O papel dos elementos narrativos na construção do medo da personagem-criança em “O homem da areia”

Rute Lima Andrade, Tarcio Pereira Aragão

Resumo: O presente artigo tem como objetivo analisar o papel dos elementos narrativos na construção do medo sentido pela personagem-criança. Utilizamos para embasar nossa pesquisa conceitos de caracterização da personagem de ficção, principalmente os presentes nas obras de Carroll (1999) e Simões (2018), além de utilizar conceitos de topoanálise narrativa, especialmente os encontrados nos estudos de Borges Filho (2007). O universo de nossa pesquisa é o conto “O Homem da Areia” de E. T. A. Hoffmann que possui, no ponto de vista dos pesquisadores, um medo ficcional digno de análise. Concluímos que os conceitos analisados constroem, em conjunto, o medo sentido pela personagem-criança.

Palavras-Chave: Literatura fantástica; medo; caracterização; espacialização.

Abstract: This article aims to analyze the role of narrative elements in the construction of the child character’s fear. To support our research, we used concepts of characterization of fictional characters, mainly those present in the works of Carroll (1999) and Simões (2018), as well as using concepts of narrative topoanalysis, especially those found in the studies of Borges Filho (2007). The universe of our research is the short story The Sandman by E. T. A. Hoffmann which, in the researchers’ point of view, has a fictional fear worthy of analysis. We conclude that the concepts analyzed together construct the fear of the child character.

Keywords: Fantastic literature; fear; characterization; spatialization.

Introdução

“não tenho nada comigo
só o medo
e medo não é coisa que se diga”
(Luiz Olavo Fontes)

O objetivo deste artigo é analisar como o medo é construído na personagem-criança em “O Homem da Areia” (2010) por meio da composição dos antagonistas e da espacialização narrativa. Para atingir esse objetivo, é necessário perscrutar a composição da personagem antagonista na obra e analisar a espacialização da narrativa. Em primeiro lugar, o presente artigo trata do papel da narrativa em construir o sentimento de medo que a personagem-criança sente. Num segundo momento, estuda a composição da personagem antagonista e a espacialização narrativa como elementos fundamentais para a nossa análise literária. Procura-se, assim, evidenciar a importância dos elementos narrativos no corpo textual, para suscitar a acentuação do medo ligado ao acontecimento de terror.

“O Homem da Areia” é muito relevante para a história da literatura fantástica, apresentando elementos desse gênero por todo o conto. Um desses elementos, por exemplo, é a ambiguidade do mundo representado na história que, segundo Mauricio Mancilla Muñoz, faz “o leitor questionar deliberadamente se ele está enfrentando o mundo real ou não, uma sensação que desaparece durante a trama, pois o autor consegue mesclar o real e o fantástico” (Muñoz, 2023, p. 12).

Algumas obras literárias se concentram em escrever sobre a vida humana seguindo o seu potencial representativo, como teorizado por Aristóteles em Poética (2008), ao afirmar que o poeta representa ou imita ações. A arte, ao representar o homem, também acaba por retratar seus sentimentos, inclusive os negativos — esses sentimentos, como o medo, na literatura, compõem as chamadas poéticas negativas que,

de um ponto de vista focado em técnicas e procedimentos de composição literária, se consolidaram em modos de representar e expressar aspectos negativos da existência humana – as poéticas do medo; da repulsa; do horror; do terror; do grotesco; do melodramático; do trágico; do gótico; do sublime (França; Sena, 2020, p. 11).

Pesquisadores previamente se interessaram pelo medo na literatura. O escritor americano H. P. Lovecraft, no seu ensaio O Horror Sobrenatural em Literatura (2008), discorre sobre a história do horror literário e, consequentemente, sobre a representação do medo nos textos, afirmando que “a emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo” (Lovecraft, 2008, p. 13). Portanto, trataremos nesta pesquisa de uma espécie de subcategoria do medo na literatura, o medo sentido pela personagem-criança, que compreende quaisquer personagens de uma narrativa que estejam na infância. Superficialmente, o conto “O Homem da Areia”, do escritor alemão E. T. A. Hoffmann, trata do medo do protagonista-criança defronte à entidade chamada Homem da Areia. Compreende-se que cada narrativa constrói o medo de formas distintas. Entretanto, nessa obra, Hoffmann constrói o medo de forma particular — temos o medo sentido por uma personagem cuja vulnerabilidade é acentuada devido à sua tenra idade. Por essas razões, escolhemos este conto para análise.

