A recepção de Dom Casmurro entre o ciúme e o adultério

Clara Magalhães do Vale

RESUMO: O artigo objetiva mapear e analisar os momentos-chave da recepção de Dom Casmurro, de Machado de Assis, que ilustram as transformações da leitura do romance. Foram identificadas duas leituras principais: a inicial, denominada “leitura do adultério”, baseada na verossimilhança, e que perdurou como consenso por sessenta anos; e a leitura do ciúme, originada no ensaio de 1960, O Otelo brasileiro de Machado de Assis, da crítica estadunidense Helen Caldwell, no qual a autora se posiciona como advogada de Capitu no julgamento de Bento. Percebe-se uma mudança na recepção do romance a partir de seu lançamento, que acaba servindo de base para novas leituras do ciúme, como a análise de caráter social das personagens, como faz John Gledson, ou a leitura que sugere uma mudança de foco da análise moral — de Capitu para Bentinho —, como sugere Silviano Santiago. Através da identificação, leitura e análise dos marcos do percurso da crítica, guiadas pela teoria da recepção, percebe-se a descoberta do caráter essencialmente ambíguo de Dom Casmurro após o ensaio de Caldwell, e a confirmação da ambiguidade por meio das diversas vertentes da leitura do ciúme que surgiram na segunda metade do século XX.

 PALAVRAS-CHAVE: literatura brasileira; Dom Casmurro; teoria da recepção.

ABSTRACT: This article aims to map and analyze the key moments in the reception of Machado de Assis’s novel, Dom Casmurro. Each moment illustrates transformations concerning its two main readings: an initial one, called “adultery reading”, based on the verisimilitude and endured as a consensus for sixty years; and the “jealousy reading”, firstly observed in the essay The brazilian Othello of Machado de Assis, from 1960, written by Helen Caldwell. The north american writer places herself as the defense attorney of Capitu in Bento’s trial. A change is noticed in the understanding of the novel’s reception from the time the essay was launched. Caldwell’s interpretation comes to be a basis for the new jealousy readings, such as the ones that analyze the character’s social aspect, as John Gledson’s, or the reading that suggests a new focus of moral character — from Capitu to Bentinho —, as Silviano Santiago’s. Through reading, identifying and analyzing key moments in the trajectory of the critics, guided by the reception theory, the essentially ambiguous aspect of the novel is evidenced after Caldwell’s essay, as well as the confirmation of such ambiguity by other nuances of the “jealousy reading”, emerged in the second part of the 20th century.

KEY-WORDS: brazilian literature; Dom Casmurro; reception theory.

 

Em 1960, era lançado O Otelo Brasileiro de Machado de Assis, da crítica estadunidense Helen Caldwell. Trata-se de um ensaio sobre Dom Casmurro, romance de 1899, de Machado de Assis, em que a autora aproxima dois cânones da literatura, o escritor brasileiro e William Shakespeare, fazendo o mesmo com Dom Casmurro e Otelo, e seus respectivos personagens principais de mesmo nome. A análise de Caldwell recebeu uma tradução para o português apenas quatro décadas após seu lançamento nos EUA, e o que poderia se tratar de mais um ensaio crítico de uma das principais obras de Machado, veio a se tornar o marco da trajetória crítica do romance, já que foi a partir de sua proposta de interpretação que Dom Casmurro passou a ser lido como um dos romances mais dúbios da literatura brasileira.

Ambientado no Rio de Janeiro, em meados do século XIX, o romance é narrado por Bento, advogado e seminarista que, já passada a juventude, decide compartilhar, como narrador e personagem principal, sua história de amor que se inicia ainda na infância, entre ele e sua vizinha, Capitu. Anos após se casarem, não sem antes terem de superar as peças do destino, firmes à paixão e já com um tão desejado filho, Bento começa a suspeitar que Capitu esteja o traindo com seu melhor amigo, Escobar. A suspeita nasce de uma impressão de Bento: ele começa a enxergar no rosto e nos trejeitos de seu filho Ezequiel, traços de seu amigo de longa data. A suspeita aumenta à medida que o garoto cresce, já após a morte prematura de Escobar, que se afoga na ressaca do mar do Rio. Finalmente, quando decide confrontar a esposa, Bento não recebe resposta alguma de Capitu, a acusação fica suspensa, e o casamento chega ao fim. Mãe e filho se mudam para a Europa, e o marido continua no Brasil, se metamorfoseando, aos poucos, de Bento Santiago para Dom Casmurro. Mesmo após as doenças que provocaram as mortes de sua esposa e seu filho, Casmurro, fazendo jus ao nome, não se comove nem se arrepende da acusação e do afastamento, e envelhece com a certeza de ter sido atraiçoado pela “cigana de olhos oblíquos e dissimulados”.

Após o lançamento do livro, as críticas que chegam ao público mal variam quanto à interpretação do romance. Não apenas há algo próximo a um consenso quanto à qualidade de obra-prima do romance, como não havia dúvidas de que Dom Casmurro se tratava de uma história sobre adultério, não havendo espaço para diferentes interpretações.

