A inquietação intelectual de Jane Eyre: uma perspectiva histórica

Felipe Chernicharo Trindade

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 34, 2020. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS)
Departamento de Letras e Comunicação social (DLC)
Seropédica, RJ, Brasil
http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K8062847P4

RESUMO

Este artigo busca discutir alguns aspectos da construção da personagem de Jane Eyre, protagonista do epônimo romance da escritora britânica Charlotte Brontë, no que se refere à questão feminina da Inglaterra vitoriana no século XIX, com ênfase na mulher de classe média. Para tanto, este trabalho fornece uma breve contextualização histórica, seguida da análise de excertos expressivos do romance. Por fim, explora-se brevemente a posição da governanta na era vitoriana. 

PALAVRAS-CHAVE: Literatura Inglesa; Charlotte Brontë; Mulher Vitoriana; Jane Eyre

ABSTRACT

This article aims to discuss some aspects of the shaping of the character Jane Eyre, the main character in the eponymous novel by the British writer Charlotte Brontë, regarding the “woman’s question” in Victorian England during the nineteenth-century, especially attaining to the middle-class woman. In order to do so, this paper offers a short historical contextualization, followed by an analysis of some representative excerpts from the novel itself. Finally, the social status of the governess in the Victorian era is briefly explored.

KEY-WORDS: English Literature; Charlotte Brontë; Victorian Woman; Jane Eyre

 

Breve contextualização histórica 

Jane Eyre, romance publicado em 1847 por Charlotte Brontë, é uma das obras seminais do período vitoriano e tem sido considerado, também, um importante marco da literatura feminina. Em Dilemas de Uma Época: A Narrativa Transgressora de Charlotte Brontë (2014), Sandra Regina G. Almeida menciona o parecer de uma jornalista contemporânea à Brontë e à Jane Eyre. Margaret Oliphant escreve, em 1855, para a Blackwood’s Magazine, um artigo acerca do romance, parte do qual lê-se: “a revolução mais alarmante dos tempos modernos se seguiu à invasão ocasionada pela publicação de Jane Eyre” (ALMEIDA, 2014, p. 10-11). 

Oliphant tem ainda o seguinte a dizer sobre a personagem epônima:

Jane Eyre […] uma pequena perigosa, inimiga da paz […] Tal era a impetuosidade do espírito que forçava o seu caminho no nosso bem ordenado mundo, rompendo fronteiras e desafiando princípios (OLIPHANT, 1855, p.118 apud MONTEIRO, 1998, p. 65).

Percebe-se, portanto, o impacto que a prosa de Brontë causou ainda em sua

época. De fato, Almeida afirma, ainda, sobre Jane Eyre:

Ao questionar a ideologia vitoriana que preconizava para as mulheres a tradicional imagem do anjo do lar, o romance lança mão do recurso narrativo em primeira pessoa, do diálogo contínuo com os supostos interlocutores e do gênero autobiográfico para se aproximar dos leitores, inaugura na série literária inglesa uma vertente de romances de autoria feminina protagonizados por mulheres que foge do padrão estereotipado de construção das personagens femininas (ALMEIDA, 2014, p. 10).

Aqui faz-se, talvez, necessária uma breve nota acerca da figura do anjo do lar 

(ou anjo no lar), criação vitoriana sob cuja égide as mulheres – e, em especial, as mulheres burguesas e pertencentes à classe média – deveriam sempre viver e agir. O termo é usualmente associado ao poeta vitoriano Coventry Patmore (1823-1896), cujo longo poema The Angel in the House (1854-1862) imortalizou a perspectiva do feminino, a qual mitifica

a pureza da mulher e seu altruísmo. Protegida e enclausurada dentro do lar, seu papel era o de criar um espaço de paz onde o homem poderia encontrar refúgio das dificuldades da vida moderna. (GREENBLATT, 2012, p. 992, tradução minha).

Basta comparar a “pequena perigosa”, “inimiga da paz” descrita por Oliphant com a criatura enclausurada e dependente de Patmore para que rapidamente se compreenda a dissonância do status quo que a Jane de Brontë representou para a cena literária da Inglaterra vitoriana de meados do século XIX. Nesse sentido, Brontë captura o espírito de uma época ao criar tal protagonista: a “Questão da Mulher” era um dos assuntos mais em voga da era vitoriana. Em diversos campos, como o legislativo, o educacional e, na própria produção literária, a presença feminina vinha sendo repensada já a partir do fim da primeira metade do século XIX. 