“Se — pelo menos — você estivesse aqui, poderia ver com seus próprios olhos”

Em “O Homem da Areia”, acompanhamos a história de Natanael e seus encontros com o Homem da Areia — uma figura folclórica da tradição oral germânica que jogava punhados de areia nos olhos das crianças que se recusavam a dormir. Esta figura é associada por Natanael ao personagem Dr. Coppelius, homem que o agrediu e que, na perspectiva da criança, foi responsável pelo assassinato de seu pai. Durante a sua vida adulta, após encontrar-se com um vendedor de barômetros chamado Coppola, Natanael identifica naquela figura o Dr. Coppelius disfarçado, e todo o seu medo infantil retorna, levando-o a narrar os eventos de sua infância ao seu amigo, Lothar. Esse medo o leva à loucura, até o fim trágico do conto, no qual o protagonista, durante um surto desencadeado pela visão do Dr. Coppelius em uma multidão, cai do alto de um campanário e morre. Para compreender como o medo sentido por Natanael durante a infância foi construído, analisaremos a caracterização do personagem Homem da Areia/Dr. Coppelius e a espacialização da casa de Natanael.

Primeiramente, o conceito de personagem é altamente relevante para o decurso desta pesquisa, por concernir ao nosso objetivo analisar a construção do medo sentido pela personagem da trama em questão. Portanto, trazer as raízes deste conceito nos auxiliará a compreender a “pessoa da ficção” da devida forma. Citada anteriormente nesta pesquisa, a obra Poética (2008) de Aristóteles foi, por muito tempo, a principal referência que se tinha deste conceito dentro do ambiente crítico-literário. A personagem seria um reflexo da pessoa humana, assim como a literatura, para Aristóteles, é uma representação da vida.

Na obra A personagem de ficção, Antonio Candido e Anatol Rosenfeld (1970) tratam da personagem, e de sua caracterização, nas narrativas de ficção sob a ótica de três “problemas” ou características em que a literatura ficcional se situa: o ontológico, o lógico e o epistemológico. Ateremo-nos ao epistemológico, que diz respeito à personagem e sua composição narrativa. A Rosenfeld, a personagem é a que “com mais nitidez torna patente a ficção” (Candido et al, 1970, p. 14), ou seja, é principalmente a personagem que revela a ficcionalidade da obra.

[…] é geralmente com o surgir de um ser humano que se declara o caráter fictício (ou não-fictício) do texto, por resultar daí a totalidade de uma situação concreta em que o acréscimo de qualquer detalhe pode revelar a elaboração imaginária (Candido et al, 1970, p. 19-20).

A relação entre personagem e pessoa humana, imaginada inicialmente por Aristóteles, faz-se presente nos escritos de Rosenfeld para explicar a ficcionalidade de uma obra: ao acrescentar seres humanos ao texto fictício, tal ficcionalidade torna-se mais aplicada. O autor não nega, mas acrescenta à relação aristotélica de personagem-pessoa que a personagem é, não somente uma representação do humano, mas um mecanismo fundamental da ficção que a torna nitidamente uma ficção.

Observemos o nosso objeto de análise: a obra “O Homem da Areia”. O personagem principal da trama é Natanael, um rapaz humano que é retratado na história tanto durante sua infância, quanto durante sua vida adulta. Em confronto com o protagonista, há o antagonista da história: o Homem da Areia, um ser folclórico e imaginário, o qual Natanael relaciona, também, à figura de Dr. Coppelius, um ser humano. O antagonista opõe-se ao protagonista por questões advindas da história desta figura, que punha Natanael em situação de vulnerabilidade aos seus atos violentos.

E. M. Forster (1969), em sua obra Aspectos do romance, teoriza as formas de caracterização da personagem na narrativa: de um lado as personagens planas que, em suma, não possuem profundidade nem complexidade em sua composição, sendo divididas nos subgrupos “tipo” e “caricatura”, e, do outro, as personagens redondas, que apresentam profundidade e complexidade em sua composição. Natanael é um exemplo interessante de personagem “redonda”. Nós observamos que ele possui, sim, complexidade em sua construção. É um ser humano de personalidade inquieta, com preocupações, dilemas, medos e ideologias próprias. O Homem da Areia, em ambas as suas manifestações, segue a mesma configuração de Natanael, porém representando a figura antagônica do conto — nosso foco de análise.

Para observar como esta figura antagônica é caracterizada para provocar medo em Natanael, utilizaremos um ensaio sobre literatura fantástica de Maria João Simões, o A personagem nos mundos possíveis do insólito ficcional (2018). Ela propõe alguns procedimentos de caracterização em que a personagem se manifesta na narrativa; em nossa análise, levaremos em conta um desses procedimentos, o “procedimento por ambiguidade” (Simões, 2018, p. 55). Conceituando-o: “Ambiguidade: revela-se através de estratégias conhecidas, como a estratégia da indefinição categorial e a estratégia da duplicidade” (Simões, 2018, p. 61).

