O eu, a mãe e a morte em Uma morte muito suave, de Simone de Beauvoir, e Une Femme, de Annie Ernaux

Camila Geovanna Alves da Silva

Dados da edição:

Mafuá, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil, n. 37, 2022. ISSNe: 1806-2555.

Como citar este texto?

Sobre os autor(es):

camila.alvessilva@ufpe.br
http://lattes.cnpq.br/3985481915804762

RESUMO: Este estudo objetiva analisar as representações da morte da figura materna na literatura, tecendo uma análise comparativa entre os livros Uma morte muito suave (1967), de Simone de Beauvoir, e Une femme (1987), de Annie Ernaux. Sendo ambas as narrativas permeadas pela intersecção da esfera literária com a análise sociológica, interessa-nos situá-las enquanto expressões pertencentes a um complexo de escritas de si que são criadas através da escrita do luto, almejando, ao mesmo tempo, elucidar a relação entre a condição feminina no século XX, atribuindo especial atenção ao complexo da maternidade e suas representações na esfera literária. Para tanto, utilizaremos como fundamentação metodológica as compreensões desenvolvidas por Jeannelle (2018), bem como as proposições de Labouret (2018) a respeito da massiva produção memorialística, testemunhal e autobiográfica no século XX. Faremos uso, de igual forma, dos estudos de gênero de Beauvoir (1949), em O segundo sexo, e de Ménissier (2016) acerca da vivência feminina e sua relação com a maternidade.

PALAVRAS-CHAVE: literatura francesa; maternidade; escritas do luto.

ABSTRACT: This study aims to analyze the representations of the death of the maternal figure in literature, weaving a comparative analysis between the books Une mort très douce (1967), by Simone de Beauvoir, and Une femme (1987), by Annie Ernaux. As both narratives are permeated by the intersection of the literary sphere and sociological analysis, we are interested in situating them as expressions belonging to a complex of self-writings that are engendered through the writing of mourning, aiming, at the same time, to elucidate the relationship between the female condition in the twentieth century, giving special attention to the complex of motherhood and its representations in the literary sphere. To do so, we will use as methodological foundation the meanings developed by Jeannelle (2018), as well as the propositions of Labouret (2018) regarding the massive memorialistic, testimonial and autobiographical production in the 20th century. We will also make use of the gender studies by Beauvoir (1949), in Le deuxième sexe, and by Ménissier (2016) on the female experience and its relationship with motherhood.

KEYWORDS: french literature; motherhood; mourning writings.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Na língua francesa, as palavras mer (mar) e mère (mãe) são objetos de uma interessante homofonia. Essa coincidência fonética é notadamente explorada por Baudelaire em As flores do mal (1857), mais especificamente no poema “L’homme et la mer”:

Homme libre, toujours tu chériras la mer !
La mer est ton miroir ; tu contemples ton âme
Dans le déroulement infini de sa lame,
Et ton esprit n’est pas un gouffre moins amer.

Tu te plais à plonger au sein de ton image;
Tu l’embrasses des yeux et des bras, et ton coeur
Se distrait quelquefois de sa propre rumeur
Au bruit de cette plainte indomptable et sauvage.

Vous êtes tous les deux ténébreux et discrets:
Homme, nul n’a sondé le fond de tes abîmes;
Ô mer, nul ne connaît tes richesses intimes,
Tant vous êtes jaloux de garder vos secrets !

Et cependant voilà des siècles innombrables
Que vous vous combattez sans pitié ni remord,
Tellement vous aimez le carnage et la mort,
Ô lutteurs éternels, ô frères implacables !
(BAUDELAIRE, 2019, p. 66)[1]

No poema, a configuração fônica dessas duas palavras cria uma instigante ambiguidade: assim como o mar (mer), as riquezas íntimas da mãe (mère) são ignoradas, desconhecidas; e, como o homem, a mãe e o mar são tenebrosos e discretos. A figura materna, dessa forma, é concebida enquanto ser possuidor de características profundas, passíveis de análises que visam a compreendê-las, e, amiúde, colocá-las no mundo através de uma forma literária.

De acordo com Patricia Ménissier (2016, p. 19), a representação do sujeito materno na literatura francesa remete à Idade Média, quando, de acordo com a estimativa de D. Desclais Berkvam, a mãe, enquanto personagem, se encontrava presente em 80% dos textos medievais, os quais, por vezes, integrava como parte fundamental da ação dramática. Estando representadas em livros tais quais La princesse de Clèves, de Madame de La Fayette, Paul et Virginie, de Bernardin de Saint-Pierre, La femme de trentre ans, de Honoré de Balzac, entre tantas outras obras, as figuras maternas provindas da literatura francesa compõem um extenso mosaico de diferentes construções arquetípicas. A exemplo desses modelos, podemos evocar algumas representações do sujeito materno.

Em Julie ou A nova Heloísa, romance epistolar de Jean-Jacques Rousseau, a maternidade é definida “não somente como uma necessidade fisiológica, mas como uma vocação quase metafísica, uma missão a cumprir” (MÉNISSIER, 2016, p. 36). Assim, essa representação da figura materna se baseia nos princípios patriarcais de dedicação e sacrifício aos quais uma mãe teria de se comprometer. Por outro lado, no mais célebre livro de Gustave Flaubert, a figura de Emma Bovary faz oposição ao arquétipo da mãe amorosa e altruísta. Mesmo que esse retrato materno vá de encontro às representações idealizadas da mãe-personagem, o desfecho da narrativa não se exime de apresentar uma lição moralista. De forma a satirizar os valores burgueses oitocentistas, a morte da heroína ressalta, simultaneamente, a decadência das estruturas sociais tradicionalistas e a existência de uma moral igualmente vinculada aos valores patriarcais: o fim da mulher adúltera e negligente será a morte.

Em 1881, Jules Vallès publica o primeiro romance da trilogia Memórias de um revoltado, L’enfant. De maneira oposta às heroínas de Rousseau e de Flaubert, a mãe do protagonista Jacques Vingtras não é concebida através de um processo puramente ficcional, pois a personagem é retratada em função da relação abusiva que mantém com seu filho, manifestamente inspirada na relação que o autor e sua mãe cultivaram. O livro, além de conter uma representação da figura materna que vai de encontro aos retratos idealizadores da maternidade, funciona enquanto denúncia da violência doméstica sofrida pelas crianças em uma época na qual os serviços de assistência social ainda não eram uma organização institucionalizada e vinculada ao Estado.

O curto mosaico de representações da figura materna na literatura francesa que aqui propomos nos auxilia a melhor compreender a configuração social e histórica que cinge os retratos literários do sujeito-mãe ao longo dos séculos e como tais retratos serão contrastantes com os que surgem na contemporaneidade. Da criação de arquétipos que visavam à manutenção da condição subalterna na qual viviam as mulheres, como vimos em Rousseau, à concepção da figura materna mediante uma inspiração autobiográfica, tal qual realizada por Vallès, denotamos a existência de uma constante: o papel interpretado por essas mães ocorre, de acordo com Ménissier (2016, p. 31), em função de como influenciam o destino de outros personagens.

“Será necessário”, defende Ménissier (2016, p. 32), “esperar a Primeira Guerra mundial, no momento em que se impõe a imagem da força materna”,[2] para que a literatura se revele como espaço de representação do sujeito-mãe em posição de protagonismo, mesmo que somente através de vozes narrativas externas. Ao revisitarmos o panorama sociocultural do século XX, constatamos que, em adição aos avanços nos estudos do ramo da psicologia, essa era evidenciou a aquisição de poder e autonomia feminina a respeito da liberdade de escolha. Com a comercialização da pílula anticoncepcional e a alta demanda dos movimentos feministas pela legalização do aborto, a maternidade sofre uma transformação: antes um dever, torna-se uma opção. Simultaneamente, no meio da criação artística, verifica-se que as expressões literárias de cunho autobiográfico se tornam mais frequentes. Diante das guerras e dos avanços tecnológicos, o testemunho, o relato das memórias e a conservação dessas se fazem, cada vez mais, uma necessidade.

Assim, propomos, para esse estudo, o recorte de duas obras nas quais a representação da figura materna, então morta, é realizada por entidades enunciadoras que concebem narrativas protagonizadas por suas mães, quais sejam, Uma morte muito suave, de Simone de Beauvoir, e Une femme, de Annie Ernaux. A análise que intentamos tecer pressupõe o estudo do “eu” que figura no decurso dos textos, ou seja, como a voz narrativa se comporta face à construção e concepção, em forma literária, do Outro. No caso de ambos os livros, da mãe.