De acordo com a Norton Anthology of English Literature (GREENBLATT, 2012) leis aprovadas pelo  Parlamento Britânico como The Custody Act de 1839, e, mais tarde, The Divorce and Matrimonial Causes Act de 1857 e The Married Women’s Property Act de 1870, foram todas ações legislativas que, gradualmente, contribuíram para “estabelecer uma base para os direitos das mulheres no casamento” (GREENBLATT, 2012, p. 991), ainda que as mulheres beneficiadas por tais medidas fossem, quase exclusivamente, pertencentes à classe-média e à burguesia. Já no campo educacional, mais relevante para a discussão de Jane Eyre, não menos do que um ano após a publicação do romance, em 1848, foi estabelecida a 

primeira universidade para mulheres em Londres (…). Ao fim do reinado de Vitória, mulheres podiam receber diplomas em doze universidades e podiam estudar, ainda que não pudessem receber um diploma, em Oxford e Cambridge (GREENBLATT, 2012, p. 991, tradução minha).

De fato, a busca de Eyre por independência é a grande força propulsora do romance e reflete uma das problemáticas mais prementes de sua época, no que se refere à grande questão da mulher no século XIX. A inquietação das mulheres vitorianas letradas com relação a seu limitado acesso ao conhecimento formal crescia cada década de maneira mais ardente. Nomes como o de Florence Nightingale e Lady Amberley são típicos deste movimento, o qual perdurou durante a era vitoriana.

É importante, contudo, perceber que Jane Eyre, embora pertença à classe média ascendente no romance, por ser órfã, solteira e, mais tarde, tomar a função de governanta, representa uma parcela da população feminina cuja experiência pessoal era inteiramente diferente daquela das mulheres da classe média casadas e bem estabelecidas socialmente. Enquanto a classe média prosperava nas décadas iniciais do século XIX, essa prosperidade

causou mudanças significativas no estilo de vida da classe média, uma vez que o desejo por estima social se tornou uma obsessão. A classe média expressava tal desejo através da obtenção daquilo que ficou conhecido como “parafernália da nobreza”, casas grandes e caras, cavalos elegantes e carruagens, um séquito de empregados, e jantares luxuosos e elaborados. A “Dama Perfeita” era um elemento muito importante da “parafernália da nobreza”. Esta nova imagem trouxe à tona mudanças dramáticas e diretas no estilo de vida da mulher da classe média (BRANCA, 1985,  p. 4, tradução minha). 

Em busca de estabelecerem suas filhas como “Damas Perfeitas”, os pais da classe média buscavam uma educação básica, restrita a atividades como dança, música, etiqueta e o aprendizado de línguas consideradas cultas, como o francês (BRANCA, 1985, p.4). Era este, portanto, o contato usual da mulher da classe média com a educação. Tendia, completa tal educação, a casar-se, dar à luz filhos e filhas e deixá-los sob os cuidados de “amas de leite, babás e governantas” (BRANCA, 1985, p.4). Se ela lia, era uma literatura restrita ao entretenimento ou aos assuntos domésticos, como os populares livros da Senhora Eliza Warren, os quais visavam auxiliar a dona de casa burguesa a equilibrar as finanças e supervisionar a disciplina das crianças de seu lar (BRANCA, 1985, p. 7). 

Tal não era a vivência de Jane Eyre, que, “pequena, obscura e simples”, não dispunha de uma família e recebera uma educação mais formal do que estética, o que provocou sua inata sede de conhecimento e expansão intelectual. Na primeira vez em que a personagem é introduzida na trama, ainda no primeiro capítulo, o leitor observa uma jovem Jane pacificamente lendo História dos Pássaros Britânicos, e sonhando com as costas distantes da Lapônia, Sibéria e Islândia. 

A inquietação e o desejo pela expansão e independência são aspectos definitivos no caráter de Jane Eyre desde sua infância, no início do romance, e guiam-na durante a fase adulta, pelo desenrolar da trama; tal propulsão é intrinsecamente associada a sua relação com a leitura, cujo repertório é consideravelmente mais rico do que aquele ao qual teria acesso a mulher mediana da classe média.

