Contos “Obsessão” e “Pai contra mãe” em correlato aos Cadernos Negros

Maklina dos Santos Almeida

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 34, 2020. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

UNILAB
Instituto de Linguagens e Literaturas, Letras – Língua Portuguesa, CE-Brasil
maklinalmeida@hotmail.com

RESUMO: O presente trabalho propõe discutir o significado da reconstrução da conscientização e preservação identitária coletiva do negro no Brasil, por meio da memória da sua ancestralidade africana e do confronto aos estereótipos criados pelas narrativas da cultura dominante. Ao valorizar a história e cultura africana como resistência ao apagamento dessas heranças, a literatura afro-brasileira se empenha em expressar a identidade e visão de mundo do negro na sua condição de diáspora. Para este trabalho, destacamos o conto “Obsessão”, de Sônia Fátima, Cadernos negros (1993) para um estudo comparativo com o conto “Pai contra mãepublicado na obra Relíquias da Casa Velha (1906), de Machado de Assis. A análise dos contos teve como fundamentação teórica básica, os estudos de Antonio (2005), Correia (2010), Duarte (2011), Figueiredo (2009), Proença Filho (2004), Mattos (2007) e Scarpelli (2006) que se voltam para a literatura afro-brasileira e estudo dos Cadernos Negros. Considerou-se como eixo da análise a metáfora da camisa xadrez em “Obsessão” e do aborto sofrido pela mulher negra escravizada no desfecho de “Pai contra mãe”. Ambas as narrativas são afrodescendentes na temática e  denunciam a violência cultural e a ideologia do branqueamento, que têm raízes na história do Brasil escravocrata e que contribuem para a invisibilidade do negro ainda neste século XXI. Deste modo, ao fortalecer a luta identitária negra e sua apropriação dos espaços artísticos culturais como expressão da sua existência, os contos advertem contra essa espécie de aborto cotidiano da afrodescendência na sociedade brasileira. 

PALAVRAS-CHAVES: Cadernos negros; Identidade afrodescendente; Pai contra mãe; Obsessão.

ABSTRACT: The present work proposes to discuss the meaning of the rescue of awareness and collective identity preservation of black people in Brazil, through the memory of their African ancestry and the confrontation with stereotypes created by the narratives of the dominant culture. By valuing African history and culture as resistance to the erasure of these heritages, Afro-Brazilian literature strives to express the identity and worldview of black people in their condition of diaspora. For this work, we highlight the short story “Obsession”, by Sônia Fátima, Black notebooks (1993) for a comparative study with the short story “Father against mother”, published in Machado de Assis’s Relics of the Old House (1906). The metaphor of the plaid shirt in “Obsession” and the abortion suffered by the black woman enslaved in the outcome of “Father against mother” was considered as the axis of the analysis. Both narratives are Afro-descendants in the theme and denounce the cultural violence and the whitening ideology, which have roots in the history of slave Brazil and contribute to the invisibility of black people in this 21st century. Thus, by strengthening the black identity struggle and its appropriation of cultural artistic spaces as an expression of its existence, the stories warn against this kind of daily abortion of the afro-descendant in Brazilian society.

KEYWORDS:  Black notebooks; Afro-descendant identity; Father against mother; Obsession. 

 

1. Introdução

O presente trabalho destaca o papel da literatura negra ou afro-brasileira, como importante integradora da memória cultural africana na diáspora, e da identidade negra, sendo porta voz desse segmento social, cuja presença na história brasileira, é inegável e não deve ser limitada às narrativas oficiais e representada na literatura na perspectiva da cultura branca dominante, mas narrada e representada do ponto de vista do negro. O discurso literário nacional, compreendendo o século XIX aos dias atuais, evidenciou dois posicionamentos em relação ao negro na literatura brasileira: primeiro, a literatura do século XIX mostrou a condição do negro como objeto, em uma visão distanciada, marcada por ideologia, atitudes e estereótipos da estética branca dominante, na qual o negro aparecia na literatura como vítima da escravidão, perfil heroico com tendência ao branqueamento, infantilizado, serviçal, subalterno, erotizado, animalizado e como personagem secundário (PROENÇA FILHO, 2004, p. 161-166). 

Já o segundo posicionamento é o engajado, que teve vozes precursoras nos anos de 1930 e 1940, ganhando força a partir de 1960 e destaque a partir dos anos 1970 e 1980. Tal posicionamento literário preocupava-se em marcar em suas obras a afirmação cultural da condição negra na realidade brasileira e, com isso, escritores negros e afrodescendentes começaram a manifestar em seus textos, o comprometimento com a etnia (PROENÇA FILHO, 2004, p. 176), já que a herança cultural africana, como afirma Mattos (2007, p. 167), influenciou o cotidiano do Brasil, construindo também a história e cultura do país. 

O preconceito racial é histórico no Ocidente e no Brasil teve início com a chegada dos negros ao Brasil na condição de mercadoria e mão-de-obra africana. O colonialismo no país nos anos 1500 marcou o começo da exploração das riquezas nativas e da opressão indígena, e posteriormente, negra, que com isso, nesse período houve o delineamento da posição dos indivíduos na sociedade, as regras de conduta e o estabelecimento das relações sociais. Como resultado, criou-se um abismo social entre os brancos colonizadores, detentores das riquezas, e os negros africanos e os indígenas nativos, marcando o começo e a continuação do preconceito e discriminação destes grupos no Brasil, fazendo com que estes ocupem uma posição marginalizada na sociedade brasileira (COSTA JÚNIOR, 2013 p. 27). 