Publicado em 1964, Uma morte muito suave se trata de um livro sobre os meses que precederam a morte de Françoise de Beauvoir, mãe de Simone de Beauvoir. Une femme,[3] de Annie Ernaux, publicado em 1987, foi concebido como uma narrativa “auto-socio-biográfica”, e escrito quando a mãe da autora, acometida pela condição de demência, sucumbe à morte após ter vivido dois anos em uma casa de repouso. Veremos que, assim como no poema de Baudelaire (2019, p. 66), o sujeito-mãe será, nesses livros, retratado a partir de suas características intrínsecas, mediante análises atenciosas de sua conduta e das dinâmicas relacionais que mantinha com seu meio social.

O primeiro momento desse estudo versará sobre o complexo narrativo da prosa ernausiana em Une femme. Ao contextualizarmos a obra enquanto integrante das escritas do luto, objetivamos trazer à tona as particularidades do projeto literário de Annie Ernaux, discorrendo sobre as propriedades e a gênese da “auto-socio-biografia”. Por fim, realizaremos uma análise comparativa mediante o contraste de excertos retirados dos livros em questão, propondo leituras analíticas das temáticas e dos eventos que os permeiam. O segundo momento será dedicado ao estudo de Uma morte muito suave. Para tanto, traçaremos uma análise acerca do projeto literário beauvoiriano, objetivando compreender a narrativa enquanto espaço de hibridização de manifestações de diferentes gêneros autobiográficos. Também apontaremos os paralelos entre as temáticas e os retratos da figura materna em O segundo sexo que se encontram presentes em Uma morte muito suave.

ANNIE ERNAUX E A “AUTO-SOCIO-BIOGRAFIA”

A produção literária de Annie Ernaux é essencialmente inscrita em um projeto de escrita de si que não se formula através da introspecção, nem de uma representação ou busca intrínseca do Eu, mas da percepção do Eu através do Outro; de uma compreensão ontológica como um ser pertencente a uma configuração espaço-temporal, caracterizada pela classe, pela diferença, pela convivência com os outros em relação aos quais o Eu, literário ou social, existe. Assim declarou Annie Ernaux em entrevista a Brigitte Aubonnet: “o ‘eu’ que utilizo […] não é um ‘eu’ interior, introspectivo, mas um ‘eu’ espelho, passado pelo crivo da análise sócio-histórica, por exemplo em La place e Une femme, ou Les armoires vides”.[4]

Sendo um vasto campo de reflexões metatextuais, a prosa ernausiana se torna um lugar de representação de indivíduos reais em suas condições político-sociais, estando esses figurados em uma forma literária. Isso se deve ao fato de o texto de Ernaux ser um espaço de contato da criação literária com estudos históricos e sociológicos, resultantes da grande influência do pensamento de Pierre Bourdieu[5] no tratamento destinado à condição humana e ao indivíduo inscrito na sociedade.[6] Conforme afirma Dominique Viart (2014, p. 25)

a adesão de Annie Ernaux às reflexões de Bourdieu, e, pouco depois, às teorias de Marx, autorizaria, sem dúvida, uma tal abordagem: a obra seria, então, apenas um reflexo, ou uma consequência, de um certo número de realidades socioeconômicas.[7]

A entidade narrativa que rege Une Femme, bem como a categorização do livro em um gênero literário definitivo, é, de todo, complexa. Com a intenção proposital de se subscrever a uma escrita engajada à história e à sociologia, a narrativa se distancia do biográfico, assumindo um caráter neutro, no qual a representação dos personagens é a consequência de um processo analítico de sua vivência e experiência enquanto ser individual integrante de uma coletividade. Esse intuito é explicitado na obra quando expressa a narradora: “Isso não é uma biografia, nem um romance, naturalmente. Talvez algo entre a literatura, a sociologia e a história” (ERNAUX, 2007, p. 41).[8]

Para uma análise mais densa da prosa ernausiana, partimos da consideração da escrita de si como um método de concepção de uma prosa engajada na transfusão de eventos, experiências e histórias reais em literatura. Une femme, afinal, é uma obra que trata do período de luto decorrente da morte da mãe da narradora. Desse modo, a voz narrativa do narrador autodiegético se inscreve no plano conceitual de juntura da voz literária à voz autoral. Concomitantemente, as reflexões metalinguísticas expressam o projeto consciente do retrato de uma verdade sobre a figura materna que, agora morta, se torna o objeto a ser apresentado, representado, analisado e historicizado. Essa compreensão é ratificada pelo seguinte excerto do livro:

O que espero escrever se situa, sem dúvida, no ponto de contato do familiar e do social, do mito e da história. Meu projeto é de natureza literária, pois se trata de procurar uma verdade sobre minha mãe que só pode ser alcançada através das palavras. (Isso é: nem as fotos, nem minhas memórias, nem os testemunhos de família podem me dar essa verdade). Mas eu desejo permanecer, de certo modo, embaixo da literatura (ERNAUX, 2007, p. 10).[9]

Identificamos, assim, ao longo da construção prosaico-narrativa de Ernaux, um complexo literário que se mostra autoconsciente e que se instaura por digressões propostas pela entidade narrativa que é, também, a entidade autoral.

O retrato biográfico da figura materna tecido em Une femme traça paralelos com o que Bakhtin (2018) identificou como o segundo tipo grego de biografia. Os intuitos da prosa ernausiana e da biografia grega, no entanto, diferem. Para a tradição grega, o segundo tipo biográfico tem suas origens no discurso de homenagem proferido quando das pompas fúnebres, o encômio. Nesse sentido, o protótipo biográfico grego é constituído em função da representação do cronotopo externo de uma figura real (BAKHTIN, 2018, p. 71-73). Assim, em contraste com o tipo grego de biografia, a prosa de Ernaux evidencia o caráter metatextual de uma escrita que nega o biográfico, todavia assume seu cunho literário fincado em bases político-histórico-sociológicas.

O paralelo que aqui estabelecemos entre a tradição grega, cujas práticas “exerceram enorme influência não só na evolução da biografia e da autobiografia europeia, como também na evolução de todo romance europeu” (BAKHTIN, 2018, p. 71), e o projeto literário de Ernaux se configura pela semelhança na intersecção de uma forma literária com a esfera social. O complexo ernausiano é consonante com a tradição grega, uma vez que se baseia na intenção de transcender a natureza literária a fim de adentrar o panorama político-social. No caso de Ernaux, de adentrar também o plano sociológico, que atua em congruência com as outras esferas de análise. Em contrapartida, o intuito vigente no tipo grego, sustentado pela louvação pública, difere do intuito da escrita engajada de Une Femme, que se desagrega do cunho simplesmente biográfico em prol de um retrato neutro de uma figura real, mesmo que concebido através de influências teórico-metodológicas e, sobretudo, sentimentais. Dessa maneira, a prosa de Ernaux não se dissocia da experiência pessoal e individual da entidade narrativa.