A indefinição categorial do Homem da Areia é um ponto de partida interessante, já que não se sabe com o que este ser folclórico se parece. Conseguimos imaginá-lo como um fantasma, “um caso típico da ambiguidade por indefinição categorial” (Simões, 2018, p. 62) ou um ser espiritual que, por vezes, “materializa-se” em um corpo — Coppelius —, em uma “aparição” (Simões, 2018, p. 62). A descrição de quando Coppelius não está mais no espaço é descrita como um desaparecimento entre a escuridão, ou entre a multidão: “[…] E Coppelius desapareceu na multidão” (Hoffmann, 2010, p. 20). Mesmo que sejam conhecidas as características de Coppelius, pouco sabemos do Homem da Areia do folclore germânico, o ser fantasmagórico e espiritual; Natanael concebe-o como Coppelius desde o ocorrido no gabinete de seu pai.

Porém, antes dessa situação de conflito, ele imagina o Homem da Areia como esse ser espiritual e/ou fantasmagórico. Simões diz que está aí o procedimento por ambiguidade, nesta “confusão entre espírito-corpo” (Simões, 2018, p. 62); tal procedimento, aplicado ao Homem da Areia, constrói o medo de Natanael.

Além disso, a estratégia da duplicidade para criar essa ambiguidade entre a figura do Coppelius e a do Homem da Areia pode ser observada no conto. A duplicidade assenta-se na “similitude e no simulacro da identificação, pondo em causa, precisamente, o processo identificador, o processo de individualização” (Simões, 2018, p. 64). Trata-se do caso de Natanael acreditar que o Homem da Areia e Coppelius são o mesmo ser, individualizando-os.

Quando o relógio batia às 9 horas da noite, Natanael passava a escutar ruídos como o bater violento da porta do gabinete de seu pai e os passos arrastados na escada, ruídos que o aterrorizavam e o remetiam àquele ser folclórico. Um dia decidiu esconder-se no gabinete de seu pai para ver diretamente quem era o tal Homem da Areia. Ao perceber que todo o barulho que escutava e relacionava diretamente ao Homem da Areia era, na verdade, realizado por uma figura conhecida pela família — o advogado e amigo de seu pai, Dr. Coppelius — Natanael conectou as duas figuras e tornou-as uma só. Vejamos:

Os passos ressoam cada vez mais próximo e escuto tosse, pigarro, estranho murmúrio. Meu coração bate com força, por causa da ansiedade e da espera. Bem perto da porta, um passo retumbante. A maçaneta gira com violência, as dobradiças rangem e a porta é aberta ruidosamente. Embora sentindo medo, ponho a cabeça de fora, com prudência. O Homem da Areia está no meio do gabinete defronte a papai, o clarão das velas ilumina seu rosto. O Homem da Areia, o terrível Homem da Areia, é o velho advogado Coppelius, que às vezes almoça conosco! (Hoffmann, 2010, p. 7).

A terrível figura que Natanael tanto imaginava e representava por meio de desenhos horríveis era, na verdade, o amigo da família, Dr. Coppelius. O advogado não era lá muito admirado — Natanael o descreve como repugnante. Estas figuras opostas ao protagonista da história são imaginadas, por ele, como uma só. O Coppelius tornou-se o Homem da Areia e vice-versa.

Entretanto, essa duplicidade é percebida pelo leitor e/ou analista, ainda que por grande parte do conto não seja percebida pelo personagem Natanael. A partir do momento em que ele enxerga o Homem da Areia como Coppelius, o ser folclórico/fantasmagórico é deixado de lado. Ao ter sua “identidade” descoberta, o antagonista se transforma, inclusive, na fala dos pais da criança, que também se encontram temerosos ao notar sua aproximação. Agora, o som dos passos não sinaliza mais a vinda da figura folclórica, mas sim a vinda de um ser humano, cuja existência é inquestionável — ao contrário do ser fantasmagórico — e cujos atos violentos traumatizaram Natanael:

Ao bater das nove horas, escutamos a porta da rua girar nos gonzos e passos lentos e pesados atravessarem o vestíbulo e subirem a escada.
– É Coppelius! – disse mamãe empalidecendo
– Sim. É Coppelius – confirmou papai com a voz embargada. Mamãe tinha lágrimas nos olhos (Hoffmann, 2010, p. 8).

Esta dualidade entre o ser físico e o ser da tradição oral germânica pode ser observada à luz dos escritos de Noel Carroll (1999), teórico e filósofo americano, que nos apresenta duas possibilidades de caracterização da personagem monstruosa: o “monstro fisicamente ameaçador” e o “monstro cognitivamente ameaçador”. Entendemos o Homem da Areia, primeiramente, como um monstro, segundamente, como uma combinação dessas duas caracterizações. Tal postulação descreve o monstro cognitivamente ameaçador, isto é, aquele monstro que desafia os “fundamentos do modo de pensar de uma cultura” (Carroll, 1999, p. 53). Vejamos a postulação, e em seguida, pensemos dentro do conto:

[…] Assim, os monstros não são apenas fisicamente ameaçadores, são cognitivamente ameaçadores. São ameaças ao saber comum. Sem dúvida, é em razão dessa ameaça cognitiva que não só os monstros horríficos são ditos impossíveis, mas também tendem a fazer com que os que os encontram fiquem loucos, doidos, transtornados etc., pois esses monstros são, em certo sentido, desafios aos fundamentos do modo de pensar de uma cultura (Carroll, 1999, p. 53).

