“O segredo mortal das velhas”: a velhice em um conto de Clarice Lispector

Paloma‌ ‌Flávio‌ ‌Betini‌

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 34, 2020. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Universidade‌ ‌de‌ ‌São‌ ‌Paulo‌ ‌
Faculdade‌ ‌de‌ ‌Filosofia,‌ ‌Letras‌ ‌e‌ ‌Ciências‌ ‌Humanas‌ ‌
Departamento‌ ‌de‌ ‌Línguas‌ ‌Clássicas‌ ‌e‌ ‌Vernáculas‌ ‌
São‌ ‌Paulo,‌ ‌SP‌ ‌–‌ ‌Brasil‌ ‌
paloma.betini@usp.br‌ ‌
http://lattes.cnpq.br/2932401724608550‌ ‌

RESUMO: Clarice Lispector é aclamada por compreender e explorar o íntimo do indivíduo, construindo em suas obras personagens que lidam ao mesmo tempo com a pressão social e a pulsação “selvagem” de seu próprio ser. A velhice, um tema de suma importância em nossos dias, é, em especial, uma fase da vida em que se supõe que todos os dramas e crises estão quitados e resolvidos, como se os anos passados curassem todas as angústias atribuídas à juventude. A autora, no entanto, demonstra através de sua escrita a rotina e a intimidade de senhoras que, apesar da idade avançada, ainda buscam sentido em suas existências. Este trabalho procura entender como a velhice se constrói na obra clariceana a partir do conto “A Procura de uma Dignidade”, dando ênfase de como a sexualidade se manifesta o corpo de uma velha. 

PALAVRAS-CHAVE: Clarice Lispector; velhice; sexualidade; contos; corpo

ABSTRACT: Clarice Lispector has always been acclaimed for understanding and exploring the human intimate of the individual, building in her pieces characters that deal at the same time with the social pression and the savage pulsation of their own being. The old age, a theme of big importance in our days, is, specially, a stage of life that we suppose all the dramas and crises are resolved, as the past years had healed all the youth anguish. The author, however, shows through her writing the routine and privacy of ladies that, despite their old age, they still search a sense in their existence. This work wants to understand how the old age are building in the Clarice’s short stories and chronicles, with highlight in the “A procura de uma dignidade”.

KEYWORDS: Clarice Lispector; old age; sexuality; short stories; body. 

 

1. Introdução

É humanamente impossível passar por Clarice Lispector sem ser tocado por suas letras – um toque desagradável para uns, um toque transcendente e apaixonante para outros, mas jamais esquecível. Talvez por isso, mas também por tantas outras qualidades imensuráveis desta que é também chamada de “tecelã das palavras” – pelo seu profundo respeito e detalhismo na costura da linguagem -, que sua obra ainda seja vastamente estudada no campo literário e em estudos interdisciplinares. E mesmo hoje, quando comemoramos cem anos da presença de Clarice neste mundo, ela continua sendo fonte de debates e emoções inesgotáveis

A velhice em sua obra, no entanto, é ainda ponto pouco explorado pela crítica, mesmo sendo uma questão presente em diversos contos e crônicas, demonstrando o interesse da autora em escrever sobre o assunto. A importância que o tema assumiu nestes últimos anos no cenário brasileiro, felizmente, tem tornado a temática alvo de estudos cada vez mais crescentes e diversificados, sendo, inclusive, incorporada nos estudos literários. 

Quando lemos os contos e crônicas de Clarice Lispector concentrados na velhice, observamos a sua sensibilidade singular ao escrever sobre as angústias, os problemas e os dilemas de senhoras ricas e pobres que passam por situações semelhantes a da maioria dos idosos no Brasil. O Manual de enfrentamento à violência contra a Pessoa Idosa, veiculado pelo governo federal em 2014, destaca que os principais tipos de agressão contra pessoa idosa são a psicológica, a negligência, o abuso financeiro e econômico, violência física, sexual e institucional – coincidência ou não, todas retratadas nas histórias da autora.