Posteriormente, a ideologia do branqueamento da população brasileira, no contexto pós-abolição, reforçou o preconceito racial ao conceber o projeto de identidade nacional baseada em critérios de raça, considerando a cor branca como o estágio do desenvolvimento hierárquico da humanidade, visando europeizar o Brasil e eliminar a herança biológica e cultural africana (COSTA JÚNIOR, 2013, p. 20). Conforme Fausto Antônio (2005, p.18), a percepção do racismo na sociedade brasileira e a sua superposição ao campo literário e cultural permitiu o apoio mútuo entre membros da sociedade negra, entidades e organizações negras na luta estratégica contra a discriminação racial. A publicação dos Cadernos Negros, a partir de 1978, contribui grandemente para o conceito de literatura negra no Brasil, por serem coletâneas que protestam contra o racismo, abordam o tema do negro em sua individualidade e coletividade, sua inserção social e a preservação da memória cultural (DUARTE, 2011, p. 377). 

As coletâneas trazem como reflexão diretamente relacionada a visão do movimento negro, a conscientização da existência do racismo no Brasil, sustentado pela ideologia enraizada na sociedade do branqueamento ideológico x negritude física, deste modo, “o branqueamento ideológico versus o enegrecimento físico marca o centro das reações dos escritores protagonistas dos Cadernos” (ANTÔNIO, 2005, p. 18) e, ao mesmo tempo, é um alerta contra a suposta passividade negra frente a desigualdade racial, devido a ideologia da democracia racial, que corrobora para o silenciamento cultural, como acusa Fausto Antônio (2005, p. 20): 

É no cotidiano das relações que se dá, no Brasil, o embate do país negro versus o país do branqueamento do imaginário, da invisibilidade física da negrura, da naturalização do racismo e do silêncio ou anonimato do negro. Assim se articulam as políticas do racismo e a sua realidade concreta. O centro das contradições está no branqueamento ideológico, enraigado, num país que tem negros em profusão e um processo de enegrecimento físico flagrante. O racismo exige, portanto, um discurso para construir a sua invisibilidade. 

E, por fim, o autor afirma “A naturalização do racismo, o branqueamento ideológico, na contramão do enegrecimento físico do país, só podem ser efetivados através do silêncio e do bloqueio de uma reação analítica engendrada na concepção sistêmica do seu funcionamento” (FAUSTO ANTÔNIO, 2005, p. 224). Assim, os Cadernos Negros, escritos por intelectuais negros, formulam pré-condições para combater o racismo presente na relação entre a sociedade, a literatura e a representação, ao traduzirem para a literatura, em forma de denúncia, as ações preconceituosas que são naturalizadas e replicadas na sociedade (FAUSTO ANTÔNIO, 2005, p. 20).

O conto “Obsessão”, de Sônia Fátima, presente na edição especial da série Cadernos Negros de 1993, denuncia o racismo e como este, sendo parte do projeto colonial e imperialista, afeta a todos e contamina até mesmo uma família negra, de forma silenciosa. Já o conto “Pai contra mãe”, de Machado de Assis, embora tenha sido escrito em 1906, quase um século antes dos Cadernos negros,  aborda o tema escravidão e tem como desfecho, o aborto da negra escravizada Arminda, ocorrido durante a sua luta pela liberdade, quando capturada por um homem branco livre. Os enredos permitem-nos estabelecer um diálogo entre as narrativas acerca da resistência e preservação da descendência negra como identidade e herança cultural.  

2. Cadernos Negros: Uma visão literária engajada da representação do negro no Brasil

A série Cadernos Negros é a mais influente representante do movimento literário negro no Brasil. Criada em 1978, pelos escritores negros Cuti e Hugo Ferreira, segundo Fausto Antônio (2005, p. 15) tem elevada significância social e literária por ser um projeto composto unicamente por escritores e poetas que se assumem como negros, e seus textos advertem contra a invisibilidade do negro no passado e no presente. 

Os Cadernos Negros, segundo Antônio (2005, p. 16-18), assim como o Teatro Experimental do Negro (TEN) criado por Abdias Nascimento, resultou do movimento social negro na luta antirracista, emergindo no mesmo período da retomada do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial (MNUCDR). Os Cadernos negros teve o seu primeiro volume lançado em 25 de novembro de 1978, apresentado na Primeira edição do FECONEZU, Festival Comunitário Negro Zumbi, organizado por diversas entidades negras, no estado de São Paulo. 

Com a maior visibilidade negra nos espaços de comunicação, Antônio (2005, p. 31), defende em sua tese de doutorado que: a literatura negra engajada articulou os Movimentos Negros de Expressão Cultural com Movimentos Negros Políticos (ANTÔNIO, 2005, p. 31):

A presença de uma imprensa negra foi fundamental para a organização das entidades negras, e para a viabilização de espaços par jornalistas e escritores negros. Mediante à organização negra e a conquista de novos espaços, temos uma maior presença negra nos meios de comunicação, que no contexto do início do século XX, na ação das Entidades Negras Recreativas e de auxílio mútuo, na articulação do Teatro Experimental do Negro, década de 40, e na retomada dos Cadernos, 1978, derivou da afirmação identitária e política dos movimentos negros e de forma especial, em ambos os contextos, da articulação de Movimentos Negros de Expressão Cultural com Movimentos Negros Políticos.

 Nesse contexto, os movimentos negros existentes tinham envolvimento político e cultural em prol da igualdade racial, por exemplo, a imprensa negra alternativa, a Frente Negra Brasileira, criada em 1931 por Henrique Cunha Correia Leite e José Correia Leite, a criação do Teatro Experimental do Negro (TEM) por Abdias Nascimento que propunha combater a exclusão dos negros no teatro, e a fundação do Comitê Democrático Afro-Brasileiro, em 1945, por Abdias do Nascimento e Solano Trindade, que reivindicava o acesso aos direitos trabalhistas e a educação, e em 1950, Solano Trindade foi um dos fundadores do Teatro Popular Brasileiro, e ainda, no ano de 1954 foi criada a Associação Cultural do Negro, que organizava cursos, conferências e eventos culturais (MATTOS, 2007, p. 189-190). 

Ademais, o lançamento dos Cadernos Negros em 1978 e a ação do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial representaram a “a inseparabilidade das conquistas no plano político e social com as conquistas no plano literário ou artístico-cultural” (Antônio, 2005, p. 43-44). 

