimento duplo de presença do poema “Memória” reside, pois, na presença do “momento de intensidade”, e pelo próprio “volume” (GADAMER apud GUMBRECHT, 2010, p. 136) ocupado pelo poema – resultado e tradução da experiência do poeta. Volume esse que se representa pela “dimensão que exige a nossa voz […]” (ibid., p. 136) e que abarca aspectos fonéticos, espaciais e imagéticos do poema.

Considerações finais  

O poema “Memória”, de Ferreira Gullar, opera segundo uma temática desenvolvida por outras obras do mesmo autor: “Uma fotografia aérea”, de Dentro da noite veloz, e “Poema sujo”, por exemplo. Aqui, a questão mais amplamente tratada debruça-se sobre a memória involuntária, de maneira, mais ou menos, semelhante à abordagem proustiana de Em busca do tempo perdido.

Destaca-se na obra a materialidade que dá origem à recordação, assim como a materialidade, em certa medida, assumida pela própria recordação, que se alia ao presente, incorporando um só tempo e espaço. A elaboração do contato físico, sensacionista entre poeta e objetos do mundo é, por acaso, desencadeadora de um “momento de intensidade” – de acordo com a definição de Gumbrecht –, um instante que talvez não se repita mais, que revela algo até então ausente: a lembrança de um acontecimento vivido e revivido.

A escolha de uma fundamentação teórica baseada na noção de presença se justifica não apenas pela experiência estética proporcionada pelo próprio poema, mas, sobretudo, pela experiência do poeta, seu estar-no-mundo, que resulta no fazer poético. Por outro lado, há também a dimensão de sentido do poema, que oscila e entra em tensão, nas palavras de Gumbrecht, com a presença produzida pelo mesmo. À guisa de conclusão, poderíamos, ainda, lançar um último questionamento: como analisar a interação de ambos – sentido e presença na obra? Para nós, leitores e críticos, a interpretação do texto é inevitável; o poeta, enquanto elaborador do texto, pensa, idealiza e recorre, obviamente, à abstração da linguagem – composta também por sentido – para a execução do objeto artístico. Nem ele, nem nós, contudo, ignoramos o espaço, a materialidade de toda obra de arte.

Referências

BENJAMIN, Walter. “A imagem de Proust”. In: _______. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Editora Brasiliense: São Paulo, 2008, pp. 36-48.

CHAUI, Marilena de Souza. “A Memória”. In: _______. Convite à Filosofia. Disponível em: http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/convite.pdf. Acesso em: 12 de setembro de 2014.

GULLAR, Ferreira. “Memória”. In: _________. Toda Poesia: 1950-1980. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.

GUMBRECHT, Hans Ulrich. Produção de Presença. SOARES, Isabel (trad.). Rio de Janeiro: Editora PUC, 2010.

PROUST, Marcel. Du côté de chez Swann. Paris: Gallimard, 2010, pp. 43-44, 46-47.

Data de envio para publicação: 18 de dezembro de 2014.

 

[i] Na década de 1960, atuando no Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), Gullar começa a escrever poemas de cordel, a fim de atingir e conscientizar um maior número de pessoas a respeito da situação política e social do país. Tais obras, desenvolvidas com uma linguagem muito mais simples e com um conteúdo claramente político e programático, procuravam reproduzir o falar popular e, assim, se aproximar das massas.

[ii] “É assim que, durante muito tempo, quando, desperto de noite, recordava-me de Combray, nunca revi mais que esse traço luminoso […]. Na verdade, eu teria podido responder a quem tivesse me perguntado que Combray consistia, ainda, em outra coisa e existia em outras horas. Mas como aquilo que eu teria recordado me teria sido fornecido apenas pela memória voluntária, a memória da inteligência, e como as informações que ela dá sobre o passado nada conservam dele, eu jamais teria tido vontade de imaginar esse resto de Combray. Tudo aquilo estava, de fato, morto para mim” (tradução minha).

[iii] “Havia muitos anos que, de Combray, tudo o que não era o teatro e o drama da minha hora de dormir, não existia mais para mim, quando num dia de inverno, […] minha mãe, […], propôs que eu tomasse, contra meu costume, um pouco de chá. Eu recusei a princípio e, não sei por que, mudei de ideia. Ela mandou buscar um desses pequenos bolinhos fofos chamados Pequenas Madeleines […]. E logo, maquinalmente, […] levei aos lábios uma colher do chá em que havia deixado amolecer um pedaço de madeleine. […] No mesmo instante em que o gole misturado às migalhas do bolo atingiu meu palato, estremeci, atento ao que se produzia de extraordinário em mim […].
“[…] de repente a lembrança me apareceu. Esse gosto era o mesmo do pequeno pedaço de madeleine que, no domingo de manhã em Combray […], minha tia Léonie me oferecia depois de tê-lo mergulhado em sua infusão de chá ou de tília. A visão da pequena madeleine não me tinha recordado coisa alguma antes que a tivesse provado […]. Mas, quando de um passado antigo nada subsiste, depois da morte dos seres, da destruição das coisas, […], o aroma e o sabor permanecem ainda por muito tempo, feito almas […],  sobre a ruína de todo o resto, carregando sem se curvarem, […] o edifício imenso da lembrança.
“E assim que reconheci o gosto do pedaço de madeleine mergulhado no chá que me oferecia minha tia […], a velha casa cinza que dava para a rua, […], veio como o cenário de um teatro se colar ao pequeno pavilhão […]; e com a casa, a cidade […], a praça para a qual me mandavam antes do almoço, as ruas […], os caminhos […]. E como no jogo em que os japoneses se divertem mergulhando, em uma vasilha de porcelana cheia de água, pequenos pedaços de papel, até então indistintos, que, mal mergulhados se estiram, […], da mesma forma, neste momento, todas as flores do nosso jardim e aquelas do parque de M. Swann […], toda Combray e suas redondezas, tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, da minha xícara de chá” (tradução minha).

[iv] “[…] Também é assim com o nosso passado. É trabalho desperdiçado tentar evocá-lo, todos os esforços de nossa inteligência são inúteis. Ele está escondido fora de seu domínio e de seu alcance em algum objeto material (na sensação que nos daria esse objeto material), do qual não suspeitamos. Esse objeto, depende do acaso que o reencontrarmos antes de morrer ou que não o reencontremos jamais” (tradução minha).