 Esses são um dos aspectos do cenário social brasileiro – porém, como esses dados influenciam ao falarmos da subjetividade? A pessoa idosa é alguém; e um alguém não tem vontades, desejos, sofrimentos e saudades? Quando se é velho ou velha, não há querer? O corpo envelhecido não deseja ser tocado? Há um tempo certo para se ter um destino? São questionamentos que Clarice desperta no conto “A procura de uma dignidade”.

2. Corpos velhos: outrora e agora

outrora tenra (a pele), agora da velhice …
… e os cabelos de negros se tornaram brancos.
Pesado se me fez o peito, e os joelhos não me carregam –
os que um dia foram ágeis no dançar, como os da corça.
Estas coisas lamento sem cansar, mas que posso fazer?
Não é possível, sendo humano, ser desprovido da velhice.
(Safo, “Canção sobre a velhice”, 2013) 

Mesmo sendo um processo biológico comum a todos os seres vivos, o envelhecimento carrega consigo um peso mutável de acordo com a sociedade e período em que se insere. Sabedoria e experiência podem ser lentes usadas para olhar a velhice, mas, além de tudo, ela é lembrada como um momento de poucas surpresas e expectativas, de doenças e de abandono, de falta de vida e de proximidade da morte. Já na lírica grega arcaica não são poucos os lamentos dos poetas ao verem suas juventudes se perderem ao correr do Tempo, como nas canções de Mimnermo ou de Safo, onde essa angústia inescapável e ordinária ao humano é transmitida quando cantam sobre a fraqueza dos ossos, o embranquecimento dos cabelos, as rugas da pele e a impossibilidade de participar do mundo do amor – afinal, quem iria desejar um corpo velho? 

Paralelamente, ainda na Antiguidade, os velhos, quando vistos como outrem, eram constantes nos palcos das comédias como alvo comum de chacota do público ateniense (VISNADI, 2016, p. 121). A mulher idosa com desejos sexuais, especialmente, tinha seu corpo ridicularizado através de versos que salientavam sua feiura, flacidez e mau cheiro, tal como nos iambos de Arquíloco de Paros ou nos epodos latinos de Horácio. 

Tua pele delicada não mais floresce,
pois já se torna murcha e o sulco da velhice atroz te destrói.

Entenda isso agora: a Neóbule
que outro homem possua
Ai! Ai! Mulher passada, tão débil,
tua flor virginal já murchou e
o encanto, que outrora existia.

Sendo tu uma velha, não te untes com perfume.
(Arquíloco, 2016)

A forma como a velhice era representada, portanto, dependia se ela era o sujeito ou o objeto. 

Essa foi uma das observações feitas por Simone de Beauvoir em La Vieillesse, de 1970, quando comparou os textos antigos os relacionando com o seu tema de estudo. Os mais de dois mil anos que separam a socióloga francesa dos antigos poetas líricos transformaram o ambiente e o modo de vida em sociedade: trata-se de um mundo capitalista e pós-industrial, cada dia mais urbano e envelhecido, onde os indivíduos são valorizados de acordo com a sua produtividade e imagem. Os problemas e estigmas enfrentados por velhos e velhas se acentuaram e se expandiram – embora não de maneira igualitária para os dois gêneros, como também ressalta a autora que, em 1949, escreveu O Segundo Sexo.

Para Beauvoir (1970), o corpo e a mente da pessoa idosa possuem singularidades próprias: sua dimensão existencial apresenta uma visão de mundo diferente do tempo presente. À medida que envelhece e a sua mão de obra vai perdendo a utilidade, ele se torna o outro: um estranho, separado do que é tido como universal. Especificamente em relação ao homem nessa faixa etária:

O velho, como uma categoria social, nunca interveio no correr do mundo. Enquanto ele conserva alguma produtividade, permanece integrado à coletividade e não se distingue dela: é um homem adulto de idade avançada. Quando perde suas capacidades, ele surge como o outro; ele se torna então, de forma mais radical que a mulher, um objeto puro; ela é necessária para a sociedade, já ele não serve para nada: nem moeda de troca, nem reprodutor, nem produtor, ele não é nada mais que um fardo. (BEAUVOIR, 1970, p. 99).

