“O Crepúsculo Interior”, de Jackson de Figueiredo

Gabriel Esteves

O Crepúsculo Interior

Jackson de Figueiredo

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Apesar dos resultados formidáveis que bibliotecas, arquivos e hemerotecas por todo o mundo têm alcançado na disponibilização online de documentos raros, ainda há inúmeras publicações que continuam perdidas ou indisponíveis para consulta em plataformas digitais. O livro que a Mafuá traz hoje a público em sua seção de obras raras está (ou melhor, estava) neste caso: trata-se d’O Crepúsculo Interior, coletânea de versos publicada por Jackson de Figueiredo em 1918, autor que esteve no centro da guinada católica protagonizada, no início do século XX, por Alceu Amoroso Lima (Tristão de Ataíde), Gustavo Corção, Tasso da Silveira e outros tantos.

O Crepúsculo Interior é a compilação tardia dos poemas escritos por um Jackson de Figueiredo vacilante, irresoluto em sua crença, apenas recém-chegado ao Rio de Janeiro, e que não sonhava ainda com uma restauração católica, nem com a fundação de um Centro Dom Vital (muito embora aqui e ali, em quase todos os poemas, já se possa adivinhar uma simpatia pelo catolicismo); é, nas palavras do próprio poeta, “a fotografia fidelíssima da grande crise que me assoberbou desde os meus últimos dias no norte até o raiar do dia novo, a cuja luz vou vivendo” [1].

O leitor familiarizado com o estilo de um Mário Pederneiras, de um Nestor Vítor (a quem Jackson dedica a coletânea, aliás) ou de um certo Guilherme de Almeida não demorará a perceber que este livrinho recendendo a simbolismo é um rebento da poesia intimista no seio da belle époque carioca. Nas palavras de Nestor Vítor:

Quem souber ler essas laudas d’O Crepúsculo Interior vendo-as como produto de uma juvenilidade angustiada, e antes como páginas de confissão do que como vaidosas e hábeis exibições no que concerne ao jogo das imagens, ao embalo do ritmo e à sonoridade das rimas, há de reconhecer que elas são das mais curiosas e complexas documentações que uma alma de moço possa no momento presente oferecer-nos. Nenhum desses números será, admita-se, perfeitamente artístico, mas também nenhum deles é banal. E todos conjuntos nos falam de tal riqueza interior, de um temperamento tão complexo, de uma natureza tão cheia de abismos, porém em compensação tão cheia de píncaros, de um coração tão soluçante, mas ao mesmo tempo capaz de tão profundos sorrisos, que como prenúncios bastarão tais versos para revelar a quem bem os penetre que há em ti algo ainda não conhecido nos autores que até hoje tem dado o Brasil [2].

Por fim, vale dizer que, dando a conhecer este pequeno volume, a Mafuá pretende contribuir para a formação de um panorama completo da literatura produzida nas primeiras décadas do século XX, período que tem sido dos mais estudados em nossas histórias literárias, mas permanece absolutamente lacunar no que se refere à produção de autores estranhos ou mesmo hostis ao movimento modernista.

 


[1] FIGUEIREDO, Jackson de. O Crepúsculo Interior. Rio de Janeiro: Tipografia Revista dos Tribunais, 1918, p. 6.

[2] VÍTOR, Nestor. Cartas à gente nova. Rio de Janeiro: Edição do Anuário do Brasil, 1924, p. 62.