Qualquer noite no passado

Ana Paula Parisotto

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 33, 2020. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

Ana Paula Parisotto

Eu já tinha bebido alguma(s) coisa(s) quando avistei aquele rosto conhecido, a poucos metros de distância. Era uma típica noite de sexta, ou de sábado. Talvez até de quinta. Não sei bem. Podia ser qualquer noite da semana, eu era rolezeira. Me encontrava em uma daquelas ruas que sempre enchem depois das dezoito horas, porque abrigam algum bar com cerveja barata, que atrai os jovens hipsters da cidade. Aquele rosto me era conhecido, mas eu não sabia de onde. Impulsivamente, me aproximei já dizendo ei tudo bem eu acho que te conheço de algum… ahhh!!!! (já era tarde quando me dei conta onde já tinha visto o rosto, eu já tinha iniciado o contato, o rosto já olhava pra mim com atenção) lembrei: é daquele canal do youtube… De role pela área, ele complementou. Kkk, é bem esse, eu ri. 

Achei engraçado ter reconhecido pessoalmente uma cara que eu só tinha visto virtualmente. Naquele momento, eu senti que a linha que existe entre a vida dentro e fora do celular podia ser bem fina, quase imperceptível. Isso nunca tinha me acontecido antes. Buguei nessa ideia por uns instantes, olhando fixamente o rosto sem pensar nele em específico, talvez eu estivesse de boca aberta, talvez até babando um pouco. 

(Não. Definitivamente não havia baba. Não era possível eu ter bugado tempo suficiente para que a saliva que se formava em minha boca  pudesse escorrer pelo queixo. Não). Aos poucos fui percebendo que aquela cara falava comigo, que a boca dela articulava algumas palavras, e acho que fechei minha própria boca, voltando ao presente. Se pá eu fiquei meio envergonhada, mas o álcool disfarçou.

Ele me perguntava se eu tinha gostado dos vídeos do canal. Sim, gostei muito, eu disse. E era verdade. Não faz meu tipo esconder minha opinião sobre as obras artísticas alheias. Se eu não tivesse gostado eu teria dito, mesmo sendo a primeira vez que eu conversava com aquele rosto. Os vídeos me agradavam muito, eu disse a ele. E completei que não sabia se era pela produção ou pela temática. Era um canal que falava sobre coisas relacionadas à cidade para a qual eu acabara de me mudar, e falava duma forma cômica. Mostrava como funcionava aquela cidade, que na época significava novidade pra mim, e além de tudo era engraçadinho. Não tinha erro. Logo que vi o título de um dos vídeos nas sugestões do site, soube que eu acabaria assistindo todos, pelo menos duas vezes cada um. Tudo isso saiu da minha boca e chegou até os ouvidos do rosto, que abriu um sorriso, satisfeito com a apreciação alheia por sua obra.

Depois dessa troca inicial, em pleno happy hour, eu apreciação ele satisfação, os dois grupos se juntaram. O meu e o dele. Na verdade nem posso afirmar que foi depois. O processo de ajuntamento bem pode ter começado antes. Até mesmo no momento em que eu caminhei e falei com o rosto. É possível que tenha sido assim. O fato é que eu só notei que aquilo tinha virado um amontoado quando alguém acendeu um e ele me disse, apertando os olhos e sorrindo pelo meio, ah tu veio me cumprimentar só pra fumar né espertinha. 

Pior que não, eu nem era de fumar. Não tinha nada de raciocínio naquele meu ato. Cedi ao impulso do reconhecimento de um rosto familiar, sem nem pensar na origem da familiaridade. Quando vi já tava lá falando com a cara. Ou o cara. Mas já que tava lá, fumei sim. Fumamos. E conversamos e conversamos. Ele me disse, com um tom de orgulho, que tinha se mudado há um tempo e tava só de passagem. Visitando família e amigos. Não moro mais aqui, não. Moro em São Paulo. Sorriso de canto e um certo olhar de superioridade, como quem afirma com essa frase (assim eu interpretei) que se livrou de um buraco. Hm. Naquele tempo eu nem conhecia SP e acho que nem vontade de conhecer eu tinha. Pra mim, Porto Alegre bastava. Já era cidade grande o suficiente. No ano anterior, eu tinha me mudado de uma cidadezinha da periferia do sul pra capital. Pra mim, eu é que tinha saído de um buraco. A cidade que eu via como saída, ele via como buraco. A mesma cidade. Louco isso, que tudo é questão de ponto de vista, percepção, vivência, perspectiva, lugar de fala e os krl todo. 

Nós ficamos lá naquela rua por algumas horas ainda. Nós os dois grupos, que viraram um grande grupo, que foi ficando menor à medida que o tempo passava. Gente se despedia, e ia pra casa, ou sei lá pra onde. No fim, ficamos só eu, ele, uma amiga e um amigo. E aí fomos pra casa do amigo. De táxi. Isso tudo aconteceu antes da uberização. Ele morava perto e deu baratinho. Na casa do amigo, fizemos as mesmas coisas que jovens embriagados sempre fazem. Seguimos embrazando e deu barato. Cantamos, tocamos, falamos alto, rimos, dissemos que nos considerávamos muito uns aos outros. Pakas. Eu acabei dormindo com o rosto que eu reconheci do youtube. Na mesma cama. Dormindo mesmo. Sem metáforas e segundos sentidos. A gente deitou. De frente um pro outro. Até chegamos a nos olhar, mas a pestana baixou antes que pudéssemos dizer qualquer a. Ou fazer qualquer movimento. 

É que a juventude mete o loco no álcool. Pega pesadão. Chega uma hora que capota, não tem jeito. E obviamente que isso é uma generalização, que parte do meu lugar de fala, que é de onde sai minha perspectiva. Eu tenho um lugar de fala e pertencimento entre os jovens bêbados e é daí que eu tiro isso: que a juventude bebe demais. E depois dorme. Eu vislumbrei uma roncadinha dele segundos antes de eu mesma adormecer. A boca do rosto soltava um rrrrroncccc suave e prolongado. Como quem suspira de alívio por estar saindo daquele buraco. Como quem volta pra São Paulo amanhã.