Em 1975, quando da aparição, em meio editorial, de O pacto autobiográfico, Philippe Lejeune defende que a homonímia das entidades narrativa e autoral (AUTOR = NARRADOR = PROTAGONISTA), muitas vezes realizada por um narrador autodiegético, é suficiente para que uma narração autobiográfica se institua (LEJEUNE, 1996, p. 16). A homonímia firmada entre narrador e autor, frequentemente presente na produção literária de Ernaux, surge a partir de uma intenção consciente de conceber uma narrativa de cunho autobiográfico. “Autobiografia”, no entanto, é um termo que, para a autora, não engloba o todo, nem expressa o intento de seu projeto literário, sendo “auto-socio-biografia” o neologismo por ela empregado para categorizar sua obra e localizá-la em um campo teórico. Assim declarou a autora em uma entrevista concedida a Pierre-Yves Jeannet:

[O] “eu” do texto e o nome inscrito sobre a capa do livro remetem à mesma pessoa. Grosso modo, as narrações nas quais tudo poderia ser verificado por um inquérito policial, ou biográfico […] se revelaria exato. Mas o termo de “narração autobiográfica” não me satisfaz, porque ele é insuficiente. Ele sublinha um aspecto fundamental, mas não diz nada sobre o almejo do texto, ou sua construção. Mais gravemente, ele impõe uma imagem redutora: “o autor fala de si”. Ora, La Place, Une Femme, La honte e, em parte, L’événement, são menos autobiográficos que auto-socio-biográficos […] (ERNAUX, 2003, p. 17, grifo nosso).[10]

O “eu” presente na narrativa ernausiana pressupõe um “ele”. No caso de Une femme, um “ela”. Conforme afirma a narradora do romance, o intuito da obra é o de explorar a figura materna de modo, a princípio, neutro. O retrato almejado é, ainda assim, entrelaçado à esfera pessoal, na medida em que os sentimentos pertencentes à voz narrativa são evocados sob formas de digressões paralelas ao relato principal. Assim, a autora e narradora parece almejar construir um relato sobre a construção da história, não de um indivíduo caracterizado por sua maternidade, mas de um ser real, pertencente a uma conjuntura social. Um ser histórico, pertencente a uma classe, compreendido em sua existência na sociedade. Mas nunca desprendido de sua posição como uma mãe que, agora morta, é retratada na literatura de maneira atrelada à sua condição social. Essa compreensão pode ser ilustrada pelo seguinte excerto do livro:

É uma empreitada difícil. Para mim, minha mãe não tem história. Ela sempre esteve aqui. Meu primeiro movimento, falando dela, é fixá-la em imagens sem noção de tempo: “ela era violenta,” “era uma mulher que queimava tudo”, e evocar, em desordem, as cenas nas quais ela aparece. Só consigo achar a mulher do meu imaginário, a mesma que, há alguns dias, nos meus sonhos, vejo de novo viva, sem idade precisa, numa atmosfera de tensão parecida àquela dos filmes de suspense. Gostaria de introduzir a mulher que existe fora de mim, a mulher real, nascida no bairro rural de uma pequena cidade da Normandia, e morta no serviço de geriatria de um hospital da região parisiense (ERNAUX, 2007, p. 9).[11]

E igualmente por este:

Tento não considerar a violência, os excessos de ternura, as repreensões da minha mãe como traços pessoais de caráter, mas de situá-los em sua história e sua condição social. Esse jeito de escrever, que me parece ir no sentido da verdade, me ajuda a sair da solidão e da obscuridade da lembrança individual, pela descoberta de uma significação mais geral. Mas sinto que algo em mim resiste, quer conservar, da minha mãe, imagens puramente afetivas, calor ou lágrimas, sem lhes dar sentido (ERNAUX, 2007, p. 21).[12]

Na intenção de testemunhar, de forma representativa e consciente, os espaços de vivência de diferentes classes sociais, a prosa ernausiana revela uma escrita que descarta a introspecção em prol do testemunho de uma realidade. Assim, o intento da parte da autora parece ser o de criar um texto cujo alcance seja expandido, transcendendo os limites da simples representação para beirar os da etnografia. Nesse sentido, a transfiguração em forma literária se revela uma necessidade, visto que a motivação transcende o puramente autobiográfico ou biográfico, e, conforme assinala Denis Labouret (2018, p. 274), se torna um ato de coletividade.

Subscrevendo-se ao complexo de escritas do eu, Une femme é concebido como a consequência do processo de perda, localizando-se no que poderíamos nomear “escritas do luto”. Seriam essas as narrativas impulsionadas pela tentativa de atravessar e enfrentar, através da literatura, o período subsequente à morte de alguém, concebendo e transformando a figura ausente no plano real em figura presente no âmbito da narrativa.

SIMONE DE BEAUVOIR E O EMPREENDIMENTO AUTOBIOGRÁFICO 

A fim de que tracemos um breve panorama do projeto literário de Simone de Beauvoir, interessa compreender o espaço ali ocupado pela escrita de si e como uma relação dialógica e representativa do pensamento filosófico e sociológico beauvoiriano se faz presente em seus escritos autobiográficos. Para tanto, utilizaremos as compreensões e as análises propostas por Jean-Louis Jeannelle em Écrire ses mémoires au XXème siècle (2008), estudo no qual o projeto literário de Beauvoir ganha especial atenção. Assim discorre o autor:

a escrita memorial [beauvoiriana] não ocupa […] a função tradicional de balanço de uma vida, consignada no limiar da morte, e destinada a entregar à posteridade o eco de uma voz de além-túmulo; ela participa, ao contrário, de diferentes práticas de autoconsignação e responde a um objetivo bem determinado […] (JEANNELLE, 2008, p. 181).[13]

Essa reflexão é feita em consonância às declarações de Beauvoir, quem, em uma entrevista concedida à Radio Canada, declarou que:

Escrever memórias não era somente falar de mim. Era profundamente falar da minha época. Me censuraram algumas vezes por ter passado tanto tempo escrevendo minha autobiografia; que alguém teria de ser muito narcisista ou egocêntrico para tal. Penso que essa censura é completamente falsa. Se eu quis falar de mim, foi para testemunhar sobre minha época e sobre um certo número de coisas que me transcendem.[14]

Dessa forma, é válido pensar a escrita de si beauvoiriana como lugar de expressão que não se limita à vivência do Eu, mas que se constrói através dela. É importante considerar, no entanto, que a entidade narrativa que evoca as experiências do sujeito onomástico não se exime de retratar as experiências exteriores, compondo, assim, um mosaico testemunhal do tempo em que viveu, compreendido em sua condição política e socioeconômica. A pluralidade de retratos contribui para a composição do panorama de uma época que não se limita a ser descrita por uma única percepção. Nesse sentido, na produção literária de Beauvoir, Eu é composto por si, evidentemente. Mas é, sobretudo, composto pelo Outro, considerando as experiências que o vinculam a ele, bem como aquelas que, pelo contrário, o diferenciam. As compreensões supraexpostas são aprofundadas por Ursula Tidd (2006, p. 228, tradução nossa), quem afirma que

os parâmetros éticos da relação Eu-Outro foram, desde o início, a fonte da questão filosófica para Simone de Beauvoir. Todos os seus escritos filosóficos e literários podem ser descritos como marcados pelo interesse em mapear uma relação ética com o Outro.[15]

E defende, ainda, que

As relações entre o Eu e o Outro são descritas, em A ética da ambiguidade, como constituintes, de forma recíproca, da facticidade de minha situação, ou das características da minha existência no mundo que não escolhi. Isso significa que, para Beauvoir, o Outro assume a mesma importância para mim como os outros elementos de minha facticidade, como meu passado, ou as circunstâncias específicas de meu nascimento, e do meu corpo. Não escolhi essas características da minha existência, e não posso escolher viver sem elas. Mas posso escolher como vivê-las (TIDD, 2006, p. 231, tradução nossa).[16]

Dessa forma, o emprego constante da primeira pessoa nos escritos de cunho autobiográfico de Beauvoir ilustra a constância de um projeto literário subjugado ao programa beauvoiriano de escrita de si. Com efeito, a relação dialógica que o “eu” dos escritos sociológicos e filosóficos estabelece com o “eu” dos escritos narrativos se apresenta no todo de sua produção intelectual. Evidenciamos, assim, o intento de Beauvoir de construir, em seus textos, um espaço de registro de determinados eventos provindos da realidade. Muitas vezes, da esfera pessoal da própria autora, como notamos em Memórias de uma moça bem-comportada (1958), A força da idade (1960) ou A força das coisas (1963). Essas obras, conforme aponta Jean-Louis Jeannelle (2008, p. 105), ditas, também, de cunho memorialístico, carregam a característica de veicular o testemunho de uma época através de uma perspectiva analítica sociológica e filosófica. A fim de se legitimar, o testemunho pressupõe uma entidade narrativa em condição homonímica à esfera autoral e faz uso de acontecimentos reais como materialidade a ser analisada por intermédio da intertextualidade com compreensões científico-acadêmicas.

