Adultério em Dom Casmurro: retórica da irresistibilidade

Lívia Marangoni

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 36, 2021. ISSNe: 1806-2555.

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Sobre os autor(es):

liviamarangoni@alunos.utfpr.edu.br

RESUMO: A fortuna crítica de uma das principais obras machadianas, Dom Casmurro, passou, ao longo dos anos, por mudanças estruturais, principalmente no que se refere ao olhar a temática polêmica do possível adultério presente na narrativa. Helen Caldwell, crítica norte-americana, foi uma das principais personagens dessa mudança, na década de 1960. Caldwell propôs uma leitura incisiva da obra, carregada de atribuições de sentido, mais precisamente, absolvendo Capitu. A crítica decorrente desse tipo de leitura, em contraste com as ideias propostas por outra estudiosa norte-americana, Susan Sontag, a respeito dos problemas nos processos de interpretação em geral, é o que o trabalho aqui apresentado pretende explorar. Adicionalmente, reflete-se ainda sobre a recolocação da polêmica do adultério em meio a esse ambiente crítico sempre dinâmico. 

PALAVRAS-CHAVE: Dom Casmurro; crítica; adultério; Susan Sontag; Helen Caldwell

ABSTRACT: The critical works of Machado de Assis’ masterpiece, Dom Casmurro, have, through the years, undergone a series of structural changes, mainly relating to the narrative’s possible adultery. The north american critic, Helen Caldwell, has been a big player in those changes, in the 1960’s. Caldwell has proposed an incisive reading, full of meaning atribuition, more specifically, absolving Capitu. The critical work that develops from this type of reading exercise, in contrast with the ideas of another north-american scholar, Susan Sontag, concerning the problems of interpretation in general, is what this essay explores. Additionally, the realocation of the adultery’s polemic, imersed in an always dynamc critical environment, is also an issue of the present work’s analysis. 

KEY-WORDS: Dom Casmurro; critics, adultery; Susan Sontag; Helen Caldwell

Da fortuna crítica

 

 

No parágrafo abaixo, parte de uma passagem da resiliente proposição de identidade entre Bento Santiago e Otelo, do livro O Otelo Brasileiro de Machado de Assis, Helen Caldwell (2002, p.162), crítica norte-americana estudiosa do autor, deixa respingar, ou derruba, aquilo que seja, talvez, o mais frutífero leitmotiv de uma escolha analítica, a irresistibilidade:

O ciúme de Otelo o transforma em mouro; o de Bento o transforma em “casmurro”. Pois, creio eu, há um trocadilho de Machado de Assis nessa palavra: a palavra inglesa “Moor” e a sílaba intermediária de “casmurro” possuem praticamente o mesmo som. Para todos aqueles que apreciam jogos com palavras, como Machado, tal trocadilho não é absolutamente impossível – ao contrário, chega a ser irresistível (CALDWELL, 2002, p. 162 apud GUIMARÃES, 2019, p.123)

Manifesta, desencadeada e responsável por conteúdos diferentes, essa irresistibilidade tem como consequência em quem lê, todavia, uma receptividade. Não da substância da tese – o que seria uma desestimulante utopia argumentativa – mas, ao menos, do seu transcurso de produção. Não se abraçam as causas; dá-se um cumprimento de soslaio.

Caldwell, na história da leitura do célebre romance machadiano, subverteu o convencionalismo da crítica. Se motivada pela irresistibilidade de sua tese, ou pela irresistibilidade da subversão, não temos como saber – o que ironicamente configura as boas exposições. A norte-americana propôs o apontamento do caráter ciumento de Bento, do risco da confiabilidade de seus relatos e, por consequência, da inocência de Capitu, como resposta ao que se tornou a grande polêmica literária brasileira do século XX: “Então, Capitu traiu Bentinho?”