Pouco conhecido entre a crítica brasileira, José Getúlio da Frota Pessoa foi escritor e jornalista cearense, nascido no final do século XIX. Sua crítica se destaca entre as demais da época, não por se tratar de uma interpretação inovadora da obra, mas por encarar os fatos narrados por Bento como um relato do adultério feminino que nem mesmo demanda as tantas páginas gastas pelo autor para escrevê-las. Diz o crítico:

O seu último livro, D. Casmurro, é de concepção inferior. Expurgando-o das pequeninas observações que o recheiam, pedacinhos de vida e pedacinhos de alma, vistos como através de um buraco de fechadura, ele resume-se em mostrar como uma criança licenciosa por educação e talvez por atavismo dará uma mulher adúltera. E esta moralidade explicita lá está no livro: ‘Uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca’. Parece exagerado quatrocentas páginas para tão pouco. (FROTA PESSOA, Crítica e Polêmica, 1902, p. 67)

Frota Pessoa mostra enxergar nos primeiros dois terços do livro, nos quais Bento narra sua infância e juventude assim como a figura e o amadurecimento de Capitu, a formação quase natural da menina em uma mulher adúltera. Isto é, acreditava que Capitu apenas despertara sua tendência à infidelidade com o passar dos anos, como havia de ser dado seu caráter “licencioso”. Em outras palavras, Frota Pessoa se conformou com a versão da história dada por Bento, sem sequer notar seu caráter tendencioso.

A recapitulação feita pelo narrador, assim como a escolha dos fatos a serem narrados e, mais importante, o intuito que provocou tais escolhas, foram notados por Roberto Schwarz, em seu ensaio “A poesia envenenada de Dom Casmurro” de 1994. Nota como o discurso de Bento fora astutamente construído para levar o autor a enxergar a dissimulação da mulher desde menina, tal como ele própria a via:

Induzido a recapitular, o fino leitor prontamente lembrará por dezenas de indícios do calculismo e da dissimulação da menina. Entretanto, considerando melhor, notará também que as indicações foram espalhadas com muita arte pelo próprio narrador, o que muda tudo e obriga o leitor a inverter o rumo da desconfiança. (SCHWARZ, 2006, p. 10)

Observa-se, afinal, que Frota Pessoa naturaliza o adultério, isto é, o ocorrido não o surpreende de maneira alguma, e é até por ele previsto, dada a caracterização da jovem Capitu, ainda que não considere que essa fora construída inteiramente através das palavras de Bento, aquele que se diz traído. No entanto, a suspeita que Bento desperta seria uma preocupação da crítica apenas algumas décadas mais tarde.

Augusto Meyer, já em 1947, se mostrou um aliado da leitura de Frota Pessoa. Diz ele:

Capitu mente como transpira, por necessidade orgânica. […] Em Capitu, há um fundo vertiginoso de amoralidade que atinge as raias da inocência animal. Fêmea feita de desejo e de volúpia, de energia livre, sem desfalecimentos morais, não sabe o que seja o senso da culpa ou do pecado. (AUGUSTO MEYER, Capitu, 1947, p. 148)

Meyer constrói uma imagem de Capitu da mesma maneira que Frota, se submetendo à retórica do narrador, que tinha plena consciência de seu objetivo para com o leitor: conseguir aliados que fortalecessem sua acusação sem provas. A retórica é premeditada pelo advogado ao ponto de o leitor ser convencido através da verossimilhança dos acontecimentos narrados.

Um ano após o lançamento do romance, José Veríssimo constrói sua própria interpretação de Capitu, completamente baseada nos relatos e nas descrições de Bento, como há de ser em uma narrativa em primeira pessoa, mas sem se dar conta da parcialidade que permeia o livro: “Capitu, a dissimulada, a pérfida, é deliciosa de afetuosidade felina, de reflexão e de inconsciência ou desplante, de animalidade inteligente e perspicácia feminil, de jeito, feitiçaria e graça, e, com isto tudo, real, exata.” (VERÍSSIMO, 1977, p. 30). Veríssimo aceita a figura de Capitu tal qual Bento nos apresenta (como em todas as recepções conformistas), ilustrando o que Roberto Schwarz acusa de ser um mal no leitor brasileiro, isto é, sua passividade perante a obra, principalmente se o narrador representa uma figura social prestigiada: “É como se para o leitor brasileiro as implicações abjetas de certas formas de autoridade fossem menos visíveis” (SCHWARZ, 2006, p. 9). A autoridade do autor sobre o leitor, seja ele ficcional ou não, faz com que o último tenda a não confrontar o primeiro, justamente pela sua suposta posição de autoridade, tendência que se agrava quando se trata de um narrador em primeira pessoa, e acentuada ainda mais se esse carrega em si um perfil tal qual o de Bentinho. Enfim, o crítico português Abel Barros Baptista confirma a análise do leitor de Dom Casmurro feita por Schwarz.

Seguramente, haveria de dizer que, durante 60 anos, o leitor brasileiro não entendeu o recurso à primeira pessoa com intenção denunciadora e que, em especial, resistiu a entendê-lo, para não se defrontar com a crítica feroz a um dos ‘tipos de elite mais queridos da ideologia brasileira’. Por isso, a história da leitura de Dom Casmurro parece decorrer ‘como se para o leitor brasileiro as implicações abjetas de certas formas de autoridade fossem menos visíveis’. (BAPTISTA, Folha, 1999)