 A série Cadernos Negros publica alternadamente livros de contos e de poemas, sendo que há uma publicação por ano e é organizada pelo Quilombhoje e até 2017, foram publicados 40 volumes. Constitui-se um espaço para os criadores e também um instrumento para o exercício das Leis 10639/03 e 11645/08, por veicular a cultura, o pensamento e o modo de vida dos afro-brasileiros (QUILOMBHOJE).

Antônio (2005, p. 42) reitera que os Cadernos Negros têm como foco a denúncia contra a discriminação racial, a afonia em relação à negrura no cotidiano, cuja existência é justificada pela ideologia do branqueamento ideológico tão arraigado na sociedade brasileira, segundo o qual, nega-se a existência do negro no Brasil, em contradição a um número majoritário da população negra no país. 

Desta forma, o racismo é sustentado pelo discurso da sua invisibilidade (ANTÔNIO, 2005, p. 20), pois se “não” há negros, e se ocorre o apagamento da sua cultura, logo, afirma-se que não há preconceito racial. Assim, como afirma o autor, os discursos (incoerentes com a realidade) circulados pela população são naturalizados e repetidos, devido à ignorância que se instala em relação à história e cultura do negro no Brasil. A naturalização do discurso racista se dá porque, conforme Domingues (2005, p. 119), “as ideologias são imagens invertidas do mundo real e as relações sociais de dominação as produzem para ocultar os mecanismos de opressão.” Dessa forma, Domingues (2005, p. 119) chama atenção para o mito da democracia racial, que se configura como uma distorção do padrão das relações raciais no Brasil, construída ideologicamente por uma elite considerada branca, de forma intencional ou involuntária, a fim de maquiar a opressiva realidade de desigualdade entre negros e brancos. 

Nesse contexto, a produção literária dos Cadernos Negros, visa exatamente desnaturalizar o racismo e divulgar um projeto literário claramente explícito, de modo a alertar que a discriminação racial se dá no cotidiano das relações da sociedade brasileira, com o embate do país negro e do país do branqueamento do imaginário, a invisibilidade física da negrura, naturalização do racismo e do silêncio ou anonimato do negro (ANTÔNIO, 2005, p. 21). 

Desse modo, os Cadernos Negros, ao trazer uma literatura explícita negra, centra-se nos valores de matriz africana, cujo significado é construído historicamente na afro-diáspora, e que portanto deve ser mobilizado pelos afrodescendentes (ANTÔNIO, 2005, p. 71) ou seja, nas palavras de Proença Filho (2004, p. 176), “uma literatura comprometida com a singularização cultural da cultura e história do negro no Brasil.” Para Antônio (2005, p. 71), a intenção dos autores dos Cadernos Negros é tratar das especificidades históricas, sociais culturais, da memória coletiva e em consonância com as técnicas literárias. 

Correlacionando o sentido de solidariedade presente nas irmandades religiosas dos africanos e afrodescendentes da diáspora no Brasil no período da escravidão, os Cadernos Negros são uma metáfora do tambor tocado para o momento de “toques de reunir” dos africanos e afrodescendentes que se reuniam na manutenção da sua cultura, nesse interim, como afirmou Correia (2010, p. 36): “os Cadernos Negros são um desses desvios solidários à manutenção da luta identitária”, e ainda são comparados às cestas cheias de memórias, lições de rebeldia e vivências diárias, isto é, como Correia (2010, p. 36) afirma, essas tradições orais, assim como na concepção das religiões, devem ser passadas de geração a geração, ou seja, permanecerem vivas e propagadas sob a visão do negro como eu-enunciador do seu mundo, que se quer desconstruir a imagem que a cultura dominante criou sobre ele. Em outras palavras, revisar a história oficial, com a autoria do ponto de vista do negro (ANTÔNIO, 2005, p. 19). Para isso, rompe-se com alguns contratos de fala e de escritura da cultura do branco e passa-se a discutir a negrura fora dos estereótipos criados e de pré-julgamentos das elites culturais (CORREIA, 2010, p. 37). 

3. Análise comparativa dos contos “Pai Contra mãe” e “Obsessão”

Concernente à escrita de Machado de Assis, há divergências acerca da sua manifestação explícita como literatura afro-brasileira.  Proença Filho (2004, p. 172) entende que a literatura machadiana é indiferente à problemática do negro e dos afro-descendentes. Para o crítico, mesmo os contos “O caso da vara” (1891) e “Pai contra mãe” (1906), que mais envolvem a temática da escravidão, não se focam na questão étnica, mas em problemas como o egoísmo humano e a tibieza de caráter e os outros personagens negros secundários, retratados apenas como figurantes de uma realidade social que pretendia retratar. 

Já Eduardo de Assis Duarte (2011, p. 391-392) considera que a literatura machadiana também pode ser considerada afro-brasileira, devido, por exemplo, as matérias abolicionistas publicadas pelo autor na Gazeta de Notícias e suas famosas crônicas publicadas na Gazeta de Notícias, como a série de crônicas “Bons dias”, que sempre aborda o cativeiro com o acréscimo de elementos que julgam ou lamentam a condição dos escravos, outros que louvam a filantropia dos que os libertam ou criticam os que apoiam ou se beneficiam do sistema. No âmbito da ficção, “Virgínius”, “Mariana”, “O espelho”, “O caso da Vara” e ainda o presente conto “Pai contra mãe” possuiriam uma postura nitidamente afro-brasileira, considerando a visão de Duarte Silva. Sobre as crônicas “Bons dias”, em que Machado de Assis denuncia  a parte da elite que usava a causa abolicionista para se autopromoverem na política e para status social, não tendo como causa a  luta contra a escravização racial, como percebe-se no seguinte trecho: “Um dos convivas confessou que no meio das festas abolicionistas não aparece o seu nome, outro, que era o dele que não aparecia, outro que era o dele, e todos que os deles “ (ASSIS, 1888, p. 74). 