  Um corpo jovem ou adulto produz, um corpo velho, não. Além disso, o corpo envelhecido precisa lidar diariamente com um ambiente que não foi pensado para ele e que o repele. A pesquisadora Ecléa Bosi, em seu livro Memórias de Velhos, ao insistir na velhice como categoria social inserida em um contexto industrial, demonstra as dificuldades não só no âmbito produtivo, mas também na realização de tarefas diárias, desde o movimento à comunicação. Barreiras estruturais tais como escadas e distâncias, e barreiras corporais, como perda (parcial ou total) da audição e da visão, são exemplos que dificultam o cotidiano de idosos numa sociedade que “rejeita o velho” (BOSI, 1994, p. 37). Conforme pondera a estudiosa:

O velho sente-se um indivíduo diminuído, que luta para continuar sendo um homem. O coeficiente de adversidade das coisas cresce: as escadas ficam mais duras de subir, as distâncias mais longas a percorrer, as ruas mais perigosas de atravessar, os pacotes mais pesados de carregar. O mundo fica eriçado de ameaças, ciladas. Uma falha, uma pequena distração é severamente castigada. Para a comunicação com os seus semelhantes precisa de artefatos: próteses, lentes, aparelhos acústicos, cânulas. Os que não podem comprar esses aparelhos ficam privados de comunicação. (BOSI, 1994, p. 37)

É preciso, ainda, compreender a dimensão do corpo como imagem. Característica que afeta mais profundamente as mulheres idosas do que os homens idosos, a perda da beleza do corpo é quase um sinônimo de perda da já pouca sexualidade que lhe é permitida (afinal, o sexo é um campo de domínio masculino). Os seios murcham, a pele amolece, os cabelos caem e manchas se alastram. Em um mundo em que o corpo é um objeto desenhado para o consumo visual (SIBILIA, 2007, p. 2), não ser bela é não ser vista, nem amada. De fato, o imaginário sobre mulheres idosas é daquela que não tem e nem expressa sensualidade ou paixão: o desejo evocado por uma senhora é enxergado pelos outros e por ela mesma como aberração. A única saída é a negação e estrangulamento do sentimento. Ainda, na medida em que o corpo feminino envelhece, não é mais possível gerar vidas, tornando-se então “dispensável” na acepção colonial e patriarcal do Ocidente. Como acentua Oliveira (2007, p. 64): 

Desse modo, o que se verifica é que a velhice é mais cruel para as mulheres do que para os homens. A imagem que se tem é que a mulher velha deixa de ser mulher, deixa de ser objeto de desejo. A ela não pertencem mais os mundos da sedução e da reprodução. O único papel social que lhe cabe quando é idosa é de ser avó. (OLIVEIRA, 2007, p. 64)

Toda a subjetividade e autonomia, então, lhe são retiradas. Sua mobilidade é limitada pelo ambiente, a comunicação com seus pares é dificultada por causa das mudanças biológicas e até mesmo seu corpo já não é consentido ser ainda um corpo. Um humano sem o movimento, sem a voz, sem o toque e o amor, anseia, assim, o grande alívio que vem com a morte (OLIVEIRA, 2007, p. 65).

É desse modo, portanto, que em Clarice Lispector “celebra-se o corpo desviante em relação à normatividade, visto como produtor de subjetividade” (SCORSOLINI-COMIN; SANTOS, 2010, p. 625). A sexualidade de uma mulher idosa é transgressora, escapa das normas aceitas pela sociedade ocidental. O corpo que era só objeto toma voz, apoderando-se assim a autonomia da expressão de suas necessidades físicas e emocionais. 