Por outro lado, José Veríssimo nos apresenta uma semente — sem previsão de desenvolvimento de sua parte — da tese que Helen Caldwell desenvolveria décadas mais tarde, quando levanta uma leve suspeita de Bento: “Dom Casmurro a descreve, aliás, com amor e com ódio, o que pode torná-lo suspeito. [..] Lede a fábula, e tirai-lhe vós mesmos a moralidade.” (VERÍSSIMO, 1977, p. 30). Tal suspeita se baseia no modo como Bento descreve Capitu. Acredita que, levando em consideração os sentimentos do narrador em relação à personagem — o amor e o ódio —, o leitor deve refletir sobre as acusações feitas, antes de chegar a uma conclusão. Nesse ponto Veríssimo destoa sutilmente de Caldwell, uma vez que ela sugere que a suspeita parta de outra vertente: independente dos sentimentos de Bento por Capitu, o que o torna suspeito é, em primeiro lugar, sua posição de narrador, ou seja, ele seria um “narrador não confiável”, conceito originado em The rhetoric of fiction (1961) de Wayne C. Booth, o que viria a se tornar o pilar da leitura do ciúme, também chamada de “paradigma do pé atrás” por Baptista. Apenas após apontar o lugar que Bento ocupa na narração como passível de despertar desconfiança, que Caldwell discorrerá em seu ensaio sobre como Machado teria, não por acaso, aproximado a figura de Bento à do mouro de Veneza, e como ambos arruinaram suas vidas à custa do ciúme sem fundamento, visto que Otelo acaba arrependido e Bento convicto e atormentado. Seguindo tal linha de raciocínio, a autora formula uma base argumentativa em defesa de Capitu, concluindo que a amiga de infância de Bento é tão inocente quanto Desdêmona, desmentindo Bento.

Ainda que sem muita consistência quanto aos motivos, ao sugerir que Bentinho poderia ser considerado suspeito, José Veríssimo lança mão de uma nova possibilidade de leitura que não aquela em que o leitor se desatenta à qualidade parcial do narrador-personagem, a predominante durante grande parte do século XX. No entanto, quinze anos após sua crítica inicial, Veríssimo renuncia sua suspeita e se mantém firme à versão de Bento, como nota-se em sua crítica publicada postumamente, em que aponta a ingenuidade do narrador-personagem, quando a ingenuidade partiria do próprio leitor, como seria futuramente compreendido.

É o caso de um homem inteligente, sem dúvida, mas simples, que desde rapazinho se deixa iludir pela moça que ainda amara, que o enfeitiçara com a sua faceirice calculada, com a sua profunda consciência congênita de dissimulação, a quem ele se dera com todo ardor compatível com o seu temperamento pacato. Ela o enganara com o seu melhor amigo, também um velho amigo de infância, também um dissimulado, sem que ele jamais o percebesse ou desconfiasse. (VERÍSSIMO, 1981, p. 286)

Já Lúcia Miguel Pereira tende, tal como Veríssimo, a relativizar a história contada por Bento. Em 1936, abre espaço para uma leitura não convencional ao iniciar seu comentário crítico com a conjunção “se”, cedendo à dúvida: “Capitu, se traiu o marido […]”. No entanto, continua o comentário considerando o adultério como um fato, apenas ponderando sua natureza: “Há a ideia central de saber se Capitu foi uma hipócrita ou uma vítima de impulsos instintivos. Em outras palavras, se pode ser responsabilizada. (MIGUEL PEREIRA, 1936, p. 271)

Sua crítica ao romance ilustra o que Caldwell viria a observar na interpretação da crítica nacional: “Nenhum crítico brasileiro que eu conheça enfrentou de fato a questão da infidelidade de Capitu, ou tentou fazer uma análise séria do livro” (CALDWELL apud GUIMARÃES, 2019, p. 116). Em outras palavras, os poucos que colocam a narrativa em perspectiva não se aprofundaram em suas razões, nem se mostraram convictos de tal necessidade.

É o caso de outro crítico machadiano, hoje pouco lembrado, Austregésilo de Athayde, que leva suas suspeitas um pouco mais longe, mas não chega a fazer delas tema de reflexão sobre a natureza do discurso de Bento. Em Escritor por escritor: Machado de Assis segundo seus pares (2019), organizado por Hélio Guimarães e Ieda Lebensztayn, em meio às diversas críticas da obra de Machado de Assis escritas por outros escritores brasileiros, temos uma publicação de Carlos Heitor Cony, em que diz que Austregésilo teria suspeitado da versão de Casmurro: “Lembramos aqui um artigo do sr. Austregésilo de Athayde que chega até a suspeitar do adultério de Capitu, tudo não passou de provas circunstanciais, suspeitas mais ou menos vagas e mais ou menos firmes” (CONY apud GUIMARÃES; LEBENSZTAYN, 2019, p. 307). Todavia, acaba se tornando mais uma suspeita pouco embasada, não sendo suficiente para se opor à correnteza que se tornou a leitura do adultério.

* * *

Até meados do século XX, percebe-se que os poucos que chegaram a cogitar uma leitura em que o leitor haveria de hesitar frente ao relato de Casmurro, visto que o narrador conta a própria história, não se sujeitaram à formação de teses ou a qualquer desenvolvimento de argumentos para justificar a suspeita com o devido embasamento. Foi somente na década de 1950, durante as últimas revisões do que seria a primeira tradução de Dom Casmurro para o inglês, que Helen Caldwell começou a desenvolver a tese que mudaria o rumo da recepção do romance. Em 2019, o crítico machadiano Hélio Guimarães publica um artigo em que apresenta as cartas trocadas entre Caldwell e seu editor Cecil Hemley nas quais estão ilustradas as primeiras impressões que originariam uma interpretação transformadora. Através delas, todas de conteúdo inovador se comparadas às críticas de até então, discute-se a recepção que ocorria no Brasil desde o lançamento da obra, e, assim, Caldwell nota que construíra uma leitura completamente destoante em relação às demais: a leitura do ciúme.