Na continuação da crônica referente ao subtítulo “1 de junho”, se constata o narrador-personagem se aclamando como profeta, como “homem de visão” por ter libertado o seu escravo Pancrácio antes da data de 13 de maio de 1888, Lei Áurea. Adiante, o narrador-personagem testifica que o fez visando obter o cargo político de deputado. “O meu plano está feito, quero ser deputado e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição legal, já eu, em casa, na modéstia da família, libertava um escravo” (ASSIS, 1888, p. 73). 

Deste modo, conforme a visão de Duarte Silva, as crônicas de Machado de Assis e o conto ora analisado se enquadram como literatura afro-brasileira, por compreender que além da crítica aos sentimentos humanos como egoísmo e tibieza de caráter, destacados por Proença Filho, Machado de Assis teceu uma contundente denúncia contra a indiferença social em relação ao preconceito racial e escravização, ao mostrar que até alguns atos “ditos abolicionistas” eram de interesse pessoal disfarçado, não existindo uma consciência para a questão negra. 

Nesse sentido, Machado de Assis manifestou explicitamente pela via da ironia, com uma voz autoral negra, pois não é desprovida de significados que apontem para uma rejeição e crítica social contra o preconceito racial e também social, como a escravidão. Em contos como “Pai contra mãe” e a série de crônicas “Bons dias” instiga o leitor a perceber como a dinâmica social desprezava os interesses e a cultura afrodescendente, tratando-a como inferiorizada. Os escritos de Machado de Assis, assim como os de outros autores do século XIX, como Maria Firmina dos Reis (1822-1917), no romance Úrsula (1859) explicitam um olhar não racista e também não-branco (DUARTE,  2011, p. 383). 

O conto “Pai contra mãe” problematiza a escravidão e a naturalização da desigualdade racial, ao provocar reflexões no desfecho do conto acerca da sobrevivência  da vida branca e morte da vida negra, com o aborto sofrido pela escravizada Arminda, ou seja, descendência negra abortada (SCARPELLI, 2006, p. 82). O desfecho metaforiza, conforme Marli Scarpelli (2006, p. 82) o aborto como a tentativa de apagamento de uma herança cultural e ironiza a justificativa da predominância da cultura dominante, representada pelo filho branco recém nascido do pai Cândido Neves, o caçador de escravos fugitivos. 

A luta entre Cândido Neves e a escravizada Arminda dá-se num palco de pobreza do homem branco e livre na ordem escravocrata (FRANCO, 1997, p. 14) e de desumanização dela pelo escravismo. Mas não há comparação possível de tais condições de vida. O caçador justifica o seu “trabalho” como necessidade para a sobrevivência do filho que iria nascer, numa relação de superioridade e de egoísmo, pois a atitude e a tal “necessidade” de Cândido Neves pode ser traduzida como “antes o meu filho do que o filho dela”; enquanto que, mais do que a sempre remediável pobreza material, sob o olhar escravista são negados todos os direitos dos negros, inclusive o direito à vida. 

 Nesse sentido, Mangueira (2009, p. 3) explica que a própria Rua da Ajuda, que ocorreu a luta entre os personagens centrais, a semântica da palavra “ajuda” remete ironicamente a um socorro para Cândido Neves, pois “quando vagou pela cidade tentando encontrar um socorro para o filho, encontra-o justamente na Rua da Ajuda, ao passo que na segunda leitura, quando a mãe troca de posição com este, ficando agora necessitada de ajuda, ela não encontra auxílio nenhum para si ou para o filho que trazia no ventre. (ASSIS, 1982, p.204, apud MANGUEIRA, 2009, p. 4), porque “quem passava ou estava à porta de alguma loja compreendia o que era e naturalmente não acudia” (MANGUEIRA,2009, p. 4).  

Mangueira argumenta que esse conflito era social, devido à pobreza da população livre, mesmo sendo branca, e da escravidão do negro no período imperial, que para garantir a sobrevivência de um era preciso tirar a vida do outro, pois foi em Arminda que Cândido Neves encontrou a sua solução, pois, por ela estar em uma condição de dominação, ele encontrou forças para propagar a sua espécie, visto que diante de alguém mais poderoso do que ele na escala social, ou seja, o latifundiário senhor e proprietário da escrava fugida, ele supostamente não teria outras condições de subsistência. Os dois personagens queriam continuar existindo, por meio de seus descendentes (MANGUEIRA, 2009, p. 4).  

A indiferença de Cândido e a sua impiedade representam a lógica escravista que defende o preconceito racial, pautado na visão de inferioridade do negro, que conforme Mangueira (2009, p. 5-7), Cândido Neves, mesmo pobre e dependente da ajuda de um senhor, mantinha uma relação de dominação com os escravos, sendo o primeiro fator que socialmente lhe conferia essa visão de superioridade, a sua cor/raça, que pode ser interpretada pelo seu nome “Cândido Neves”, e o segundo fator era a justificativa de que o ofício de capturar escravos fugidos era de cooperar com a lei, e que mesmo não sendo atividade nobre existia para manter a ordem escravocrata.

Vale ressaltar que a narrativa da pobreza extrema de Candinho e de Clara, sua esposa grávida, sendo descrita inicialmente no conto parece sobrepujar a seriedade da escravidão do negro, consistindo em uma forma machadiana eficaz para ironizar a comoção do leitor com a história do amor de um pai pelo seu filho com a “justificativa” de que havendo uma “justa causa”, “vale qualquer solução”, que no enredo é a captura da escrava Arminda. Para reforçar a ironia, o narrador especifica desde o início que Cândido Neves tinha como característica um defeito muito grave: “Não aguentava emprego e nem ofício, carecia de estabilidade”, pois havia aprendido algum tempo a tipografia:

Começou por querer aprender tipografia, mas viu cedo que era preciso algum tempo para compor bem, e ainda assim talvez não ganhasse o bastante, foi o que ele disse a si mesmo. O comércio chamou-lhe a atenção, era carreira boa. Com algum esforço entrou de caixeiro para um armarinho. A obrigação, porém de atender e servir a todos feria-o na corda do orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas estava na rua por sua vontade.  Fiel de cartório, contínuo de uma repartição anexa ao Ministério do Império, carteiro e outros empregos foram deixados pouco depois de obtidos (ASSIS, 1906, s.p).

