O Homem que corrigia placas

Anna Júlia Barroso Souza

Ninguém sabia seu nome. Na padaria, era “o senhor da caneta”, na banca, “o professor”, no grupo de moradores do bairro, “o maluco da fita adesiva”. Todas essas definições estavam parcialmente corretas.

Ele era um homem de estatura média, ombros ligeiramente curvados pelo tempo, mãos finas e marcadas por veias salientes, olhos castanhos, os quais pareciam observar o mundo, como se ele tivesse nascido para notar os detalhes que todos ignoravam. Seus cabelos, outrora castanhos, já cediam ao grisalho, desalinhados, como se cada fio carregasse um pensamento próprio.

Todas as manhãs, saía com uma pasta gasta, quase tão antiga quanto ele, na qual carregava estes materiais de trabalho: régua, canetas, fitas adesivas transparentes, tesoura, pequenos cadernos e um bloco de anotações. Vestia-se como quem ia resolver algo importante, embora só caminhasse pelas calçadas, olhando vitrines, postes, placas de aviso e anúncios, como se procurasse algo que só ele pudesse perceber.

E encontrava.

“Pão sem glúteo | Promoção do dia!”

Ele parava, franzia a testa e suspirava. Havia algo de inquietante naquele erro, algo que transformava uma padaria em um campo de batalha silencioso. Com cuidado, escrevia em um pedacinho de papel: “Pão sem glúten”. Sua letra era firme, meticulosa, de alguém que outrora ensinara gramática a crianças ou escrevera cartas com caneta-tinteiro.

Não fazia por vaidade. Não esperava aplausos. Corrigia porque acreditava, com a fé quase infantil dos solitários, que os erros de ortografia desestabilizavam o mundo. Que se uma placa dissesse “proibido estasionar”, então não era só o verbo que estava mal conjugado, mas a própria ideia de proibição que vacilava. Para ele, a palavra correta sustentava a realidade. Um mundo sem ortografia era um mundo sem norte. Por isso corrigia, como quem repara as frestas de um dique antes do rompimento.

Enquanto colava o papel, sentia uma pontada de orgulho e uma tristeza silenciosa: cada correção era um gesto de cuidado e um lembrete da distância que existia entre ele e o mundo.

Um dia, já cansado, chegou à porta de uma casa simples. Pregada no portão, uma folha de caderno dizia:

“Nao enche. Aqui mora uma mulher cansada da vida”.

Faltava o til no “não”, a vírgula depois de “enche”, havia uma crase fora do lugar e “vida” vinha com letra minúscula, como se a autora não acreditasse mais nela. A mão dele, sempre tão firme, tremeu, não de velhice, mas de dúvida. Olhou para a placa por longos segundos.

Pela primeira vez em anos, guardou a caneta. Apenas colou, com fita transparente, o papel que se soltava. Um gesto pequeno, quase imperceptível, que dizia: às vezes, a linguagem falha porque o mundo também falha. E há dores as quais nem a gramática conserta.

Seguiu em silêncio. No caderno, escreveu apenas:

“Placa mantida. Erro necessário”.

Em casa, cercado por canetas, régua, lupa, dicionários antigos e pilhas de folhas rabiscadas com palavras erradas e seus respectivos acertos, releu suas anotações. Pequenas vitórias: “trocará concerteza por com certeza”, “corrigido preção para pressão (na farmácia)”, “adicionado acento em pôde (suspirei)”. Tudo parecia menor agora.

Sentado, pensou consigo mesmo: talvez sua missão de corrigir erros fosse também uma fuga. Quantas vezes corrigira “saudade” mal escrita em placas de bares, ignorando a própria? Quantas vezes apagara erros de concordância, sem encarar seus próprios desencontros?

O espelho embaçado refletia um homem preciso, mas só. Um homem que compreendia as regras da língua, mas não sabia mais falar de si.

O espelho embaçado refletia um homem preciso, mas só. Um homem que compreendia as regras da língua, mas não sabia mais falar de si.

“Desculpe os erros.
Estou tentando”.

Como um suspiro entrecortado. Aqueles que saem da boca de quem já se encontra cansado e sem esperanças.

Dobrou o papel, colou na própria porta e apagou a luz. Pela primeira vez em muitos anos, dormiu sem revisar nada.

Na manhã seguinte, não saiu para caminhar. O caderno permanecia fechado, como se soubesse que, por ora, não haveria anotações. O sol tocava a folha colada na porta:

“Desculpe os erros. Estou tentando”.

E talvez fosse isto. Depois de tanto tempo buscando consertar o mundo, uma vírgula por vez, ele começava a entender: nem toda dor precisa ser corrigida. Nem todo erro quer ser apagado. Há palavras que já nascem erradas e refletem realidades tortas, e tentar endireitá-las pode ser uma forma sutil de negar sua verdade.

Aceitar não é desistir. É escutar o que não se pode mudar. É perceber que há silêncios que pedem companhia, não conserto. Que há placas com erros que carregam mais verdade do que qualquer frase gramaticalmente perfeita.

Na linguagem e na vida, às vezes, o mais difícil é justamente não tocar no erro. É olhar para ele com humildade e dizer:

“Eu o vejo.
Você pode ficar”.

E assim, sem corrigir nada, o homem aprendeu outra forma de leitura: aquela que não busca sentido imediato, mas presença; que não apaga, mas acolhe e, talvez, essa tenha sido a regra mais importante dos últimos tempos.