Há exemplos inúmeros da centralização das análises – por parte da crítica anterior ao que chamaremos de ‘cisão Caldwell’ – na psicologia de Capitu; na descrição cansada de mulher dominadora, ou, sintetizando as descrições de Augusto Meyer e Lúcia Miguel Pereira, da fêmea/felina voluptuosa que não consegue discernir a culpa e o pecado. Bem, o olhar declaradamente enviesado da estudiosa de Los Angeles serviu, salvo engano de algum desvio no percurso histórico, como a propulsão certeira para o reconhecimento da dúvida em relação ao que era o antes certo adultério de Capitu. Vale ressaltar que a questão impregnou não apenas o trabalho dos estudiosos do romance, mas foi encorpada/incorporada, também, pela leitura do público não acadêmico.

Da recusa

 

 

Um segundo momento, pós estabelecimento da questão, tem sido, naturalmente, sua – também irresistível – recusa. Conveio apontar, ao longo dos anos, uma extensiva reflexão/atenção/energia dada à dubiedade do adultério por parte da crítica, de sorte que, consequentemente, os engenhos mais complexos e vultosos do romance tivessem sido injustamente amortecidos. Nos textos e discussões em que o tópico aparece, após alguma ponderação sobre a pergunta, brotam as tímidas retratações dos próprios autores ou oradores, como se por um desleixo ou recaída ainda pecassem por incorrer no assunto. 

Seguindo um caminho semelhante, como exemplo de dura repreensão, retomamos um parágrafo de Silviano Santiago, de seu Retórica da Verossimilhança, ensaio pertencente ao livro de 1978, Uma Literatura nos Trópicos:

Qualquer das duas atitudes tomadas na leitura de Dom Casmurro (condenação ou absolvição de Capitu), trai, por parte do leitor, grande ingenuidade crítica, na medida em que ele se identifica emocionalmente (ou se simpatiza) com um dos personagens, Capitu ou Bentinho, e comodamente já se sente disposto a esquecer a grande e grave proposição do livro: a consciência pensante do narrador Dom Casmurro (SANTIAGO, 2000, p.29)

De acordo com a condenatória reflexão do ensaísta mineiro, um olhar com esmero para a pergunta, bem como adesão ao seu desdobramento (absolvição/condenação da filha de Pádua), não só é incompatível com a crítica madura, como também nos encaminha ao erro subsequente da displicência para com outras proposições mais importantes do livro. Ou seja, erramos duplamente por ingenuidade e desatenção. 

Ao mesmo tempo em que Santiago censura a simpatia pela questão – que seguindo sua reflexão poderia ser ignorada, uma vez superada nossa ingenuidade – ele confere grande poder à sua consideração. Veja, uma leitura que desloque seu afeto para a questão do adultério, só pode fazê-lo, segundo ele, de maneira total, una, de forma que atenção alguma possa sobrar aos outros temas, que serão seguramente negligenciados. Certamente o crítico não queria, mas acaba por sinalizar a potência irrefreável do olhar para essa questão.

Não pretendemos entrar mais profundamente no mérito da divisão dos escopos de análise, ou das consequências dos recortes, apenas escrutinamos o parágrafo de Santiago, a fim de fazer aparecer a força da dúvida do adultério, que, supostamente, teria robustez suficiente para deixar ocultas outras importantes situações, como a da narração. 

Da pergunta

 

 

Parcialmente identificado o vigor do assunto, incidem sobre nós os desdobramentos dessa observação. Ou seja, as considerações sobre a caracterização da pergunta; em outras palavras, o porquê de sua robustez, bem como que tipo de atividade crítica pode dela decorrer. 

Se nos fosse dada a chance da escolha de elucidação de apenas uma questão sobre o enredo do livro, das mãos próprias de seu autor, numa absurda hipótese, provavelmente optaríamos por saber se houve ou não traição – infelizmente, talvez, segundo Santiago. Evitamos ao máximo o uso da palavra grifada a seguir, por não representar na totalidade o que se pretende, mas a inclinação à dúvida do adultério chega a ser quase instintiva. É claro que o par análise/instinto é problemático, mas a curiosidade que brota do assunto configura-se, quiçá, como aquilo que mais nos aproxima da leitura sensível. Queremos saber o que aconteceu, antes de pensarmos sobre querer. 