3. O labirinto inesgotável: as voltas de Sra. Jorge B. Xavier no Maracanã

– Quando é que passa?
– Passa o quê, minha senhora?
– A coisa
– Que coisa?
– A coisa, repetiu. O desejo de prazer, disse enfim.
– Minha senhora, lamento lhe dizer que não passa nunca.
Olhou-o espantada.
– Mas eu tenho oitenta e um anos de idade!
– Não importa, minha senhora. É até morrer
(“Ruído de Passos”, LISPECTOR, 2008 [1974], p. 55)

Como apontado, o interesse pela velhice é constante na obra clariceana. Podemos mencionar, dentre as diversas personagens idosas, a simpática senhora Mocinha, do texto “Viagem à Petrópolis” (A Legião Estrangeira, 1964), ou a viúva Cândido Raposo de “Ruído de passos” (A Via Crucis do Corpo, 1974) – esta última, a falante da epígrafe acima: ambas são grandes exemplos da solidão no envelhecer. Neste artigo, conheceremos a Sra. Jorge B. Xavier, do conto “A procura de uma dignidade”, o primeiro texto da antologia Onde Estivestes de Noite, publicado pela primeira vez em 1974, que, assim como a viúva anterior, ainda sente “o desejo de prazer” (LISPECTOR, 2008 [1974], p. 55) – afinal, como responde o médico, é até morrer. Ela, com quase setenta anos de idade, se perde no Maracanã enquanto procurava uma conferência cultural cujo nome ela mesma não lembrava. Dentro dos subterrâneos e das infinitas portas do estádio, surge a reflexão sobre a rotina de sua vida e sua real identidade, além do inevitável enfrentamento do seu desejo, que causa calor em pleno inverno. Sair do Maracanã, no entanto, não põe fim às suas questões, e pouco a pouco a rua, a casa, os móveis, a imagem, a língua e o corpo, uma vez tão seus e familiares, tornam-se labirintos de que ela não consegue encontrar jamais a saída. 

Inicia-se assim: “de esguelha por um buraco feito só para ela” (LISPECTOR, 2008 [1974], p. 9), a personagem entra no Maracanã por uma fenda misteriosa que ela mesma não lembra a origem, nem mesmo como entrara. Nesta cena, a realidade e o onírico se confundem: o tom “vagamente sonhador” (LISPECTOR, 2008 [1974], p. 9) presente no parágrafo indica o início do percurso labiríntico em que o espaço físico é metáfora para o estado mental, dando acesso ao inconsciente. Conforme foi desenvolvido por Sigmund Freud no capítulo “Sobre a psicologia dos processos oníricos”, em A Interpretação dos Sonhos (2012), “o processo onírico é inicialmente admitido na qualidade de realização de desejo do inconsciente” (FREUD, 2012, p. 608): logo, entendemos que o enfrentamento de Sra. Jorge B. Xavier não são as paredes do estádio, mas sim a manifestação incontrolável de seus desejos e a impossibilidade ou vergonha de realizá-los. 

Uma realização de desejo certamente deveria causar prazer, mas também nos perguntamos a quem. Obviamente, àquele que tem o desejo. No entanto, sabemos que o sonhador mantém uma relação muito especial com seus desejos. Ele os rejeita, censura, em suma, não gosta deles. Assim, sua realização não pode lhe causar prazer, e sim apenas oposto disso. A experiência mostra que esse oposto, o que ainda deve ser explicado, aparece sob forma de angústia. (FREUD, 2012, p. 609).

O narrador nos dá o motivo pelo qual a senhora estava lá – procurava manter-se jovem através de eventos culturais, dos quais, afirma, ela “se forçava a não perder nada” (LISPECTOR, 2008, p. 9). Também gabava-se quando os outros comentavam sua aparência juvenil, pois parecia ter menos idade do que realmente tinha. Nem os eventos, nem os comentários de amigos, porém, evitaram que “perdida nos meandros internos e escuros do Maracanã” a senhora começasse a arrastar os “pés pesados de velha” (LISPECTOR, 2008, p. 10). Mesmo tentando enganar aos outros e a si própria, a materialidade do seu corpo, ao perder-se neste estado de profunda epifania, revela a sua verdadeira condição com um movimento cansado: esse corpo não anda, se arrasta, e os pés, assim como os joelhos de Safo, tornam-se pesados e velhos. Num mesmo momento, vemos a desilusão da falsa juventude e o enfrentar da consciência de uma mulher tomada pela velhice.