O Homem da Areia, como descrito pela governanta da irmã de Natanael, após ser questionada pelo próprio,

[…] é um homem mau, que vem procurar as crianças que não querem ir para a cama. Joga punhados de areia em seus olhos, que tombam ensanguentados, e os apanha, os enfia numa bolsa, e os carrega para a lua para alimentar seus netinhos. Eles estão lá, empoleirados em seu ninho, com os bicos recurvados como o da coruja. E bicam os olhos das crianças que não são boazinhas (Hoffmann, 2010, p. 6).

Pela descrição da governanta, o Homem da Areia é caracterizado como essa “entidade” maléfica utilizada como forma de ameaça às crianças que não querem dormir.

A mulher quase não utiliza elementos de terror para caracterizar fisicamente o Homem da Areia, exceto em “[…] seus olhos, que tombam ensanguentados” (Hoffman, 2010, p. 6), cujo o sangue pode significar algo terrífico, mas isso diz respeito às ações as quais esta entidade realiza com as crianças, e não às suas características físicas. Natanael, tendo isso em mente, passa a temer o Homem da Areia ao nível de tornar-se irracional do ponto de vista das pessoas que moravam com ele. Observemos:

Desde então, a imagem do Homem da Areia ficou gravada em meu espírito com cores atrozes. À noite, era só ouvir o ruído de passos e eu tremia angustiado, com pavor. Mamãe só conseguia arrancar de mim um grito, misturado ao meu choro:
– O Homem da Areia! O Homem da Areia! (Hoffmann, 2010, p. 6).

Seguindo os conceitos de Carroll, a entidade do Homem da Areia, por ser tão inconcebível e cognitivamente ameaçadora para Natanael, passou a torná-lo um sujeito enlouquecido e transtornado por sua história. O rapaz não queria ter seus olhos arrancados por essa criatura má e que poderia vir até ele em qualquer noite inquieta. Essa vulnerabilidade do Natanael criança às ações maléficas do Homem da Areia deixou-o completamente paranoico. Portanto, a construção do medo sentido por Natanael é passível de ser concebida ao observar o Homem da Areia, em sua manifestação não-física, narrativamente caracterizado como este ser “cognitivamente ameaçador” (Carroll, 1999, p. 53); e em sua manifestação física, no corpo de Coppelius, narrativamente caracterizado como este ser “fisicamente ameaçador” (Carroll, 1999, p. 53).

Ambos os monstros causaram danos irreparáveis à imaginação de Natanael, influenciando bastante seu comportamento e afetando seu bem-estar físico e mental. A imagem, isto é, a caracterização desse ser “ficou gravada em seu espírito com cores atrozes” (Hoffmann, 2010, p. 6). Mesmo mais velho e ciente de que a história do Homem da Areia e de seus netinhos não era verdadeira, sentia medo da mesma forma, continuava “[…] apavorado, com horror e repugnância” (Hoffmann, 2010, p. 6), somente pela imaginação de que um dia, talvez, o Homem da Areia encontrasse com ele.

A situação de Natanael é complicada. Assim como Coppelius praguejou, o rapaz “soluçou durante todo o seu penar por este mundo” (Hoffmann, 2010, p. 8). Coppelius poupou os olhos do pequeno menino, mas condenou-o à uma vida de lamentação, paranoia e medo. A gota d’água destes sentimentos negativos se dá no dia da morte de seu pai, a qual Natanael acredita que foi ocasionada por Coppelius. Sua alma, inquietante e “dilacerada pelos infortúnios do Homem da Areia” (Hoffmann, 2010, p. 20), jamais teria sossego.

É notório que o conceito de personagem e o de sua composição na narrativa ocupam um grande espaço para discussão dentro do ambiente crítico-literário. Por conseguinte, a análise desses conceitos foi necessária para o desenvolvimento deste artigo; a construção do espaço que suscita o terror na protagonista pode ser compreendida com maior profundidade a partir de análises concentradas em reconhecer como o narrador/personagem atrela o sentimento de medo ao local que o cerca.

