I.
Fatias de espírito d’accord. Paraísos artificiais na terra cercada. Com o silêncio, fazer memória fantasia e futuro. Colocar dentro das produções arbóreas de cidades descalças. Sempre o minuto do agora passado, um quase. No colo do útero da histeria socorrer os afogados da lama. Ponderar vida, pós-vida e o que virá. E Deus está contente quando choro. Eu na neblina de agosto, cinco da manhã. Estou ao pé de mim mesma. Meu tormento a menina que dança. Episódios lapsos temporais. Ter idade o suficiente pra lembrar. Castrações das ventanias. Minha cabeça um fato alucinógeno. Que é a verdade quando durmo?
II.
Imploro às sete da tarde o sono do futuro. Pisar no chão sentir o choque do mundo com a pele. Perfurar meu delírio bem arquitetado. Soluço na eternidade a figura de uma santa. Sei mentir aos bêbados que rezam. Sei construir uma fantasia para crianças dormirem. Semear as chuvas quando o sol não para de pingar. Não sei conduzir a memória para o destino. Nem sei colocar a prova meu tormento. Meu colapso meu furo, minha verdade meus turbilhões.
III.
A moça que ri em transe. Eu procurando o contágio como doença mansa que apazigua. E o tudo e o nada, o tudo e o nada, meu Deus, serem muita coisa. O sempre e o nunca. E meu ouvido tampado pra vida. E saber que vivo. E saber que amanhã sorrio e depois choro. E saber que sei e desavisada me engano. Desavisada extraviar-me em fantasia. Achar e acreditar, a esperança minha criança em tumultos. E amanhã sonho de novo. Cometas naves espaciais bichos alucinógenos árvores de feijão, gigantescas, princesas e camponesas numa única brincadeira. E isso é pouco pro que coloco nas figurações do mundo.
IV.
Suprimir o desejo em chamas. Minha pulsão questionável. A palavra do meu cérebro solta em danças fantasmagóricas. O espectro do corpo pra fora, correndo enquanto durmo. Didaticamente me engano. Didaticamente suportar a cabeça nos ombros. Os timbres como movimento do silêncio. Surpreender-me com minha própria mentira. Depois continuar em verborragias. Meus propósitos desavisados indo por outros caminhos. Pontas e lanças em direções contrárias. Eu parada na brincadeira. É pega-pega.
V.
Abrindo os braços, colocar em instantes as paixões e outras feras. Sem consentimento acreditar na minha própria fantasia. Depois, entre árvores cortadas, esperar o vento. Domino o dom das crianças aos 24 anos. Com uma menina brincando de roda, balançar o futuro em desejos. O que vais ser quando crescer? E respondo que tudo.
VI.
Como a brincadeira do café da manhã à hora do sono. No precipício a fórmula para a esperança. Olhar de longe o horizonte em cercas e torres. Com todos os sentidos atravessar as meninas e outros espíritos. Setembro está longe do final, ter tempo e faltar no fim da década.
VII.
Soletro o abecedário corretamente. Espero na esquina outras letras de cor. De um ponto ao outro olhar as fórmulas do passo, tempo e distâncias corretas. Raciocinar meu próximo ato como fenômeno importantíssimo. Subir as escadas ou ir de elevador. Descer no ponto A ou B. Obedecer as figuras ilustrativas dos livros, mas desprezar na minha vez.
VIII.
A minha mentira mais convincente que a verdade. Provisoriamente, sombrear a palavra. Sorrateiramente criar um paraíso. Artimanhas de felicidade em cabeças alucinadas. Abastecer esse espaço, quartos, ruas, universidades, palácios. Comportar-me em tudo. Depois, negando, aprender a falar, andar e qualquer outro sinônimo infantil. Manhattans em centro-leste. Paranoias em âmbitos que atingem. Abastecer, além de tudo, a esperança da criança que sonho. E depois aborrece-se em fantasia.
IX.
Soprar histórias, ficções, paradas, estalos da juventude, sorrir e morrer. Depois, entre os antigos pintar expressionismos abstratos. Em ateliês aconchegantes loucuras, delitos, uma pontada no sonho. Colocar dentro dos olhos o que não existe. Saber que quatro mais quatro são oito e não saber o que se somam.
X.
O mundo foi criado como criado, porque cria. Aturo até me saturar. Creio que criatura não sou. Mas creio em criaturas. Tenho poucas verdades para uso, subterfúgios da imaginação. Colocar à prova a fantasia e socorrer os afogados da lama. Crianças nos parques enquanto gritam ao destino, quero ser vidente. Abastecer a memória do futuro, pétalas, folhas do outono. Cometer o pecado idealista enquanto se chora nas varandas dos asfaltos. Acordar em sonhos. As meninas no amor, os meninos não sei onde. Os cometas da brincadeira em paraísos sobressaltam na cabeça. Mosteiros religiosos sabendo o fim do mundo que acabou ontem. Ser santa no precipício das palavras, caindo em lágrimas de Maria em dia de missa. Amanhã não é futuro. Os últimos segundos como mais longos. Ter o superpoder da verdade. Minha mente amor dos socorros de uma criança.