Quando percebe seu engano, pois confundira o endereço da conferência (“fica mais ou menos perto do Estádio do Maracanã” disse a amiga), foi interrogada por um dos funcionários – “então que é que a senhora está fazendo aqui?” (LISPECTOR, 2008 [1974], p. 11) –, ao invés de se explicar, prefere permanecer calada deixando os funcionários do estádio pensarem que era louca. Sra. Jorge B. Xavier, na verdade, quase não fala: sempre quando questionada, ou na necessidade de lidar com uma situação estranha (como o taxista confundir “Leblon” com “Jardim Botânico”!), resigna-se e segue em silêncio, pois “sua vida é assim mesmo” (LISPECTOR, 2008 [1974], p. 11) – nem mesmo o táxi, mais adiante solicitado, é pedido por ela. De todo modo, não tira a razão dos funcionários caso pensassem isso dela: afinal, ela não era louca por ainda pensar “naquilo”? Note-se o emprego do “ainda”: para ela, pensar “naquilo” não era adequado à sua idade. Quem está lendo, páginas depois, conhece o nome do motivo de sua loucura inconveniente – quer ser possuída pelo astro de televisão Roberto Carlos. Sentir a gritante necessidade do seu corpo envelhecido é sua via crucis, como ela mesmo o chama: é o caminho doloroso de escolher entre dobrar essa anarquia pulsante vinda de suas entranhas ou aceitar a vontade lasciva, avassaladora e animalesca. Cadela, lagarto, rato, galinha são animais com que a personagem se compara ao longo do texto, traçando um contraste em relação a seu corpo, que “nunca exprimira senão boa educação” (LISPECTOR, 2008 [1974], p. 16), característica intrinsecamente civilizatória, com a mais profunda condição animal. Berta Waldman (2011), no artigo “Por linhas tortas: o judaísmo em Clarice Lispector”, pontua o lugar-comum das comparações com animais na obra clariceana. Segundo ela, a autora intercala analogias com espécies em que há identificação da narradora e aqueles em que não há identificação possível: os domesticáveis e os selvagens. 

A domesticação social do homem guarda um fundo instintivo cujas potencialidades são alertadas pela presença animal. Atender ao apelo das pulsões vitais de um modo categórico significaria pôr em risco a existência da espécie, mas não ouvir esse apelo seria renunciar a marca da animalidade. (WALDMAN, 2011, p. 4).

A vontade de domesticar a natureza não se resume aos animais nem ao corpo – também queremos controlar o tempo, delimitar as estações, ditar qual temperatura é ou não adequada para um mês. Quando sente calor em pleno inverno, Sra. B. Jorge Xavier deseja logo setembro, mês mais leve, transparente, primaveril e jovem; o mês que, de acordo com a personagem, é parecido com maio, aquele do outono, das noivas… Por outro lado, agosto “diziam que dava azar” (LISPECTOR, 2008, p. 14): é o meio da estação ligada desde os tempos de Hipócrates à velhice, período infértil e de solidão. Assim, setembro, e toda a semântica vinda com ele, é dito “a porta de saída”: que os frutos e o calor estejam presentes nas estações aos quais eles pertencem. É aceitável o calor na primavera, mas não no inverno.

