Querida Sophia, estou parada diante desta folha em branco há dias. Vou e retorno, pensando em como escolher as palavras certas. O medo de pegar o papel é o medo de não saber se você nos culpa por te deixar para trás, por acreditarmos que você sobreviveria. Você era apenas uma criança, mas era o único jeito de te dar uma chance. Mamãe tinha razão. Quando chegamos à triagem, separaram de nós as crianças e os idosos. Fiquei aliviada porque, pelo menos, você não morreria nas mãos deles.
Amanhã é o último dia que Lucas me deu para entregar esta carta, e meu coração se encheu de uma esperança que eu quase já não tinha mais. Ele dará um jeito de ela chegar até você, pois faz parte de uma organização que tem se empenhado em reencontrar as famílias dos refugiados.
Não saber nada de você agora me envergonha. Não sei como deve ser o seu rosto hoje. Durante todos esses anos, você permaneceu aquela mesma criança de cinco anos na minha memória. Às vezes, me pego tentando recriar seu rosto de mulher, se está parecida com o meu ou com o da mamãe. Meu rosto depois que voltei não é o mesmo daquela época. Agora há sulcos profundos nele, os olhos estão mais fundos, e meus cabelos, ralos, nunca voltaram a crescer com a força de antes. Minha postura não é mais a mesma. Creio que envelheci muito nos poucos anos nos quais permaneci naquele lugar, no inferno.
Você era tão pequena. Não sei o quanto você lembra ou sabia, mas naquela época papai tinha ido na frente lutar. Lembro-me do cheiro do perfume dele, da risada alta, dele dançando na sala e do dia em que foi embora com aquele casaco pesado. Por muito tempo questionei: se ele estivesse em casa naquele dia, se não teria sido diferente, se ele tivesse colocado a família em primeiro lugar e não seus ideais, se estaríamos todas juntas até hoje.
Estava muito frio no dia em que eles chegaram, você lembra? Dividíamos a cama para eu te aquecer. O sussurro da mamãe me acordou:
— Eles estão aqui, Marina. Esconda a Sophia. É o único jeito agora.
Não houve tempo. O som de botas na rua. Eu te arrastei. Aquele buraco atrás do armário. Te empurrei para dentro. Cobri com as tábuas. Rápido. O mais rápido possível. Você acordou assustada. Tive que tapar sua boca. Sussurrei: “Não saia. Por hipótese alguma.” Você não teve a mesma infância que a minha. Você sabia o que aquilo significava. Você se manteve quietinha. Sempre foi uma menina corajosa. Mamãe te beijou, te abraçou, alisou seus cabelos. Sussurrou algo em seus ouvidos, um segredo que até hoje não sei. Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas notei um tremor sutil em suas mãos. Ela desceu para a cozinha. Eu fiquei com você. Fiquei até o limite. Até eles derrubarem a porta.
Eles revistaram a casa toda, quebraram os móveis, rasgaram os estofados, jogaram nossas coisas no chão. Mamãe ficou ali parada, olhando para eles, sem se mexer em momento algum. Perguntaram onde nosso pai estava, chamaram nossa mãe de vagabunda, bateram no seu rosto. Nunca senti tanto medo e raiva como naquele dia. Eu queria matá-los. Queria arrancar seus rostos com minhas unhas. Porém, o medo me dominava. Eu não conseguia mover-me. Todo este tempo eu pensava em você, implorava a Deus para que você não saísse do seu esconderijo, que você não chorasse alto, que eles não derrubassem as poucas tábuas que lhe separavam desta realidade desgraçada.
Nos empurraram para fora. Não nos deram chance de nos despedir da casa que eu tanto amava, do nosso lar. Torci para que não ateassem fogo. Você ainda estava lá dentro. Mas eles não atearam, ficaram repartindo nossas coisas. O que tínhamos valia mais do que nós.
Jogaram-nos dentro de um caminhão. Lá havia outras mulheres. Algumas estavam em desespero e choque, e outras indignadas. Umas gritavam e xingavam, outras pediam socorro.