Logo, Cândido Neves teve muitas alternativas ao longo de sua vida, sem que precisasse trabalhar para a manutenção do sistema escravocrata e da desigualdade racial. A narrativa segue com a história de amor com a Clara, e conta sobre as dívidas de Cândido devido a sua instabilidade em emprego, por exemplo, tentou um trabalho como entalhador de ofício, que aprendera com o primo, no entanto, mas uma vez, não teve paciência para se profissionalizar, pois queria aprender depressa. (ASSIS, 1906, s.p) e mesmo diante da gravidez de Clara, quando a tia dela alertou-o para que procurasse um emprego certo alegando que a ocupação que escolhera era vaga, ele retorquiu afirmando que: “Sim, mas lá vem uma noite que compensa tudo […] Deus não me abandona, e preto fugido sabe que comigo não brinca, quase nenhum resiste.” E continuando, o narrador afirma: “Tinha glória nisto” (ASSIS, 1906, s.p). 

Além disso, esse ofício era mais cômodo para o personagem, como confirmado: “Cândido Neves perdera já o ofício de entalhador, como abrira mão de outros muitos, melhores ou piores. Pegar escravos fugidos trouxe-lhe um encanto novo. Não obrigava a estar longas horas sentado. Só exigia força, olho vivo, paciência, coragem e um pedaço de corda” (ASSIS, 1906, s.p). Em outras palavras, o narrador não justifica o ofício de capturar a escrava Arminda devido ao sistema social, porque o personagem Cândido Neves tinha uma atitude passiva à sua condição social,  devido a certo “caiporismo”, que era uma característica pessoal e não falta de oportunidade (MANGUEIRA, 2009, p. 9). Com o tempo, já tendo nascido o filho, “a caçada aos escravos” foi ficando mais escassa e os “lucros” reduziram, com isso aumentaram as pressões para que Cândido Neves e Clara entregassem o filho para a adoção, colocando-o na “Roda dos enjeitados”, comuns no Rio de Janeiro no século XVIII e XIX. Como “esperança” de continuar com o filho ele vê um anúncio de recompensa de 100 mil réis pela captura da escrava Arminda.

Ao encontrar Arminda, mesmo grávida ela luta bravamente contra ele na rua enquanto as pessoas que passavam não faziam nada, pois entendiam que se tratava de uma fuga. Até que a escrava finalmente, cansada da luta, pediu-lhe que a soltasse em nome de Deus e exclamou: “ – Estou grávida, meu senhor! Se Vossa Senhoria tem algum filho, peço-lhe por amor dele que me solte… Me solte, meu senhor moço!” Cândido apenas ordenou: – Não quero demoras, siga!” (ASSIS, 1906, s.p).  A escrava continuou argumentando e dizia que o seu senhor era muito mal e a castigaria com muitos açoites, o que era pior para ela por estar grávida, mas o comentário de Cândido foi: “- Você é que tem culpa. Quem manda fazer filhos e fugir depois?” (ASSIS, 1906, s.p). Essa cena revela a crítica pela via da ironia machadiana  em relação ao estereótipo do negro escravizado e do mestiço retratado na sociedade e manifestado na literatura predominantemente branca, por seu erotismo, sensualismo e objeto sexual, por exemplo, no romance naturalista O cortiço (1890), com a personagem Rita Baiana e no poema modernista Nega Fulô (1947), de Jorge de Lima (PROENÇA, 2004, p. 166). Nesse trecho do conto, por exemplo, a fala de Cândido representa exatamente esse preconceito cristalizado na sociedade. Para ele a escrava estava grávida por ter seduzido alguém.

Nessa perspectiva, Magalhães e Gonçalves (2016, p. 33) afirmam que, Arminda, por ser mulher, negra e escrava se encontrava à margem de qualquer direito civil, e ao citarem Bonicci (1998), a mulher negra era duplamente colonizada, isto é, por sua cor e pelo seu gênero sexual, no contexto pós-colonial. Magalhães e Gonçalves (2016, p. 34), afirmam: “a expressão desdenhosa de Candinho é totalmente apropriada de um discurso corrente, no qual muitas vezes apontavam para as negras como indolentes, ou mesmo promíscuas”. Isto se justificava pela concepção social que se tinha, que segundo a pesquisadora Algranti (1993, p. 126, apud COSTA, 2016), a honra era sinônimo de sobriedade e de castidade, e as mulheres eram classificadas em três grupos: as mulheres com honra (as castas e casadas fiéis), as mulheres sem honra (escravas, forras e prostitutas) e as mulheres desonradas (as mulheres que perdiam a virgindade antes do casamento), assim, as mulheres escravas eram consideradas mulheres sem honra a preservar. E ainda nessa sociedade, que a escravidão permeava as redes sociais e assim, os direitos, os privilégios e status se fundamentavam na condição legal dos indivíduos, se livre ou escravo (ALGRANTI, 1993, p.121 apud COSTA, 2016).

 Daí vê-se que além da discriminação racial, Machado de Assis levantou questões como a desigualdade social para o gozo de direitos dada a condição de escravidão, agravada pela situação da mulher negra e escrava que, no conto, tanto o pai, representado por Cândido Neves, como a mãe negra almejavam o mesmo: a preservação do filho, mas o desfecho mostrou em tom de crítica que os interesses do homem branco por gozar de liberdade e de aceitação cultural em uma sociedade que inferiorizava a cultura negra, prevaleceram. 