Convidamos, nesse momento, outra norte-americana à discussão, Susan Sontag, mais precisamente suas ideias desenvolvidas no ensaio, “Contra a Interpretação”, que também dá nome a uma coletânea publicada pela primeira vez em 1966. A autora discorre sobre as características de uma época, bem como as consequências determinantes que elas produzem nos processos interpretativos das artes. Vejamos o seguinte excerto: 

O nosso é um tempo em que o projeto da interpretação é em grande parte reacionário, asfixiante. Como os gases expelidos pelo automóvel e pela indústria pesada que emprestam a atmosfera das cidades, a efusão das interpretações da arte hoje envenena nossa sensibilidade. Numa cultura cujo dilema já clássico é a hipertrofia do intelecto em detrimento da energia e da capacidade sensorial, a interpretação é a vingança do intelecto sobre a arte. (SONTAG, 1987, p.16)

Deve fazer-se clara, agora, a nossa intenção de relacionar o teor quase involuntário da nossa pergunta de análise a isso que Sontag chama de energia e capacidade sensorial. Daí proviria sua força, numa vingança reversa, da arte sobre o intelecto. Obviamente, há uma dificuldade conceitual de se idealizar um processo de leitura “mais sensorial”, ou, ainda, em sugerir que nossa pergunta seja “mais enérgica que outras”. No entanto, estando a discussão no plano da subjetividade, nossos argumentos são resultado dos dados de experiência de leitura e produção crítica: a pergunta permanece, por mais de século, e, principalmente, a pergunta irrita, na medida em que se mostra insolúvel, sobrepondo-se a qualquer recorte teórico ou abordagem de análise. 

 

Das consequências

 

É importante, nesse momento, fazer uma diferenciação entre a adesão pessoal à questão e a uma de suas soluções (condenação/absolvição), quase inevitável em qualquer leitura despretensiosa, e uma proposta formal de interpretação, assemelhando-se mais ao trabalho de Caldwell, introduzido no início. Fazemos a distinção para entendermos a argumentação de Sontag, que localiza os problemas já mencionados no tipo mais formal de interpretação.

No exercício de um paralelo entre as escritoras americanas, podemos sugerir que talvez houvesse algum tipo de conflito na leitura de Sontag do trabalho de Caldwell. Somos levados a concluir a existência de tal descompasso entre as autoras, pois O Otelo Brasileiro de Machado de Assis desenvolve-se de maneira bastante incisiva, é carregado de assertivas e, principalmente, propõe uma leitura correta do livro de Machado, como nos lembra Paulo Franchetti, na seção de “Apresentação” da 2ª edição de Dom Casmurro, pela Ateliê Editorial. Para entendermos melhor do que se trata essa leitura correta, vejamos um dos pontos de análise da crítica de Caldwell, elucidados por Franchetti. 

Como o próprio nome de seu livro sugere, Helen Caldwell aposta na significação decisiva para o enredo machadiano dos nomes de seus personagens: tomando como referência a obra shakespeariana, a autora propõe uma correspondência entre os personagens da tragédia e do romance. Dessa forma, Bento está para Otelo como Escobar para Cássio e Capitu para Desdêmona. Adicionalmente, Bento traria em si mesmo o seu Iago, como se pode prefigurar pelo seu sobrenome: Santiago. Essa identificação entre Bento e Otelo, segundo Franchetti, é o principal argumento para a defesa, por parte de Caldwell, de Capitu. A norteamericana reabre o caso dessa forma:

Submeto a vossa apreciação: Bento Santiago também deseja [como Otelo] ver as coisas como elas não são. Como Otelo, ele tenta iludir o espectador- seus leitores – pois, aplaudindo-o mais do que a Otelo, tê-lo-ão absolvido […]. Mas, se nós leitores, o virmos como ele quer ser visto, estaremos distorcendo a tragédia. (CALDWELL, apud FRANCHETTI, 2008, p.32)

Com uma ideia mais clara, agora, de como Caldwell constrói sua argumentação e, consequentemente, como se dá sua interpretação, podemos perceber, mais facilmente, os pontos de atrito entre as autoras: Sontag poderia identificar problemas com esse tipo de leitura de Caldwell, vide sua posição em relação aos processos interpretativos em geral, mostrada na citação da seção 3. 