“O Homem da Areia está chegando, posso ouvir seus passos”

Primeiramente, o estudo da espacialização na literatura necessita de uma definição clara sobre seu objeto de estudo principal: o espaço. Porém, este termo contém uma problemática advinda da polissemia do termo; para evitá-la, utilizaremos o ponto de vista adotado por Ozíris Borges Filho (2007):

[…] Referimos conservar o conceito de espaço como um conceito amplo que abarcaria tudo o que está inscrito em uma obra literária como tamanho, forma, objetos e suas relações. Esse espaço seria composto de cenário, natureza e ambiente” (Borges Filho, 2007, p. 22).

O estudo topoanalítico seria, como cunhado por Gaston Bachelard, em A poética do espaço (1978), o estudo psicológico dos lugares relacionados à intimidade das pessoas. Borges Filho, porém, afirma que a topoanálise estudaria não somente os espaços íntimos, mas todos os espaços “em toda a sua riqueza, em toda a sua dinamicidade na obra literária” (Borges Filho, 2007, p. 33).

Faremos, portanto, uma topoanálise do espaço doméstico onde habitou na infância, já que nesse lugar foi construído o seu medo, através de um diálogo entre o espaço concreto e a dimensão psicológica da personagem-criança. O espaço da casa é geralmente descrito a partir das interações dos personagens naquele ambiente, conferindo-lhe um dinamismo. A narração de Natanael sobre o ocorrido na sua infância inicia-se da seguinte forma:

Fora da hora das refeições, quase não víamos papai, sempre muito ocupado com seu trabalho. Depois do jantar, servido às sete horas, à moda antiga, íamos com mamãe ao gabinete de papai e nos sentávamos em volta da mesa redonda (Hoffmann, 2010, p. 6).

Nesse trecho, temos a presença de dois lugares da casa: a sala de jantar, marcada pela rara presença do pai, e o gabinete do mesmo. Devido à abundância de elementos desse ambiente, precisamos segmentá-lo para o prosseguimento da topoanálise. Borges Filho (2007) propõe a segmentação do espaço em macroespaços e microespaços: macroespaços são os grandes espaços textuais, e microespaços, são os espaços menores que compõem esse macroespaço, podendo ser denominados de cenário ou natureza.

O macroespaço da obra durante o enredo da infância consiste na casa em que Natanael reside e os microespaços são os cômodos da casa, como o gabinete do seu pai, na qual as personagens da família sentavam “em volta da mesa redonda” (Hoffmann, 2010, p.6). Nota-se que, o microespaço do gabinete e os demais microespaços da história consistem em cenários, que são “os espaços criados pelo homem, os espaços onde o ser humano vive” (Filho, 2007, p. 47). A casa, portanto, é um cenário por excelência.

Osman Lins, em sua obra Lima Barreto e o Espaço Romanesco (1976), considera que a espacialização narrativa pode ocorrer de diversas formas, dividindo-a em tipos. A espacialização reflexa é a constituída pela percepção do espaço através da personagem sem intrusão direta do narrador, exceto se o narrador for também personagem; ela possui um efeito de subjetividade, já que nela a “personagem pensa ou fala sobre o espaço” (Borges Filho, 2007, p. 64). Essa espacialização, utilizada em “O Homem da Areia”, imprime marcas subjetivas às descrições espaciais relatadas pela personagem-criança: “Realmente, eu também escutava aquele passo lento, arrastado, subir os degraus. Era “O Homem da Areia”. Certa vez, o barulho me amedrontou demais” (Hoffman, 2010, p. 6).

A espacialização reflexa, por conter elementos relacionados ao sentimento do personagem, facilita a análise do papel desses elementos na construção do medo de Natanael. Ao buscar explicar como o medo que sentiu na infância foi construído, a personagem atribui uma importância aos elementos sensoriais, especialmente os visuais, de sua história: “Se — pelo menos — você estivesse aqui, poderia ver com seus próprios olhos” (Hoffmann, 2010, p. 6), diz a Lothar. Essa necessidade de Natanael de mostrar a terceiros o lugar que construiu o seu medo advém do reconhecimento de que esses elementos sensoriais compõem um cenário insólito e deformado, tornando-o difícil de compreender. Na obra Territórios da ficção fantástica, Rosalba Campra (2016) diz que as referências espaciais possuem um efeito particular em narrativas fantásticas, principalmente aquelas que

criam um efeito de realidade graças ao que remetem — ou melhor, fingem remeter — ao universo extratextual. Indubitavelmente, o texto fantástico explora com uma pertinácia muito particular este tipo de procedimento, como uma forma primária de convalidação do universo em que a transgressão se realiza (Campra, 2016, p. 78).

Sendo assim, para analisarmos esse espaço, conforme escrito por Luis Alberto Brandão Santos, precisamos nos perguntar “em que medida, na operação representativa — e mantendo-se o horizonte de reconhecimento — os espaços extratextuais podem ser transfigurados, reordenados, transgredidos” (Santos, 2007, p. 214). O espaço da casa de Natanael não é somente uma representação fidedigna de uma casa extratextual, ele é um espaço transgredido e reordenado de forma que se contrapõe à racionalidade devido aos seus elementos insólitos e, por isso, constrói o medo da personagem-criança.