Além disso, como observam Magalhães e Gonçalves (2016, p. 34), Cândido Neves, apontava a gravidez de Arminda como um erro, irresponsabilidade agravado devido a sua falta de condições financeiras; no entanto, ele mesmo e sua esposa Clara também cometeram o mesmo “erro”, em se tratando de instabilidade financeira, mas para ele era lícito a sua esposa branca engravidar e mais censurável uma escrava engravidar. A diferença, neste caso, estava nos traços fenotípicos, principalmente na cor da pele, para a suposta superioridade racial branca, que justificava para a lógica escravocrata a negação de direitos civis e de liberdade do negro dado a condição de escravidão que tornava o indivíduo uma propriedade dos seus senhores, como relatou o ex-escravo, Mahommah G. Baquaqua, em sua biografia inserida como apêndice na obra de Ruffato (2009, p. 210):

Quanto um navio negreiro aporta, a notícia espalha-se como um rastilho de pólvora. Acorrem, então, todos os interessados na chegada da embarcação com sua carga de mercadoria viva, selecionando dos estoques aqueles mais adequados aos seus propósitos, e comprando os escravos da mesmíssima maneira como se compra gado ou cavalos num mercado.

Assim, quando Cândido Neves entrega a escrava para o seu senhor, e recebe o dinheiro de 100 mil réis pela captura da escrava, enquanto ela ainda continua lutando, agora com o seu Senhor, e com forte temor e dor a mulher negra escravizada abortou o filho que tentava defender, a sua descendência. 

Ao se retirar do local da luta, Cândido viu quando, como descreve o narrador, “o fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono” (ASSIS, 1906, s.p), que segundo Magalhães e Gonçalves (2016, p. 35), houve comoção do dono porque “este era o ser com maior posse de bens presente na cena”, logo estaria perdendo uma futura mão de obra, descendente de sua escrava. 

Após recuperar o filho, o aliviado Candido justifica num o resultado de sua empreitada e a situação da negra capturada e seu filho perdido num pensamento que traduz a insensibilidade sobre as vidas negras, as que não importariam a quem não as possui como mercadorias: “Nem todas as crianças vingam” (ASSIS, 1906, s.p). 

 Scarpelli assim resume a tese machadiana nesta narrativa: “Terminado o conto, subsiste a imagem brutal de uma criança natimorta, frontal e inassimilável, metáfora de afro-descendência abortada” (2006, p.81), e mais adiante, observa que o conto “Pai contra mãe” tematiza justamente a sujeição da raça negra e da mãe escrava devido à reprodução e à legitimação do sistema social escravocrata, cuja iniquidade de escravizar humanos tem como consequência principal, a destruição identitária e cultural de pessoas escravizadas, fato não encerrado com a abolição e que atinge até hoje a descendência, o que remete ao silenciamento cultural, representado também pela máscara de folha de flandres (SCARPELLI, 2006, p. 82).

 Em outras palavras, há uma indiferença demonstrada frente à morte da criança negra, que simbolicamente, trata-se de uma alerta contra morte de uma cultura e presença afrodescendente, da continuidade desta pela geração seguinte, e consequentemente das suas manifestações culturais e sociais e manutenção da memória histórica do povo negro, consequentemente o seu apagamento. Scarpelli (2006, p.82) conclui que Machado de Assis compele o leitor “a assumir a perspectiva dos milhões de seres humanos que tiveram sufocada sua voz e abortada sua cultura, sua formação acadêmica, sua história pessoal e coletivo“ (SCARPELLI, 2006, p. 81-82). 

Reflete-se que a indiferença da sociedade fortalecia a manutenção do sistema escravocrata, que era um sistema que buscava dominar o outro e isto representava o aniquilamento da cultura e da identidade do outro, do negro, e para que isso ocorresse, era necessário o aborto da afrodescendência, matar as tradições vivas (cultura, crença, costumes e história). No conto, a criança foi morta antes que viesse a vida, como destacado no trecho “O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo” (ASSIS, 1906, s.p), era a representação do silêncio  e consequentemente da morte de uma cultura, como já comentado, pois a ausência de uma cultura viva, que é passada para os descendentes, é a forma mais fácil de exterminar a história, os valores culturais, a identidade e o direito de fala do outro. 

Machado de Assis trabalhava com ironia à medida que ele tinha um pessimismo referente às relações sociais, e a sua ironia consistia em sugerir o contrário do que se afirmava, era característica sua escrever narrativas abertas sem explicitar a conclusão a que chegam, para que o leitor pudesse inferir as conclusões, e isto ele fazia pela técnica da economia da expressividade, ou seja, inserir o máximo de conteúdo em poucas palavras. Contudo, sem excluir essa característica do autor, como afirma Alves (2013), o conto “Pai contra Mãe”, denota um posicionamento mais explícito em relação à sua discordância para com o Sistema escravagista, demonstrado, por exemplo, nas referências dos nomes dos personagens “Cândido”, “Clara” que contrapõe a “negrura”, por exemplo, mas mesmo com esse nome de “Cândido” que denota doçura, o personagem foi indiferente à perda do filho da escravizada Arminda, nome que, aliás, remete à arma, luta, resistência. 

Na epígrafe do conto, Machado de Assis também ironiza os instrumentos de tortura dos escravos, como a máscara de flandres: “Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel” (ASSIS, 1906, s.p). Além disso, o nome da rua (“Rua da Ajuda”) onde a escrava foi encontrada, como observa Alves (2013, p. 17), também é irônico, pois significou ajuda para Cândido, mas desgraça para Arminda, que perdeu o seu filho. A narrativa explicita também a indiferença das pessoas, que viam na situação um acontecimento corriqueiro na época, e não socorreram uma mulher grávida em apuros.Com tais pistas do conto, justifica-se a fundamentação de que a naturalização, a indiferença ao preconceito racial apregoados pelo branqueamento ideológico que marca a invisibilidade do negro como sujeito de sua história e não mercadoria, estão presentes no conto “Pai contra mãe”. 