O contexto histórico condizia com a interpretação de Caldwell. Nos EUA, durante a década de 1960, a segunda onda do movimento feminista estava a todo vapor, agora focado numa luta social mais abrangente que a primeira, que teve seu auge na luta pelo sufrágio. Dessa vez a luta abrangia a liberdade sexual, os direitos reprodutivos e dentro do mercado, incluindo a quebra do padrão da família tradicional. Em vista disso, é natural que se leia Dom Casmurro considerando a personagem de Capitu para além da descrição do marido amargurado, podendo ser interpretada como alguém segura e sagaz, mas que acaba sendo taxada como “licenciosa” (FROTA, 1902), o que nada surpreende, visto que à época de sua estreia o leitor padrão se assemelhava consideravelmente à figura de Bento: homem, branco, pertencente à classe dominante. Ainda deve ser considerado que o Brasil vivia uma fase essencialmente patriarcal, em que se esperava da mulher um papel que divergia da figura de Capitu que Bento nos apresenta, ainda que não completamente, mas suficientemente para ser desprezada pelos leitores.

Além da desigualdade de gênero, a classe social inferior que Capitu ocupava quando criança, em comparação a Bento, também deve ser considerada, bem como aponta Schwarz em “A poesia envenenada de Dom Casmurro”, um dos dois ensaios que compõem o livro Duas Meninas, em que aproxima Capitu à Helena Morley, autora e personagem do diário ficcional Minha vida de menina (1942). Diz ele:

Como se vê, uma organização narrativa intrincada, mas essencialmente clara, que deveria transformar o acusador em acusado. Se a reviravolta crítica não ocorre ao leitor, será porque este se deixa seduzir pelo prestígio poético e social da figura que está com a palavra. (SCHWARZ, 2006, p. 10).

Aponta ainda a simpatia irresistível pelo “cavalheiro distinto e sentimental”, “admiravelmente bem-falante”, “um pouco desajeitado com questões práticas”, “venerador lacrimoso da mãe”, além de “obcecado pela primeira namorada”. Cada um dos atributos de Bento torna mais improvável um “pé atrás” por parte do leitor. Em vista disso, seu posicionamento frente ao narrador é estruturado pela semelhança entre eles, e na admiração pela figura social que Bento representa (provavelmente a mesma que o leitor), acabando por afastar qualquer visão crítica.

Durante o processo de tradução para o inglês, Caldwell analisa o texto já formulando sua própria interpretação que, por sua vez, interfere sutilmente na escolha de palavras. Sua leitura é transparecida já no paratexto, isto é, no próprio título do livro. Houve uma discussão sobre se o título original deveria ser mantido, já que, sonoramente, se aproxima da palavra moor, traduzida como mouro, tal como Otelo é chamado, coincidência improvável segundo Caldwell. A observação, a qual acredita ter fundamento na intencionalidade de Machado, servindo também como amparo para seus argumentos de defesa, é feita inicialmente em uma carta para Hemley e posteriormente inserida em seu ensaio, no capítulo “Lágrimas de Otelo”.

“A técnica que Machado usa para relatar a história (narração pelo marido ciumento) contribui para a ambiguidade essencial — uma ambiguidade que a circunstância do narrador não permite esclarecer” (HEMLEY apud GUIMARÃES, 2019, p. 116), diz Hemley em uma de suas cartas para Caldwell, que concorda inteiramente com o editor. Tal avaliação sustentaria grande parte dos argumentos no ensaio de Caldwell e algumas das críticas futuras no Brasil. Em suma, Caldwell e Hemley defendem que, uma vez que Dom Casmurro tem como narrador o próprio personagem principal da história, exclui-se a possibilidade de uma imparcialidade que um narrador onisciente ofereceria. Ou seja, por se tratar de um romance narrado em primeira pessoa, temos em mãos apenas uma versão de uma história. Em vista disso, cabe ao leitor a agudeza para notar o mecanismo usado pelo autor, que torna cada fato relatado no romance digno de suspeita, suspeita essa que não permite nenhuma conclusão objetiva justamente pelo aspecto parcial da narrativa.

A leitura do adultério como interpretação predominante no Brasil choca Caldwell:

Quando percebi essa grande confusão na nossa grande república irmã, comecei a duvidar da minha própria sanidade, a reexaminar o livro e procurar evidências suplementares em outros escritos de Machado de Assis, tanto os coligidos como os poucos que permaneceram inéditos e que eu pude obter. (CALDWELL apud GUIMARÃES, 2019, p. 116)

Ao perceber que possuía uma leitura inédita em meio à predominante, Caldwell se vê impelida a escrever uma tese que sustentasse a leitura que acreditava ser a mais coerente. Estava, portanto, formado o argumento central de O Otelo Brasileiro de Machado de Assis.

Caldwell se coloca como advogada de defesa de Capitu, ao passo que Bento vai para o banco de réus, acusado de difamação. Logo na introdução de seu ensaio, Caldwell instiga o leitor e promete responder a duas questões até o final do livro, a segunda dependente da primeira: “a heroína é culpada de adultério?” e “por que o romance é escrito de tal forma a deixar a questão da culpa ou inocência da heroína para decisão do leitor?”

O fator principal que leva à “reabertura” do caso do julgamento de Capitu, agora do marido, é o ciúme que Bento deixa à mostra desde a infância e que nunca o abandona. Caldwell justifica tal leitura apresentando evidências na narrativa e em romances antecedentes do autor, em que Machado faria um estudo das mais diversas faces desse sentimento e de suas implicações:

O ciúme nunca deixou de fascinar Machado de Assis. Em suas obras, seja em artigos ou na ficção, ele frequentemente faz pausas para manipular um lento bisturi sobre alguma nova manifestação do ciúme. (CALDWELL, O Otelo brasileiro de Machado de Assis, 2008, p. 18)

Assim, a autora vai construindo minuciosamente uma análise do novo ocupante do banco de réus e como o ciúme nele se manifesta, cegando-o e corrompendo-o, tal como em Otelo.