A espacialização do conto enfatiza que essa casa (que possui um correspondente extralinguístico) aparece transfigurada na história, transfiguração esta que pode ser percebida quando o protagonista vê, no ambiente do gabinete de seu pai, “rostos humanos sem olhos” (Hoffmann, 2010, p. 8). Como o medo de Natanael se origina de elementos sensoriais sobre o espaço e sobre as pessoas que se encontram nesse espaço, ocorre, a partir da descrição desses elementos espaciais, uma tentativa de Natanael mostrar que o seu medo possui um motivo além do psicológico: ele também seria embasado em elementos concretos, empíricos e racionais.

Esse caráter transgressor da casa de Natanael configura-a como uma representante do arquétipo do lugar ruim — um espaço, geralmente uma casa, que é um ambiente negativo dentro de uma história. Para Stephen King (2012, p. 271), o efeito de medo provocado pela imagem da casa como um lugar ruim advém do fato de que “a sua casa é o lugar onde se espera que você possa tirar a sua armadura e colocar de lado seu escudo. Nossa casa é o lugar onde nos permitimos a maior das vulnerabilidades”.

Um dos elementos responsáveis pela construção do medo de Natanael é, justamente, a violação da ideia da casa como um lugar seguro a partir da chegada do Homem da Areia no ambiente doméstico. A partir dessa violação, podemos considerar a casa de Natanael uma “paisagem do medo”, termo cunhado pelo geógrafo americano Yi-Fu Tuan. Para explicar o termo, Tuan escreve:

O que são paisagens do medo? São as quase infinitas manifestações das forças do caos, naturais e humanas. Sendo as forças que produzem caos onipresentes, as tentativas humanas para controlá-las são também onipresentes. De certa forma, toda construção humana — mental ou material — é um componente na paisagem do medo, porque existe para controlar o caos (Tuan, 2005, p. 4).

As forças do caos podem ser interpretadas como os elementos violadores da segurança proposta pela construção humana da casa: a presença do Homem da Areia e suas diversas manifestações sensoriais. A análise dos elementos sensoriais do espaço narrativo é de suma importância, já que o personagem vivencia a sua casa através de diversos sentidos, não somente através da visão. Sobre o assunto, Lins (1976) afirma que

não se deve o estudioso do espaço, na obra e ficção, ater-se apenas à sua visualidade, mas observar em que proporção os demais sentidos interferem. Quaisquer que sejam os seus limites, um lugar tende a adquirir em nosso espírito mais corpo na medida em que evoca sensações (Lins, 1976, p. 92).

Os sons advindos da escada e do corredor na história corroboram para a construção do medo sentido por Natanael. Percebemos isso, por exemplo, no trecho a seguir:

Às nove horas em ponto [a mãe] nos dizia:
– Vamos para a cama, crianças. O Homem da Areia está chegando, posso ouvir seus passos.
Realmente, eu também escutava aquele passo lento, arrastado, subir os degraus. Era o Homem da Areia. Certa vez, o barulho me amedrontou demais (Hoffmann, 2010, p. 6).

Segundo Roland Barthes, em sua obra O óbvio e o obtuso: Ensaios críticos III (1990), mídias de terror tendem a ter como elemento constitutivo da narrativa a escuta do som incomum. Este som perturba o conforto sonoro do morador, invadindo uma segurança pré-estabelecida atrelada à capacidade do morador de reconhecer os sons familiares do ambiente doméstico: “A escuta tem como parceiro essencial o insólito, isto é, o perigo ou a salvação” (Barthes, 1990, p. 219).

A chegada do personagem insólito nas escadas e no corredor, portanto, é marcada pela sonoridade de seus passos nos degraus, representando uma oposição em relação ao tema mais recorrente no conto: os olhos. A personagem que supostamente arranca os olhos das crianças, ao adentrar no território da família de Natanael, inicialmente não é vista, apenas escutada pela personagem-criança amedrontada: “À noite, era só ouvir o ruído de passos e eu tremia angustiado, com pavor” (Hoffman, 2010, p. 6).

A possibilidade de Natanael reconhecer o estranho no ambiente em que vive vem, precisamente, do fato de que ele o conhece muito bem. Os sons do espaço em que ele reside são reconhecidos pelo habitante, construindo uma “sinfonia doméstica” (Barthes, 1990, p. 218), produzindo o efeito de um espaço de segurança mediante o reconhecimento, por parte do habitante, de estímulos sonoros familiares. Ele reconhece os sons que a casa tipicamente faz durante à noite a ponto de conseguir discernir passos estranhos subindo os degraus da escada. Dessa forma, os sons desconhecidos dessa sinfonia doméstica são responsáveis por uma sensação de desconfiança e medo, que é consequência, em certo momento, da ação de escutar o “passo lento, arrastado” do Homem da Areia subindo as escadas.