Numa fração de fugitivo segundo quase inconsciente vislumbrou que todas as pessoas são anônimas. Porque ninguém é o outro e o outro não conhecia o outro. Então – então a pessoa é anônima. E agora estava emaranhada naquele poço fundo e mortal, na revolução do corpo. Corpo cujo fundo não se via e que era a escuridão das trevas malignas de seus instintos vivos como lagartos e ratos. E tudo fora de época, fruto fora de estação? Por que as outras velhas nunca lhe tinham avisado que até o fim isso podia acontecer? Nos homens velhos bem vira olhares lúbricos. Mas nas velhas não. Fora de estação. E ela viva como se ainda fosse alguém, ela que não era ninguém. (LISPECTOR, 2008 [1974], p. 17).

Esse desejo incontrolável e a vontade grosseira de possuir e ser possuída são o segredo mortal das velhas – ninguém lhe contara, teve que descobrir sozinha. A diferença da expressão do desejo entre os dois sexos é também questionada: “Nos homens velhos bem vira olhares lúbricos. Mas nas velhas não” (LISPECTOR, 2008, p. 17). Logo, voltamos ao que foi dito no início deste artigo sobre a sexualidade feminina, após certa idade, ser vista como algo “estranho”, enquanto a masculina é mais “natural” e até notada sem muitas repressões. Como sugerem Henning e Debert (2015, p. 18), as mulheres velhas tinham sua sexualidade mais controlada na juventude, o que “dificultaria o pleno desfrute da sexualidade na velhice”. Desse modo, é preciso trabalhar ainda mais para superar os limites impostos há anos e assim poder atingir uma “vida sexual plena” (HENNING; DEBERT, 2015, p. 18). Por isso, ali, presa no banheiro em frente ao espelho, enfrentar o reflexo do seu corpo que arde de paixão é uma dura tarefa de autoconhecimento por muito tempo impedida: seria ela ainda beijável? “Ou por acaso seria nojento beijar boca de velha?” (LISPECTOR, 2008, p. 18). Olhando para seus lábios mal pintados, num ato de extrema rebeldia, cantarola baixinho: “quero que você me aqueça neste inverno, e que tudo mais vá para o inferno!” (LISPECTOR, 2008, p. 17).  

Encarar-se no espelho, nos textos clariceanos, assinala, conforme explica Benedito Nunes, o “desdobramento do sujeito, que se vê como o outro, objeto e impessoal” (NUNES, 1995, p. 107). De fato, a Sra. Jorge B. Xavier, ao enxergar a si mesma como um objeto, se vê uma palhaça – tal como as velhas assanhadas da Antiguidade eram vistas pelos poetas (VISNADI, 2016, p. 123). A personagem que carrega somente o nome de seu marido, nesse momento, toma consciência de seu anonimato: em relação ao outro, cada um tem a sua vida e morte secretas, e para cada pessoa há um destino, sendo que, para ela, era tarde demais buscar um “destino maior” – pois ela era ninguém. O clímax de sua vida seria Roberto Carlos e ser possuída por ele, seu inalcançável ídolo de televisão. Sem dúvidas, o auge da sua história seria ouvir o querer do seu íntimo, deixar-se levar pelo prazer, para só assim, quem sabe, ser alguém. Mas, no entanto, ela tem medo de seguir o rumo do seu clímax: o caminho para atingi-lo é desconhecido, um “corredor escuro de sensualidade”:

Então quis ter sentimentos bonitos e românticos em relação à delicadeza de rosto de Roberto Carlos. Mas não conseguiu: a delicadeza dele apenas a levava a um corredor escuro de sensualidade. E a danação era a lascívia. Era fome baixa: ela queria comer a boca de Roberto Carlos. Não era romântica, ela era grosseira em matéria de amor. Ali no banheiro, defronte do espelho da pia. Com sua idade indelevelmente maculada. Sem ao menos um pensamento sublime que lhe servisse de leme e que enobrecesse a sua existência. (LISPECTOR, 2008 [1974], p. 17)

A sexualidade é desprovida dos ideais românticos – é lasciva, animal, orgânica tal qual o corpo. Transformar essa vontade incivilizada em algo elevado poderia torná-la mais aceitável e controlável, talvez até um nobre motivo para continuar existindo. Contudo, quando pensa no rosto do seu amante, a personagem volta aos labirintos eternos do Maracanã. O caráter quase primitivo do desejo é reforçado pela escolha lexical do texto: ela tem “fome” do Roberto Carlos e quer “comer” a sua boca; ela é “grosseira”, enquanto o artista é “delicado”. Curiosamente, essas vontades maculam a sua idade e não (diretamente) a si mesma – apesar desta maculação impedir, de todo o modo, o enobrecimento de sua existência. 