— Não é possível que entrem na nossa casa e nos tirem de lá como animais! — Ninguém vai fazer alguma coisa?
Gritos, lamúria, balbucio, lágrimas. Elas ainda tinham esperança de que alguém as salvaria. Mamãe não. Ela era realista, sabia o que estava por vir. Ela olhou para mim e falou:
— Se nos separarem, você tem que sobreviver. Por sua irmã, você tem que sobreviver. A partir de agora, pense apenas em sobreviver. A vida como você conheceu acabou.
Ela beijou minhas mãos e entre meus olhos. Foi o último carinho que recebi dela. Não saíam lágrimas de seus olhos. Ela era forte de uma forma que nunca fui. Sei que estava sendo por nós.
Chegamos ao lugar de triagem. Nos empurraram para filas, nas quais registravam de onde estávamos sendo trazidas. Nos davam um número. A partir daquele momento, este seria meu novo nome. Eu não era mais Marina, mas um conjunto de quatro números: 1053. Eu quase esqueci meu nome nos anos em que passei no inferno. Eu quase esqueci quem tinha sido. Na primeira vez que perguntaram meu nome, quando saí de lá, demorei para me recordar que, realmente, tinha um.
Nos levaram para uma sala e tiraram nossa roupa, tivemos que ficar nuas na frente de todas aquelas estranhas. Estava frio, ficamos em pé por horas, sem nenhum pudor, sem podermos sentir vergonha, depois de receber nosso número não éramos mais pessoas, éramos bichos, não tínhamos mais direito de nos sentir envergonhadas do nosso próprio corpo, ele não nos pertencia mais. Umas mulheres entraram com suas roupas militares, eram tão grosseiras quanto os homens que nos olhavam de cima abaixo e zombavam de nossa aparência. Elas tinham navalhas e vieram raspar nossos cabelos, não tinham cuidado no trabalho delas e muitas das primeiras mulheres que tentaram lutar contra isso, levaram bofetadas e cortes na cabeça, até mesmo aquelas que estavam apáticas no transporte, tentaram lutar para que seus cabelos não lhe fossem tirados. Quando chegou a minha vez, eu chorei, de novo, a navalha machucou minha cabeça e senti o sangue escorrer pelo meu rosto. Vi os fios pretos caírem no chão, era só cabelo, eu sabia que ele iria crescer novamente, mas para mim, era o que me ligava à mamãe e a você, à minha casa, à minha vida. Era o último vestígio de Marina. Naquele momento, me senti vulnerável, roubada e desumanizada. Não éramos mais pessoas. Éramos apenas números com cabeças raspadas, prontas para o vagão de carga.
Nos deram uns trapos para vestir, e mandaram seguir para uma estação onde o trem esperava para nos enviar a um lugar desconhecido para mim, naquele idioma estrangeiro, desgraçado, o qual escutaria anos seguidos. Naquela língua maldita, aprendi apenas ordens. Até hoje, se as escuto, meu coração acelera. Palavras do conquistador, do opressor, que me esmagavam. Não eram apenas palavras nos meus ouvidos, mas o chicote me torturando.