Retomando as proposições de Jean-Louis Jeannelle,[17] a principal diferença entre o gênero autobiográfico e o gênero memorialístico, ambos presentes na prosa beauvoiriana, é a exemplaridade. A exemplaridade memorialística é de tipo social e histórico: “meu percurso, minha história, minhas ações” (JEANNELLE, 2008, p. 9), resume o teórico. Já a autobiográfica é de cunho psicológico e moral. São gêneros que caracterizam diferentes tipos de escrita, mas uma linha nítida não delimitaria precisamente a separação entre os dois. Dessa forma, Uma morte muito suave se situa no ponto de hibridez que reúne características de gêneros tais como a autobiografia, a biografia, as memórias e o testemunho. É um texto de cunho autobiográfico, pois é cunhado por um narrador onomástico e homônimo em relação à entidade autoral; de cunho biográfico, pois intenta delinear e testemunhar o percurso de vida de Outro desde o nascimento à morte, mesmo que de forma, por vezes, anacrônica; de cunho memorialístico, uma vez que narra um determinado evento, ou seção particular, da vida da entidade narrativo-autoral, e do sujeito que procura representar; e de cunho testemunhal, a considerar que “parte do relato da experiência pessoal e toma dimensão coletiva” (FAEDRICH, 2014, p. 81). Assim, a narrativa engloba características de todos esses gêneros, não se limitando às fluidas delimitações teóricas a que foram submetidos.

Subscrevendo-se ao projeto literário de Beauvoir, que compreende a vivência feminina como problemática através da qual seu estudo filosófico se constrói, a narração toma como exemplo a vivência de uma figura real. Essa figura, analisada por intermédio de uma perspectiva que a situa no tempo, em sua condição e posição sociais, é igualmente retratada por uma entidade narrativa vinculada ao personagem por uma ligação sentimental que a atrela, consequentemente, à voz autoral. “Françoise de Beauvoir” e “mamãe” são termos que dizem respeito à mesma pessoa e remetem, tanto na esfera literária quanto na real, à pessoa que Simone de Beauvoir almeja transfigurar e representar em sua obra.

Em Uma morte muito suave, é possível notar que, quando denominada “Françoise”, a personagem é analisada e retratada conforme a posição que ocupa em determinado meio social. É uma mulher de valores burgueses, católica e reprodutora dos valores patriarcais que Beauvoir, em O segundo sexo, questionará. Quando evocada por “mamãe”, no entanto, a construção de Françoise como personagem ocorre de modo a reforçar sua ligação pessoal à entidade narrativa que a representa. Assim, o emprego das diferentes palavras que remetem à mesma pessoa, mesmo que em contextos diferentes, exemplifica um dos pontos de contato que o relato (auto)biográfico beauvoiriano estabelece com o projeto filosófico e sociológico da autora. “Mamãe” e “Françoise” convivem para a criação da representação de uma mulher que, através do texto literário, é concebida de acordo com sua posição social, sua educação e seus supostos deveres. Dessa forma, a personagem não é apresentada de maneira apartada de sua condição social e econômica, não se resumindo, assim, à ligação familiar e sentimental que a vinculava à narradora. É assim que o Eu se torna possível através do Outro e vice-versa: Uma morte muito suave, afinal, se fundamenta na intenção de construir um retrato biográfico vinculado à expressão autobiográfica, que, por sua vez, o legitima.

O retrato materno tecido por Beauvoir pressupõe momentos que buscam expor, de modo analítico e reflexivo, as manifestações comportamentais dessa figura materna em seus meios sociais. Essas análises não se eximem de estabelecer paralelos com as proposições e observações feitas em O segundo sexo. As atitudes de Françoise serão muitas vezes estudadas mediante as asserções resultantes da extensa pesquisa compendiada no referido ensaio.

Almejando exemplificar, de forma pragmática, como ocorre a intersecção entre a produção científica de Beauvoir e sua produção literária, propomos a contraposição de excertos que abordam semelhantes temáticas nesses dois espaços. Para tanto, analisaremos a questão principal que circunda Uma morte muito suave, igualmente – e amiúde – presente n’O segundo sexo, qual seja, complexo da maternidade. Sendo, conforme ratifica Beauvoir, uma consequência direta do casamento, a condição é analisada em todas as suas formas, tomando, como aspecto inicial, o valor altruísta que lhe é atribuído, convictamente vinculado ao sacrifício e à devoção:

O drama do casamento: não é que ele não assegure à mulher a felicidade que promete – não há segurança sobre a felicidade – é que ele a mutila – ele a fada à repetição e à rotina. Os vinte primeiros anos da vida feminina são de uma riqueza extraordinária; a mulher atravessa as experiências da menstruação, da sexualidade, do casamento, da maternidade; ela descobre o mundo e seu destino. Com vinte anos, dona de casa, ligada até a morte a um homem, com um filho no braço, eis aqui sua vida acabada para sempre. As verdadeiras ações, o verdadeiro trabalho são privilégio do homem: ela só tem ocupações que são, por vezes, exaustivas, mas que nunca a preenchem. Lhe vangloriaram a renúncia, a devoção; mas lhe parece muito vão consagrar-se “à conservação de dois seres quaisquer até o fim de suas vidas”. É muito bonito se esquecer, mas ainda é necessário saber para quem, e por quê. E o pior é que sua devoção parece importuna; ela se converte, aos olhos do marido, em uma tirania da qual ele tenta subtrair-se; e, entretanto, é ele que se impõe à mulher como seu supremo, sua única justificativa; desposando-a, ele a obriga a dar-se a ele inteiramente; ele não aceita a obrigação recíproca, que é a de aceitar essa doação (BEAUVOIR, 2009, p. 553).

Esse tópico, ao ser retomado em Uma morte muito suave, é, dessa vez, subordinado à “escrita do luto” beauvoiriana. Na narrativa, a maternidade é retratada como parte de um complexo maior, que intenta transformar a figura materna em um elemento integrante de uma forma literária: um personagem, e, de mesmo modo, de uma construção social, visto que a condição materna não se desvincula do estatuto de subalternidade feminina à qual se encontra submetida. Vale considerar, no entanto, que a representação e a análise da mãe, agora morta, transpassa e transcende sua esfera puramente filosófica e sociológica em virtude da esfera sentimental à qual o eu-narrativo se encontra atrelado:

Era [Françoise de Beauvoir] capaz de se esquecer, sem esperar recompensa para si, pelo amor a meu pai, a nós. Mas ninguém pode dizer “eu me sacrifico” sem experimentar certo azedume. Uma das contradições de mamãe é que acreditava na grandeza da dedicação e, entretanto, tinha gostos, repugnâncias, desejos imperiosos demais para não detestar aquilo que a molestava. E insurgia-se constantemente contra as obrigações e privações que ela própria se impunha (BEAUVOIR, 2020, p. 31).

Esse paralelo serve, também, como instrumento de auxílio à compreensão do comportamento de Françoise enquanto mãe. Sabemos, ao curso da narrativa, que a vivência de suas filhas foi afetada em virtude de sua conduta controladora e possessiva, manifesta em ações que remetiam aos traumas de sua infância. É o que lemos no excerto seguinte:

Carente de alegrias do corpo, privada de satisfações da vaidade, submetida a tarefas que a aborreciam e humilhavam, essa mulher [Françoise de Beauvoir] orgulhosa e obstinada não estava dotada para a resignação. […] Precipitou-se então na única saída que se lhe oferecia: alimentar-se das vidas jovens que estavam a seu cargo. “Eu, pelo menos, jamais fui egoísta, vivi para os outros”, disse-me ela mais tarde. Sim, mas também pelos outros. Possessiva, dominadora, ela teria querido conservar-nos inteiramente na palma de sua mão. Mas foi no momento em que essa compensação se lhe tornara necessária que nós começamos a desejar a liberdade, a independência. Conflitos fermentaram, eclodiram, que não ajudaram mamãe a reencontrar seu equilíbrio. […] Em casa, era preciso deixar todas as portas abertas; eu devia estudar sob seus olhos, tinha que me ver desde o quarto onde ela estivesse. Quando, de noite, minha irmã e eu tagarelávamos, de uma cama a outra, ela colava o ouvido à parede, roída de curiosidade, e gritava: “Calem-se!” Não nos deixou aprender a nadar e impediu que papai nos comprasse bicicletas: através desses prazeres de que ela não teria compartilhado, teríamos escapado ao seu controle absoluto. Se ela exigia participar de todas as nossas distrações, não era apenas porque tinha poucas; por motivos que remontavam, sem dúvida, à sua própria infância, não tolerava sentir-se excluída (BEAUVOIR, 2020, p. 33-34).