O medo advindo do estranho espacial, de acordo com Tuan (2005), é construído na criança e aumenta à medida que a mesma passa a compreender mais o ambiente na qual vive e para de ser fundamentada em elementos objetivos do espaço — a dimensão imaginativa do espaço do medo acaba por reforçá-lo, independente de traços espaciais concretos, como o que ocorre no conto.

Percebemos que na história ocorre uma disrupção do conceito da segurança da casa, uma fronteira transpassada: a casa é invadida por elementos sonoros: “Ao bater das nove horas, escutamos a porta da rua girar nos gonzos e passos lentos e pesados atravessarem o vestíbulo e subirem a escada” (Hoffmann, 2010, p. 7). O quarto também é invadido, mas, dessa vez, ele é invadido por estímulos sonoros e olfativos: “Lá de meu quarto o ouvia entrar no gabinete de papai, e, em seguida, tinha a impressão de que um vapor diáfano, um cheiro estranho, se espalhava pela casa” (Hoffmann, 2010, p. 7). Percebe-se, também, que o espaço da casa é invadido pela figura da tradição oral germânica mesmo quando ela não está lá, se tornando uma personagem onipresente naquele espaço, pois Natanael retratava o Homem da Areia “[…] por meio de desenhos horríveis, estranhos, nas mesas, nos armários, nos muros, com giz ou carvão” (Hoffmann, 2010, p. 7).

É importante ressaltar que, no fim do relato da infância, Natanael encontra-se no ambiente do quarto sozinho: “Quando fiz dez anos, mamãe me tirou do quarto das crianças e me cedeu um quarto pequeno” (Hoffmann, 2010, p. 7). O fato de estar sozinho naquele ambiente enquanto espera e escuta o Dr. Coppelius chegar na sua casa acaba por ser um dos elementos que constrói o seu medo. De acordo com Tuan, “sozinhas, [as crianças] sentem-se vulneráveis. O mundo parece um lugar perigoso, repleto de ruídos e movimentos” (Tuan, 2005, p. 14). O quarto da personagem-criança também assume a função de separá-lo do resto da casa, criando uma dúvida se o protagonista está protegido ou se está sozinho.

O gabinete é um dos espaços mais importantes nesse segmento da obra. Nele, Natanael descobre a verdadeira identidade do Homem da Areia, e é também onde seu pai, futuramente, morrerá. Quando entra no gabinete, Natanael descreve o ambiente como sendo taciturno: seu pai encontra-se sentado, em silêncio, de costas para a porta. Natanael se esconde “atrás da cortina que dissimula um guarda-roupa, colocado bem perto da porta, onde papai pendura as vestimentas” (Hoffmann, 2010, p. 7). No momento anterior ao encontro de Natanael com a figura misteriosa, temos uma espacialização que foca na dimensão sensorial auditiva: “Os passos ressoam cada vez mais próximos e escuto tosse, pigarro, estranho murmúrio. […] Bem perto da porta, um passo retumbante” (Hoffmann, 2010, p. 7).

Passar da contemplação sonora para a visual demanda coragem da personagem-criança: “Embora sentindo medo, ponho a cabeça de fora, com prudência” (Hoffmann, 2010, p. 7). Ele deseja vê-lo, para saciar a sua curiosidade. A partir do momento que o objeto de terror é visto no espaço, ocorre uma abundância de estímulos visuais. Natanael reconhece no Homem da Areia a figura de Dr. Coppelius, um amigo de seu pai, um visitante costumeiro de sua casa. Vê-lo tem um efeito hipnótico no protagonista: “Eu permanecia estático, como se estivesse enfeitiçado” (Hoffman, 2010, p. 8).

Mais adiante, quando os dois homens começam a fazer os experimentos, outras visões permeiam o espaço do gabinete. Essas visões possuem características do gênero de horror, já que consistem na figura de “rostos humanos, mas sem os olhos, com espantosas cavidades negras e profundas em seu lugar” (Hoffmann, 2010, p. 8). Para relacionarmos esses elementos com o gênero de horror, tomamos por base a definição de que o horror seria “uma sensação mista que provocaria a percepção de que algo está ‘fisicamente errado’ — monstros, anormalidades, eventos sobrenaturais” (França, 2008, p. 5), provocando uma sensação de medo intelectual, espiritual e física.