A comparação entre Otelo e Bento defendida por Caldwell é inicialmente feita pelo próprio narrador, fato que sustenta o argumento da autora: “É ele mesmo quem revela que se trata da história de Otelo, mas com uma certa diferença, e muito importante: sua Desdêmona é culpada.” (CALDWELL, 2008, p. 21). Entretanto, o principal objetivo de Caldwell é exatamente provar a inocência de Capitu, mostrando que a tragédia e o romance se assemelham mais do que Bento julgou e compartilhou com o leitor. Caldwell ainda identifica em Capitu, Escobar e José Dias os seus supostos correspondentes da trama de Otelo. Capitu ocuparia o lugar de Desdêmona, ambas inocentes vítimas do ciúme, Escobar, o de Cássio, confidentes de Bento/Otelo e cúmplices da relação do casal, e José Dias, o de Iago (interrompido), pois plantam em Bento/Otelo a semente do ciúme (a célebre descrição dos “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” e o lenço de Desdêmona, respectivamente) e, como o próprio título do ensaio entrega, Bento ocuparia o lugar de Otelo. Sendo assim, Dom Casmurro seria como uma versão mais moderna de Otelo, em que a voz do narrador é dada ao mouro. No entanto, a equivalência dos personagens não se dá tão objetivamente: Caldwell propõe que interpretemos Bento como, além de Otelo, também Iago, visto que é Bentinho quem semeia a semente que José Dias planta, transformando-a em ciúme: “[…] é Santiago quem exerce o papel de Iago para si mesmo, se envolvendo num transe ou delírio semelhante ao de Otelo ao ser instigado por Iago” (CALDWELL, 2008, p. 169). Indo ainda mais a fundo em sua teoria, anatomiza o nome de Bento Santiago, percebendo a presença simbólica de Iago contido em Santiago, em que “Sant-” representaria o caráter ingênuo e puro de Bento anterior a sua metamorfose, e “-iago”, o manipulador que Dom Casmurro se mostra ser.

Já nas últimas páginas de seu ensaio, Caldwell retoma as questões que prometeu responder. A partir do que é dito posteriormente em Esaú e Jacó (1904), isto é, que cabe ao leitor fazer uso “de todos os seus poderes de observação, raciocínio, imaginação e compreensão, tornando-se um intérprete” (MACHADO apud CALDWELL, 2008, p. 203), Caldwell conclui que Machado permite que o leitor julgue (a inocente) Capitu, supondo que o autor-real antecipou o caráter hesitante do júri frente à versão do autor-fictício, visto que as ferramentas para que o leitor tenha um papel ativo estão contidas na narrativa e em suas alusões, tal como e principalmente a Otelo. Assim, cabe ao leitor julgar Capitu, como também a vingança de Bento: poupar Capitu de seu amor.

No minucioso ensaio fica claro o posicionamento de Caldwell:

Como Otelo, ele [Bento] tenta iludir ‘o espectador’ — seus leitores — pois, aplaudindo-o mais do que a Otelo, tê-lo-ão absolvido; sua auto-ilusão estará completa, ele estará livre de qualquer culpa a seus próprios olhos, sua consciência ficará tranquila. Mas, se nós, leitores, o virmos ‘como ele quer ser visto’, estaremos ‘distorcendo a tragédia’. (CALDWELL, p. 191)

Caldwell se mostra encantada por Capitu — “Todos nós amamos Capitu” (p. 112) —, além de determinada a desmontar o caráter moral do narrador — caráter que o narrador tanto se esforçou para construir diante dos olhos do leitor —, baseando-se em diversos argumentos interpretativos, concluindo que “Casmurro é rancoroso e vingativo” (p.152). Ao longo do ensaio, a autora acaba afirmando diversas vezes a inocência da acusada. Capitu é, pois, para Caldwell, inocente. Sendo ela própria uma leitora da obra, cabe a ela se posicionar quanto à suposta traição da personagem, como é proposto na questão inicial. No entanto, ao julgá-la, contradiz a segunda questão: se a inocência de Capitu depende de cada leitura — pois é isso que infere a questão subsidiária —, como poderia garantir a inocência ou culpa da vizinha de Bento se baseando nas palavras daquele que se mostrou defender seu caso e em supostas intencionalidades de Machado?

A autora conclui que “[…] nós, do júri, caímos na lábia de um advogado persuasivo” (p.118), ou seja, “Ele [Machado de Assis] não criou uma Desdêmona culpada” (p. 155). Em outras palavras, Machado teria uma intencionalidade, e é essa que Caldwell deseja descobrir. Acredita que “Machado quer nos persuadir da beleza do amor; Santiago, converter-nos ao amor-próprio” (p. 205), sendo Capitu a personificação do amor e Bentinho a do amor-próprio. Ou seja, o crime de Capitu consistiu apenas em enfrentar o ciúme e as maquinações do amado acreditando em seu amor e sua fé.

Ao final, acaba não respondendo objetivamente às perguntas levantadas inicialmente e, mesmo que o tivesse feito, não pareceu compreender a impossibilidade de se obter a resposta para ambas as questões. Posto que conhecemos Capitu através de Bentinho, não seria possível construir uma imagem da personagem baseada em fatos, tal qual apenas um narrador onisciente seria capaz de fazê-lo, ou talvez um narrador-personagem menos parcial que Dom Casmurro. Dito isso, assumir que Machado deixa para o leitor o julgamento de Capitu é improvável, visto que a parcialidade do autor-fictício é inegável.