Beauvoir (2009, p. 320) defende ainda que, em determinadas situações, “a mulher não saúda [na filha] um membro da casta eleita; nela procura seu duplo”. Assim, as dinâmicas relacionais existentes entre Françoise, Simone e sua irmã, Poupette, podem ser melhor compreendidas ao levarmos em conta as asserções feitas n’O segundo sexo a propósito das mães que se revoltam contra a independência que suas filhas almejam, quando passada a fase da infância. Assim, é durante a fase de crescimento que tais conflitos nascem, haja vista a intenção natural do ser humano de se tornar autônomo e independente perante seus pais. Em alguns casos, a figura materna se rebela, vendo, na filha, “um traço de ingratidão odiosa” (BEAUVOIR, 2009, p. 599) em virtude da perda gradual de sua autoridade. Diante dessa situação, pode agir com tirania, ou resignar-se e renunciar a seus privilégios e, consequentemente, renunciar à posição superior que, ao curso da infância, ocupou no imaginário da filha – posição essa que, para as mulheres, ao ver de Beauvoir (2009, p. 599), é ocupada pelos homens.

A exposição desse padrão comportamental materno auxilia o entendimento da conduta adotada por Françoise de Beauvoir perante suas filhas, e, particularmente, suas atitudes para com Poupettea, a irmã mais nova de Simone. Defronte às influências externas que inspiravam o comportamento de sua filha mais velha, a figura materna aqui retratada assiste, não sem se manifestar, a perda de seu duplo em sua filha mais nova: “eu a defenderei” (BEAUVOIR, 2020, p. 35), declarará. Tendo sido, para suas filhas, veículo da moral cristã, a renúncia à fé se revela como uma traição, pois se trata de uma confirmação de alteridade, do afastamento de um alter ego criado no imaginário da figura materna que pode revelar a relação ambígua que mantém consigo mesma. Acerca desse complexo, observa Beauvoir (2009, p. 599): “[A mãe] detesta sistematicamente as amigas em que a filha busca auxílio contra a opressão familiar […]; tomando como pretexto a ‘má influência’ delas, proíbe-lhe radicalmente que as veja”. Um bom exemplo para essa compreensão se faz presente em Uma morte muito suave no excerto abaixo:

Era principalmente sobre minha irmã que ela se empenhava em assegurar seu domínio, e sentia inveja de nossa amizade fraterna. Quando soube que eu perdera a fé, gritou para Poupette, irada: “Eu a protegerei contra a influência dela! Eu a defenderei!” Durante as férias, proibiu-nos de nos ver a sós: encontrávamo-nos clandestinamente nos castanhais. Esse ciúme atormentou-a a vida inteira, e nós mantivemos até o fim o hábito de esconder-lhe a maioria dos nossos encontros (BEAUVOIR, 2020, p. 35).

Os escritos autobiográficos de Beauvoir, aponta Denis Labouret (2018, p. 240), se encontram em um espaço narrativo no qual o relato memorialístico e testemunhal da vida individual se enquadra em uma interpelação histórica e filosófica que, por estarem ali figurados, transcendem a esfera puramente literária. Essa escrita autobiográfica, memorialística e testemunhal espelha um trabalho filosófico embasado e moldado nas filosofias da existência “que reabilitaram o sujeito concreto, os fatos da consciência em sua relação com o mundo e com os outros, se opondo aos sistemas filosóficos idealistas” (LABOURET, 2018, p. 138, tradução nossa).

UMA MORTE MUITO SUAVE E UNE FEMME: DIÁLOGOS COMPARATIVOS

Adolescência, sexualidade, vivência feminina, condição de classe, mãe, morte: são essas as principais temáticas retratadas em Uma morte muito suave e Une femme. Traçaremos, nesta seção do artigo, uma análise comparativa de excertos retirados das duas obras, estabelecendo os temas comuns nelas presentes e contrapondo as perspectivas com as quais esses são abordados. Sabemos que os livros em questão são primariamente caracterizados pela escrita do eu. Esse “eu”, sujeito onomástico, fomenta a criação de uma figura materna delineada em sua complexidade. O retrato materno, tanto em Ernaux quanto em Beauvoir, é arquitetado no intuito de representar mulheres cujas vidas foram atravessadas pela maternidade, mas não definidas por ela.

Sendo Une femme uma narrativa que se encontra em consonância com o projeto literário de Annie Ernaux, há, por conseguinte, uma notável intersecção entre a literatura e a análise sociológica, que conjectura a contextualização dos personagens em uma esfera socioeconômica. Para a figura materna representada na prosa de Ernaux, a vivência como um ser pertencente à classe trabalhadora ocorreu desde sua infância. Tendo deixado a escola aos doze anos de idade e adentrado, como operária, uma usina – condição da qual se orgulhava –, a realidade burguesa, assim como os valores atrelados a ela, lhe eram desconhecidos. A condição de sua filha, no entanto, não foi semelhante à sua, pois a narradora rememora que o desejo mais profundo de sua mãe era o de lhe dar tudo aquilo que ela não teve (ERNAUX, 2007, p. 20).[18] Sabemos, de semelhante maneira, que, por vontade de sua mãe, a narradora passa a frequentar uma instituição de ensino privada, e que, por intermédio das conexões e amizades que lá criou, pôde entrar em contato com o estilo de vida burguês.[19]

Diante desses fatores, notamos, no excerto seguinte, a ocorrência de um ponto de contato entre a contextualização de classe e o relacionamento materno e filial, atrelado à passagem da infância à adolescência, e igualmente à assimilação da vivência burguesa. Essa influência atuará de forma a estabelecer uma distância ideológica entre mãe e filha, firmando-se de modo a atravessar as questões de classe que minam a relação:

Eu vivia minha revolta adolescente no mundo romântico, como se meus pais tivessem sido burgueses. Me identificava com os artistas incompreendidos. Para minha mãe, se revoltar tinha apenas um significado: recusar a pobreza; e uma só forma, a de trabalhar, ganhar dinheiro, e ficar tão bem quanto os outros. Daí vem esta censura amarga, que eu não entendia mais do que ela entendia minha atitude: “se tivesse sido mandada para a usina aos doze anos, você não seria assim. Você não conhece sua sorte”. E, ainda, muitas vezes, esta repreensão: “Ela vai para o pensionato e não vale nem um pouco mais caro que as outras”. Em certos momentos, ela tinha, em sua filha, uma inimiga de classe (ERNAUX, 2007, p. 25-26).[20]

Para além da esfera socioeconômica, mesmo que de forma indissociável dessa, a incompatibilidade crescente entre mãe e filha se alicerçou, sobretudo, em um abismo intelectual, emergido do padrão de comportamentos burgueses ao qual a narradora foi exposta:

[…] E descobria que, entre o desejo de se cultivar e o fato ser culto, havia um abismo. Minha mãe precisava do dicionário para dizer quem era Van Gogh. Os grandes escritores, ela só conhecia de nome. Ela ignorava o funcionamento dos meus estudos (ERNAUX, 2007, p. 25).[21]

A condição de classe será uma questão igualmente explorada em Uma morte muito suave, sendo sucedida de sua ligação à condição matrimonial, que pressupunha, para as mulheres, a submissão. A propósito de Françoise de Beauvoir, vale mencionar sua condição burguesa de nascimento, afetada pela falência da qual seu pai foi vítima. Então casada, seu padrão econômico é afetado por uma nova mudança. A figura materna aqui retratada se encontrará diante das exigências patriarcais em relação ao comportamento feminino, submetendo-se consequentemente aos serviços domésticos. Isso, contudo, não se dará sem sombras de uma coerção compulsória:

Quando a situação de papai mudou e conhecemos uma semipobreza, mamãe decidiu manter a casa sem ajuda. Infelizmente, as tarefas domésticas eram-lhe enfadonhas e, entregando-se a elas, pensava estar se rebaixando. Era capaz de se esquecer, sem esperar recompensa para si, pelo amor a meu pai, a nós. Mas ninguém pode dizer “eu me sacrifico” sem experimentar certo azedume. Uma das contradições de mamãe é que acreditava na grandeza da dedicação e, entretanto, tinha gostos, repugnâncias, desejos imperiosos demais para não detestar aquilo que a molestava. E insurgia-se constantemente contra as obrigações e privações que ela própria se impunha. (BEAUVOIR, 2020, p. 31).