Já no conto “Obsessão”, da autora negra Sônia Fátima, dos Cadernos Negros, de 1998, o apelo pela conscientização da manutenção da cultura de matriz africana e da sua visibilidade no Brasil é mais contundente e o narrador personagem utiliza a sua voz autoral em 1ª pessoa como marca de uma literatura engajada, que representa o pensamento coletivo. O conto inicia com a afirmação do narrador personagem: “O coração comanda meus atos” (FÁTIMA, 1998, p. 171). A narrativa se dá em torno de uma família negra, conservadora de alguns valores da herança africana e o enredo trata metaforicamente da perda da camisa xadrez, que o narrador personagem a caracteriza como: “Ora era o tipo de xadrez, muito caipira; ora as cores berrantes que não combinavam com nada, dizia ela” (FÁTIMA, 1998, p. 173), referindo-se à forma depreciativa que esposa Laura fazia da peça de roupa. E continua: “A ausência da minha camisa xadrez fazia com que meu apego a esse objeto aumentasse ainda mais”. (FÁTIMA, 1998, p. 173).  

Nesse sentido, o conto se passa em torno do sentimento do negro, em relação à obsessão, como antônimo extremo da “indiferença”, pois a insistência em usar a camisa xadrez simboliza a luta pela resistência ao apagamento da cultura e valores africanos que fazem parte dos afrodescendentes no país, portanto, são também identidade do povo Brasileiro, conforme a afirmativa de Cuti (1984, p.6-7 apud FAUSTO ANTÔNIO, 2005, p. 70): 

A literatura negra não é só uma questão de pele, é uma questão de mergulhar em determinados sentimentos de nacionalidade enraizados na própria história do Africano no Brasil e sua descendência, trazendo um lado do Brasil que é camuflado. Vemos hoje que fala-se muito de Palmares, de questões raciais, da história do negro no Brasil, mas fala-se muito pouco com relação aos sentimentos dos negros. 

Desta forma, o conto traz o lugar de fala do negro no Brasil, e como o conto faz parte da série Cadernos Negros, a questão da cor, da negrura, segundo Fausto (2005, p. 71)  é um ataque sistêmico à invisibilidade dos valores de matriz africana, que veicula um significado, construído historicamente na afro-diáspora e que portando, deve ser mobilizado, isto é lembrado constantemente pela voz na literatura e outras manifestações artísticas e sociais de igualdade de direitos. Nesse contexto, outro ponto a se acrescentar é o pensamento de Proença Filho (2004, p. 186) que enfatiza que a história e cultura negra não devem ser vistas de forma separada da História Brasileira, mas como importante constituição da identidade Brasileira, ou seja, não como o “outro”:

O negro brasileiro não pode ser tratado como o ‘outro’, que tanto trabalhou pela grandeza da nação etc. e a quem se deve reconhecimento especial por isso, como não cabe agradecer aos brancos portugueses ou aos índios, mas também não deve tratar-se como o ‘outro’ em nome de sua auto-afirmação. Como os demais grupos étnicos, ele é parte da comunidade que fez e faz o país. Se a luta em que se empenha se tornou e continua necessária, isto se deve, como é sabido, ao fato de ter-se tornado alvo de tratamento social e historicamente discriminatório.

O que justifica o forte projeto literário, artístico e movimentos sociais em prol da igualdade racial, com isso foi necessário a organização de uma literatura e de movimentos de outras artes para enfatizar a importância desta, como o projeto literário Cadernos Negros, e como observa-se veemente em contos como este “Obsessão”, que significa um movimento contrário a “indiferença social à cultura negra”, caracterizando-se como um alerta para a manutenção dessa identidade. 

A camisa xadrez de flanela simboliza o apreço que o personagem-narrador tem pela sua identidade negra, pois as cores fortes da camisa representam a cultura do seu povo e a crença, que referente ao conto, interpreta-se com base em Correia (2010, p. 43), que as cores fortes exprimem a estética negra e o equilíbrio psíquico.  Por isso, podemos refletir que o narrador personagem perde o seu equilíbrio mental, uma vez que, ele não se deixa dissuadir pela esposa e o filho, que segundo o conto, têm esquecido de valorizar a sua história.  Dessa forma, o narrador-personagem se pergunta sobre qual foi o seu erro, porque toda a sua família não percebe que se renderam ao branqueamento ideológico e a camisa xadrez demonstra essa resistência do narrador-personagem de manter a sua singularidade e ele se perturba porque o tempo, apresentado como velhice, tem tirado dele a influência, pois o filho se opõe ao que ele acredita e a esposa fala o tempo todo que a camisa é só uma camisa, ou seja, não percebe que têm se assimilado totalmente a cultura do outro e tenta persuadir o marido de que isso é normal, é natural.

 Scarpelli (2006, p. 82) afirma “Não vamos mascarar o que mal pode ser encoberto” e explica com a afirmativa de Fanon, que alerta para a necessidade dos povos subordinados afirmarem suas tradições culturais nativas e, assim, recuperarem suas histórias reprimidas. E para Scarpelli (2006, p. 82), “uma alternativa mais consistente seria talvez, a de dotar não com encobrimentos, eufemismos ou máscaras, mas com suplementos, os silêncios, as lacunas, os interditos, enfim, aquilo que, uma vez recalcado, ficou de fora, não se deixando simbolizar”. 

A camisa xadrez também metaforiza a autoafirmação do ideal de beleza negra como parte da identidade cultural. Nesse sentido, Figueiredo (2009, p. 38), aborda em sua dissertação, que as representações das personagens negras nos Cadernos Negros “transgridem as representações estereotipadas presentes na literatura e sociedade brasileira, uma vez que as escritoras privilegiam a beleza, a cultura e a intelectualidade do negro”. No conto analisado, o narrador personagem discorda da escolha do filho de se casar com uma mulher branca, que não parece com as feições, características de sua esposa, como evidencia o trecho:

Ela chegou numa tarde de sol. Marcos tinha suas mãos fortes presas às dela. Sorriam. Laura correspondeu ao riso de forma tranquila. A decepção expressou-se em meu rosto. Marcos percebeu e o sofrimento do seu coração espelhou-se através do olhar. Foi inevitável o choque. Ela não trazia, nem de longe, a forma bela de Laura […]. O que aconteceu com o conceito de beleza de Marcos? Em que momento apagou-se em sua memória a beleza da forma dos seus? (FÁTIMA, 1998, p. 176-177).