Ora, deparamo-nos com um impasse. Propusemos no início que o trabalho de Helen Caldwell teria sido decisivo para o enraizamento, na crítica, de uma grande questão de análise. Continuamos por defender que tal questão é possuidora de um caráter diferenciado, que a torna perene, ou seja, ela se mostra intrinsicamente irresolúvel, uma vez que o enredo não abre brechas para que possamos resolvê-la de forma factual, isto é, sem recorrer à interpretação. Tentamos relacionar, em seguida, a caracterização da pergunta às reflexões de Sontag sobre o que seria um melhor caminho de interpretação, sensível e enérgico. Por fim, sugerimos uma crise entre a incisividade de Caldwell e argumentação de Sontag. Vejamos qual é o problema.

Assumindo como plausível nossa linha de argumentação, observamos que o surgimento de nossa pergunta: “Será mesmo que Capitu traiu Bentinho?” – nos termos de Susan, aquilo que nos direciona a um comentário sobre o que é que é, em vez de o que significa – só foi passível de inserção na crítica através de um trabalho de características opostas, mais assertivo, como mostramos, acima, ter sido a defesa, por Caldwell, da inocência de Capitu. Forma-se o paradoxo: a pergunta sensível e espontânea só fez-se valer dentro de um contexto interpretativo calculadíssimo. 

A resolução do paradoxo, que é também a principal proposição do ensaio, dá-se por meio da aniquilação do impasse: a irresistibilidade e artificialidade, essa última no sentido mesmo de construção, não são mutuamente excludentes. Ou seja, o que se manifesta de forma sensível e potente pode ser resultado de um construto calculado, bem calculado. Com isso dito, podemos entender a pergunta acerca da traição como sensível/enérgica, mas ao mesmo tempo como consequência de um olhar assertivo e destemidamente enviesado para a história. São todos esses conceitos e nuances bastante nebulosos, mas preferimos evidenciar aqui a beleza do engenho de transformar, intencionalmente, as impressões que qualquer temática suscita, de modo que a incisividade deliberada de uma boa análise, (Caldwell), possa ser o pano de fundo da sensibilidade (Sontag). No exercício ensaístico crítico livre pós-moderno, representado, aqui, pelo nosso texto, a coincidência de ângulos opostos, como entendemos serem as posições das autoras discutidas, faz-se uma constante muito produtiva, de modo que uma abordagem que não pretende se sustentar na hermenêutica, (Sontag), possa, como vimos, dela usufruir.

Resta-nos um último olhar, ao menos nessa conversa, à nossa pergunta de análise. Capitu ter ou não traído Bento é, claramente, aquilo que nunca poderemos saber. O que podemos, no entanto, com esforço, é exercitar o reconhecimento do poder de nossas excitações analíticas, de modo a não nos envergonharmos, enquanto críticos, a depender do seu mote. Se é esse o tema que, de fato, deixa estático nosso olhar, sejamos as crianças de Baudelaire; inebriadas, absorvendo toda a cor e a forma, mesmo que sejam as de um simples adultério. 

Referências

ASSIS, M. Dom Casmurro: Cotia: Ateliê Editorial, 2008.

FRANCHETTI, P. Apresentação. In: ASSIS, M. Dom Casmurro: Cotia: Ateliê Editorial, 2008.

GUIMARÃES, H. Helen Caldwell, Cecil Hemley e os Julgamentos de Dom Casmurro. Machado de Assis em Linha, São Paulo, v. 12, n. 27, p. 113-141, ago. 2019. 

SANTIAGO, S. “Retórica da Verossimilhança”. In: SANTIAGO, S. Uma Literatura nos Trópicos: ensaios sobre dependência cultural. 2ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2000. cap. 2, p. 27-47. 

SONTAG, S. Contra a interpretação: Porto Alegre: L&PM, 1987.