De mesma maneira, os anos de jovem-adulta da narradora são retratados de forma a rememorar as discordâncias entre a narradora e sua mãe. É o que notamos no excerto seguinte:

A “mamãezinha querida” dos meus dez anos já não se distingue da mulher hostil que oprimiu minha adolescência; chorei as duas ao chorar pela minha velha mãe. […] Não estava em meu poder apagar os infortúnios da infância que condenavam mamãe a tornar-me infeliz e a sofrer por minha vez. Pois se ela envenenou vários anos de minha vida, sem lhe ter dado remédio, eu paguei-lhe na mesma moeda. Ela atormentou-se por minha alma. Neste mundo, ela estava contente com meus êxitos, mas terrivelmente afetada pelo escândalo que eu suscitava em seu meio. Não lhe era agradável ouvir um primo declarar: “Simone é a vergonha da família.” (BEAUVOIR, 2020, p. 87).

No decurso das duas narrativas, as problemáticas sociais que circundam as personagens foram retratadas de maneira manifesta: a figura materna ernausiana é construída em seu contexto proletário; a figura beauvoiriana, em sua estrita formação burguesa e em sua condição de submissão resultada do casamento. É também assim que se institui a relação que as mães estabelecem com a erudição de suas filhas. As protagonistas são, afinal, escritoras cujas formações se deram no espaço universitário e que se mantiveram em constante contato com a ciência produzida nesse ambiente. É assim que, nos testemunhos de Ernaux e Beauvoir, constata-se, na esfera intrínseca das figuras maternas, a gênese de uma opressão interior: a intelectual. Deparamo-nos, assim, com a representação de duas mães que, mesmo contentes por testemunhar o sucesso de suas filhas no âmbito acadêmico e literário, tinham a consciência de que não compartilhavam tal conhecimento e que, devido a isso, poderiam ser julgadas ou desprezadas – seja por suas filhas, ou pelo meio social do qual elas, por intermédio da educação que receberam e do que com ela empreenderam, faziam parte. Esse complexo é abordado por Beauvoir no seguinte excerto:

Eu sempre intimidara um pouco mamãe, por causa da admiração intelectual que ela nutria por mim […] Frequentemente chocada pelo conteúdo dos meus livros, envaidecia-a o seu sucesso. Mas pela autoridade que o êxito me conferia a seus olhos, ele agravava seu embaraço, seu mal-estar. Por mais que eu evitasse toda e qualquer discussão — ou talvez precisamente porque as evitava —, mamãe pensava que eu estava julgando-a […] Ao cabo de cinco minutos, a partida estava perdida: tínhamos tão poucos interesses em comum! Folheei seus livros: não líamos os mesmos. Fazia-a falar, escutava, comentava. Mas, porque era minha mãe, suas frases desagradáveis me desagradavam mais do que se tivessem saído de uma outra boca. E ficava tão crispada quanto aos vinte anos, quando ela tentava — com sua habitual inépcia — estabelecer intimidade: “Sei que não me acha inteligente. Mas, em todo o caso, foi de mim que você recebeu essa sua vitalidade, e isso me dá prazer (BEAUVOIR, 2020, p. 57-59).

E por Ernaux:

Em relação a esse mundo [intelectual], minha mãe se manteve dividida entre a admiração que a boa educação, a elegância e a cultura lhe inspiravam, o orgulho de ver sua filha fazer parte de tudo isso, e o medo de ser desprezada, sob a aparência de uma excelente cortesia. Toda medida de seu sentimento de indignidade, indignidade da qual ela não me dissociava (talvez seria necessária uma outra geração para apagá-la), está nessa frase que ela me disse na véspera do meu casamento: “cuide de manter a casa, vai que ele te manda de volta!”. E, falando da minha sogra, há alguns anos: “vemos que é uma mulher que não foi criada como nós!” (ERNAUX, 2007, p. 28).[22]

Os conflitos então retratados pelas narradoras não se darão unicamente na esfera ideológica. Esses conflitos, internos e introspectivos, provindos das relações familiares e das complexidades sociais que circundam as narradoras, não se limitam à esfera psicológica e intelectual. O corpo, esfera física da existência, surge como igual fonte alavancadora de reflexões introspectivas que remetem à condição e ao imaginário do corpo materno desde a infância. As mães, então acometidas por doenças de porte físico, em Beauvoir, e psicológico, em Ernaux, estabelecerão comportamentos diferenciados daqueles que realizavam quando estavam em plena saúde e sanidade.

Em Uma morte muito suave, essa reflexão é despertada quando, privada de sua independência física, entregue aos cuidados médicos, Françoise de Beauvoir deixa aparecer seu sexo. Esse acontecimento suscita, na narradora, uma digressão introspectiva acerca de sua relação com o sexo de sua mãe:

A fisioterapeuta aproximou-se da cama, afastou o lençol e apoderou-se da perna esquerda de mamãe: a camisola aberta revelava com indiferença seu ventre flácido, recoberto de minúsculas rugas, e o púbis glabro. “Já não tenho pudor nenhum”, disse ela num tom surpreendido […] Ver o sexo de minha mãe: isso me chocara. Para mim, não havia corpo que existisse menos do que o dela; mais ainda, não existia. Criança, amara-o; adolescente, inspirara-me uma repulsa inquieta, isso é clássico, e achava normal que tivesse conservado esse duplo caráter, repugnante e sagrado: um tabu. Mesmo assim, surpreendia-me com a violência de meu desagrado. O consentimento despreocupado de minha mãe agravava-o; ela renunciara às interdições, às ordens que a haviam oprimido durante a vida inteira; e não podia deixar de aprová-la. Só que esse corpo, subitamente reduzido por essa renúncia a não ser mais do que um corpo, já não diferia muito de um despojo: pobre carcaça sem defesa, apalpada, manipulada por mãos profissionais, onde a vida parecia prolongar-se apenas por uma inércia estúpida (BEAUVOIR, 2020, p. 19).

Semelhante evento permeia a prosa de Ernaux:

Numa noite de abril, ela já dormia, às seis horas e meia, deitada em cima dos lençóis, de camisola; as pernas levantadas, mostrando seu sexo. Estava muito quente naquele quarto. Comecei a chorar porque era minha mãe, a mesma mulher da minha infância (ERNAUX, 2007, p. 39).[23]

Na narrativa de Beauvoir, a figura materna é representada em situação de plena vulnerabilidade. Uma vez que sua mãe – alguém que, ao curso de sua vivência, conservou e propagou os valores cristãos e que prezou a moral patriarcal acerca da conduta feminina – renega a importância da prudência e do recato diante dos outros, o episódio serve de parâmetro da sujeição de Françoise de Beauvoir à medicina, que, naquele momento, intermedia sua ligação à vida. Em Une femme, a perda do pudor se comporta de forma a projetar a evolução da condição mental na qual a figura materna se encontra. Acometida da demência, psicopatologia ocasionada em decorrência do mal de Alzheimer com o qual havia sido diagnosticada, a mãe representada por Ernaux se situa numa configuração inconstante quanto às suas habilidades mentais. Seu discernimento face às situações sociais estão afetados, e suas expressões pessoais – pensamentos, julgamentos, ações –, comprometidas.

Podemos, ainda, evidenciar uma constante nas condutas adotadas perante os acontecimentos: o apelo à infância. Esse mecanismo de reação pode ser analisado ao considerarmos o contraste concebido entre duas representações construídas em torno da figura materna. A primeira, retirada de lembranças passadas provindas da infância, evoca a mãe em condição saudável, jovem, contrastando, assim, com sua condição no tempo presente da narrativa. Essa última, por sua vez, pode ser descrita por características antônimas às da primeira, uma vez que se encontra doente, idosa, dependente. Assim, as reações diante do incidente se manifestam em decorrência da comparação subconsciente que fazem as narradoras entre as duas imagens de suas mães. A mulher em plena saúde, rememorada tal qual se apresenta no imaginário da infância, não mais condiz com a mulher enferma que sobrevive nos momentos antecessores a seu falecimento. A perda da mãe se dá, dessa forma, antes da morte e através de um processo de definhamento gradual.

Enquanto filhas, as narradoras testemunham a degradação física e mental de suas genitoras que, irreversivelmente acometidas por suas circunstâncias patológicas, assistem a uma inevitável dissolução do Eu – para as mães, seus valores e princípios, suas crenças e convicções não mais ocupam a posição de importância que outrora ocuparam. Assim, a percepção do corpo, por parte das mães, se manifesta como esfera da existência desatrelada da consciência social e moral. Tendo ele se tornado um elemento físico com o qual se lida com indiferença, em decorrência das doenças das quais sofrem, a relação que travam com seu corpo acarretou a perda do pudor. Essa perda se manifesta como presságio de um esvaziamento iminente – isso é, de uma prova concreta de que aqueles seres, então em vida, aproximam-se da morte.