A inquietação intelectual de Jane Eyre

Em uma das mais célebres divagações do livro, Jane expressa sua necessidade de explorar a si mesma e ao mundo como um espaço de descobertas e expansão intelectual e social:

Quem quiser culpar-me que me culpe se eu acrescentar que, uma vez ou outra, saía sozinha para caminhar pelo jardim, ia até os portões e olhava através deles para a estrada. Ou enquanto Adèle brincava com a babá, e a Senhora Fairfax fazia geleias na despensa, eu subia os três lances de escada, levantava o alçapão do sótão e chegava à cobertura e olhava para longe, para o campo, para as montanhas e o horizonte a distância e sentia falta de ter um poder de visão que me levasse além daqueles limites e que pudesse atingir aquele mundo agitado das cidades e regiões cheias de vida de que eu ouvira falar, mas que jamais havia visto. Então desejava ter mais do que a experiência prática que possuía. Queria mais interação com pessoas como eu, queria conhecer outras pessoas diferentes daquelas que estavam ali ao meu alcance. Eu valorizava o que a Senhora Fairfax e Adèle tinham de bom, mas acreditava na existência de outros tipos de bondade mais interessantes, que eu queria apreciar (BRONTË, 2014, p. 198-199).

Pode-se, na passagem supracitada, observar os efeitos do confinamento a uma vida medíocre sobre a mente ativa de Jane Eyre, cujo ardente intelecto e sede de conhecimento logram encontrar felicidade e realização pessoal somente com a perspectiva de expandir seus horizontes para “além daqueles limites”, a fim de conhecer pessoas e ideias novas, cuja ausência pesa-lhe na normalidade pacata de sua posição de governanta. O trecho que se segue é ainda mais provocante, uma vez que lida diretamente com a questão feminina dentro do senso libertário que permeia o anterior:

É inútil dizer que os seres humanos deveriam contentar-se com a tranquilidade. Eles precisam de ação. E, se não a encontram, irão criá-la. Milhões estão condenados a um destino mais pacato que o meu, e milhões vivem uma revolta silenciosa contra a sua sorte. Ninguém sabe quantas revoltas, além das revoltas políticas, fermentam na multidão da vida das pessoas na Terra. Tem-se a crença de que as mulheres, em geral, são bastante calmas, mas as mulheres sentem as mesmas coisas que os homens. Precisam exercitar suas faculdades e ter um campo para expandi-las, como seus irmãos costumam fazer. Elas sofrem de uma restrição tão rígida, e de uma estagnação tão absoluta, como os homens sofreriam se vivessem na mesma situação. É um pensamento estreito dos seres mais privilegiados do sexo masculino dizer que as mulheres precisam ficar isoladas do mundo para fazer pudins e cerzir meias, tocar piano e bordar bolsas. É fora de propósito condená-las, ou rir delas, se elas desejam fazer mais ou aprender mais do que o costume determinou que fosse necessário para pessoas do seu sexo (BRONTË, 2014, p. 199-200).

A célebre modernista britânica Virginia Woolf discute esta mesma passagem de Jane Eyre em seu seminal ensaio sobre a ficção e o feminino, Um Teto Todo Seu (originalmente publicado em 1928). No capítulo quarto, Woolf pondera acerca da autora de tal trecho: 

Pode-se dizer, eu continuei, acomodando o livro ao lado de Orgulho & Preconceito, que a mulher que escreveu essas páginas continha mais gênio em si do que Jane Austen; porém, se alguém lê-las novamente e perceber aquele impulso nelas presente, aquela indignação, este alguém há de concluir que ela jamais conseguirá expressar o seu gênio por completo e por inteiro. Seus livros hão de ser deformados e distorcidos. Ela escreverá em cólera onde deveria escrever sensatamente. Ela escreverá acerca de si mesma onde deveria escrever sobre suas personagens. Ela está em guerra com sua própria sorte. Como poderia ela morrer senão jovem, inválida e enfraquecida? (WOOLF, 2005, p.606, tradução minha).

O furor de Jane Eyre confunde-se com o de sua criadora, Charlotte Brontë, a qual, como sua protagonista, também enfrentou situações adversas à sua liberdade intelectual e artística. E, de fato, como ressalta Woolf (2005), encontrou seu fim “jovem, inválida e enfraquecida”: apesar de ter sido aquela entre as irmãs Brontë que mais tempo viveu, Charlotte faleceu aos 39 anos, depois de uma gravidez complicada e adoentada. Em vida, como bem sugere Virginia Woolf (2005), demonstrou revolta contra a inibição ao desenvolvimento intelectual feminino imposto pela rígida sociedade vitoriana: 

Escritoras tão diversas quanto Charlotte Brontë, Elizabeth Barrett Browning, e Florence Nightingale reclamavam que as mulheres da classe-média eram ensinadas feitos triviais a fim de preencher dias nos quais não havia nada de importante para fazer (GREENBLATT, 2012, p. 991, tradução minha).