Assim como o seu anseio pelo cantor, a morte da Sra. Jorge B. Xavier não é sublime nem limpa, mas abrupta e muda como um vômito vindo de suas vísceras. É ela quem interrompe sua própria vida, e quem narra nem se incomoda em dizer de qual maneira. Tudo o que sabemos é que foi uma busca desesperada pela porta de saída. Esse fim brusco é o resultado das emaranhas do indivíduo “naquele poço fundo e mortal, na revolução do corpo” (LISPECTOR, 2008 [1974], p. 17). A morte vem junto (ou por causa) do grito: é a violência da voz abafada, diminuída e domada por anos e anos. 

4. Considerações finais

Não é simples, e nem é o objetivo, apreender a complexidade do tema da velhice na obra da tecelã das palavras: afinal, o que há no mundo são velhices, e tal qual o mundo, assim também o é na obra clariceana. No conto em questão, o que se destaca é a impossibilidade de se negar os desejos, desejos estes que não respeitam os limites da idade. Qual é o segredo mortal das velhas? É ser ainda sujeito – um sujeito corpóreo que, mesmo envelhecido, ainda “clama, pede, pena, dói, tece estratégias, entrega-se, refuta, reage, ou seja, vivencia os meandros da experiência humana” (SCORSOLINI-COMIN; SANTOS, 2010, p. 625).

A Sra. Jorge B. Xavier mostra, então, através dos seus labirintos físicos e mentais, o processo de descoberta de uma subjetividade que se recusa a ir embora. Ela, mesmo não se considerando um alguém digno de um destino, ainda é um ser com um corpo e um “eu”, e como tal, possui o desejo de ser tocada, de ser olhada, de comer, de chorar, de ter um nome e uma vida livre e plena em todos os âmbitos de vivências possíveis.

O que podemos levar após a leitura de “A procura de uma dignidade”? De certo, as mentalidades acerca da velhice estão se transformando, e, felizmente, as velhas de hoje gozam de mais liberdades se comparadas com as de antigamente (Henning; Debert, 2015, p. 19), como talvez tenha sido o caso de Sra. Jorge B. Xavier se ela fosse uma pessoa real. Contudo, ainda permanecem padrões de condutas e práticas sociais estruturais que pressionam diariamente certas pessoas a esconderem e rejeitarem os seus verdadeiros anseios e a não manifestarem quem são. Ao escancarar o desejo “proibido” e a pulsão das vontades impossíveis de serem apagadas com tempo, o texto incomoda e atiça o leitor, forçando-o a olhar para certas convenções como pactos sociais, e não como verdades absolutas.  A maneira que os outros enxergam uma mulher idosa e que, automaticamente, obrigam-na a enxergar a si mesma, não é, de forma alguma, a sua existência inteira. 

Referências

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HENNING, Carlos Eduardo; DEBERT, Guita Grin. “Velhice, gênero e sexualidade: revisando debates e apresentando tendências contemporâneas.” Mais 60: Estudos sobre o Envelhecimento, Ed. SESC, Local: São Paulo, Vol. 26, n. 63, 2015, pp. 8-31.

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NUNES, Benedito. O drama da linguagem – uma leitura de Clarice Lispector. Local: São Pulo, Editora Ática, 2ª ed., 1995 [1989].

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WALDMAN, Berta. Por linhas tortas: o judaísmo em Clarice Lispector. Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG. Belo Horizonte, v. 5, n. 8, p. 26-35, mar. 2011. Disponível em: http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/maaravi/article/view/1780. Acesso em: 18 out. 2020.