Nessa história, esses rostos, com cavidades vazias no lugar onde estariam seus olhos, caracterizam um espaço de horror. Ao ver esses rostos, o medo de Natanael fica ainda mais acentuado: “Violento pavor me fez gritar muito alto” (Hoffmann, 2010, p. 7), afirma o protagonista. Dessa forma, o medo de Natanael, transcendendo uma percepção imagética, manifesta-se fisicamente no mesmo, provocando uma reação física que o faz gritar e cair.

Quando Natanael cai no chão, Coppelius protagoniza uma cena de violência contra a criança, a jogando contra a lareira, queimando seus cabelos e agarrando nas mãos “um punhado de brasas ardentes” para jogar em seus olhos. Nesse momento, o gabinete se consolida como um espaço de medo que desampara a personagem-criança. O choque do trauma sofrido por Natanael devido à intensidade do sentimento de medo provoca a perda dos sentidos e, consequentemente, a perda das percepções espaciais: “Tudo se tornou confuso, sombrio” (Hoffmann, 2010, p. 8), diz a personagem antes de narrar o seu desmaio subsequente.

Nas cartas que compõem o início do conto, Natanael revive o medo construído na sua infância com a finalidade de explicá-lo ao seu amigo Lothar, buscando um sentido ao medo sentido na época e ao medo sentido no tempo presente, quando reencontra o suposto Homem da Areia. A recepção não é boa: Clara, irmã de Lothar, é quem lê a carta e desacredita o relato do medo de Natanael. O protagonista diz a Lothar:

Ela me escreveu uma carta recheada de filosofia abstrusa, em que, abreviadamente, me demonstra que Coppelius e Coppola só existem em minha mente, fantasmas de meu próprio eu, e se transformarão em pó desde que eu os reconheça como pó (Hoffmann, 2010, p. 12).

O evento, porém, afetará Natanael durante toda a sua vida, ao mesmo tempo que a sua veracidade é desacreditada por todos ao seu redor. Notamos os efeitos duradouros das suas experiências traumáticas logo na abertura do conto. Ao reconhecer, na vida adulta, a figura de Coppelius no personagem Coppola, Natanael escreve a Lothar: “ressentimentos inquietantes, terríveis, ameaçadores, passam-me pela cabeça como nuvens negras no temporal, impenetráveis aos raios alegres da amizade” (Hoffmann, 2010, p. 6). O medo de Natanael retorna à sua mente e constrói novos espaços do medo que o afetarão durante toda a narrativa.

Considerações finais

Através deste artigo, buscamos perscrutar o papel dos elementos narrativos na construção do medo da personagem-criança em “O Homem da Areia”. Após fazermos a análise de como ocorre a caracterização da personagem antagonista e a espacialização dentro do texto, percebemos o papel dos elementos da obra na construção do medo sentido por Natanael. O medo, portanto, é um tema narrativo constituído por elementos dependentes de uma mobilização completa da obra para que o seu efeito seja perceptível. A percepção desse sentimento no enredo não advém somente da mera descrição do medo sentido pela personagem, mas a partir da união de diversos aspectos textuais.

Com base na análise dos elementos do ambiente de terror, percebeu-se que a composição da personagem antagonista corrobora para a construção do medo sentido pela criança por intermédio de suas ações e de sua aparência. Trata-se mais da descrição das características físicas e cognitivas da personagem antagonista e de sua relação com o imaginário da personagem-criança. A espacialização narrativa corrobora para a construção desse sentimento devido a capacidade de o espaço não ser constituído somente por atributos concretos. O ambiente, portanto, também se relaciona com as dimensões psicológicas das personagens que, ao entrarem em contato com o espaço através de seus sentidos, possuem seus humores afetados.

Este trabalho é importante e original pois permite aos leitores compreender os diversos aspectos narrativos que possivelmente podem construir o medo no imaginário infantil. Tais aspectos são explorados e analisados de forma aprofundada e com o devido embasamento fundamental para uma pesquisa teórica. O estudo desses aspectos desempenha um papel muito importante para alcançar essa compreensão, por elucidar e exemplificar metodologicamente os teóricos estudados e, dessa forma, apresentar uma possibilidade de interpretação de “O Homem da Areia”. A análise de uma maior variedade de textos cujo aspecto abordado seja o sentimento de medo da personagem-criança aumentaria a compreensão de como essa emoção é representada em textos literários. Para uma pesquisa futura, é interessante analisar comparativamente uma pluralidade de obras sobre esse assunto, para que o pesquisador possa analisar se as formas de manifestação narrativa se diferenciam entre uma história e outra.

Em síntese, as considerações finais deste artigo enfatizam o caráter representativo da literatura que reflete, em si, os mais variados aspectos da realidade – desde as poéticas positivas às poéticas negativas. Apesar da obra de Hoffmann ter sido escrita no início do século XIX, notamos a universalidade e a atemporalidade do medo na figura do personagem Natanael. Este representa, narrativamente, a complexidade desse sentimento que constitui a dimensão psicológica do ser humano.

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