A figura da governanta

A experiência de Jane Eyre – e, novamente, também a de sua criadora – é bastante específica de um seleto grupo de mulheres de boa educação, solteiras e que partilhavam de um papel social instável: as governantas; figuras controversas da era vitoriana. 

A configuração de Jane como uma governanta dentro da trama não é meramente um artifício sensacionalista da parte de Brontë, ela mesma já tendo servido como uma. O dilema moral e intelectual a que Eyre é submetida ao longo do romance ganha especial significância em razão de sua profissão e status social de preceptora. 

A figura da governanta durante a era vitoriana pode ser associada a um fenômeno social que vinha ganhando força na Inglaterra daquele tempo: o excesso de mulheres solteiras pertencentes à classe média, cuja raiz era o “desequilíbrio de número entre os sexos” (GREENBLATT, 2012, p. 992). Nesse sentido, essas mulheres dispunham de uma quantidade bastante limitada de opções para uma situação respeitável e rentável na sociedade: aquela de preceptora ou governanta figurava como uma delas. Não se pode dizê-la popular, uma vez que a governanta

não podia esperar certeza de emprego, apenas salário mínimo, e um status ambíguo – algum lugar entre empregada e membro da família – o qual a isolava dentro da casa em que servia. Talvez porque a governanta tão claramente indicasse a precariedade do status da mulher solteira pertencente à classe média na Inglaterra vitoriana, o romance de governanta, do qual os exemplos mais famosos são Jane Eyre (1847) e Vanity Fair (1847), tornou-se um gênero popular através do qual podia-se explorar os papéis das mulheres na sociedade (GREENBLATT, 1962, p. 992, tradução minha).

Essa instabilidade social a qual era submetida a governanta vitoriana fora experimentada pela autora de Jane Eyre. Sobre tal experiência, ela certa vez escreveu em uma carta destinada a sua irmã Emily, de 1839:

A preceptora particular não tem existência, não é considerada como ser vivo e racional, exceto em relação aos deveres enfadonhos e cansativos que tem que cumprir. Enquanto está ensinando, trabalhando e divertindo as crianças, tudo bem, mas se rouba uns momentos para ela, torna-se incômoda (GASKELL, 1975, p. 187-188 apud MONTEIRO, 1998, p. 63).

O romance, portanto, reflete tal situação de enclausuramento e humilhação da governanta frente à família burguesa ou aristocrática a qual ela serve; em especial, destaca-se uma passagem do capítulo décimo sétimo, em que a orgulhosa aristocrata Blanche Ingram, ao ver a pequena Adèle, protegida do Senhor Rochester, patrão de Jane, dispara:

Suponho então que o senhor tenha conseguido uma governanta para ela. Vi uma pessoa com ela ainda há pouco, será que se foi? Oh, não! Ainda está ali, atrás da cortina daquela janela. É claro que o senhor paga um salário a ela e penso que seja caro. Sem falar que tem de mantê-la (BRONTË, 2014, p. 311).

Quando o Senhor Rochester responde, “indiferente”, que não pensara sobre essa questão, a Senhorita Ingram pressiona ainda mais:

Não, vocês homens nunca pensam em economia e bom-senso. O senhor deveria ouvir o que mamãe tem a dizer sobre governantas. No nosso tempo, Mary e eu tivemos, pelo menos, uma dúzia delas. A metade era detestável e as demais, ridículas. E todas eram um pesadelo. Elas não eram assim, mamãe? […] Minha querida, nem me fale de governantas. Essa palavra me dá nos nervos. Fui vítima da incompetência e do capricho delas. Agradeço aos céus por ter-me livrado de todas! (BRONTË, 2014, p. 312).