A leitura do ciúme originada pelo ensaio de 1960 é seguramente um marco na trajetória da recepção de Dom Casmurro, entretanto, coube à crítica posterior expandir a interpretação de Caldwell. Apenas após a obra ser compreendida como parcial, visto que é narrada por um narrador não-confiável — e esse feito é inteiramente de Caldwell —, outro olhar sobre a obra foi possível: se o leitor tem acesso apenas ao que Bentinho astuciosamente escolhe lhe mostrar, como é possível julgar qualquer outro personagem que não ele próprio?

* * *

A interpretação de Caldwell suscitou a formulação da pergunta que até hoje surge no leitor de Dom Casmurro: “Capitu traiu ou não Bentinho?”. E que deu origem a uma nova vertente na crítica: a da dúvida. A autora defende Capitu a seu modo (e até onde a narrativa em primeira pessoa permite) e abre espaço para mais interpretações. De certa forma, Silviano Santiago e Roberto Schwarz se aproximam da proposta de leitura de Caldwell, visto que os três são a favor de uma mudança de réu — de Capitu para Bentinho —, ainda que a autora siga analisando a personagem feminina para então poder defendê-la. Enquanto Bento constrói a narrativa para que o leitor julgue Capitu com base em sua meia verdade, manipulando-o para provocar piedade e tê-lo como aliado, cabe apenas ao leitor perceber a subjetividade que acompanha a história, se virando para Bento para então julgá-lo — e apenas Bento — visto que é a única verdade à qual se tem acesso. No entanto, a leitura do ciúme de Santiago e Schwarz é motivada não para encontrar fatores que inocentariam Capitu, que seria o caso de Caldwell, mas para analisar as ferramentas utilizadas por Santiago para construção de sua narrativa manipuladora, julgando nesse processo apenas o narrador.

Schwarz analisa a crítica até a década de 1950 e conclui que “a despeito dessas dúvidas esparsas, a desconfiança dos leitores não questionou a probidade de Bentinho, mas a fidelidade de Capitu” (SCHWARZ, 1999, p. 227), dúvidas essas observadas, por exemplo, nos casos de Veríssimo e Lúcia Miguel Pereira. Acreditava ainda que a autocomparação a Otelo feita por Bento deveria ser suficiente para instigar o leitor a ler o romance nas entrelinhas, já que Shakespeare não era lido com tanta assiduidade no Brasil como na terra natal de Caldwell:

Machado, que era bom shakespeariano, achou que, ao fazer que Bentinho desse razão a Otelo contra Desdêmona, estaria deixando uma pista impossível de não ser notada por seus compatriotas mais inteligentes. (SCHWARZ, 1999, p. 228)

Até então Schwarz tem uma leitura semelhante à de Caldwell, visto que ambos colocam a narrativa em perspectiva e sugerem que Machado estaria se referenciando a Otelo diretamente, jamais deixando de lado segundas intenções. No entanto, sua leitura do ciúme não é guiada pelo desejo de inocentar Capitu. Ao passo que Caldwell analisa o narrador-personagem para justificar a semelhança entre Desdêmona e Capitu também quanto à inocência, Schwarz propõe que a questão da traição já não ocupe o primeiro plano, mas sim a figura de Bento, levando o leitor à necessidade de três leituras:

Uma, romanesca, onde acompanhamos a formação e decomposição de um amor; outra, de ânimo patriarcal e policial, à cata de prenúncios e evidências do adultério, dado como indubitável; e a terceira, efetuada a contracorrente, cujo suspeito e logo réu é Bento Santiago, na sua ânsia de convencer a si e ao leitor da culpa da mulher. (SCHWARZ, 2006, p. 10)

O crítico analisa a construção retórica de Bento e identifica um esforço de sua parte para que o leitor não tenha espaço de interpretação durante a narrativa e, dessa forma, nem sequer criar uma hipótese em que Capitu seja inocente: “O resto é saber se Capitu da Glória já estava dentro da de Matacavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente” (Dom Casmurro, 1899, p. 183). Ou seja, “se a dúvida diz respeito ao momento a partir do qual houve culpa, não sobra lugar para a hipótese da inocência” (SCHWARZ, 2006, p. 16).

Em “Retórica da verossimilhança”, ensaio publicado originalmente em 1969 e reunido com outros ensaios do autor em Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural (2000), Silviano Santiago dá continuidade ao pensamento de Caldwell quando também coloca Bento no banco de réus, e opera como Schwarz ao tomar o personagem como único válido para julgamento:

O leitor, esquecendo a consciência pensante do sexagenário, tomava a posição de juiz e sentia-se na obrigação de dar seu veredito sobre os fantasmas do narrador, quando na realidade o único interesse de Machado de Assis deseja despertar é para a pessoa moral de Dom Casmurro. (SANTIAGO, 2000, p. 29)

Acredita que se enganam aqueles que sofrem para decidir se Capitu é ou não culpada de adultério, fugindo da verdadeira questão interpretativa:

Qualquer das duas atitudes tomadas na leitura de Dom Casmurro (condenação ou absolvição de Capitu) trai, por parte do leitor, grande ingenuidade crítica, na medida em que ele se identifica emocionalmente (ou se simpatiza) com um dos personagens, Capitu ou Bentinho, e comodamente já se sente disposto a esquecer a grande e grave proposição do livro: a consciência pensante do narrador Dom Casmurro. (SANTIAGO, 2000, p. 29)

Percebe, portanto, que tal julgamento não seria válido devido à parcialidade por parte do leitor, além daquela fundamental do próprio narrador. Uma vez consciente de ambas parcialidades, o leitor poderá reler o romance agora com o foco central em Bentinho, o único do qual pode-se retirar “alguma verdade”.