Vale considerar, de igual forma, que os projetos literários das narradoras se fundam no testemunho de uma vida permeada pela existência da figura materna. Observamos, assim, a partir do campo de inexistência ao qual o eu materno se destina, que, diante de uma perda irredutivelmente sentimental, o eu-narrativo se encontra transtornado, e o texto literário se torna um espaço de expressão de um Eu que, face à perda do “ela”, intenta tecer uma reconstrução testemunhal de ambas as entidades.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Conforme assinala Denis Labouret (2018), as manifestações literárias do século XX, múltiplas em suas expressões, encontraram na escrita de si o subterfúgio para construir um eu-sujeito que, irreversivelmente dissociado, se encontra diante da necessidade de completar o vazio de uma literatura que se fazia palco dos transtornos políticos, sociais e econômicos de uma época. Essa literatura, consciente da insuficiência da razão humana, reivindicava o texto enquanto espaço para o embate e o debate de ideias. No leque de suas materialidades, encontrava-se o Eu, em seu estado indefinível e necessitado de expor as sequelas morais, psicológicas, éticas e físicas às quais foi subjugado enquanto integrante de uma sociedade posterior a duas guerras que descortinaram os horrores da tão investigada condição humana.

Ambas as narrativas analisadas no estudo que traçamos estabelecem um ponto de contato configurado pela necessidade de uma expressão que se traduz pela intersecção, possibilitada pela reflexão sociológica e filosófica, entre a consciência crítica da vivência humana e a literatura, em todo seu poder de alcance e possibilidades. Essas expressões, notadamente transpassadas pela escrita do luto, ultrapassam o âmbito pessoal, revelando-se verdadeiros testemunhos de suas respectivas épocas.

REFERÊNCIAS

BAKHTIN, Mikhail. Teoria do romance III: O romance como gênero literário. São Paulo: Editora34, 2018.

BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

BEAUVOIR, Simone de. Mémoires. Paris: Éditions Gallimard, 2018.

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. 2v.

BEAUVOIR, Simone de. Uma morte muito suave. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2020. Recurso eletrônico.

Entrevista de Annie Ernaux. [jan.1994]. Entrevistador: Brigitte Aubonnet. Disponível em: http://www.encres-vagabondes.com/rencontre/ernaux.htm. Acesso em: 23 set. 2021.

ERNAUX, Annie. Une femme. Paris: Éditions Gallimard, 2007. Recurso eletrônico.

ERNAUX, Annie. Bourdieu: le chagrin. Le Monde, [s.l.], 2002. Disponível em: http://www.homme-moderne.org/societe/socio/bourdieu/mort/aernau.html. Acesso em: 04 out. 2021.

ERNAUX, Annie; JEANNET, Pierre-Yves. L’écriture comme un couteau: Entretien avec Pierre-Yves Jeannet. Paris: Éditions Stock, 2003. Recurso eletrônico.

FAEDRICH, Anna. Autoficções: do conceito teórico à prática na literatura brasileira contemporânea. 2014. Tese (doutorado em Letras) – Curso de pós-graduação em Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2014.

JEANNELLE, Jean-Louis. Écrire ses mémoires au XXème siècle: Déclin et renouveau. Paris: Éditions Gallimard, 2008. Recurso eletrônico.

LABOURET, Denis. Histoire de la littérature française des XXème et XXIème siècles. Paris: Armand Colin, 2018.

LEJEUNE, Philippe. Le pacte autobiographique. Paris: Seuil, 1996.

Les mémoires de Simone de Beauvoir. Locução de: Adèle Van Reeth. Entrevistados: Jean-Louis Jeannelle. Paris: France Culture, 18 de maio de 2018. Emissão de rádio. Série Les chemins de la philosophie. Disponível em: https://www.franceculture.fr/emissions/les-chemins-de-la-philosophie/les-memoires-de-simone-de-beauvoir. Acesso em: 25 set. 2021.

MÉNISSIER, Patricia. Être mère. Paris: C.n.r.s Eds, 2016. Recurso eletrônico.

TIDD, Ursula. The Self-Other relation in Beauvoir’s ethics and autobiography. In: SIMONS, Margaret (org.). The philosophy of Simone de Beauvoir: critical essays. Indiana: Bloomington: Indiana University Press, 2006.

PONTES, Isadora de Araújo. Annie Ernaux, uma escritora trânsfuga de classe. Magma, [s. l.], v. 25, n. 14, p. 65-84, 2018. DOI: 10.11606/issn.2448-1769.mag.2018.154405. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/magma/article/view/154405. Acesso em: 15 jan. 2022.

VIART, Dominique. Annie Ernaux, historicité d’une oeuvre. In: BEST, Francine; BLANCKEMAN, Bruno; PORTES-DUGAST, Francine. Annie Ernaux: Le Temps et la Mémoire. Cesiry: Éditions Stock, 2014. p. 24-48.

 


 

Notas:

[1] “Homem livre, tu sempre prezarás o mar!/O mar é teu espelho; tu contemplas tua alma/No desenrolar infinito de sua lâmina/E teu espírito não é um abismo menos amargo//Tu gostas de mergulhar no seio de sua imagem/Tu a beijas com olhos e braços, e teu coração/se distrai, às vezes, de seu próprio barulho/Ao som desse monocórdio indomável e selvagem//Vocês dois são tenebrosos e discretos/Homem, ninguém sondou o fundo dos teus abismos;/Ó, mar, ninguém conhece tuas riquezas íntimas/Pois sois, os dois, ciosos de guardar seus segredos!//E, no entanto, eis aqui séculos inumeráveis/Que vocês se combatem sem piedade ou remorso/Tanto que amam a carnificina e a morte/Ó lutadores eternos, ó irmãos implacáveis!” (BAUDELAIRE, 2019, p. 66, tradução nossa).

[2]Il faudra attendre la Première Guerre mondiale, au moment où s’impose l’image de la force maternelle, pour qu’elles accèdent au rang de protagonistes à part entière, consacrés par une inscription dans le titre (Génitrix en 1923, Sido en 1929 par exemple). Les critères de définition du personnage reposent, quant à eux, quasi exclusivement sur la prise en compte de son milieu social qui définit sa relation à la maternité et à l’enfant, dans une tension entre un amour prodigue et une difficulté à établir une relation explicitement fondée sur l’affection” (MÉNISSIER, 2016, p. 32).

[3] Todas as citações provenientes de Une femme foram traduzidas por nós.

[4] « Le “je” que j’emploie est une sorte de lieu traversé par des expériences très peu particulières, banales même (la mort, l’inégalité sociale et culturelle, la passion, les transports en commun). Ce n’est pas un “je” intérieur, introspectif, plutôt un “je” miroir, passé au crible de l’analyse socio-historique, par exemple dans La place et Une femme, ou Les armoires vides. » (Entrevista de Annie Ernaux. [jan.1994]. Entrevistador: Brigitte Aubonnet.)

[5]Cela me reste un mystère et une tristesse que l’œuvre de Bourdieu, synonyme pour moi de libération et de “raisons d’agir” dans le monde, ait pu être perçue comme une soumission aux déterminismes sociaux. Il m’a toujours semblé au contraire que, mettant au jour les mécanismes cachés de la reproduction sociale, en objectivant les croyances et processus de domination intériorisés par les individus à leur insu, la sociologie critique de Bourdieu défatalise l’existence. En analysant les conditions de production des œuvres littéraires et artistiques, les champs de luttes dans lesquelles elles surgissent, Bourdieu ne détruit pas l’art, ne le réduit pas, il le désacralise simplement, il en fait ce qui est beaucoup mieux qu’une religion, une activité humaine complexe. Et les textes de Bourdieu ont été pour moi un encouragement à persévérer dans mon entreprise d’écriture, à dire, entre autres, ce qu’il nommait le refoulé social.” (ERNAUX, 2002).

[6] Uma análise mais atenciosa da influência da obra de Pierre Bourdieu sobre os escritos literários de Annie Ernaux foi desenvolvida por Isadora de Araújo Pontes, no artigo intitulado Annie Ernaux, uma escrita trânsfuga de classes. (PONTES, 2018).