A cena é flagrante do tratamento frio e humilhante que uma família aristocrática podia dispensar com relação às preceptoras; mãe e filha têm tal conversa com “uma pessoa daquela raça abominável presente na sala” (BRONTË, 2014, p. 311), sem sequer demonstrar a mínima consideração. Faz-se, portanto, especialmente relevante a experiência de Jane como governanta, a qual, como se viu, reflete a da própria autora: torna-se ainda mais cheia de pathos a sua busca por independência intelectual e financeira; afirma Jane: “não sou um pássaro, e não fui presa em uma armadilha. Sou um ser humano livre com minha vontade independente” (BRONTË, 2014, p. 441).

Em contrapartida, um outro aspecto da vida da governanta era que a posição exigia uma mulher bem-educada, com acesso a uma literatura que surpassa a de entretenimento e domestic management a qual estavam habituadas as mulheres da classe média casadas e estabelecidas. De fato, sobre a posição de governanta, “encontrava-se uma falta de candidatas adequadas” (BRANCA, 1985, p. 3). 

A preceptora era detentora de certo saber e, uma vez dentro da casa em que deveria servir, tinha acesso quase exclusivo à educação das crianças e ao acervo literário particular de seus patrões, uma vez que as aulas usualmente decorriam nas bibliotecas e em salas de estudo. De fato, tamanha era a vantagem da governanta nesse sentido, que sua presença poderia representar uma tensão dentro da household burguesa, conforme argumenta Maria Conceição Monteiro em seu artigo Figuras errantes na época vitoriana: a preceptora, a prostituta e a louca: 

Suscetível de indignação e revolta com a situação vigente e, ao mesmo tempo, detentora de certo saber, a preceptora poderia instilar em seus pupilos novas ideias que provocassem uma subversão dos valores construídos pela burguesia (MONTEIRO, 1998, p. 64).

Tal não é precisamente o caso de Eyre, mas é interessante pensar a personagem sob a perspectiva do acesso à literatura mais abrangente e sua necessidade de expansão intelectual e cultural.

Considerações finais

O objetivo deste artigo foi o de oferecer uma breve discussão acerca dos aspectos sociais presentes na obra de Brontë, tendo em vista a posição da autora como uma mulher letrada e insatisfeita com as condições de desenvolvimento intelectual e educacional das mulheres da classe média vitoriana. A intenção foi expor como tal insatisfação – ou, antes, inquietação – permeou seu celebrado romance Jane Eyre, tendo manifestação principalmente em sua destemida e intrépida protagonista. 

Nesse sentido, fez-se importante ressaltar que Jane correspondia à função de governanta no livro, bem como a própria autora durante os anos de sua juventude. A experiência dessas mulheres, as quais partilhavam de um status ao mesmo tempo tão libertador dado que tinham acesso a um arcabouço intelectual e cultural inteiramente diferente do da maior parte das demais mulheres pertencentes à classe média, e tão ambíguo visto que não tinham segurança em sua função, eram comumente vistas como intrusas no lar, indesejadas e mesmo perigosas, é muito peculiar à era vitoriana e, portanto, marcante na literatura da época. 

As ponderações que aqui foram apresentadas baseiam-se nas colocações de autores e autoras anteriores que, em níveis distintos, exploraram de alguma forma a “questão da mulher” na Inglaterra do século XIX e, deste modo, são relevantes no entendimento do romance de Brontë e seu lugar no passado e no presente. 

Com o crescimento de textos acadêmicos que buscam compreender a pluralidade dos papéis femininos dentro e fora da ficção, o presente artigo almeja fornecer, talvez, as bases para um estudo mais minucioso da Jane Eyre, de Charlotte Brontë, e sua significância dentro do período histórico em que foi concebida.

Referências bibliográficas

ALMEIDA, Sandra Regina Goulart. “Dilemas de uma época: a narrativa transgressora de Charlotte Brontë”. In: BRONTË, Charlotte.Jane Eyre.Tradução de Anna e Carlos Duarte.São Paulo: Martin Claret, 2014, p. 9-16.

BRANCA, Patricia. Silent Sisterhood. Londres: Croom Helm, 1985.

BRONTË, Charlotte. Jane Eyre. Tradução de Anna e Carlos Duarte. São Paulo: Martin Claret, 2014.

GREENBLATT, Stephen. The Norton Anthology of English Literature. Nova Iorque: W.W. Norton & Company, 2012.

MONTEIRO, Maria Conceição. Figuras errantes na era vitoriana: a preceptora, a prostituta e a louca. Fragmentos, n.1, p. 61-71, 1998.

WOOLF, Virginia. A Room of One’s Own. Hertfordshire: Wordsworth Editions, 2005.