Esperamos por horas em pé, no frio, quando resolveram transferir novamente. Iriam nos separar de novo, uma nova triagem. Mamãe mancava um pouco. O frio fez o joelho dela voltar a não funcionar. Um soldado veio em nossa direção, empurrou ela para fora da fila, gritou para um subordinado. Eu não entendia nada. Nossa mãe permaneceu em pé, olhando para mim o tempo todo. Eles mandaram-na sair de perto do nosso grupo. Foi aí que percebi que nunca mais a veria. Eu corri, Sophie, corri e me agarrei às suas pernas. Eu gritei. Eu implorei para me levarem junto com ela. Eles vieram me tirar de cima dela. Não importou enfiar as unhas em sua roupa. Eles me jogaram no chão, e um homem bateu em meu rosto. O susto que levei ao receber aquele golpe, a primeira vez que apanhei de um homem estranho, me acordou novamente para nossa nova realidade. Me senti humilhada, porém eu não queria soltar mamãe. Outro veio e começou a me bater com um porrete. Nesse dia, eu descobri o quanto eu era fraca. Nossa mãe avançou por cima dele e arrancou o porrete de sua mão. Então, o primeiro soldado que a havia tirado da fila, atirou em sua cabeça. Foi tudo tão rápido. Ela caiu aos meus pés. Parecia um pesadelo. Em segundos, a vida de nossa mãe a deixou. Em segundos, meu mundo rompeu. Eu não lutei mais. Deixei que me empurrassem de volta junto aos outros. Meu espírito se partiu naquele momento. Naquele instante, eu soube que nunca mais seria a mesma.
Nos colocaram dentro do trem. Empurraram até a massa humana entrar naqueles vagões. Não havia janelas. Não era um lugar para transportar humanos, mas carga.
Não havia espaço para ser um indivíduo. Éramos uma única massa, uma carne só. Sentia o osso do quadril de uma mulher cravado na minha costela, o hálito quente de outra no meu pescoço. Não podíamos nos mover, apenas nos deformar para caber, nunca estive tão perto de desconhecidos, em casa só havia dormido ao seu lado, porém ali não havia mais espaço pessoal.
O ar não era ar, mas uma pasta espessa de suor frio, vômito e fezes. Cada respiração era um ato de engolir a miséria alheia. O cheiro grudava na garganta, nos cabelos raspados, na minha alma, sinto aquele cheiro até hoje, nada fede mais que o ser humano. O ritmo do trem era um martelo de ferro na escuridão, chuc-chuc, chuc-chuc, a única marcação de tempo. Mas o pior era o silêncio quebrado. Não havia mais gritos de indignação, apenas o gemido baixo, contínuo, choro incessante, não sabia mais se era o meu ou de outro.
Não havia janelas, não havia sol. O tempo se dissolveu. Eram horas? Eram dias? Eu contava as batidas do meu próprio coração para ter certeza de que ainda estava viva, mas até o coração parecia bater no ritmo lento, às vezes eu pedia em oração baixinha para ele parar, parar de bater assim como o de nossa mãe.
Não tínhamos comido nem bebido nada desde que nos tiraram de casa. O medo e o desespero tinham enganado a fome, mas agora ela era insuportável.
Durante a noite, senti a bexiga explodir. Perguntei para a mulher ao lado como deveria fazer, ela me chamou de burra. “Faça como todas as outras.” O calor da vergonha subiu ao meu rosto, mas o frio da necessidade era maior. Eu me encolhi, e ali mesmo, naquele espaço onde não havia mais pudor, eu me aliviei. Senti o líquido quente escorrer pelas minhas pernas e esfriar no chão. Eu já não era mais Marina. Eu era um animal enjaulado, regredindo. E só havia uma voz na minha cabeça para justificar aquilo tudo: Sobreviva.
Todos os dias, quando a força me faltava, quando as feridas dos meus pés não curavam, quando o frio e a fome eram insuportáveis, quando meu espírito era quebrado pela humilhação, eu pensava em você, Sophia. Pensava que você havia encontrado ajuda, que alguém a alimentava e cuidava. Pensava que, se um de nós sobrevivesse, a promessa de mamãe teria valido a pena.
Eu sobrevivi. Penso no olhar dela, sem lágrimas, no nosso pai morto, sem saber de nós, no nosso lar destruído. Não me restam forças para vingança. Não me resta ideal pelo qual lutar.
Por você.
E agora, enquanto fecho esta carta, com a caneta tremendo na mão, a única coisa que me resta é a esperança de que, em algum lugar, você ainda se lembre daquele buraco atrás do armário.
E que, ao ler estas palavras, você saiba que valeu a pena.
Com todo o amor que ainda me resta,
Sua irmã, Marina.