Isto é, demonstra, a negação da estética, da beleza negra, e esses problemas apresentados no conto, demonstram a preocupação com o apagamento de uma cultura para as gerações futuras devido a ideologia do branqueamento, e ainda pela ideologia da democracia racial que mascaram o preconceito enraizado na sociedade. Deste modo, a metáfora da camisa xadrez, pode ser entendida como um protesto contra a invisibilidade do negro, uma vez que se observa também na atitude do narrador-personagem a mensagem de luta pela desnaturalização do racismo. 

 Adiante, percebe-se o sentimento de culpa do narrador-personagem, pois segundo ele, isso aconteceu porque ele falhou em passar a memória da tradição africana para a próxima geração, no caso, o seu filho: “ O que explica esta radical rejeição? O que teriam dito aos seus ouvidos nas esquinas? Como pôde Marcos trair de forma cruel a beleza de Laura? Um ato de violência é o que vejo. Marcos, sem dúvida, decepou diante de nós cada um dos seus membros“ (FÁTIMA, 1998, p. 177). Nesse trecho é possível associar a concepção de violência contra a cultura afro-brasileira, que aparece também no aborto da afrodescendência presente no conto “Pai contra Mãe” de Machado de Assis;, a violência também é tratada com o termo “decepado”, de corte, de negação da identidade do personagem Marcos.  

4. Considerações finais

As marcas da história da cultura negra no Brasil e toda a sua herança cultural são manifestadas no cotidiano do Brasil, desde as tradições, religiões, danças, costumes, músicas, culinárias, artes etc. Por outro lado, o preconceito racial, manifestado em situações concretas no dia a dia, enraizado e naturalizado pela ideologia do branqueamento e da democracia racial, dissemina a concepção de que não existem negros no Brasil, pois o país é miscigenado e que o convívio entre os diversos grupos raciais é harmonioso, não existindo, pois, discriminação racial. 

Os estereótipos criados pela cultura dominante em relação ao negro na literatura constituíam uma literatura do negro como objeto e como personagem, em uma visão distanciada, ao contrário da literatura engajada que dá voz autoral ao negro, que escreve a sua narrativa e manifesta a sua arte a partir de sua própria visão de mundo e experiências. Nesse sentido, o presente estudo refletiu sobre a trajetória da Série Cadernos Negros como projeto literário de literatura negra compromissada com a sua história e cultura narrada por escritores negros em prosa e poesia. 

A partir das temáticas branqueamento ideológico e democracia racial, que corroboram para a permanência do preconceito e naturalização deste, bem como a invisibilidade do negro no Brasil ou apagamento cultural, contrária a predominância de negros e afrodescendentes no país, foi realizado este estudo com abordagem qualitativa, fundamentado na leitura de artigos científicos, dissertações, trabalhos de conclusões de curso e teses para fundamentar a análise comparativa dos contos “pai contra mãe”, de Machado de Assis, e “Obsessão”, de Sônia Fátima, escritora da série Cadernos Negros. Conclui-se que embora escritos em períodos diferentes e no caso do conto “Pai contra Mãe”, de Machado de Assis, que embora não se manifeste como um autor exclusivamente da literatura negra quanto a temática e ponto de vista, ambos os contos admoestam contra o preconceito racial, que possui existência camuflada pelas marcas deixadas pelo sistema escravocrata como a inferiorização da cultura do negro e a proposta da sua invisibilidade, dado a concepção de que não existem negros ou que não existe racismo, representados na metáfora do aborto do filho da negra escravizada Arminda, ao perder o seu filho pelos açoites de um homem livre e branco.

 Na análise do conto “Obsessão”, vimos como a metáfora do desaparecimento da camisa xadrez de flanela significa a defesa simbólica da afrodescendência.  O personagem desenvolveu a obsessão pela camisa, pois as cores representavam a identidade negra africana e como contraste à indiferença e o apagamento dessa cultura, que ele desejava manter viva e transmiti-la para a próxima geração, que era o seu filho. Temia o personagem que a sua família sucumbisse ao histórico processo de branqueamento e se tornasse indiferente à tradição e a valorização da estética negra. 

Conclui-se que os dois contos estão em conformidade com o projeto literário dos Cadernos Negros, ambos tratam da significação da manutenção da expressão cultural negra na sociedade e da crítica em torno do racismo que inferioriza a cultura de matriz africana, muitas vezes, sem violência explícita, mas excludente, ao naturalizar o preconceito e silenciar as manifestações culturais afro-brasileiras como se fossem inexistentes.

Na presente análise, entende-se que além do branqueamento ideológico, há um outro fenômeno que corrobora para esse cenário, que é a ideologia da democracia racial, que segundo Antônio (2005, p.19), prega que não existe mais racismo, e assim, a prática racista persiste na sociedade, aparecendo como normal, isenta de discriminação. O crítico acrescenta ainda, que o racismo existe e que se dá por meio de ações concretas, mas a sua existência é negada pela utilização de afirmações de que é harmonioso o convívio entre os diversos grupos raciais (ANTÔNIO, 2005, p. 19-20). Logo, ser indiferente a essa realidade é cooperar com a violência cultural e negação da identidade negra Brasileira. 

Portanto, ambos os contos circulam a mesma mensagem, embora escritos em épocas bem diferentes, eles alertam contra a tentativa de abortamento e silenciamento da cultura africana, que também é constituinte da cultura brasileira, sendo fundamental o seu conhecimento e visibilidade pelos afrodescendentes e toda a população Brasileira, uma vez que seus valores e cultura são patrimônio cultural, histórico e social. As narrativas, pela via da ficção, conscientizam acerca da valorização e manutenção da identidade afro, suas tradições e solidariedade coletiva, a fim de que as suas manifestações não venham a ser silenciadas, “abortadas”, após a abolição aos dias atuais. 

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