[7] « L’adhésion d’Annie Ernaux aux réflexions de Bourdieu, et plus lointainement aux théories de Marx, autoriserait sans doute une telle approche: L’oeuvre ne serait alors qu’un reflet, ou une conséquence, d’un certain nombre de réalités socio-économiques. » (VIART, 2014, p. 25).

[8] « Ceci n’est pas une biographie, ni un roman naturellement, peut-être quelque chose entre la littérature, la sociologie et l’histoire. » (ERNAUX, 2007, p. 41).

[9] « Ce que j’espère écrire de plus juste se situe sans doute à la jointure du familial et du social, du mythe et de l’histoire. Mon projet est de nature littéraire, puisqu’il s’agit de chercher une vérité sur ma mère qui ne peut être atteinte que par des mots. (C’est-à-dire que ni les photos, ni mes souvenirs, ni les témoignages de la famille ne peuvent me donner cette vérité.) Mais je souhaite rester, d’une certaine façon, au-dessous de la littérature. » (ERNAUX, 2007, p. 10).

[10] « Enfin le « je » du texte et le nom inscrit sur la couverture du livre renvoient à la même personne. Bref, des récits dans lesquels tout ce qu’on pourrait vérifier par une enquête policière, ou biographique […] se révélerait exact. Mais ce terme de « récit autobiographique » ne me satisfait pas, parce qu’il est insuffisant. Il souligne un aspect certes fondamental, une posture d’écriture et de lecture radicalement opposée à celle du romancier, mais il ne dit rien sur la visée du texte, sa construction. Plus grave, il impose une image réductrice : « l’auteur parle de lui. » Or, La place, Une femme, La honte et en partie L’événement, sont moins autobiographiques que auto-socio-biographiques. » […] (ERNAUX; JEANNET, 2003, p. 17).

[11] « C’est une entreprise difficile. Pour moi, ma mère n’a pas d’histoire. Elle a toujours été là. Mon premier mouvement, en parlant d’elle, c’est de la fixer dans des images sans notion de temps : « elle était violente », « c’était une femme qui brûlait tout », et d’évoquer en désordre des scènes, où elle apparaît. Je ne retrouve ainsi que la femme de mon imaginaire, la même que, depuis quelques jours, dans mes rêves, je vois à nouveau vivante, sans âge précis, dans une atmosphère de tension semblable à celle des films d’angoisse. Je voudrais saisir aussi la femme qui a existé en dehors de moi, la femme réelle, née dans le quartier rural d’une petite ville de Normandie et morte dans le service de gériatrie d’un hôpital de la région parisienne. » (ERNAUX, 2007, p. 21).

[12] « J’essaie de ne pas considérer la violence, les débordements de tendresse, les reproches de ma mère comme seulement des traits personnels de caractère, mais de les situer aussi dans son histoire et sa condition sociale. Cette façon d’écrire, qui me semble aller dans le sens de la vérité, m’aide à sortir de la solitude et de l’obscurité du souvenir individuel, par la découverte d’une signification plus générale. Mais je sens que quelque chose en moi résiste, voudrait conserver de ma mère des images purement affectives, chaleur ou larmes, sans leur donner de sens. » (ERNAUX, 2007, p. 21).

[13] « L’écriture mémoriale [beauvoirienne] n’y occupe pas, de ce fait, la traditionnelle fonction de bilan de vie, consigné au seuil de la mort et destiné à livrer à la postérité l’écho d’une voix d’outre-tombe; elle participe, au contraire, de différentes pratiques d’autoconsignation. » (JEANNELLE, 2008, p. 181).

[14] Tradução livre das declarações de Simone de Beauvoir em Les mémoires de Simone de Beauvoir. Locução de: Adèle Van Reeth. Entrevistados: Jean-Louis Jeannelle. Paris: France Culture, 18 de maio de 2018. Emissão de rádio. Série Les chemins de la philosophie.

[15] “The ethical parameters of the Self-Other relation were a source of philosophical concern to Simone de Beauvoir from the beginning of her career. All of her literary and philosophical writing can be described as marked by a concern to map an ethical relation with the Other” (TIDD, 2006, p. 228).

[16] “Self-Other relations are described in The Ethics of Ambiguity as constituting, reciprocally, the facticity of my situation, or the given features of my existence in the world that I have not chosen. This signifies that, for Beauvoir, the Other assumes the same importance for me as other elements of my facticity, such as my past, the specific circumstances of my birth, and my body. I did not choose these features of my existence and cannot choose to exist without them, although I can choose how to live them. If we want to live authentically, we cannot use the Other or retreat to collective identity as a means to avoid the burden of individual responsibility for our existence” (TIDD, 2006, p. 231).

[17] Conforme as declarações de Jean-Louis Jeannelle em Les mémoires de Simone de Beauvoir. Locução de: Adèle Van Reeth. Entrevistados: Jean-Louis Jeannelle. Paris: France Culture, 18 de maio de 2018. Emissão de rádio. Série Les chemins de la philosophie.

[18] « Son désir le plus profond était de me donner tout ce qu’elle n’avait pas eu. » (ERNAUX, 2007, p. 20).

[19] « Elle m’offrait des jouets et des livres à la moindre occasion, fête, maladie, sortie en ville. Elle me conduisait chez le dentiste, le spécialiste des bronches, elle veillait à m’acheter de bonnes chaussures, des vêtements chauds, toutes les fournitures scolaires réclamées par la maîtresse (elle m’avait mise au pensionnat, non à l’école communale). » (ERNAUX, 2007, p. 20).

[20] « Je me suis mise à mépriser les conventions sociales, les pratiques religieuses, l’argent. Je recopiais des poèmes de Rimbaud et de Prévert, je collais des photos de James Dean sur la couverture de mes cahiers, j’écoutais La mauvaise réputation de Brassens, je m’ennuyais. Je vivais ma révolte adolescente sur le mode romantique comme si mes parents avaient été des bourgeois. Je m’identifiais aux artistes incompris. Pour ma mère, se révolter n’avait eu qu’une seule signification, refuser la pauvreté, et qu’une seule forme, travailler, gagner de l’argent et devenir aussi bien que les autres. D’où ce reproche amer, que je ne comprenais pas plus qu’elle ne comprenait mon attitude : « Si on t’avait fichue en usine à douze ans, tu ne serais pas comme ça. Tu ne connais pas ton bonheur ». Et encore, souvent, cette réflexion de colère à mon égard : « Ça va au pensionnat et ça ne vaut pas plus cher que d’autres ». À certains moments, elle avait dans sa fille en face d’elle, une ennemie de classe. » (ERNAUX, 2007, p. 25-26).

[21] « Et je découvrais qu’entre le désir de se cultiver et le fait de l’être, il y avait un gouffre. Ma mère avait besoin du dictionnaire pour dire qui était Van Gogh, des grands écrivains, elle ne connaissait que le nom. Elle ignorait le fonctionnement de mes études. » (ERNAUX, 2007, p. 25).

[22] « À l’égard de ce monde, ma mère a été partagée entre l’admiration que la bonne éducation, l’élégance et la culture lui inspiraient, la fierté de voir sa fille en faire partie et la peur d’être, sous les dehors d’une exquise politesse, méprisée. Toute la mesure de son sentiment d’indignité, indignité dont elle ne me dissociait pas (peut-être fallait-il encore une génération pour l’effacer), dans cette phrase qu’elle m’a dite, la veille de mon mariage : « Tâche de bien tenir ton ménage, il ne faudrait pas qu’il te renvoie. » Et, parlant de ma belle-mère, il y a quelques années : « On voit bien que c’est une femme qui n’a pas été élevée comme nous. » » (ERNAUX, 2007, p. 28).

[23] « Un soir d’avril, elle dormait déjà, à six heures et demie, allongée par-dessus les draps, en combinaison ; les jambes relevées, montrant son sexe. Il faisait très chaud dans la chambre. Je me suis mise à pleurer parce que c’était ma mère, la même femme que celle de mon enfance » (ERNAUX, 2007, p. 39).

 


Nota dos editores: Este artigo foi simultaneamente publicado como capítulo do livro Mulher, identidade, discurso; visões plurais (2022, v.2), organizado pelas professoras Marcela Regina Vasconcelos da Silva Nascimento, Rosiane Maria Soares da Silva Xypas e Jaciara Gomes.