Santiago, assim como Caldwell, nota que o ciúme é tema recorrente das obras do autor. Considera Dom Casmurro um estudo do ciúme, sendo, pois, um romance ético que demanda do leitor uma reflexão moral. O leitor não poderá se deixar ser influenciado por qualquer simpatia por Bento ou Capitu, isto é, assim como Machado manteve certa distância de seus personagens para bem realizar uma avaliação moral, o leitor deverá fazer o mesmo.

Após a publicação de O Otelo Brasileiro de Machado de Assis, a leitura do adultério deixou de ser consenso geral. A leitura do ciúme foi ganhando cúmplices a cada leitura e releitura. A partir da obra pioneira de Caldwell, veem-se nascer novas vertentes, como as recepções posteriores de Santiago e Schwarz. Enquanto Caldwell busca a absolvição de Capitu, a traição é uma questão deixada em segundo plano pelos críticos brasileiros, que passam a investigar o perfil do narrador, o qual é caracterizado pelo ciúme, seu poder sobre a narrativa e sobre o leitor.

John Gledson também se junta a eles quando diz que Machado constrói intencionalmente um narrador em primeira pessoa que não custa a convencer seu leitor, já que “foram intencionalmente concebidos para agradar o leitor, aliciá-lo no sentido de aceitar o ponto de vista do narrador.” (GLEDSON, 1984, p. 8) Mas a lábia e a simpatia não são suas únicas armas: “a arma fundamental de que dispõem é o preconceito social. Concordamos com eles porque compartilhamos suas atitudes” (GLEDSON, Idem). Gledson ainda argumenta que, devido ao perfil do leitor, a (possível) inocência de Capitu não foi verdadeiramente cogitada por mais de meio século e, quando aconteceu, o questionamento foi feito por uma mulher. Diz ainda que não faltou intencionalidade: Machado já havia utilizado da mesma ferramenta do “narrador em primeira pessoa” que se munia de persuasão, mas que seria facilmente desmascarado como apenas intenção de agradar e convencer o leitor, se esse último não fosse tão fascinado pela própria figura social do narrador. Desse modo, Machado “foi capaz de iludir o leitor por ter sido capaz de lisonjear seus preconceitos.” (GLEDSON, 1984, p. 8). Mas compreende que a leitura de Caldwell e adeptos só tenha surgido graças ao distanciamento da sociedade em que foi concebido o romance:

Segue-se que – dentro de certos limites, é claro – quanto mais nos afastamos da sociedade em que ele viveu, e para a qual escreveu, tanto mais chances temos de nos afastar desses preconceitos e de compreender o que ele pretendia – o que nos leva à conclusão, saudavelmente modesta, de que o que nos permite enxergar a verdade é menos nosso talento do que a boa sorte. (GLEDSON, Machado de Assis – impostura e realismo, 1984, p. 8)

Gledson conclui que, apenas após conscientizar-se do perfil tão bem arquitetado por Machado, tal como o faz com outros narradores de suas obras, é que se pode construir qualquer interpretação sobre a narrativa. Não apenas em Dom Casmurro, mas também em Memórias póstumas de Brás Cubas (1881) e em Memorial de Aires (1908), Machado dá ao narrador o papel de autor (se colocando, consequentemente, como um “segundo autor” ou “autor-real”), uma vez que o narrador informa ao leitor que possui consciência de que está sendo lido através de um livro que ele mesmo escreveu para tal finalidade. Portanto, o autor reconhece a presença inevitável do leitor e, no caso de Dom Casmurro, possui um objetivo para com aquele leitor, bem como nota Santiago: a persuasão, e a garantia de uma consciência limpa se o objetivo é alcançado.

Schwarz, em “A poesia envenenada de Dom Casmurro” (1994), irá citar e interpretar a recepção de Gledson:

Em lugar do novo Otelo, que por ciúme destrói e difama a amada, surge um moço rico, de família decadente, filho de mamãe, para o qual a energia e liberdade de opinião de uma mocinha mais moderna, além de filha de um vizinho pobre, provam ser intoleráveis. Nesse sentido, os ciúmes condensam uma problemática social ampla, historicamente específica, e funcionam como convulsões da sociedade patriarcal em crise. (SCHWARZ, 2006, p. 12)

Nota-se que o leitor também deve ser considerado na análise da recepção. O perfil do leitor se assemelha ao do narrador, tornando-os cúmplices. Assim, Gledson afasta-se de Caldwell, visto que essa considera o leitor um sujeito enganado, vestindo-o de culpa. Conclui que apenas com o distanciamento entre o perfil do leitor e do narrador, isto é, com a desestruturação das fundações patriarcais, o leitor afetado por tal transformação poderá interpretar Bento com uma visão crítica, não como seu semelhante. E, visto que o distanciamento vem se dando vagarosamente, pode-se compreender a perduração da leitura do ciúme, e como, talvez não coincidentemente, tenha sido uma mulher a precursora da problematização da figura de Bento, inspirando os leitores adeptos à suspeita. Percebe-se, afinal, a influência da abertura propiciada por Caldwell para novas interpretações, que fugiam da leitura mais evidente, interpretações essas que Veríssimo, Athayde e Pereira não sustentaram.

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Ainda que a leitura predominante tenha mudado, há aqueles que não abandonaram a interpretação conivente com o argumento de Bento. É o caso do ficcionista Dalton Trevisan e do jornalista Otto Lara Resende, embora ambos defendam a leitura consensual de forma bastante performática. O primeiro se mostra perplexo com o levantamento de qualquer suspeita em relação às acusações de Bento, e chega a parodiar o título do ensaio de Eugênio Gomes, O enigma de Capitu (1967), em que o autor defende a personagem:

Até você, cara – o enigma de Capitu? Essa, não: Capitu inocente? Começa que enigma não há: o livro, de 1900, foi publicado em vida do autor – e até sua morte, oito anos depois, um único leitor ou crítico negou o adultério?. (TREVISAN, Folha, 1992)

Trevisan desconfia da leitura do ciúme, visto que o livro foi lançado oito anos antes da morte de Machado, e o escritor nunca se pronunciou sobre qualquer leitura que fugisse daquela que vinha se mostrando majoritária. Otto Lara Resende se posiciona exatamente junto a Trevisan:

Quem fica tiririca, e com toda razão, com essa história mal contada, e tão mal contada que desmente o próprio Machado de Assis, é o Dalton Trevisan (…) Dar a Bentinho como o “nosso Otelo” é pura fantasia. Bestialógico mesmo. (RESENDE, Folha, 1992).

Ambos não acreditam nem mesmo na possibilidade de uma leitura do ciúme. Resende chega até mesmo a usar uma suposta posição de Machado de Assis como argumento para invalidar tal interpretação, ainda que o autor nunca tenha se pronunciado sobre qualquer intencionalidade — considerando que a intenção do autor seja de importância para alguns críticos, tal como Trevisan, Resende e Caldwell, mesmo que os primeiros acreditem exatamente no contrário daquilo defendido por Caldwell.

Trevisan e Resende não estão sozinhos. Lygia Fagundes Telles, sem tendência performática, nada na contracorrente e, já no início dos anos 2000, demonstra que viveu o inverso do que vinha sendo notado pelo leitor mais recente de Dom Casmurro, desde a disseminação do “paradigma do pé atrás”: “Agora tinha ficado claro, também a mim ela enganou, era a amante de Escobar e o filho era dele.” (TELLES apud ROSA, 2020, p. 26). Após uma releitura, Telles se desloca da leitura do ciúme para a leitura do adultério, se destacando entre os demais críticos. Já os que transformam a visão durante a releitura, o fazem na ordem inversa ao modo que ocorre com Telles. Por outro lado, Trevisan e Resende nunca demonstraram qualquer incerteza sobre suas respectivas interpretações. “Quer dizer que Bentinho estava certo? Certíssimo!” (TELLES apud ROSA, 2020, p. 26), ainda diz Telles para reafirmar seu posicionamento junto aos contistas.

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Dom Casmurro nem sempre despertou o questionamento “Capitu traiu ou não Bentinho?”. Isso fica claro quando se percebe a dominância da leitura passiva em que não se questiona o narrador e sua influência na narrativa e no leitor. Afinal, a história de amor de dois dos personagens mais célebres de Machado foi colocada em perspectiva apenas sessenta anos após o lançamento do livro. Desde então, cada leitura e releitura por parte da crítica apenas confirma que não há unanimidade para se alcançar, nem se está caminhando para tal — muito menos é esse o objetivo dos críticos, já que compreendem que a impossibilidade de um consenso foi construída através de uma fineza e uma malícia próprias de Machado de Assis. Assim, aos poucos foram se abrindo novas vertentes de leitura que fogem do questionamento (sem resposta) do adultério, tornando Dom Casmurro uma das obras da literatura brasileira mais fascinantes a serem apreciadas e estudadas, tal como se mostrou a trajetória de sua recepção, capaz de ilustrar profundas transformações na sociedade.

REFERÊNCIAS

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BARROS BAPTISTA, Abel. Autobibliografias: Capítulo 28 – Os Herdeiros Modernos. Folha de S. Paulo, São Paulo, 28 março 1999. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs28039918.htm

CALDWELL, Helen. O Otelo brasileiro de Machado de Assis. 2. Ed. Ateliê Editorial, 2008.

CANDIDO, Antonio. Escritos. Ouro Sobre Azul, 2004.

CANDIDO, Antonio. Recortes. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

CAPITU. Folha de S. Paulo, São Paulo, 28 março 1999. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs28039910.htm

EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. 7. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2019.

GLEDSON, John. Machado de Assis: Impostura e realismo. 1. Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.

GUIMARÃES, Hélio. Helen Caldwell, Cecil Hemley e os julgamentos de Dom Casmurro. Universidade de São Paulo, São Paulo, v. 12, n. 27, p. 113-141, agosto, 2019.

MEYER, Augusto. Capitu. In: Machado de Assis (1935-1958). 1. Ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008.

PESSOA, Frota. Crítica e Polêmica. Rio de Janeiro: Arthur Gurgulino, 1902.

ROSA, Victor da. Leituras Póstumas de Machado de Assis. In: Revista Quatro Cinco Um. São Paulo, 01 ago. 2020, 36, Página 26.

SANTIAGO, Silviano. Retórica da verossimilhança. In: Uma literatura nos trópicos. 2. Ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

SCHWARZ, Roberto. A poesia envenenada de Dom Casmurro. In: Duas meninas. 2. Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

SCHWARZ, Roberto. Que horas são? ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

SCHWARZ, Roberto. Sequências Brasileiras: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

SEIXAS GUIMARÃES, Hélio; LEBENSZTAYN, Ieda. Escritor por escritor: Machado de Assis segundo seus pares. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2019.

VERÍSSIMO, José. Estudos de literatura brasileira, 3a série. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1977.

 


Este artigo foi desenvolvido como etapa de uma pesquisa de Iniciação Científica, apoiada pela Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Federal de Ouro Preto, e orientada pelo professor Victor Luiz da Rosa.